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Série Ficcional H. Miller XX (Final II) – A morte da leitora

27 jun

Por Lia Mirror e Laila Lizmann

 

Preciso meditar na minha vergonha e no desespero em retiro… 
Que querem vocês de mim? Quando
tenho algo a dizer, ponho-o em letra de forma. Quando tenho algo a dar,
dou-o… Seus
cumprimentos humilham-me! Seu chá envenena-me! Nada devo a ninguém. 
Seria responsável somente perante Deus – se Ele existisse!

 (Henry Miller, Trópico de Câncer)

Após o cárcere de semanas, o Deus da Carnificina* abriu a pequena porta de aço; agachei e arrastei-me por uma luz enganadora. Ao subir o olhar deparei-me com a presença de Marina Abramovic sobre pedaços de carnes. Seu vestido branco em segundos foi sendo consumido pelo vermelho que jorrava das mutilações. O odor nauseabundo ascendia e mal conseguia respirar.

Marina Abramovic, Balkan Baroque, 1997 http://marinafilm.com/

Ainda rastejando tentei retornar ao meu habitat carcerário, mas um vento intempestivo fechou o pórtico de minha salvação. Arranhei o aço até sangrarem os dedos e tremi por rever aquela desfigurada pessoa a fitar-me: era o Deus da Carnificina. Num simples gesto ele arrancou de sua garganta aberta um envelope plástico e jogou-o à minha frente como um dono faz a seu cão.

Minha baba escorria tal qual o sã/insano professor de história que desembarcou do cargueiro “Kedma”**.  Apenas mexia o corpo sobre os joelhos e mãos que se encontravam no chão – de fato como um cão. Cheguei a alçar a baba sobre o envelope e receei a ira daquele Deus. Mas, não. Ele foi se afastando lentamente até desaparecer diante da segurança que o animal estava submisso.

O tempo que transcorreu a dúvida de abrir aquele envelope foi imenso e intenso. Marina continuava sobre a carnificina e parecia não me ver. Abri o envelope empurrando a baba do fecho. Havia uma carta e assim que toquei naquele papel percebi que se tratava de Henry Miller.

Era uma carta extensa expondo as razões de seu desaparecimento. À sua leitora mais fiel restara a submissão ao inevitável. Li e reli como Henry Miller ensinou-me em uma cartografia dos desejos. Assim ele percorreu a bel prazer todos os estados inimagináveis do meu corpo e da minha alma.

Ainda sob postura animal abocanhei o papel e fui engolindo em rasgos. Aos poucos fui voltando à minha humanidade.

Caminhei com dificuldade, mas alcancei a falésia. Pensei nas tantas cartas de despedidas de Virginia Woolf, até cair em mim e entender a essência da releitura; Miller fez a minha carta de despedida poupando-me do abismo da letra e eu a engoli, antes li e reli.

Rachel Korman, autorretrato enquanto morta, 2008, 170 x 80 cm.

Notas e Referências:

(*) Deus da Carnificina. Direção Roman Polanski.  Carnage, Polônia/Alemanha/França/Espanha, 2011, 80 min.

(**) KEDMA (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2002, 94 min.

BALKAN Baroque (filme/ performance de Marina Abravovic). Direção Pierre Coulibeuf. França/Holanda: Regards Production, 1998. 61 min.

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

Miller, H. Trópico de Câncer. Trad. Aydano Arruda. Rio de Janeiro: O Globo: São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.

Série Retecituras V: Gontran Guanaes Netto e o seu manifesto pelo Chile

17 ago

Por Gisèle Miranda & Gontran Guanaes Netto


A Série Retecituras nasceu pelo revigoramento da escrita, em seu devir inacabado, também rememorado e retecido. Uma aula de história, arte e política.

O tema desse devir maturado é o Museu de Solidariedade Salvador Allende – que  nascido político teve fases significativas de suas obras.

Antes do golpe militar no Chile, o Museu foi pensado entre 1971-72, por Salvador Allende e contou com participação, entre outros, do crítico de arte brasileiro Mario Pedrosa.

Durante a ditadura militar do Chile, iniciada em 11 de setembro de 1973, as obras doadas tinham o intuito de reafirmamento/reconhecimento da luta externa contra Augusto Pinochet e por solidariedade ao Chile livre. Mesmo sob repressão, o Museu Salvador Allende resistiu.

