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Série: O Barroco no Brasil e a vertente européia, parte II

13 jun

por Gisèle Miranda

 

A primeira igreja construída no Brasil foi de São Cosme e Damião, em Igarassu, Pernambuco, em 1535, mas ao longo do tempo foi totalmente modificada. Nessa época a técnica era a Taipa de Pilão, muito utilizada pelos portugueses e espanhóis. No Brasil utilizou-se bastante barro vermelho para a taipa, depois as argamassas de cal e a areia; outro material utilizado era a pedra, muito difundida nas construções de fortificações e nas igrejas Barrocas das Minas Gerais.

A igreja da Sé em Olinda foi construída em 1537 em taipa ao estilo chão Maneirista, mas alterada e ampliada diversas vezes em alvenaria até ser praticamente destruída em um incêndio em 1631, provocado pelo Holandeses durante seu domínio a essa região do Brasil. Depois do incêndio, novamente a igreja foi reconstruída, mas descaracterizada do estilo original, tornando-se totalmente Barroca.

O Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro também é um outro exemplo da mescla da arquitetura Maneirista ao Barroco. Foi desenhada por um militar em 1617, mas somente construída em 1633, tendo o projeto ampliado, alguns anos depois, pelo frei beneditino português Bernardo de São Bento Correia e Souza (c. 1624 -?).  Foram acrescidas mais três naves[1] à construção, mas ainda hoje é possível visualizar a fachada Maneirista. Apesar que, desde sua construção, o interior do Mosteiro sempre foi decorado ao estilo Barroco ao Rococó. O grande artista português do interior do mosteiro foi o frei beneditino Domingos da Conceição (Matosinhos, Portugal, c. 1643 – Rio de Janeiro, RJ, 1718).[2]

 

 

As igrejas das Minas Gerais, construídas no século 18, durante o ciclo do ouro, são consideradas fachadas Maneiristas pela simplicidade, embora os interiores sejam sem dúvida alguma, no estilo Barroco. Os exemplos mais veementes são a catedral de Vila Mariana e a matriz de Sabará, embora suas construções sejam acrescidas de outras torres e naves. Mas mantêm a simplicidade embrionária da marca do Barroco Mineiro.

Afora as fachadas, todo o interior das igrejas é de grande exuberância. A talha dourada marca todo o processo escultórico do Barroco no Brasil, seja ele realizado por europeus ou na singularidade Mineira dos grandes mestres.

A estatuária sacra do século 16 no Brasil, aos poucos foi ganhando dramaticidade e contornos mais expressivos quando adentrou o século 17. Poucas esculturas têm autorias, visto que na grande maioria foi realizado por anônimos. Diz-se anônimos aos já nascidos no Brasil, que como dito anteriormente, não eram considerados artistas, no máximo chegaram a mestres no século 18.

 

As esculturas iniciais eram realizadas por artistas religiosos, lembrando que o ofício artista somente teve reconhecimento e valia a partir do Quattrocento italiano, ou seja, na primeira fase do Renascimento. Portanto, os missionários artistas são os primeiros escultores no Brasil.

Cabe destacar dois grandes nomes de artistas missionários e suas obras: O frei beneditino Agostinho da Piedade (Alcobaça, Portugal, c. 1580 – Salvador, Bahia, 1661) que entre suas esculturas, destaca-se a Nossa Senhora de Montserrat, feita de barro cozido policromado, que está no Museu de Arte Sacra da Bahia. E, o frei também beneditino Agostinho de Jesus (Rio de Janeiro, c. 1600 – idem 1661) com a Nossa Senhora da Purificação, feito de barro cozido policromado, que estava na igreja matriz de Santana de Parnaíba/ SP e, atualmente encontra-se no Museu de Arte Sacra de São Paulo/SP.

 

Mas, em geral, nas oficinas dos missionários havia escravos negros e indígenas como ajudantes. E o processo de miscigenação entre europeus acabou criando uma leva abastarda que logo se tornariam representantes brasileiros – alguns escravos e outros libertos.

