Tag Archives: Artes

Série Movimentos de Vanguarda III: BAUHAUS, a Casa Construída (parte II)

25 jun

por Gisèle Miranda

A Bauhaus, “síntese casa-escola-oficina” ou “escola fábrica” teve o ícone-vértice da Arquitetura Moderna: Walter Gropius (1883-1969). Com ele, proliferaram as experiências artísticas em coletividade. Seu fazer arquitetura era essencialmente alimentado, exercido com todos os aportes da arte: explicando e sensibilizando em meio à intensa crise da sociedade.

Gropius formou-se em arquitetura em 1907. Foi assistente do arquiteto e designer Peter Behrens (1868-1940). De 1914 a 1918 foi um combatente na Primeira Guerra Mundial. Entre a guerra e a criação da Bauhaus, ele viveu uma história de amor com Alma Mahler (1879-1964), viúva do musicista Gustav Mahler (1860-1911). Alma e Gropius foram casados por cinco anos; em meio a essa relação, Alma teve uma paixão pelo pintor Oskar Kokoschka (1886-1980). O término dessas histórias de amor com Gropius e Kokoschka emendou com o casamento de Alma com o poeta Franz Werfel (1890-1945). Mais do que a arquitetura, Gropius viveu o amor com uma mulher intensa e de brilhantismo intelectual, além da guerra, do front, da perda e da dor às vésperas da criação da Bauhaus (1919).

Gropius está internado em algum hospital militar do front. (jan, 1915). Há mais de um ano estamos casados… não temos um ao outro, e às vezes tenho medo de que nos tornemos estranhos. Meu sentimento por ele deu lugar a um sentimento conjugal entediante…. Não se pode manter um casamento a distância.” (out. 1916) (In: Alma Mahler, Minha Vida, 1988, p.65; 76)

Walter Gropius posteriormente casou com Ise Frank, homenageada pelo Instituto Goethe de Brasília (2019), na primeira série sobre as Mulheres da Bauhaus.

De 1934 a 1937, o casal se refugou na Inglaterra. Em 1937 partiram para os EUA, onde Gropius trabalhou em Harvard até 1953; nesse mesmo ano recebeu o Grande Prêmio Internacional de Arquitetura, em São Paulo, Brasil.

Gropius regressou a Alemanha quase 30 anos depois de seu exílio para a realização de um projeto. Ele faleceu em Boston, EUA, em 5 de julho de 1969.

Gropius e a Bauhaus: algumas experiências artísticas

O vértice: o arquiteto Walter Gropuis ou a representação da arquitetura moderna da Bauhaus alinhavou diversas expressões artísticas, além da importância do Design e do próprio fazer arquitetura. O Teatro Total adentrou a Bauhaus como Centro de Educação Coletiva, onde:

A arquitetura transpôs o limite além do qual uma realidade e uma ilusão, uma matéria e um símbolo, não são separáveis… (…) arquitetura em movimento… que faz o espaço… (…) Do palco circular, nascido da arena agonística. In: Argan, 2005, p. 130; 131.

O Teatro Total nasceu na crise da consciência moderna. E com ela, a comicidade sobressaiu como uma incontrolável dificuldade de lidar com os dramas do pós-guerra e com a falta de diálogo com uma burguesia vertida ao fascismo. A dramaticidade foi a dificuldade de lidar com um mundo físico e moral em um processo irreversível pela desumanidade.

O Teatro da Bauhaus trabalhou conflitos com uma cenotécnica criada por Oskar Schlemmer (1888-1943) – a interação com os espectadores foi vital para desenvolver a luz, as cores, os sons, figurinos em bombardeios de sensações. (Argan, 2005:74) Schlemmer desenvolveu a Teoria do Compressionismo:

As pinturas murais em estuque… com superfícies capazes de compensar ou preencher o vazio… estabelecer identidade entre o cheio e o vazio, entre o espaço real e o espaço figurado” (Argan, 2005: 68)

As experiências dos movimentos de vanguardas da Europa e da Rússia foram referências para os mecanismos da arquitetura. As esculturas de Pevsner (1902-1983) e Gabo (1890-1977) transformaram o espaço da terceira para a quarta dimensão; O suprematismo de Malevich (1879-1935) interferiu para no princípio abstrato com a realidade concreta da ´coisa que se move´… a superação da forma geométrica como forma a priori…” (Argan, 2005: 138; 140).