Quando o Chile resgatou a sua democracia o Museu foi revitalizado por intermédio da Fundação Salvador Allende e com a participação do artista e curador brasileiro Emanoel Araújo.

Para selar a parceria Chile-Brasil, reconhecida desde o início do projeto do Museu, além de Mario PedrosaEmanoel Araújo, também estiveram presentes Gontran Guanaes Netto, Antonio Henrique Amaral, Lygia Clak e inúmeros artistas de outras nacionalidades.

Emanoel Araújo assinou a mostra itinerante de cento e trinta obras selecionadas das duas mil obras do Museu Salvador Allende, denominada: Estéticas, sonhos e Utopias dos Artistas do Mundo pela Liberdade que ocorreu na Galeria de Arte do SESI de São Paulo de março a junho de 2007.

Um ano antes da exposição recebi um e-mail para avaliação da obra doada por Gontran Guanaes Netto, de 1973[1]. Contudo, o mais importante a saber sobre a obra – depois de ter conversado com o artista Gontran Netto foi que a obra designada no e-mail estava `sem título´. E que a obra chama-se La Prière (A Oração)

Gontran Guanaes Netto, La Prière, 1973, acrilico s/ tela 97 x 130 cm.

Gontran Guanaes Netto (1933-2017), La Prière, 1973, acrilico s/ tela 97 x 130 cm.

Dado o nome à obra comparecemos Gontran Netto e eu à abertura da exposição: Estéticas, sonhos e Utopias dos Artistas do Mundo pela Liberdade.

No mais, deixo o manifesto de Gontran Guanaes Netto e as considerações finais:

“Foi com surpresa que recebi o convite para a inauguração do Museu Solidariedade Salvador Allende. Julguei como certo que minha obra não estaria inclusa neste Novo Museu. A surpresa maior foi ver o meu quadro com a designação “obra sem título” – o que tirou o significado irônico da obra: Nixon (Estados Unidos) e Pompidou (França), presidentes de duas potências durante a guerra na República do Vietnã (1959-1975, Vietnã X EUA)

A obra chama-se La Prière (A Oração). Tema escolhido para ironizar a atitude de ambos diante da história; ambos implicados na guerra do Vietnã. Preocupado revirei papéis antigos e a dar voltas com à minha consciência.

Seria válido estar presente em uma exposição no coração do sistema e movido ao preço de um equívoco histórico, e sendo eu testemunha – vivido com ardor e entusiasmo – participando e assinando documentos que contrariam a atual apresentação do Museu?

O golpe do Chile consternou a Europa e, especialmente, a França que naquela época se preocupava com as perspectivas democráticas via eleições. As tendências de denúncia e resistência eram intensas.

Participei da exposição Viva Chile, na galeria Dragão, em Paris; com a venda dos quadros doados angariou-se fundos para retirar pessoas em situação de risco do Chile. Nós, os responsáveis pela iniciativa: Julio Cortázar, Le Parc, Cecília Ayala e eu, além da colaboração de Roberto Matta. No momento do golpe estávamos em Havana e assinamos o Manifesto Setembro 73, contra o golpe de Augusto Pinochet.

E fundamos a Brigada Internacional de Pintores Antifascistas quando recebemos o convite da Bienal de Veneza e apoiamos a greve de doqueiros venezianos que recusaram-se a carregar armamentos para o Chile de Pinochet. 

A Brigada era composta por quinze artistas de diversos países. Além de considerar-me partícipe com outros artistas da criação do Museu contra Apartheid, Museu da Palestina e Museu da Nicarágua. Isso não foi ou é utopia. Agora é história e memória.

Parte da obra coletiva do Grupo Denúncia: Gontran Guanaes Netto, Jose Gamarra, Julio Le Parc e Alejandro Marco a partir de relatos de Frei Tito Alencar, 2m x 2m, óleo s/ tela, início dos anos de 1970/ Exposição Sala Escura da Tortura

Só me resta dizer:

Arafat não pertencia a sua família, senão ao povo palestino.

Salvador Allende pertence ao seu povo e sua morte representou um inequívoco ato de Resistência.

Eu vejo os Museus atuais desodorizados, esterilizados e protegidos de manifestações.