Nos estudos de Arte Sacra Colonial (Org. Tirapelli, 2005) há registros de inúmeras interferências indígenas e da natureza tropical. Plumagens escultóricas próximas a diversidade da fauna brasileira. Os exemplos dessa mescla escultórica são:  São Francisco das Chagas, da Capela de Nossa Senhora dos Aflitos (século 18), que é um trabalho narrativo ingênuo feito de barro cozido policromado com asas de madeira e que atualmente encontra-se no Museu de Arte Sacra de São Paulo/SP; e a figuração simbólica da aparição do divino na anunciação de Cristo no dia de Petencostes (século 17), de madeira esculpida e policromada, que está na igreja de Araçariguama, SP. Ambas esculturas são de anônimos.

Mesmo sob controle das ordens religiosas, por vezes era incontrolável esse traço peculiar. Conforme a passagem para os séculos 17 e 18 os escultores anônimos vão produzindo um Barroco genuíno.

 

Notas:

[1] Nave: origem grega “naos”; dizer-se ala central da igreja ou catedral.

[2] Vale destacar que o Mosteiro de São Bento em Salvador, Bahia, ao estilo Maneirista de 1582, criado pelos monges beneditinos e depois destruído em 1624 pelos holandeses, foi reconstruído em 1624 pelo frei espanhol beneditino Macário de São João (Reino de Castela, Espanha, c.162? – Salvador, Bahia, 1676). Anterior ao Mosteiro, no mesmo lugar houve uma pequena igreja construída pelos jesuítas)

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BURY, John. Arquitetura e arte no Brasil Colonial. Organização Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira. Brasília, DF: IPHAN / Monumento, 2006.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

KIEFFER, Anna Maria (Org). Teatro do descobrimento (CD). São Paulo: Estúdio Cia. do Gato, 1999.

MICHELANGELO Buonarroti (1475-1564). Org. Maria Berbara. Campinas, SP: Editora da UNICAMP; São Paulo: Editora da UNIFESP, 2009.

MACHADO, Lourival. Barroco Mineiro. São Paulo: Perspectiva, 2003.

PROENÇA, Graça. História da arte. São Paulo: Ática, 2007.

TIRAPELI, Percival (Org.) ARTE Sacra Colonial: Barroco Memória Viva. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo; Editora UNESP, 2005.

TIRAPELI, Percival. Igrejas Barrocas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008.

 

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Série Retorno V: O Realismo de Courbet

15 nov

por Gisèle Miranda

 

Jean Désiré Gustav COURBET (1819-1877) veio de uma família rural bem estabelecida. Iniciou Direito como um filho comportado mas abandonou o sonho do pai para estudar desenho de maneira independente e condizente ao seu Realismo – da construção do discurso e da prática.

Em suas andanças pelo Museu do Louvre ficou fascinado pelo Barroco Laico de Frans  Hals (1580-1666), Rembrandt (1606-1669), Rubens (1577-1640), entre outros. E se curvou ao retratista do Barroco Religioso espanhol, Diego Velazquez (1599-1669).

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Empenhado como a estética Realista e a causa popular, Courbet foi descaracterizando-se do rapaz bem trajado do autorretrato com cachorro preto (1841) ao andarilho em Bonjour Monsieur Courbet (1854).

Nesse processo visível de embrutecimento físico e de sensibilidade com os menos favorecidos, Courbet manteve boas relações de Daumier (1808-1879), Proudhon (1809-1865), Champfleury (1821-1889), Baudelaire (1821-1867), Mallarmé (1842-1898).

Mesmo com radicalismo em prol dos trabalhadores, Courbet manteve laços com pensadores distantes da vertente popular, tal como Baudelaire – que na pintura O atelier do pintor de 1855, encontra-se do lado direito da tela lendo ou flanando.

