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O grupo Arquitetura Nova e Lina Bo Bardi

19 jan

Gisèle Miranda 

 

O surgimento da arquitetura moderna no Brasil se configurou na prática revolucionária: A arquitetura, mais do que as artes visuais, vive do diálogo com o poder das classes dominantes e a despeito da intencionalidade ou não explicita pelo produtor, a obra de arte é frequentemente manipulada politicamente em seus estágios de circulação… e consumo. (AMARAL, 2003, 16)

O grupo Arquitetura Nova teve a militância de Rodrigo Lefèvre (São Paulo, SP, 1938-Guiné-Bissau, 1984), Flávio Império (São Paulo, SP, 1935- idem, 1985) e Sérgio Ferro (Curitiba, PR,1938-). Os três repensaram a arquitetura e as condições de produção no canteiro de obras, além dos estudos de pintura e de arquitetura cênica e de trajes.

 

O trio fez experimentos no canteiro para valorizar, respeitar e mostrar o trabalho do pedreiro: desfazendo do revestimento sobre a alvenaria, e deixando aparentes as instalações elétricas e hidráulicas. Os arquitetos do grupo adotaram uma diferenciada relação com os trabalhadores, cuja assinatura não é posta no edifício, mas suas passagens são testemunhos laborais mesmo que marginalizados do registro institucionalizado.

Lefèvre, Ferro e Império representaram a FAU/USP na VI Bienal de Artes de São Paulo,  em 1961, governo Jango, do fortalecimento das lutas populares, das Ligas Camponesas, e das reformas de base. O grupo primou pela socialização de conhecimentos e cooperação mútua entre arquiteto e operário.

O Cinema Novo, os Centros Populares de Cultura, o Teatro de Estudantes do Brasil (TEB) e do Teatro de Arena inspiraram os arquitetos Lefèvre, Ferro e Império. Eles conceberam para a arquitetura moderna brasileira, além de um programa de cunho popular, atuações no Teatro de Arena com rigor crítico, destacando-se na reformulação da cenografia brasileira, no diálogo direto com a matéria e com o processo de criação e de intercâmbio. Mas com o golpe militar de 1964 no Brasil, os ideais democráticos foram cerceados, diminuindo progressivamente as atividades do grupo. Em 1970, Lefrève foi preso e torturado pelo DOPS.

A arquiteta italiana Lina Bo Bardi (Roma, Itália, 1914- São Paulo, SP, 1992) se aproximou do grupo Arquitetura Nova e impulsionou a arquitetura cênica e de trajes. Ela defendeu a abertura de aspectos da contemporaneidade, e restabeleceu a relação entre a arte, a vida e o cotidiano moderno: Abaixo o amuo dos museus tradicionais, disse Lina (BARDI, Lina, 2008; 74)

Lina observou que o museu ainda era concebido como templo, na presença da enfática monumentalidade dos elementos clássicos. O museu deveria atender à demanda cultural de um país. Dessa forma, o Museu de Arte de São Paulo foi pensado com ações voltadas à valorização de obras artísticas antigas e modernas. Assim como o próprio projeto do MASP visava utilização do vão livre para as manifestações, apresentações de cinema, música, dança e feiras de antiguidades e artesanatos. 

Lina buscou o reconhecimento da cultura popular brasileira, acreditando na influencia que isso acarretaria no desenvolvimento do país. Ela deu sequência ao olhar de Mário de Andrade (década de 1930) sobre a qualidade dos artesanatos do Brasil.

Destaque também ao projeto que Lina idealizou para o SESC Pompéia – onde a arquiteta, em parte conservou as antigas instalações da Fábrica da Pompéia e buscou a integração entre o antigo e o novo. De 1977 a 1982, Lina tratou a fábrica segundo seu valor documental e histórico. Em 1984 Lina fez a restauração do Teatro Oficina.

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Referências

AMARAL, Aracy. Arte para quê? A preocupação social na arte brasileira 1930-1970. 3. ed. Studio Nobel: 2003.

ARANTES, Pedro Fiori. Arquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2004.

FERRAZ, Marcelo (Coord). Lina Bo Bardi. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008.

MANGUEL, Alberto. Claude-Nicolas Ledoux: Imagem como filosofia; IN: MANGUEL, Alberto. Lendo imagens – uma história de amor e ódio. São Paulo: Ed. Companhia Das Letras, 2001.

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