Meu único patrimônio ainda é a minha consciência: Ancien combatant, jamais.”

Referências:

GUANAES NETTO, Gontran. Manifesto. Manuscrito,  Itapecerica da Serra, outubro de 2007.

MOLINA, Camila. Preciosidades que chegam do Chile: Mostra reúne parte do Museu Salvador Allende, formado por doações de artistas do mundo todo. Jornal O Estado de S. Paulo, 19 de março de 2007, Caderno 2, D-3

Filme: 11 de Setembro (11’09”01), 2002 (França). Direção: Youssef Chahine (segmento Egito) , Amos Gitai (segmento Israel) , Alejandro González-Iñárritu (segmento México) , Shohei Imamura (segmento Japão) , Claude Lelouch (segmento França) , Ken Loach (segmento Reino Unido) , Samira Makhmalbaf (segmento Irã) , Mira Nair (segmento Índia), Idrissa Ouedraogo (segmento Burkina-Faso) , Sean Penn (segmento Estados Unidos) , Danis Tanovic (segmento Bósnia-Herzegovina). Onze diretores e onze curtas sobre 11 de Setembro; o inglês Ken Loach assinou o curta sobre o 11 de setembro de 1973 do Chile.

Exposição: “Sala Escura da Tortura”. Coletivo sobre as torturas na América Latina. Museu do Ceará, Fortaleza, 2005. Curadoria Edna Prometheu. Exposta a primeira vez no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1973, seguindo para exposições na Itália, Suíça, Alemanha e Brasil.

Sobre Gontran Guanaes Netto, e imagens avulsas em outros textos do blog Tecituras.

Sobre obras brasileiras do Museu de Solidariedade Salvador Allende: Imprensa Oficial publica livro com obras brasileiras doadas para o Museu da Solidariedade Salvador Allende


[1] Paula Maturana, Coordinadora MSA – Museo de La Solidariedad Salvador Allende, em 26 de abril de 2006  – “Avaluo obra de Gontran Netto perteneciente al Museo de la Solidariedad Salvador Allende”

Série Retecituras IV: Guerras (Parte II)

18 mar

Por Gisèle Miranda

Há pouco o indestrutível sionismo dos EUA admitiu, através de Hillary Clinton, que a culpa ocidental pelo antissemitismo esteja cegando o discernimento no conflito entre israelenses e palestinos. Que outrora as vítimas tornaram-se algozes, ou seja, os palestinos são, como dizia o intelectual Edward Said  “vítimas das vítimas”.

Pena que o palestino Edward Said (falecido em 2003 aos 67 anos) defensor do papel público do intelectual  não tenha ouvido que as “gerações de americanos cresceram pela propaganda de que os árabes são terroristas”,  e ponto!

Portanto, a ‘segregação’ de expropriados palestinos em 1948 (aproximadamente 750 mil), em 1967  transformou-se de fato, em apartheid, e que vigora aos olhos do mundo em 2017.

Marina Abramovic, Balkan Baroque, 1997

O cineasta israelense Amos Gitaï em seus esforços vem se opondo a omissão. Com Kedma, Amos Gitai venceu o prêmio da crítica na 26ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2002. Kedma é o nome do cargueiro que transportou, em 1948, os sobreviventes do Holocausto até a Palestina (alguns dias antes da criação do Estado de Israel).

Cabe destaque do personagem sobrevivente judeu, professor de história que quando pensou ter chegado à terra prometida, se viu cercado por soldados ingleses; ele fugiu em grupo e encontrou outros pequenos grupos e se viu novamente lutando para sobreviver, desta vez contra os ciganos e depois de árabes.

Na estrada de terra sobreviventes cruzam com sobreviventes inimigos e fogem uns dos outros, não mais com a força bruta, mas com a força da palavra. É a trégua obrigatória. Trégua também quando um velho Palestino ‘escreve’ pela palavra gritada e levanta o seu cajado pelo futuro de seus descendentes: a certeza de que seus filhos, seus netos, seus bisnetos jamais deixariam aquela terra que lhes pertence.