Baudelaire, que pertencia à geração de Courbet e por ele foi pintado duas vezes ainda estava ligado à visão aristocrática e desprezava o realismo; fala frequentemente da diferença entre Delacroix que era uma mente soberana e universal… (Schapiro, 1996, 118)

Courbet se diferenciou do Realismo de Delacroix (1789-1863) por volta de 1848 ao posicionar-se a favor da Comuna Francesa e por assinar ilustrações populares. Delacroix ilustrou Shakespeare e Goethe evitando panfletagem e mantendo-se revolucionário em 1830, mas contra revolucionário em 1848, muito embora a obra A liberdade Guiando o povo, seja de fato o maior ícone da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Com Daumier, Courbet assumiu uma parceria artística e política através dos desenhos e de pinturas de populares, charges em jornais não consideradas como arte e pejorativamente chamada de  primitiva e considerada vulgar.

A pintura de Courbet foi anticlerical e tinha uma técnica de trabalho peculiar a Caravaggio (1571-1610) – o uso da faca na pintura – embora o mote não tivesse a duplicidade aliada à segurança ou intempéries. Também fazia uso do polegar e irritava os críticos da metade do século 19 com o grande tamanho de sua assinatura, o tamanho e a energia de suas telas…considerados provocação para os críticos conservadores. (Schapiro, 1996, 124-125)

Courbet sempre acreditou na força da pintura e conseguiu romper com a dramaticidade vazia do objeto; para ele o artista não precisava gostar da obra. Procurou na realidade de seu tempo as contradições, mas sem a idealização estética.

 

Referências:

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Série Emmanuel Nery VII: Velhice

9 jun

Por Gisèle Miranda


Historicizar a imagem em sua potência múltipla possibilita frutos pelo estímulo à memória e pelo promulgar do diálogo que conduz a instauração da documentação, da tradição, do comemorativo, do monumento a preservação e quiçá, a imortalidade.

Possibilita também que em cada tempo haja um olhar diferenciado, questionador que dialogue por entre temáticas, formas e cores. Cada obra, filha de seu tempo, mesmo que esse tempo pareça inconcebível, inquietante, irrepreensível. Não é a toa que arte tem o hábito de instigar posicionamentos.

Em uma sociedade de injustiças, de descaso e despreparo para absorver o melhor que a maturidade nos traz,  as instituições e núcleos familiares ainda têm um amorfo olhar sobre o envelhecimento, e no que tange às condições de vida ou aos direitos elementares da cidadania esta população é credora de uma incomensurável dívida social. (Montenegro, 1992, p. 14)

Os estímulos a construção são maiores do que os estímulos a preservação e por conta da falta de políticas públicas, entre inúmeras ações institucionais aos pequenos núcleos familiares, a velhice para muitos ainda é sinônimo de inutilidade. Ou seja, o tempo transcorrido, o saber adquirido, as experiências tornam-se memórias ao lixo, do lixo dos sem memórias.

Nos percalços da velhice, aquém da questão de saúde, estão perdidos os sinais de reconhecimento, de pertencimento – a praça, o coreto, as linhas de trens, as fachadas, as ruas. A memória é uma noção que legitima como cultura vivida e na qual cada experiência passada é uma virtualidade aberta. Estendendo a dimensão da memória, estende-se proporcionalmente a da imaginação. (Argan, 1992, p. 67-68)

 

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003), Velhice, 1986, óleo s/tela 60 X 50 cm

 

A tríade que aparece representada por idosos na obra de Emmanuel Nery – duas mulheres e um homem marcam a sexualidade existente sim, muito embora ao primeiro olhar social, vislumbra-se a morbidez dos corpos quase derretidos pelo tempo.

O idoso não é assexuado, pulsa-lhe vida, portanto, desejos. E, por outro ângulo, o pintor não deve educar somente os olhos, é alma sobretudo tornar capaz de pesar. (Leclaire, 1996, p. 65)

A cor é uma preponderante nos trabalhos de Emmanuel Nery, e dentre as que estão na imagem Velhice, cabe o destaque da cor branca, que age em nossa alma como silêncio absoluto. Esse silêncio que não é morto, ele transborda de possibilidades vivas. (Kandinsky, 1990, p. 89)

Apesar da cor branca praticamente inexistir em seus trabalhos, o pouco inserido em seus quadros referenda o tempo – o tempo passado. Vale o destaque de parte do poema Branco de Emmanuel Nery:

Luzes brancas,

Que não iluminam

– Só clareiam.

