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Série Releituras & Breves Comentários I – História e Memória através de Maurice Halbwachs & Marc Bloch

8 set

Por Gisèle Miranda

 

“os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais”

(Provérbio Árabe, In: Apologia da História ou o ofício do Historiador, 2001)

Maurice Halbwachs faz parte dos seis milhões de judeus que os nazistas assassinaram. Ele estava com 68 anos quando às vésperas de 1945, no final da Segunda Guerra Mundial tiraram-lhe o tempo de quiçá novos escritos. Sociólogo admirado em diversas áreas deixou-nos a obra Memória Coletiva publicada postumamente em 1950 e, uma segunda edição no auge do enigmático ano de 1968, Francês.

Marc Bloch era historiador e deixou-nos Apologia da História ou o ofício do Historiador e, A Estranha Derrota, manuscritos durante a sua prisão; logo depois foi assassinado por um pelotão de fuzilamentos da Gestapo. Bloch e muitos outros foram admiradores de Halbwachs, tinham-no como referência, assim como admiravam e remetiam comumente Émile Durkheim.

O que move esse encontro de dois pensadores, hoje, além da memória histórica e a historicidade pulsante é, primeiramente, o fato incontestável dos assassinatos de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Em 2018, Ano Novo Judaico de 5.778 anos, século 21,  a lembrança e respeito à memória e história dos mortos inocentes, vítimas da intolerância, do preconceito.

O ex presidente do Irã (de 2005 a 2013) Mahmoud Ahmadinejad declarou à revelia na Universidade do Teerã, a inexistência deste fato histórico de horror. Fato que também nos remete a temática de culturas em conflito entre o estado de Israel e o não estado da Palestina. Esse conflito surgido em 1948 esbarra em muitos valores, em que as vítimas do passado tornaram-se algozes no presente[1].Conflitos de caráter econômico acionaram uma máquina de política ou cultura que tem que ser tratada com particularidades e subjetividades, diferentemente das improbidades do antissemita, homofóbico e ex presidente do Irã.

 

A Memória Coletiva de Halbwachs

Recordo Halbwachs através de leituras e aulas da prof. Márcia Mansur D’Aléssio, em 1992. Do autor à impossibilidade de ´conceber o problema da evocação e da localização das lembranças se não tomarmos para ponto de aplicação os quadros sociais reais que servem de pontos de referência nesta reconstrução que chamamos memória´ (DUVIGNAUD, In: Memória Coletiva, p. 9).

A memória dessas discussões intercalou a presentificação social ao passado reinventado, nos dando o eterno retorno da memória histórica. Se adentrarmos a memória individual, pessoal, nos tornamos um ponto de vista sobre a memória coletiva e, por ora, vindo a se confundir com a memória coletiva, que por sua vez, não se confunde com a memória individual, pois a consciência social vive do movimento ao mesmo tempo que cria a recomposição do passado.

A renovação do tempo se faz neste momento, na escrita que o pensamento maturado do ofício (implicou) inicialmente na temporalidade em memória das aulas de D´Aléssio sobre Halbwachs, e que por conseguinte, sobreposto a livros, desenhos, poesias, performances, aulas, vivências, constroem as memórias dos tempos coletivos e individuais  que vão ao encontro da história. Saber conduzir o detalhamento do ofício requer, entre outras coisas, a reflexão sobre as mentalidades[2], que se encontram às vésperas das memórias e, consequentemente, podem formar elementos à história.

Mesmo que a morte intervenha, as lembranças são simuladoras, pois processam na renovação, na reconstrução, na releitura e, isso nada mais é que a memória em atividade. E para que as memórias não se percam, a história finca, estaca por estaca. As estacas somam, sem subordinar, além de serem descontínuas diante e durante a pesquisa histórica.

 

A Apologia da História de Marc Bloch

Marc Bloch tem um vigor necessário para todo historiador, pois discute o ofício em suas minúcias, faz apologia da história; ele escreveu sobre esse tema enquanto lutava pela Resistência Francesa (Lion) e, enquanto era torturado pela Gestapo.