Volta a cena o professor de história. Ele está na sujeira, no vazio da fome, fugido dos nazistas alemães, dos ingleses, dos árabes, e na incerteza, ele grita, espuma a baba dos insanos, de quem já não entende nada. Ou seja, Gitaï em ´seu ato de coragem´ e na ´voz dissonante contra o consenso da guerra´.[2]

De lá para cá, Israel tornou-se uma potência nuclear e os palestinos com pedras e cajados, com bombas caseiras acopladas em seus próprios corpos: homens, mulheres, adolescentes, crianças continuam lutando por sua identidade – seu Estado de Direito.

São gerações que compartilhamos hoje, em frequências virtuais. Gerações de famílias, lastros territoriais, culturais; um vínculo globalizado que não pode ser ignorado.

São gerações que rebelam às nossas gerações e que vigoram no exercício do presente e recorrem, rememoram, reescrevem.

Marina Abramovic – Self portrait with skeleton, 2003


[1] Por Leon Cakoff, Jornal da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo/SP, 17/05/2002, n° 93.

(*) Referências complementares (Sobre a bibliografia dessa Série, V. parte I) :

SAID, Edward W. Cultura e política. Tradução Luiz Bernardo Pericás. São Paulo: Boitempo, 2003.

V. Tb. http://ning.it/9J4dqJ, por Luiz Felipe Alencastro.

Filmografia:

BALKAN Baroque (filme/ performance de Marina Abravovic). Direção Pierre Coulibeuf. França/Holanda: Regards Production, 1998. 61 min., color., son., leg. Português. DVD.

DIA DO PERDÃO, O (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2001, min., color., son., leg. português, VHS.

KEDMA (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2002, 94 min., color., son., leg. português, VHS.

Ficção humana

4 ago

Por Gisèle Miranda

 

O monstruoso da ação humana quando moralmente banido do circulo  do ´bem´ muitas vezes acaba recebendo uma tarja ficcional como se não fizesse parte da humanidade. A ´crueldade com os indefesos´ estão a olhos vistos, para quem quer ver. São muitos os caminhos que por vezes tropeçamos e nos fazemos de rogados até que a moral reivindique um lado. Se céu ou inferno, bem ou mal ou, se o dantesco espaço nos oferece o purgatório para o confronto com o ´conforto canalha´; mesmo assim, o melhor é fingir desumanidade – como se fosse viável.

 

Raquel Korman, autorretrato enquanto morta, 2008, 170 x 80 cm. http://www.rachelkorman.com

 

Fingir, tapar os ouvidos, fechar os olhos, ou garantir a sobrevivência têm preços, pesos, medidas e, obviamente, uma humanidade latente. O monstro pode ter uma bela aparência e circular pelos mesmos espaços que o comum. Que tal trocar o canal ou designar uma nova moral?

Essas fugidias linhas têm, em princípio, dois ensaios como mote: Pequena sociologia do fungo, de Pondé (Folha de S. Paulo, 27/7/2009) e Em defesa de Berlusconi, de Calligaris (Folha de S. Paulo, 30/7/2009).

Pondé resolveu discutir a moral, ou melhor, desnudar a ética de um determinado círculo tendo como mote os monstruosos nazistas que assassinaram 6 milhões de judeus. Fui imediatamente jogada em um documentário da década de 1960. Treblinka, na Polônia (a parada da morte). O maquinista da carga humana sabia o que fazia, ou seja, apenas cumpria com seu ofício (típico da ‘banalidade do mal’ de  Hannah Arendt). Mas ele tinha como hábito fazer o gesto de degola – assim que o trem parava na estação, para mostrar à sua carga que ali seria o fim.

O maquinista do documentário fez questão de dizer que não concordava com o que  os nazistas faziam com àquelas pessoas que transportavam. O olhar deste maquinista tinha um quê irônico e infantilizado, principalmente quando gesticulava a degola.

A partir desse olhar passei a perceber os demais olhares dos ´humanos´ desse documentário. Havia um sobrevivente do campo de concentração em Treblinka, que aliás, sobreviveu porque os nazistas gostavam de ouvi-lo cantar. Ele era um menino de 10 anos. No trajeto de barco, ele era obrigado a cantar sem párar todos os dias – durante anos! O menino – já adulto – sorria com os olhos ao contar sobre sua habilidade musical de outrora. Não apenas sorria, como também estagnou o olhar indefeso do menino que foi. Ao retornar ao local de sua infância, ele foi reconhecido pela população da cidade do outro lado do rio, assim que começou a cantar, coisa que nunca mais fez desde que conseguiu sair de Treblinka.