Na tecelagem sob a orientação de Gunta Stöl (1889-1973) as pinturas sobrepunham ao tecido. No mobiliário, Marcel Breuer (1902-1981) priorizou o metal. Em 1925:

A cadeira de tubo metálico que substitui por um conjunto de linhas tensas e curvas elásticas, que visam a secundar os movimentos espontâneos do corpo humano. (Argan, 2005: 65)

Anni Albers (Berlim, Alemanha,1899- Orange, Connectcut, EUA, 1994), Foto de Nancy Newhall, 1947; Gertrud Arndt (Racibórz, Polônia, 1903- Darmstadt, Alemanha, 2000) foto Otti Berger c. 1930;  Gunta Stölzl, (Munique, Alemanha, 1897- Zurique, Suíça, 1983. Foto s/d.

1. Anni Albers (Berlim, Alemanha,1899- Orange, Connectcut, EUA, 1994), Foto de Nancy Newhall, 1947; 2. Gertrud Arndt (Racibórz, Polônia, 1903- Darmstadt, Alemanha, 2000) foto Otti Berger c. 1930 com uma construção da Bauhaus; 3. Gunta Stölzl, (Munique, Alemanha, 1897- Zurique, Suíça, 1983. Foto s/d. (*)

Paul Klee (1879-1940) procurou nas primeiras formas do Construtivismo, as reverberações infantis. As forças ativas e passivas das linhas ao remontar a origem das formas. Kandinsky (1866-1944) teorizou sobre as cores – atração e repulsão das linhas e das cores.

Josef Albers (1888-1976) e Moholy-Nagy (1895-1946) utilizaram os recursos de collage e do readymade surrealista para reconhecer a matéria original da arte nas coisas de uso corrente, além de Moholy-Nagy destacar o aço cromado, alumínio e níquel para objetos de iluminação. (Argan, 2005: 61; 66).

Referências:

Alma Mahler. Minha Vida. São Paulo: Martins Fontes, 1988. Coleção Uma Mulher. (publicado em 1960 a partir dos diários de Alma Mahler)

ARGAN, Giulio Carlo. Walter Groupius e a Bauhaus. Tradução Joana Angélica d´Avila Melo; posfácio de Bruno Contardi. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

STANGOS, Nikos (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

TASSINARI, Alberto. O Espaço Moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

Catálogo Bauhaus.foto.filme: ideias que se encontram. Sesc Pinheiros, 2013.

https://goethebrasilia.org.br/blog/ise-gropius-frau-bauhaus/ em 23/06/2019.

https://tecituras.wordpress.com/2016/06/02/as-experiencias-de-julio-le-parc-mendonza-1928/

Mulheres na Bauhaus – os mestres subestimados

Imagens de mulheres: Os artistas esquecidos na Bauhaus

(*) Notas:

  1. Anni Albers: Foi aluna e professora da Bauhaus em Tecelagem e Design; exilada nos EUA com o marido Josef Albers, também professor da Bauhaus.
  2. Gertrud Arndt: foi aluna da Bauhaus em Fotografia.
  3. Gunta Stölzl: professora da Bauhaus em Tecelagem/ oficina têxtil.

Série Releituras Visuais e breves comentários I: O Barroco Laico de VERMEER (1632 -1669) e a Releitura de Antonio Peticov (1946-)

1 maio

por Gisèle Miranda

 

Vermeer pintou pouco, demorava e era minucioso na construção da imagem. Apenas 34 obras foram atestadas com suas. Na obra Arte da Pintura ou A Alegoria da Pintura ou O Pintor no estúdio (c. 1666 a c. 1688) percebe-se a representação mais intelectual ao se falar do espaço. Vermeer traz:

Novos termos da percepção-consciência, em um sentido moderno, até antecipador (por isso sua fama se desfez rapidamente, e só no nosso século (século 20) foi possível perceber a medida de sua importância) – muito mais, certamente, do que os artistas que pintavam uma história clássica ou uma natureza clássica. (Argan, 2004, p. 117)

 

Johannes VERMEER (Deft, Países Baixos,1632 -  Idem, 1669) Arte da Pintura ou A Alegoria da Pintura ou O Pintor no estúdio (c. 1666 a c. 1688). Óleo sobre tela 120 x 100 cm. Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria.