Fundou a Escola e Revista dos Annales ou a Nova História em parcerias com outros historiadores em 1929; Como medievalista, nunca se absteve de participar de seu tempo, por isso deixou os manuscritos de seu ofício.

Rachel Korman – Benedito, 1999 photograph 140 X 100 cm.

O medievalista Jacques Le Goff ressaltou o lado apocalíptico de Bloch – inerente a geração vivida, acolhida em memória coletiva, e de valor histórico. Para ser  Marc Bloch  foi preciso ser carnívoro, andarilho… portanto, o historiador que escreveu Apologia da História (inacabado) reverteu-se em um ato completo de história (In: Apologia da história, p. 34); livro este, publicado postumamente por seu parceiro dos Annales, e também historiador, Lucien Febvre, em 1949.

Bloch foi daqueles a quem se diz aos homens pasmos do presente, o ´porque ´de serem ignorantes de seu passado. Perceber o recente, o presente como pensamento crítico via passado.

O conhecimento é incessante, transformador, e por isso rasga na escrita, abre novas trincheiras, arranca as entranhas com as próprias mãos. A pesquisa histórica reúne pedaços, lastros, escombros; consegue ler, ver, reler, criticar, analisar, avaliar para colocar na escrita.

Rachel Korman – Serena, 1999 photograph 140 X100 cm.

 

Bibliografia

BLOCH, Marc L. B., 1886-1944. Apologia da história ou o ofício do historiador. Prefácio de Jacques Le Goff; apresentação à edição brasileira de Lilia Moritz Schwarcz. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

HALBWACHS, Maurice, 1877-1945. A memória coletiva. Prefácio de Jean Duvignaud; Tradução de Laurant León Schaffter. São Paulo: Vértice & Editora Revista dos Tribunais, 1990.


[1]Sugestão bibliográfica:

SAID, Edward W. Cultura e Política. Prefácio de Emir Sader; Tradução de Luiz B. Pericás. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.

Ver tb. sobre Amos Gitaï neste blog GITAÏ diz: “Mais tarde, você vai entender…”; FICÇÃO OU REALIDADE?

Ver tb. sobre o ex  presidente do Irã  de 2005 a 2013 Mahmoud Ahmadinejad“Faca de dois gumes”

[2] Sobre o termo Mentalidades Série Releituras & Breves Comentários II – ‘História e Memória’ por Jacques Le Goff e Déa Ribeiro Fenelon

Série Releituras & Breves Comentários VII: vestígios (e vertigens) à beira de uma falésia – Roger Chartier

19 jul

por Gisèle Miranda

 

Roger Chartier é um velho amigo do Brasil.1]. Ele é a quarta geração d´ École des Annales, da história econômica e social dos anos de 1930 à antropologia histórica dos anos de 1970. Diz-se: École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, em verdade, École des Annales. É sempre uma tentação para a Ego-história! E por que não?[2] 

Vestígios  (e suas vertigens) à beira da falésia: vontade de se jogar ou medo de morrer? Sim, é a constatação de crise, e de incertezas. Mas há o incentivo ao retorno dos arquivos. Assim construí parte da obra do culturalista Paschoal Carlos Magno  e arranquei o silêncio dos amontoados[3]. As notas tornaram-se textos da diferença, da singularidade do discurso histórico ou a projeção no passado de desejos do tempo presente (Hobsbawm, In: À Beira da falésia, p. 15)

Chartier encontrou inspiração nos pensamentos da ruptura e da diferença (hermenêutica e fenomenologia de Paul Ricoeur) e exerce seu ofício sustentando três noções: discurso, prática e representação – através das obras de Michel Foucault, Michel de Certeau e de Louis Marin, além de Ricouer: a tradição historiográfica à qual pertenço – a da história sócio-cultural à maneira dos Annales.( Chartier, 2002, p. 21)

Chartier também dialogou com Hobsbawm no campo de interesse. Chartier pela vertente da polivalente leitura eletrônica, e obviamente da obra como obra e sua relação com o objeto escrito[4]. A obra como obra prevalece: o livro ou a forma livresca.