… Branco estéril.

…Branco da máxima produção.

Sem trabalho

Ou lazer.

… Branco asfixiante.

…Nos brancos

Vazando as últimas cores.

(Nery, 1987, p. 86)

Referências:

ARGAN, G. C. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

KANDINSKY, N. Do espiritual na arte. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

LECLAIRE, S. Psicanalisar. São Paulo: Perspectiva, 1986. (Coleção Debates, 126)

MONTENEGRO, A. T. História oral e memória: a cultura popular revisitada. São Paulo: Contexto, 1992. (Caminhos da História)

NERY, E. Forças Contrastantes. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

ARTE CONCEITUAL, AR e AR!

2 jun

Por Gisèle Miranda

 

 

As artes contemporâneas têm causado estranhamentos não só para os espectadores ou partícipes das obras. Além da prevenção do gosto ou não gosto, o estranhamento precisa ser pensado.

Se a arte está hoje além do pincel ou da argila, significa que ela está na memória e no pensamento, assim proclamou Giulio Carlo Argan.

Por conta disso, creio ser importante expor uma escrita que discuta um pouco sobre a Arte Conceitual. E, podermos pensar como a arte contemporânea pode ser histórica ou como expor num museu o espírito pós moderno.

É necessário ter claro que a Arte Conceitual vive para questionar os conceitos artísticos. Por isso, em determinado momento houve a discussão dos paradigmas da inclusão-exclusão / lugar-não lugar. E, também, a transitoriedade e vulnerabilidade dos materiais.

Museu como um templo ou o museu como um fórum de discussões? Desmaterialização do objeto, circulação via reprodutividade, enfim há inúmeras perguntas e reticências quanto a formulação de questões. Mas uma coisa é certa, há indiscutivelmente possibilidades de poéticas conceituais.

É pouco deixarmos de ser em algumas exposições, materialistas passivos? Ao exibir as obras não há agregação? E a questão político-social-cultural? Como pensarmos nas obras dos Dadaístas, Surrealistas e suas temporalidades? Há significados e permiti-los é parte da inteligibilidade.

Há nesse bojo conceitual, várias alternativas: performance, fotografia, instalação, vídeo-arte, body-arte, entre outros. Na performace nos damos conta do tempo e a necessidade do artista ao repetir. A instalação é a junção com o espaço (entorno). A body-arte e seu suporte criativo no corpo pode exprimir uma barreira mercadológica, mas que também pode ser transformada em coisa via fotografia ou vídeo. A fotografia por sua vez, pode destruir a concepção artística como pode sobrepor a produção inicial; pode minuciar e ampliar; pode democratizar.

 

Marina Abramovic, Relation spaces, 1977

 

Compactuo com Foucault quando disse que é próprio do saber – interpretar –, muito mais do que mostrar ou apenas ver. Mas para isso é necessário estarmos abertos às oportunidades, aos acontecimentos e não predispostos ao escracho, ao deboche, que muitas vezes é auto-idiotização. E quando sustentado pelos meios de comunicação, o prejuízo é ainda maior.

 

Sugestões:

FREIRE, C. Poéticas do processo da arte conceitual no museu. São Paulo: Iluminuras, 1999.

ROLNIK, S. Pensamento, corpo e devir. São Paulo: Caderno de subjetividades, V.1, n. 2 PUC/SP, 1993.

site MOMA: www.moma.org/

http://adaime.wordpress.com/

http://faleconsigo.wordpress.com/

V. Tb. neste blog texto: Bienais de Arte de São Paulo (Salve, Basquiat!) Uma discussão sobre a última Bienal de Artes de São Paulo e o resvalo do olhar vanguardista contra si mesmo via pichação http://ht.ly/3vDDJ

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