Johannes VERMEER (Deft, Países Baixos,1632 – Idem, 1669) Arte da Pintura ou A Alegoria da Pintura ou O Pintor no estúdio (c. 1666 a c. 1688). Óleo sobre tela 120 x 100 cm. Kunsthistorisches Museum, Viena, Áustria.

O meticuloso Vermeer conseguiu chegar à especulação metafísica através das cenas mais comuns. (In: Argan, 2004, 137) Mas, quem foi Vermeer? Sabe-se pouco sobre sua história.

Por que sua história e suas obras sofreram essa suspensão no tempo? Foi reconhecido em vida e apesar das especulações é certo que tenha casado (esposa de família católica) e tido 11 filhos, mas nenhum retratado pelo pai.

Sobre a obra O Pintor no estúdio diz-ser-ia a maior e a mais intrigante, e até a mais querida obra de Vermeer. Há elementos muito claros nessa pintura: a presença da mulher representando Clio, ou seja, a História segurando um livro e uma corneta para alardear a boa escrita, a obra, o conteúdo ou a representação da Verdade. Um Lustre com a águia de duas cabeças da dinastia dos Hamburgos, da Áustria. As partituras, um mapa com 17 províncias dos Países Baixos e, entre tantos detalhes destacados em releituras, Vermeer em seu autorretrato de costas para o mundo. Todo esse cenário milimetricamente pensado à Luz que entra pela janela.

O artista Vermeer foi redescoberto pelo crítico de arte Teóphile Thoré (1892-1975) ou pelo pseudônimo William Bürger, e ganhou notoriedade intelectual ao ser citado por Marcel Proust (1871-1922) na obra Tempo Perdido; ficou extasiado com a Vista de Delft (1660-1661) de Vermeer: ver ou escrever como Vermeer.

 

A Releitura de Antonio Peticov reverteu o mapa dos Países Baixos a Guernica de Picasso de 1937, quando a cidade espanhola Guernica foi bombardeada, mas tornou-se ícone de luta através da arte e marco Histórico e Artístico contra o fascismo de Francisco Franco durante a Guerra Civil Espanhola (1937-1939), e do que vem a ser o fascismo na história. Clio está robótica e exalta Guernica de Picasso como em um livro de História – a professora de História em seu quadro Picasso, assim como ver e escrever como Vermeer.

Se Vermeer se expôs mesmo que de costas, Peticov em respeito ao grande mestre deixou o quadro de tela branca, a mensagem da máxima produção. Discreto, mas presente, porque para ambos, a pintura é o quadro e não o pintor. (In: Argan, 2004, p. 493)

Antonio Peticov (Assis, 1946-) A Arte na Pintura, 2017. Acrílica sobre tela, 150 x 120 cm.

Antonio Peticov (Assis, SP, Brasil 1946-) A Arte na Pintura, 2017. Acrílica sobre tela, 150 x 120 cm. Série Releituras.

No piso, o acolhimento da seção áurea; a luz do holofote que projeta a janela e o espectro já apreendido pela física. Sobre a prateleira, os livros de Peticov, os mesmos que utilizou em sua pintura Meditação de São Jerônimo (2015) ao lado do globo mundo, por terras distantes.

 

(*) Nota: Esse texto foi realizado no Instituto de Arte e Cultura Antonio Peticov https://www.peticov.com.br/

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

Marcel Proust, Em busca do tempo perdido, 1913; Tradução Fernando Py. online.

TIRAPELI, Percival (Org.) ARTE Sacra Colonial: Barroco Memória Viva. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo; Editora UNESP, 2005.

Sobre Antonio Peticov

Antonio Peticov: alquimia dos mestres!