Hobsbawm relacionou o campo de interesse ao paradigma de esquerda e direita na política. A geração eletrônica e a fragmentação que geram temáticas. E para um bom entendedor cabe manter à vista essa diferença porque não são apenas riscos de hegemonia de línguas, como apontou Chartier. Mas um sutil triunfo na comunicação eletrônica (do inglês).

Sempre há riscos, quando há os meios que sob o poder que os mantêm, antecipam algo que como pensadores, historiadores, não vemos, ou seja: a morte dos livros, da indiferença sobre a direita e a esquerda, a destruição de outras linguas, ou ausência da obra. Umberto Eco interpôs sobre nossas preocupações e sobre a morte anunciada da obra, do livro, da forma livresca e da direita e esquerda.

Na Antiguidade quando surgiram os livros eles eram vistos como um sucedâneo da palavra oral (Borges, El Libro, 1978). Do palco à página Chartier (2002) resgatou a intrínseca relação da escrita e a oralidade através do teatro, da transmissão oral[5] dos textos e a criação literária – obra. A Modernidade e mesmo antes dela, a leitura silenciosa como um sucedâneo do livro. (Chartier, 2001)

Jorge Luis Borges por Eduardo Comeña, s/d: “Cego, Jorge Luis Borges aperta os olhos para melhor escutar as palavras de um leitor que não se vê” (In: Manguel, 1997, p. 17)

E hoje? Caos textual? Digamos, confusão: ´à beira da falésia – a história entre certezas e inquietude.’ E, para todos que se aproximam à beira da falésia, há um amparador: o trabalho de um pensamento que se situou ´no ponto de cruzamento de uma arqueologia das problematizações e de uma genealogia das práticas.´ (Foucault, 1984 p. 19. In: Chartier, 2002, p. 150)

E por fim, `O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?’ – O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, diz ECO:  http://bit.ly/csWpWG


Referências:

BARROS, José D’Assunção. A História Cultura e a Contribuição de Roger Chartier. Diálogos, UEM, v. 9. n°1, 2005

CHARTIER, Roger. À beira da falésia:a história entre as incertezas e inquietude. Tradução Patríca Chittoni Ramos. Porto Alegre: Editora Universidade/UFRGS, 2002.

CHARTIER, Roger. Do palco à página: publicar teatro e ler romances na época moderna – séculos XVI-XVIII. Tradução Bruno Feitler. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.

CHARTIER, Roger. Cultura Escrita, literatura e história: conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre Anaya, Jésus Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. Tradução Ernani Rosa. Porto Alegre: ARTMED Editora, 2001.

FOUCAULT, Michel. Histoire de la Sexualité t. II, L´Usage des plaisirs, Paris, Gallimard, 1984, p. 19.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) O novo século: entrevista a Antonio Polito. Tradução Claudio Marcondes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

HOBSBAWM, E.; Ranger T. (Org.) The Invention of Tradition. Cambridge, 1983.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997

Programa Roda Viva – TV Cultura: Roger Chartier. Setembro, 2001

VAINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história: micro-história. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

ZUMTHOR, Paul. A Letra e voz: a “literatura” medieval. Tradução Amálio Pinheiro & Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Tradução Jerusa Pires Ferreira; Maria Lúcia Diniz Pochat; Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.


[1]São Paulo: USP, departamento de História e Bienal do Livro, Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil. Maio, 2001.

[2] Sobre Ego-História Série Releituras & Breves Comentários IV – ‘Conversas com historiadores brasileiros’ e ‘Usos & abusos da história oral’

[3] MIRANDA, Gisele Ou MADEIRA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000). Versão para o blog Tecituras (http://bit.ly/b5mkJ1)

[4] Entrevista com o historiador Roger Chartier no programa Roda Viva, da TV Cultura em 3/9/2001.

[5] Sobre transmissão oral:   Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème

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