Todos riram ao rememorar as canções ouvidas, a voz singular da criança de anos atrás. Ao sabê-lo portador da famosa voz, todos o abraçaram. E todos não admitiram saber o que acontecia do outro lado da margem do rio.

Em uma outra vertente, Calligaris deve ter chocado muitos pensadores de militância humanitária com o forte título de seu ensaio. Até o próprio Calligaris disse: ” nunca pensei que escreveria um dia em defesa de Berlusconi”. Defender Berlusconi, a moral fascista, e ainda o new look dos neofascistas ? Claro que não! A questão é outra: “Berlusconi faz festinhas com prostitutas, e eu com isso?” Mas o mundo de notícias estacionou por ali, e até a virilidade chegou ao Ibope surpreendente, tornando-se a “virilidade de todos nós”.

Mas, ´se Ahmadinejad´, ex presidente do Irã fosse destaque “em uma boate gay” (e anseio por isso – como Calligaris) não seria o mesmo caso de Berllusconi? Não. Neste caso afetaria diretamente as leis desse país. Então como perceber o hipócrita, o ´conforto canalha´, ou ainda a conivência silenciosa?

Creio que Amos Gitaï, cineasta israelense pode dar sinais sobre essa discussão – via reminiscências em seu Yom Kippur, ou a moral que humaniza o velho palestino em seu filme Kedma (cargueiro de sobreviventes do Holocausto). O pobre e velho palestino levantou seu cajado e perpetuou um território – nunca reconhecido, mas hereditário de homens e mulheres bombas.

Para fechar o filme: a moral, o texto, a imagem insana no grito e na baba humana do historiador, no riso infantilizado à beira do caos: a  tênue linha dos algozes, dos sobreviventes e do ´conforto canalha´.

Meu personagem é o louco de o Trem da Vida (direção Radu Mihaileanu) . As risadas que dei no decorrer do filme foram, no final, murros nos estômagos de todos nós. Rimos como idiotas das tradições, dos ciganos, dos judeus, dos patéticos nazistas e, de nós mesmos. Somos o louco de o Trem da Vida, atrás das cercas de arame farpado em um campo de concentração, rindo na insanidade incorporada.

 

(*) Sobre Ahmadinejad – Ver neste blog o texto ´Faca de dois gumes´

GITAÏ diz: “Mais tarde, você vai entender…”(*)

23 jun

Por Gisèle Miranda

Amos Gitaï

Vindo de duas Seleções oficiais – Berlim e Toronto, 2008 Amos Gitaï trouxe mais um intrigante filme. Não deixou de incomodar, mesmo se tratando de um incômodo pessoal. Ao terminar de assistir o filme fiquei procurando a assinatura de Gitaï – pois não encontrava. Até mesmo em ambiente propício para estar e incomodar (Centro de Cultura Judaica), adaptado à apresentação do israelense de repercussão histórica e política – o filme parecia ser francês demais. Co-produção França/Israel.

Fui com uma blusa branca com manchas pretas, que no caminho vislumbrei como marca da Palestina. Recordei de Kedma na cena em que o velho palestino levantou o seu cajado e gritou que a luta pela terra continuaria com os seus netos, bisnetos. E a cena de O dia do perdão: Yon Kippur – o amor entre as cores das tintas e a morte entre as cores da bandeira.

Ouvi, pós filme comentários imediatistas desde ‘não gostei’ ao ”muito bom filme’. Eu não sabia o que dizer, pois não encontrava  nem mesmo Gitaï em sua direção.

O que eu estava procurando? O pragmático? O politicamente correto? Então insurgiu a cena do olhar feminino, que ouvia, via, sentia e sofria pela dor do protagonista. É Emmanuelle Devos como Françoise, nora de Rivka, a eterna Jeanne Moreau de Truffaut.

O tempo feminino é a assinatura de Gitaï; é a direção impecável. Vale lembrar também da bela Natalie Portman em Free Zone, outro importante filme de Gitaï sobre o olhar feminino.