Série Antonio PETICOV I: Cérebro Meditation # 3

Série Antonio PETICOV II: Cérebro Duck Dreams

Série Antonio PETICOV IV: Cérebro Full Circle

 

 

 

Conto: O Sub-Término do Consciente (Parte I)

29 nov

por Caio Madeira

 

O sub-término do consciente ocorreu durante um jantar à luz de velas com comida congelada servida a dois, preparada às pressas pelo namorado. O apartamento, no 8º andar, era pouco mobiliado e a mesa balançava com o sobrepeso da comida em um dos lados. A música que impulsionava o clima era o incessante andar do cachorro hiperativo do vizinho de cima. A namorada sentada no canto da mesa pensava estar em mais um encontro com seu namorado, enquanto o namorado no outro canto chamou-a aquela noite para terminar o namoro.  

A história a seguir se passa no fundo da mente do namorado durante o término – mais precisamente na ponte que liga o consciente e o subconsciente, narrado por um pensamento que leva a outro, que vem de outro, que lembra outro, mistura-se a outro e forma outro, podendo deformar outro ou a si próprio antes (ou depois) de se apresentar ao consciente. E a consciência não é necessária no fundo da mente de quem se deixa levar, conscientemente, pela inconsciência. Por este motivo, não confie em tudo que lê como sendo tudo que ouve ou tudo que falam. Mas desconfiar de tudo seria um erro ainda maior. 

A história a seguir começa exatamente um segundo antes do término, atinge seu clímax no ápice do sub-término da consciência e termina além da vida que é narrada, e nada além disso.

 

ismael-nery-agonia-1931

Ismael Nery (1900-1934) Visão interna – Agonia, 1931. Óleo sobre tela.

…desfaça seu olhar ou vou ter que me exaltar.

Essa expressão em teu rosto, tão leve e bela, amargura o meu. Sei que teu amor ainda vive, mas o meu já pereceu. Esse teu olhar apaixonado faz meu corpo tremer e meu pulso fechar, enchendo-me com uma vontade pulsante de te estrangular. Como pode manter a beleza em seu rosto a me ver sobrecarregar? Comparo-me a um leão mirando ao longe uma jugular, com motivação instintiva incendiando o olhar. Fiz-te um jantar, que sem tua presença estaria congelado, intragável, assim como seu amado namorado que lhe dirige palavras em meio de um pestanejar não tão bem pensado, usurpado de forma e com emoção instável,

eu me sinto incontrolável,

…deslocando meus pensamentos para um assunto que não havia sido nem ao menos comentado durante a mesa, levando-me a agonizar com diálogos isentos de qualquer valor à sanidade que por tanto tempo me fora proporcionada – porém não tão bem calculada – e que, com o tempo, achou um atalho depositado em latas, copos e principalmente taças. Taça igual a esta que seguro na mão, descontroladamente pingando gotas no chão, provavelmente devido ao tremor causado pela forte emoção de estar aqui contigo nesta noite, com pensamentos e ideias em perigosa comunhão.

E não!, não fale nada, pois sei bem como você despreza esse meu eu tão alterado, embriaga-… extasiado. Como detesta ver teu amor defronte a ti internamente violentado por um líquido que não mata a sede em uma garrafa apenas. E você pode ter certeza que essa insanidade misturada na bebida já respingou insensatez em alguns momentos de fraqueza em outras ocasiões, mas que poucos – muito poucos – perceberam que havia algo errado. Foram sempre alguns poucos respingos em ocasiões que pediam trajes secos ao invés de ligeiramente molhados, mas que todos culparam o manchado traje a um descuido com o copo que me fora dado, e que provavelmente deve ter molhado também os pobres desavisados que estavam ao meu lado, que riram de um embaraço ou coisa qualquer que possa ter causado o descuido por minha parte. Pequenos momentos são fortes como qualquer grande momento quando são repetidos em quantidade e honesto intento. Aumentam também em intensidade quando são alimentados pelo tempo que passa. Mas eu divago à sua companhia.

