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Série Ficcional H. Miller XXI, parte II: “a traição das imagens”

7 abr

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

 Às vezes acho que nasci com fome. E essa fome está associada a caminhadas, à vagabundagem, à procura, ao incessante e febril perambular de um lado a outro.

(MILLER, 2003, p. 27)

 

Antes de Turner, Miller dissertou sobre Bosch: – As laranjas da época de ouro de Bosch restabelecem a alma: a atmosfera onde ele as suspendeu é eterna, é a do espírito tornado real (Miller, Big Sur: 43). Objetou por alguns segundos, e tão logo referendou: o desejo de liberdade é um desejo de um condenado! (Miller, 2003, 114)

Joguei a toalha, mas ele a interceptou no ar e continuou: – as laranjas de Bosch ou as de Van Eyke, as maçãs ou os cachimbos de Magritte? Nada acontece pelo conforto, mas pelo boicote a estabilidade que aprisiona o pensamento. O que a trouxe aqui? Falar das frutas ou do fálico cachimbo? A liberdade, a dor, as cicatrizes? Ou a solidão de Goya em sua série Gigantes, Colossos? Seu assombro por minhas palavras permeia os incorrigíveis deleites do Romantismo de Madame Bovary, Anna Karenina e Adèle Hugo.  Recordo a bela Fanny Ardant ao falar de A mulher do Lado: – “Eu me lembro que Truffaut dizia que essa era uma história atual… pode-se morrer de amor mesmo hoje em dia”.

René MAGRITTE (1898-1967), A traição das imagens (Isto não é um Cachimbo), 1929. (a primeira versão é de 1926)

 

 

– Pretensioso Milller! Não falei de Tolstoi, Flaubert, Magritte, Bosch, Rimbaud, Goya, Truffaut ou Foucault. São todas elucubrações suas! Tu desejas que todos esses pensamentos estejam em mim. Morrerei de amor em seus braços deleitando-me em gozo. Gozo por todos os olhares que não quis olhar, por todas as bocas e sexos que não desejei pela ausência de afinidades eletivas do bendito Goethe.
– Minha doce Lia: “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” (Foucault, 1990)

 

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

FRANCO JR. COCANHA – a história de um país imaginário. Prefácio Jacques Le Goff. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

FOUCAULT, Michel. O pensamento do exterior. Trad. Nurimar Falci. São Paulo: Princípio, 1990.

FOUCAULT, M. Isto não é um cachimbo. Tradução Jorge Coli. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 2ª Edição. (Neste livro Foucault trabalhou com a primeira versão de 1926)

MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006

MILLER, Henry. A hora dos assassinos. São Paulo: Francis, 2003.

ARDANT sobre TRUFFAUT:  Fanny Ardant. (atriz foi casada com o François Truffaut)

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MEMÓRIA HISTÓRICA

23 jul

Por Gisèle Miranda

(À memória de Adèle Hugo)

Ao ler o ensaio de Luiz Felipe Pondé sobre a alma Romântica (Folha de S. Paulo, 20 julho 2009) fui acometida por uma memória autobiográfica que resultou, naquele momento, em uma dor tendo como mote um fracasso profissional. Mas, foi justamente nesse abismo que conheci e me apaixonei por uma imagem de Goya, O Gigante, c. 1808.

Dessa imagem fiz um texto, fruto de estudos sobre o Romântismo e da incrível trajetória de Goya. E, como se não bastasse, criei uma mesa-livro, ou seja, um objeto inanimado, a partir da alma romântica que me assolou.(*) Ou ainda, o exílio do qual, inevitavelmente, deu-se.

 

Bonecas: dama das Camélias, Jane Eyre, madame Bovary e Anna Karénina. Foto GM, 2009

 

Obviamente fui ridicularizada pelo sentimento que me fazia escrever, chorar e amar todos os detalhes de uma obra. Daquele tempo em diante fui sobrevivendo. Será que minha natureza “é não ter futuro”?

Se eu pudesse escolher, viveria e morreria como Anna Karénina ou madame Bovary. Ou, quiçá suplantaria o preconceito como Jane Eyre. Ou seria Eleonora Duse interpretando a dama das Camélias? Queria ser todas elas em cada palavra de seus autores.

Então corro do dia solar e embeveço-me no silêncio da madrugada e vejo as marcas de uma temporalidade que não é a minha.

Essas lembranças históricas são alimentadas e ampliadas pelas leituras de imagens e textos que criam uma “memória histórica projetada no passado reinventado” (Halbwachs, 1950) e vivido numa memória coletiva ficcional.

De fato, o desafio é conviver com o turbilhão de sensações que vão deixando muitas marcas e são invisíveis para o nosso entorno – “da estupidez burocrática” ao “riso do amor”. Ou, visíveis à intolerância.

Pondé terminou seu ensaio pedindo segredo sobre a alma romântica que o fez melhor. Esse segredo gerou o meu segredo, que não está “entre as minhas mãos”, mas em um lugar que pode parar de bater, caso não encontre eco.

(*) O texto O Gigante de Goya encontra-se neste blog, assim como outros textos relacionados ao Romântismo.

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