Emmanuele Devos com Hippolyte Girardot em cena do filme “Mais tarde, você vai entender”

(*) Título do filme de Amos Gitai. França/ Israel, 2008. Drama (89 min.) Com Jeanne Moreau, Hippolyte Girardot, Dominique Blanc, Emmanuelle Devos. A pré estréia nacional foi no Centro de Cultura Judaica (em 23/08 – 20:00) na 2ª Mostra Audiovisual Israelense, 23 a 28 de junho, 2009. www.culturajudaica.org.br (programação gratuita)

V. tb.  Ficção ou Realidade?  –  sobre Amos Gitaï e Fernando Meirelles.

FICÇÃO OU REALIDADE?

20 dez

Por Gisèle Miranda

Havia pensado em escrever sobre ´ensaio sobre a cegueira´de José Saramago numa versão cinematográfica de Fernando Meirelles, lançado no Brasil em setembro de 2008. Belo tema para a cegueira do mundo.

José Saramago (1922-2010)

Faço a sugestão desse filme associado a outros dois filmes.  O primeiro é  a Cidade de Deus, situado na zona oeste da cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, e também dirigido por Meirelles.

Recordo que, logo após o lançamento de Cidade de Deus fiquei indignada com o saber pretensioso e banalizante de pessoas com as quais tinha afinidades intelectuais. Os comentários eram mais ou menos assim: ´Já estive na Cidade de Deus e há trabalhos sociais existentes, ou, ´uma ficção que deseja ser realidade´, ou ainda, ´uma irrealidade de imagens para chocar, apenas chocar´.  Minha ótica na discussão sobre o filme foi minimizada pelo fato de eu ser carioca e estar defendendo minha cidade.

Fernando Meirelles (1955-)

Felizmente o filme alçou voo e saiu do meu bem querer carioca, das boas rodas paulistanas, e dos saberes distorcidos. A crueza do tema, a direção impecável de Meirelles, as atuações – ficcionais e reais – dos moradores do inferno da Cidade de Deus – fizeram desse longa um clamor,  aplaudido de pé, também por muitos brasileiros. E melhor, propiciou um outro longa, Jardineiro Fiel – uma co-produção com atores estrangeiros e filmagens em outras terras.

Quem viu sabe que a África (continente de uma das locações do filme) é também o Brasil. Sim, é uma história amarga, dolorosa e hoje, parte indissolúvel do povo que somos. Mas, o continente Africano, meio brasileiro e meio mundo, é muito maior que o inferno da Cidade de Deus.

Entre uma coisa e outra, o Brasil, último país a abolir a escravidão, pediu ´perdão´ a Africa pelos séculos de matança e subjugação; concomitantemente, aboliu a dívida financeira com alguns países desse continente. Também injetou medicamentos contra a AIDS, pois a Africa está sendo carcomida pela doença, pelo esquecimento, guerras, submissão; e como Meirelles também resgatou, um continente/contingente de pessoas sendo utilizadas em experiências – como cobaias de laboratórios estrangeiros.

O outro diretor é Amos Gitaï em seu Free Zone. O mote deste filme é ficcional; é o encontro de três mulheres: uma israelense, uma palestina e a outra norte-americana, na zona franca da Jordânia. Nele, Gitaï volta a abordar as relações entre israelenses e palestinos em imagens diferentes das que vemos no noticiário.

Amos Gitaï (1950-)

A riqueza decorre ao lançar-se na estrada: “Gitaï conseguiu resolver o desafio proposto de início: filmar politicamente um geografia humana.

Entre Gitaï e Meirelles há muito em comum. Há comprometimento. O ´ensaio sobre a cegueira´ vem reforçar esses laços e a inquietar o que está sob nossos olhos ou ‘sobre a  (nossa) cegueira’.

Referências:

Free Zone. Direção Amos Gitaï. Co-produção Bélgica/Israel, 2005. As três atizes são: Natalie Portman, Hana Laszlo e Hiam Abbass.

The constant gardener. Direção Fernando Meirelles. Co-produção EUA/Inglaterra, 2005. A atriz Rachel Weisz, ganhou o Globo de Ouro, de melhor atriz coadjuvante neste filme.

CRUZ, Leonardo. SP: Folha de S. Paulo, 20 jan. 2006. Cad. Ilustrada, E-6.

CARLOS, Cassio Starling. SP: Folha de S. Paulo, 20 jan. Cad. Ilustrada, E-6.

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