Esta noite, última noite, é nossa! E olha pra você…

Mesmo depois de eu esquentar o jantar e acender estas velas sob a transcendente luz do luar, você me trata como se estivesse desesperada, como se estivesse acabando todo seu ar. Então lhe pergunto: estou eu respirando todo seu ar? Não consegue tomar fôlego com minha mente a reclamar? Estou aqui a terminar!, a revogar teu acesso ao meu afeto. Estou a ausentar teu julgamento de certo e errado, pois estou cansado de vaguear contigo por anos e anos a fio, sentindo que estou me despedindo de meus próprios aniversários no caminho.: estou sentindo o tempo deformar!, captando o instante com um relógio quebrado que não sei consertar – e que muito menos posso pagar por um conserto, pois vivo num rotineiro anti-deleito em nossos encontros que me toma a vida inteira, fabricando calendários anuais diariamente, cada um com um ano diferente e com os feriados ausentes para descansar;

Ou até pior: Todo minuto que passo contigo é dois de janeiro do ano seguinte, onde volto de carro num engarrafamento na estrada, relembrando à força de todos os compromissos que havia pendurado no varal do esquecimento antes de ir celebrar um novo ano na praia, otimista no réveillon. Dois de janeiro, onde passo por acidentes rodoviários e tenho meus devaneios imaginários cortados por buzinas de caminhão, enquanto tento – mesmo que por um momento – sentir mais uma vez meus dedos do pé carinhosamente enterrados na areia e ter meu mundo focado apenas nos desenhos barulhentos que fizeram os fogos de artificio na noite anterior. Mas, assim como nosso amor, é apenas possível lembrar o que passou e impossível sentir de novo – pois você me prende num presente amargo filtrado por pensamentos de um passado nostálgico. O tempo contigo vai longe e me envelhece, e você esquece que eu como comida congelada todo dia e vou morrer cedo

…e não é sua vez de falar!

Não há diálogo neste monólogo a dois. O que tenho a dizer não foi construído esta noite, sabe? Meu delírio foi arquitetado nas madrugadas em que a insônia deixava minhas pálpebras acorrentadas à inercia de um quarto escuro, conduzindo meu pensamento inquieto e intrigado pelo meio como o amor preenche o vazio que, agora, se alimenta do meu ânimo; e que não parece dar-se nunca como satisfeito. Está noite é apenas a culminante explosão de algo que se amontoou em meu peito e, dito e feito, aqui estou. Minha cabeça sobrecarrega afoita sobre meu fino e exageradamente comprido pescoço toda a originalidade do nosso amor, que por um tempo até nos serviu de um apertado cobertor neste intranquilo mundo frio; mas que agora não parece ser nada mais do que um esboço de um projeto recíproco e indolor, fadado a se contentar com a bruta realidade de se encontrar num dolorido passado sem cor.

Mas ainda assim, para mim, este término é o mérito de uma busca pela harmonia de dois corpos que servem como depósitos de emoções, e que buscam um traço recíproco de passados sinuosos e presentes afagáveis – em busca de um futuro perfeito. De duas mentes que não mentem, ou pelo menos não mentem tão bem quanto suas bocas parecem deixar aparente ao beijarem-se de maneira fosca, de modo que possam suprimir o difícil comprometimento das palavras que devaneiam em pensamento ciumento e duvidoso ao longe, mas que é frenético e animalesco de perto – e apenas de perto. Fervoroso a ti, ruidoso a mim, e vice-versa, num ciclo que segue tanto rumo quanto o alheio entendimento da vida após a morte por pessoas ainda vivas, no qual ainda me falha o entendimento. Se não há como descrever a vida de modo fiel, como crer nos detalhes que entendemos da morte? Parece inacreditável para mim, inaceitável até, mas não parou você de tentar me fazer entender o que há após o fim, e ainda logo no começo do relacionamento!

E eu, que fingi aceitamento aos seus entendimentos; o que isso diz de mim? E é por isso que não te culpo ao se surpreender com este término, pois sempre diante do divino, acaba esquecendo-se da realidade. Passa a vida em constante preocupação com o que há depois da fatalidade, com toda essa religiosidade sufocando tua jovialidade, que até se esquece de se preocupar com a infinidade de momentos que lhe escapam a sua frente, que se perdem com o lento reinvento de um momento mais interessante vindo da minha parte, quase sempre. Entende o mérito que vejo no término? Jogamos-nos intérritos a uma incerteza e nos julgamos certos por todo o tempo, isentos de preconceitos, buscando um entendimento maior do que “o que pode estar observando o olhar que estamos observando olhar a nós”, e chegamos a isso: um vestígio de um amor que pareceu propicio a todo o momento e que, neste momento, estou botando um ponto final.

Não sou bom moço, tuas lagrimas molham apenas teu rosto. Aliás, mentira. Elas salgam também a comida e brindam com o desgosto, que me faz perceber que o gosto do álcool é como poesia, como maresia: É como se a plenitude do Amor descansasse à margem da praia, com cada grão de areia representando um Amor entre duas pessoas em qualquer parte do mundo. E nosso Amor tão profundo, grão de areia único, vivendo junto a outros grãos por tanto tempo seco, afogou-se ao ser levado pela correnteza forte, levando nosso Amor e outros grãos de areia a um outro lugar, desacatando-os bem no meio de uma vida pacata de observar vôlei de praia e crianças e castelos e mulheres lindas com biquínis pequenos, além das diárias de um cinema belo em uma tela ao horizonte que tem sessões às seis da manhã e da tarde… e levando-os a uma viagem forçada a um mundo mergulhado em hostilidade, submetendo os grãos submersos a uma visão desprivilegiada da que tinham anteriormente, vendo agora apenas uma imensidão azul onde o sol mente sua beleza com uma distorcida iluminação difícil de encantar ao ser vista do fundo do mar. Porque você insiste em brincar de mar é o motivo pelo qual eu não consigo mais te amar.

Não consigo erguer a cabeça para respirar, só consigo perder a cabeça ao sentir você me afundar. Não consigo ter certeza do chão que piso, e sinto isso já faz meses. Não consigo nem mais olhar você como olhava antes, com críticas observações peneiradas em sorrisos enamorados e confiança e encanto, fotografada em casamentos da realidade com a minha imaginação. Já se foi o tempo que a via como rotineira ambição, e meus olhos agora buscam de sua imagem uma sofrida emancipação. Vejo-me como veria um documentarista amador que percorre os fatos que alimentaram nosso falso amor até ter uma indigestão, vomitando tudo pra fora e morrer por inanição. Agora é a hora de se desfazer; de fazer desaparecer uma angústia que botou uma máscara antiga, que tão precocemente chamamos de amor; e será que devo parar de falar? Será que deixei meu ponto claro? Nem falei sobre querer minha liberdade. Ela está abrindo a boca, ela vai tentar rebater, vai falar de mim, o que vai ser? Vai me quebrar, vai me contradizer, vai querer partir pra cima e me bater, jogar pratos, vai.

Ela se levantou e começou a falar.

Série Releituras & Breves Comentários IV – ‘Conversas com historiadores brasileiros’ e ‘Usos & abusos da história oral’

8 jan

Por Gisèle Miranda


Em 1997, a historiadora Márcia Mansur D´Alessio [1] publicou Reflexões sobre o saber histórico e trouxe à historiografia brasileira sua bagagem de Ego-História através das entrevistas com os historiadores franceses Pierre Vilar (1903-2003), Michel Vovelle (1933-) e Madelaine Rebérioux (1920-2005).

Antes, o historiador Pierre Nora (1931-) publicou a coletânea Ensaios de Ego-História com entrevistas de consagrados historiadores franceses.

Creio que os resultados obtidos de uma década entre Nora e D´Alessio foram de extrema importância para a elaboração teórica. Dentre as variantes e problemáticas estão: narrativas, entrevistas, memoriais, registros do ofício do historiador e biografias.

Georges Duby (1919-1996) foi um dos entrevistados de Pierre Nora e o mais cético quanto aos bons resultados e do preparo do historiador para tal proeza. Ou seja, ser o investigado, o coletado, o sujeito histórico numa perspectiva autobiográfica e no vínculo com as práticas culturais, políticas, numa memória em devir, circunstancial, seleta e fugidia.

Quanto ao resgate biográfico da historiografia brasileira, francesa, inglesa ou de qualquer nacionalidade, chamo à escrita quinze historiadores brasileiros (poucos), trazidos pelos entrevistadores José Geraldo Vinci de Moraes (historiador) e de José Marcio Rego (economista), através do livro Conversas com historiadores brasileiros, de 2002.

E, para compor a discussão, o livro Uso & Abusos da História Oral, de 1996, organizado pelas historiadoras Marieta de Morais Ferreira & Janaína Amado.

“Conversas com historiadores brasileiros”

Para a proposta de breves comentários seria impossível ater aos quinze historiadores entrevistados do livro. Por isso fiz a dolorosa escolha de dois, fracionando tal e qual, os entrevistadores da seleção dos quinze. Mas, nem por isso deixarei de registrar nesse texto, os quinze historiadores brasileiros. São eles: Maria Yedda Linhares, Edgar Carone, Emília Viotti da Costa, Boris Fausto, Fernando Novais, Evaldo Cabral de Mello, José Murilo de Carvalho, Maria Odila da Silva Dias, Ciro Flamarion Cardoso, Luiz Felipe de Alencastro, Edgar De Decca (1946-2016), Angela de Castro Gomes, João José Reis, Nicolau Sevcenko (1952-2014) e Laura de Mello e Souza.

Diferentemente de Pierre Nora na organização das narrativas coletadas para a publicação Ensaios de Ego-História, – Morais & Rego  interferem em suas entrevistas. Fonte oral como um desafio a subjetividade de intelectuais de ambos os lados, num devir inacabado, e até num devir imperceptível, como diria o filósofo Gilles Deleuze. (1997, p. 11)

Intelectual incipiente ou intelectual coletivo, perguntaria Pierre Bourdieu (1930-2002) e, posteriormente Edward Said (1935-2003)?  Ou, biografia e as dificuldades de qualidade e publicações abundantes há anos e a maioria anacronicamente psicológicas pendendo ao mercado oportuno? (LE GOFF, 1999, p. 20) [2)

Diante dessas questões chamo à escrita a historiadora Maria Odila da Silva Dias, uma dos grandes nomes da historiografia brasileira (fui sua aluna em 1996/ PUC/SP).

Maria Odila teve uma larga trajetória na USP como aluna e pioneira do mestrado em história; aluna de Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), Caio Prado Jr.(1907-1990), entre outros; foi titular da cadeira de História do Brasil até sua aposentadoria, e logo em seguida, atuante no quadro profissional da Pós-Graduação da PUC/SP.

Maria Odila da Silva Dias – foto publicada em Conversas com historiadores brasileiros, 2002.

Com toda a bagagem que lhe confere, Maria Odila sempre esteve aberta às novas discussões e autores. Traço este que me faz lembrar com admiração quando ainda sua aluna apresentei um seminário sobre Paul Zumthor (1915-1995), na época, autor muito respeitado no Departamento de Comunicação e Semiótica, porém pouco presente no Departamento de História, mas deveras importante para minha tese de doutorado (orientada por Maria Izilda Matos, orientadora também do mestrado) e, em discussões no curso de  Maria Odila;  Zumthor  pôde ascender à importância justificada, ampliada e, inesquecivelmente trabalhada com outros colegas.

Além do mais, Maria Odila é atenta aos pensadores da desconstrução como Foucault (1926-1984), Deleuze (1915-1995), Guattari (1930-1992), Derrida (1930-2006), Antonio Negri (1933-), entre outros. Por que? Porque os historiadores têm de manter um diálogo com os pensadores contemporâneos, para consolidar a consciência de sua inserção no mundo de hoje. (DIAS, 2002, p. 207. In: Conversas com historiadores brasileiros)

Também chamo a essa escrita outro grande nome: Luiz Felipe de Alencastro. (Infelizmente não fui sua aluna regular, mas estive presente em algumas de suas palestras).

O historiador Luiz Felipe de Alencastro (1946-) nas dependências da Sorbonne, em Paris, onde leciona. http://www.sequenciasparisienses.blogspot.com – Foto de Alcino Leite Neto, 2003. (Folha de S. Paulo)

Alencastro é professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne na cadeira de História do Brasil. Como historiador e pensador escreve em periódicos sempre que solicitado à crítica. Ele foi aluno de ‘ Michel Vovelle, Paul Veyne (1930-) e amigo de Georges Duby’ . E como tal faz jus ao trabalho do historiador e seu difícil elo com a mídia – ainda parco entre os historiadores. Ou seja, o trabalho do historiador tem uma especificidade narrativa que deve ser assumida e refletida, não só entre os seus, mas além, interrogar e se fazer visível em outros espaços de ação. (Alencastro, 2002, p. 260. In: Conversas com historiadores brasileiros)

Hoje temos um bom termômetro intelectual dentro e fora do país. Rompemos com o gueto acadêmico da escrita. Todos gostam de boas histórias não há por que não gostarmos também de boa História. (CARVALHO, 2002, p. 175. In Conversas com historiadores brasileiros)

Usos & Abusos da história oral

Sob organização de Janaína Amado e Marieta Ferreira, a publicação está repleta de grandes pensadores, de muitas questões desde a fecundidade da história oral, práticas e estilos, balanço dos métodos ao longo dos anos, as potencialidades da oralidade junto à história e à memória; também sobre gerações, a escrita e a ausência dela, acervos de depoimentos ou a oralidade documentada.

No entanto, desde a publicação de Usos & Abusos muito se tem discutido a respeito da biografia, incluso como um retorno ao vazio ou mesmo sob a ilusão biográfica. O ´eu´ou o conceito? O juízo de valor ou a isenção?

Quanto ao labor do historiador-biógrafo compartilho a frase do saudoso teatrólogo Procópio Ferreira (1898-1979), que sugere flanar sobre retalhos catados aqui e ali, pacientemente, num mosaico de idéias e de episódios com comprometimento e propriedade. (BARCELOS, 1999, p. 12)

Armadilhas são percalços para qualquer área. Vácuos e disjunções têm que ser preenchidos à luz de pesquisas, reflexões, críticas, e mesmo, se necessário num mosaico de feixes ficcionais permitindo os encantos das utopias.

Como método, há também técnicas e suas utilizações podem provocar e povoar um arquivo ou acervo.  Evidentemente, a oralidade é um campo de forças que precisa ser administrado com a cautela necessária para que não fulgure como intervalo ou vácuo, e sim requerer sua gama como força existente e diferente – tal o exemplo da curta temporalidade das gerações e suas importantes contribuições.

Como crítica à história convencional, a história oral tem seu próprio corpo de embate. Mas se utilizada indiscriminadamente, pode romper ou fragilizar estruturas intelectuais, ou desconstruir, sendo alvo de pouco veracidade ou quiçá remeter a complexa ideia de uma dupla dimensão do real: a do mundo concreto e a do mundo dos textos. (AMADO& FERREIRA, 1996, p. XXI)

Entre usos & abusos cabe ao pensador, historiador, antropólogo, poeta… traçar potencialidades, seja via métodos, técnicas e o que mais puder acrescentar; e se exceder, saber aparar as arestas.

Referências:

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. (Org.) História da vida privada no Brasil 2 – Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

BARCELLOS, Jalusa. O Mágico da expressão. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1999.

D´ALESSIO, Márcia Mansur. Reflexões sobre o saber histórico: entrevistas com Pierre Vilar, Michel Vovelle e Madeleine Rebérioux. São Paulo: Editora da UNESP, 1998.

DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34,1997.

DIAS, Maria Odila da SilvaA interiorização da metrópole e outros estudos. São Paulo: Alameda, 2006.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Tradução Eugênio Michel da Silva & Maria Regina Lucena Borges-Osório. São Paulo: UNESP, 1998.

FERREIRA, Marieta de Moraes & AMADO, Janaína (Coord.) Usos & abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996.

MORAES, José Geraldo Vinci de & REGO, José Marcio (Entrevistadores). Conversas com historiadores brasileiros. São Paulo: Ed. 34, 2002.

LE GOFF, Jacques. São Luis (biografia). Tradução Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Record, 1999.

LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis (biografia). Tradução Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Record, 2001.

MADEIRA, Gisele ou IGGNÁCIO, Gisele de Miranda. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo, 2000. 250 p. Tese (doutorado em história) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

SAID, Edward W. Cultura e Política. Prefácio de Emir Sader; Tradução de Luiz B. Pericás. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003

THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Tradução Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.


[1] Fui sua aluna no mestrado em História da PUC/SP, 1993.

[2] Compraz com Le Goff sobre a carga particular da biografia: ´em meio à crise de mutação geral das sociedades ocidentais´ e refletindo sobre o sujeito na biografia – ´o sujeito globalizante – em uma procura utópica, por causa dos vácuos e disjunções que rompem a trama e a unidade aparente’, LE GOFF, 1999, p. 20-21.

%d blogueiros gostam disto: