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Série Ficcional H. Miller XXVI: Do Pacífico ao Atlântico

26 jan

por Lia Mirror

 

 (…) Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina…
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico… E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Ode Marítima, 1890.

 

 

Enquanto içava as velas no Atlântico lembrei dos 23 tripulantes resgatados de um naufrágio; um não sobreviveu a sua própria tormenta. Antes mesmo de chegarmos em terra firme, o lobo do mar jogou-se no Pacífico como isca para tubarões, amarrado à proa numa enorme corda. O nó que o galego marinheiro fez tem nome: chama-se Bispo do Rosário, em homenagem a outro marinheiro.

Logo, contando comigo retornamos aos 23. Somados 2+3 resultou no número de tripulantes dessa nova empreitada pelo Atlântico.

 

O propósito dessa viagem é resgatar Bas Jan Ader, ou, quiçá oferecer-lhe minha escuta ou o desejo de percorrer limites e sentir do ardor a dor. Ser ridícula como no poema de Álvaro de Campos: só para ridículos como nós. Debater a queda; cair da bicicleta, cair do telhado, cair da árvore, cair no rio que leva o corpo, que afoga por instantes e que salva por um ‘triz’. Adentrar as profundezas do mar. E de tanto borbulhar o mar, tropeçar e dizer amar.

 

 

Não! Bas Jan Ader não foi salvo. Ele foi libertado. Cansou do riso fácil, enquanto a olhos nus relampejavam seus estudos sobre a queda e o limítrofe de vida e morte. Tênue fio da navalha. “Ele partiu e nunca mais voltou…”.

Quando dei por mim, estávamos nós cinco: Bas Jan Ader, seu Alberto, meu amigo ancião Blake, Miller e eu.

O medo da solitária viagem pelo Atlântico dissipou-se. Abrimos nossos braços às tempestades, gritamos aos deuses impropérios, embriagamo-nos de nossas falas ao falo. Trituramos nossa própria carne, cuspimos trovoadas e retornamos ao desejo. Do desejo ao gozo como em um álbum além  mar… mar… mar… a… mar!

 

30ª Bienal de São Paulo: Os fios tecidos de Arthur Bispo do Rosário

21 set

por Gisèle Miranda

 

A Bienal se reencontrou com as obras de Arthur Bispo do Rosário e desta vez sob curadoria de Luis Pérez-Oramas.

Pérez-Oramas foi incisivo em sua “iminência das poéticas” e nas vozes diferenciadas que ecoam. Esse é o elo, o fio de Bispo (outrora de Ariadne) que fia e desfia na arquitetura de Oscar Niemeyer. Se Babel, labirinto ou oceano, as vozes apresentam-se  em um “ensaio polifônico”.

Em meio a isto, Bispo surpreende. Foi alvo da limpeza social da época, escapou da lobotomia e conviveu sob preconceitos, mesmo que isso não tivesse claro para ele. Melhor assim, bastavam as vozes de sua esquizofrenia já que as vozes do Estado e da sociedade só o discriminavam.

Superação com sentidos variados incluso pela perspectiva-escrita de Rodrigo Naves quando relacionou a vida de Bispo (e de muitos outros artistas) às dificuldades gritantes de nossos atletas, visto pelo histórico e os recentes jogos Olímpicos e Paralímpicos. Disse ele:

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão. Se a injustiça social não encontrou entre nós – ao menos até os anos 80 – uma resposta política efetiva, parece fora de questão que artisticamente nosso meio cultural seria muito menos rico sem a contribuição daqueles que teriam tudo para permanecer silenciosamente à margem. [1]

De fato essa correlação é muito oportuna. Alguns superam “a margem” quase como um milagre. Para o descrente, a revolta e a certeza que muitos ficaram no caminho sem volta.

Arthur Bispo do Rosário

A 30ª Bienal foi tomada pelo fio e desfio de Bispo do Rosário – o des- A- fio de suas vestimentas, das palavras bordadas e alinhavadas aos pensamentos. Bispo é nosso Oceano Atlântico. Nele Bas Jan Ader continua vivo no encanto performático e mítico de seu desaparecimento. [3]

O oceano Atlântico que expurgou o marinheiro-artista Bispo do Rosário é o mesmo que sugou o artista-marinheiro Bas Jan Ader – se nos atermos sobre “a falha, a queda, o risco… e a finitude da vida”[2] – elementos intrínsecos a curadoria sem estrelismos de Pérez-Oramas; “clean” para a maioria crítica, mas com a consciência histórica das Bienais desde 1951 às oscilações da 29º Bienal em meio às controvérsias da”pichação e do vazio”. (*)

Neste oceano há fios, redes conectados à arte têxtil de Sheila Hicks, “rejeitando os limites tradicionais que separam a arte, artesanato e design”, seduzida pelos cantos inebriantes da “tecelagem das Américas do Sul e Central”[4].

Michel Aubry também içado pelos fios costurou “mobílias, instrumentos, tecidos…” como mantos históricos e com seus “sintomas políticos e sociais ”[5]. Em um dos mantos  – “sobretudo” – Aubry imprime traças à visão de tragédias e intolerâncias de um passado recente e numa taxidermia com linhas e agulhas.

Bispo alinhavou com outros artistas, cortou, fez e desfez no “risco” de Bas Jan Ader à preponderância das texturas, dos tecidos e tons, visibilidades geracionais em consonância a identidade e a coletividade através das fotografias de Hans Eijkelboon, na moda dos anos de 70 e 80 do Studio 3Z , de August Sander, entre os 111 artistas desta 30ª Bienal de São Paulo.

Muitos tecidos, muitas costuras, muitas experiências; muitas linhas e agulhas. Por quê? – Há uma amplitude e complexidade do tema. [6]

 

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Notas:

(*) V. Bienais de Arte de São Paulo: Salve, Basquiat

(1) Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014.

[2] Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo: A iminência das poéticas / curadores Luis Pérez-Oramas  {et al.}. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2012, p. 110

[3] Bas Jan Ader desapareceu “no oceano Atlântico ao tentar atravessá-lo com minúsculo veleiro enquanto realizava a segunda parte de um tríptico chamado In Search of the Miraculous”. In: Catálogo da 30ª Bienal, 2012, p. 110-111.

[4] In: Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo, 2012, p. 279.

[5]  In: Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo, 2012, p. 228-229.

[6] Walter Zanini em 10 de fevereiro de 2010 – na apresentação do Livro de: COSTA, Cacilda Teixeira da. Roupa de artista – o vestuário na obra de arte. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: EDUSP, 2009.

Outras referências:

ARTHUR Bispo do Rosário. Emanuel Araújo {et. AL} Organizador e curador Wilson Lázaro. Rio de Janeiro: Réptil, 2012.

BOUCHER, François (1885-1966) História do vestuário no Ocidente: das origens aos nossos dias. São Paulo: Cosac & Naify, 2010.

Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo: A iminência das poéticas / curadores Luis Pérez-Oramas  {et al.}. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2012

DANTAS, Marta. Arthur Bispo do Rosário: a poética do delírio. São Paulo: UNESP, 2009.

HIDALGO, Luciana. Arthur Bispo do Rosário: o senhor do labirinto. Rio de Janeiro: ROCCO, 2011.

Série ficcional H. Miller XIX: o desvio na história

15 maio

Por Lia Mirror, Laila Lizmann e Gisèle Miranda

 

“Baudelaire simplesmente desnudou o coração; Rimbaud arranca o seu e o devora lentamente…” (Miller, 2003, p. 121)

Estava ilhada sob uma chuva torrencial. O vento uivava. Abracei a parede daquele abrigo em pé sobre o banco. Chorei e maldisse Henry Miller pelo silêncio secular, nem mesmo as poucas palavras inscritas.

A tempestade ou o intempestivo? Prendi a respiração e desejei morrer pelo impulso de salvação da liberdade. Não devo ter ficado muito tempo sem respirar, mas quando voltei, a chuva havia parado. Respirei como um orgasmo abraçando a parede que me consolou.

– Moça! Aqui passa o ônibus 455?

Não quis acreditar que alguém estivesse falando comigo. De onde ele surgiu? Cadê a chuva? Ele fitou-me sem esboçar estranhamento do quase ato sexual com a parede. Tirou do bolso um papel dobrado e colocou sobre o banco próximo aos meus pés e se foi. Agachei e desdobrei aquele papel que dizia: “Estaremos na mesa do seu Alberto. E eu, doce Lia… à espreita. H. Miller”. (*)

– Maldito seja! Sempre à espreita da carne e do sangue! Você é bendito entre os libertos, ditos e malditos do escárnio.

Fui ao encontro deles no restaurante sem nome na José Livres, número 455. Estava ansiosa por tê-los novamente, nada me satisfaria tanto. Quando adentrei o recinto vi a mesa do seu Alberto vazia. Busquei-os e nada.

Sentei e logo chegou o Antonio que não era Conselheiro, nem casamenteiro; beijo-me a mão e perpetrou um olhar profundo. Nesse olhar eu vi Rubens, Goya e seus Saturnos. Vi Arthur Bispo do Rosário com seu estandarte vindo em minha direção com as seguintes palavras: O impossível só pode ser atingido por investidas e o nome para isso é loucura[1]; vi José Leonilson bordando sua bagagem de mão “O Mentiroso”; vi montanhas de livros abertos gritando palavras. Mas não vi o seu Alberto – foi o que pensei, antes de desfalecer nos braços de Antonio.

Quando acordei não era Antonio que me acolhia; estava nos braços de Henry Miller;  ele sussurrou fitando-me: Eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro… um mundo inexplorado.[2]

 

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

MILLER, Henry. A hora dos assassinos (um estudo sobre Rimbaud). Trad. Nilton Persson. Porto Alegre: L & M, 2003.

MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963.

Sobre José Leonilson

MESQUITA, Ivo. Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. São Paulo: Projeto Leonilson/ Cosac & Naify, 1997.

(*)  “a mesa do seu Alberto” Batucada, Miller e a mesa do seu Alberto


[1] Miller, 2003, p. 118.

[2] Miller, 1963 a, p. 177.

“A Estranha Derrota” (*)

19 jun

por Gisèle Miranda

  

“Leo não consegue mudar o mundo. O nome do artista ausente pulsa vida na memória como um legado. Que memória é essa? Que geração é essa?

Como pensar uma exposição de Leonilson sem o sarcasmo ou a subjetividade de falar politicamente?

 

Leonilson (1957-1993), Leo Não Consegue Mudar o Mundo, 1989

Sim, politicamente sobre: “Leo (que) não consegue (iu) mudar o mundo”, sobre a AIDS, avassaladora nas décadas de 1980-90[1]. Um corpo marcado pela homofobia e pelos danosos anos de ditadura militar no Brasil. Um politicamente incorreto[2] sobre o poder macho, sobre a violência e o silêncio do Estado

Há um Leonilson associado ao inconsciente linguístico. Palavras exacerbadas, tecidas, bordadas, escritas: Mentiroso, Ninguém, Vazio, o espelho, o tombo, a bibliotecaJosé  (Leonilson Bezerra Dias ).  Um interno de um Estado como outrora foi Arthur Bispo do Rosário.

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Como já dito há os que se fortalecem diante da falta de memória; o que nos faz um povo de cidadania ainda em construção pela herança cultural, que sobrevive sob vários aspectos, e preponderantemente na violência.[3]

O legado de Leonilson nos aponta isso. E o que foi delegado à família, aos amigos está na culturalidade brasileira, que nos remete a um povo de encontros históricos, miscigenado, sofrido e carente. Isso reflete diretamente na educação que  como governar e analisar estão no rol das impossibilidades. Ou, seriam: nos possíveis a partir das impossibilidades?

Penso que o momento da educação brasileira é de INFELICIDADE, de VAZIO e de patrulhamento que fortalece um paradoxo de ervas daninhas, para acobertar sua falência múltipla de órgãos. Do berço à cafetinagem das ditas empresas educacionais de ensino superior.

Que fique claro que – de Leonilson, Bispo do Rosário, a Nuno Ramos; de Cartola, Adoniran Barbosa a Sabotagem; Mario Quintana, Leminski, a Cora Coralina; e por aí vai. Não ignoro as diferentes linguas de nossa lingua; é irrefutável! Anterior as minúcias da oralidade resgatada na década de 1950.[4] As manifestações do inconsciente linguístico estão por aí! Não compartilho a discriminação dicotômica do popular/erudito, pois se cria um modo infeliz para falar do povo.

Tampouco visto a carapuça de ´xerife da língua´ – um espelho refletido de patrulhamento ideológico utilizando noções históricas, e paradoxos do poder,  fazendo-se de politicamente incorreto, num momento INFELIZ, num poder sem precedentes da comunicação, que passa agora claramente por um renascimento da barbárie, como bem lembrado por Edward Said sobre as perspectivas do historiador Eric Hobsbawm. [5]

Será que terei a liberdade de falar sobre esse assunto sem que eu seja a força da Ordem em seu espelho? Ordem pela desordem.

Não compactuei com o MEC – seja na tentativa de abolir Monteiro Lobato à retirada do Kit anti-homofobia[6]. Acho uma INFELICIDADE.

Um VAZIO, que peço emprestado a LEONILSON, em seu sarcasmo divino, a partir de uma belíssima curadoria – Sob o peso dos meus amores.[7] Nesse modo subjetivo e não dicotômico de falar de política.

Leonilson (1957-1993), Sob o Peso dos Meus Amores, 1990.

Notas:

(*) Reverberando BLOCH, Marc. A Estranha Derrota. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

[1] 1º de Dezembro: Dia Mundial de Combate à AIDS e sua História

[2] O politicamente incorreto com o seguinte parâmetro: de Leonilson a Nuno Ramos – com sua obra Bandeira Branca, desfeita na 29ª Bienal de Arte de São Paulo sob o artífice do correto. (Cura-dores: “arte para quê?”/

No entanto, para exemplificar uma mascarada vestidura perigosa e criminosa, do politicamente incorreto, a recente fala do aclamado diretor dinamarquês Lars Von Trier, quando em uma entrevista coletiva em Cannes falou sobre o nazista. Interessante perceber que alguns de seus fãs incorreram  pelo mesmo caminho ao defenderem Lars Von Trier nesse momento, como politicamente incorreto.  Já me identifiquei como ‘leitora’ dos filmes de Lars neste blog, mas deixo claro que Lars e fãs foram partícipes de uma história de horror. “Vale à pena ler o filósofo Islavoj Zizek, em entrevista a Revista Época, em 30 mai. 2011:No caso de Lars tem outra questão: o artista deve ser julgado pelo que ele faz. O que eles sabem está no que eles produzem. Muitos deles são idiotas.” (…).

[4] ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a literatura medieval. Trad. Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.ZUMTHOR, P. Tradição e esquecimento. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich São Paulo: Hucitec, 1997.

[5] SAID, Edward. Reflexões sobre o Exílio e outros enssaios. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 234.

[6] Vazios que refletem bullying, neonazistas, homofóbicos, queima de índios, agressões a nordestinos, e patrocínios de diversas guerras que superam os números de mortos das duas últimas guerras mundiais.  V. Tb. STF nega pedido para suspender livro de Monteiro Lobato em escolas públicas

[7] Sob o Peso dos Meus Amores, 2011: elogios à curadoria de Bitu Cassundé e Ricardo Resende, assim como as participações no seminário de: Ana Lenice Dias, Lisette Lagnado, Paulo Herkenhoff, Ricardo Resende, Maria Esther Maciel e Carlos Eduardo Riccioppo.

 

(**) Sugestão:

MESQUITA, Ivo. Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. São Paulo: Projeto Leonilson/ Cosac & Naify, 1997.

 

Cura-dores: “arte para quê?”

28 mar

Por Gisèle Miranda


A arte prolifera, mas não seria esse terreno feliz e arenoso a persuasão do vazio? O vazio revogado é o elemento que paira sobre as artes?

Leonilson, Cheio, Vazio: bordado e costura sobre voile e tecido de algodão, 1993

Hans Urich OBRIST ao reunir onze entrevistados, outrora curadores de êxitos deixou escapar que há de se ater com cuidado o tempo tranquilo da arte.

Singularidades técnicas, formações – o ´olhar´ – agregado de valores do tempo e prerrogativas morais, o ´olhar´ incisivo de Duchamp como fonte de ´olhares’, da geração do final dos anos de 1960 que ativou o ofício curador para triunfar em uma geração que viria abrir o leque da arte conceitual – por entre  ditaduras e democracias.

Walter Zanini está na teia dos onze curadores. Obrist o entrevistou em parceria com Ivo Mesquita e Adriano Pedrosa em 2003.

Zanini relembrou a crise do MAM/SP, instituição privada que foi o vetor da criação da Bienal de Artes de São Paulo, em 1951, ou seja, a flutuação dos anos de nacionalismo à internacionalização e industrialização da economia brasileira que antecederam aos longos vinte e um anos de ditadura militar no Brasil e, obviamente, os efeitos danosos deixados pela censura militar nas artes em geral. E como senão bastasse, não havia aproximação de países vizinhos como Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela porque também esses países passaram a viver sob ditaduras militares.

Particularidades temporais – Entrelaces e rupturas da 27ª Bienal às expectativas da 30ª Bienal

27ª Bienal de Artes de São Paulo (2006),  curadoria de Lisette Lagnado com título de um curso de Roland Barthes indiciou um vetor em meio às diferenças: “Como viver junto” ?

Mas, o que vem ocorrendo nas artes visuais (por exemplo) para que possamos esboçar na pichação, uma crítica policiada a um estado feliz, arenoso e vazio? Ignorar?

Em desdobramentos (ou rupturas), a 28ª Bienal (2008) sob curadoria de Ivo Mesquita –  foi vítima  (?) de pichações; também uma galeria de arte e uma faculdade de arte, ambos na cidade de São Paulo, e mais, o encarceramento de jovens do “pixo” de Belo Horizonte.[1]

A 29ª Bienal (2010), sob curadoria de Agnaldo Farias defendeu a idéia de um espaço vazio para destacar a arquitetura interna de Oscar Niemeyer. Mas a indiscutível beleza arquitetônica acabou dando o tom pejorativo da Bienal do vazio, a partir da questão: o que deve ser importante – a arquitetura ou o conjunto de obras da Bienal? Além, evidentemente do poli (ciamento) ou politicamente correto  que preponderou ao ser desfeita a obra Bandeira Branca do artista Nuno Ramos.

A 30ª Bienal de Arte de São Paulo (2012) estave sob curadoria do venezuelano Luis Pérez-Oramas, que estabeleceu seu artista de destaque – Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), interno de um manicômio, enjeitado social que caiu nas graças da grande arte.

A “figura periférica” de Bispo do Rosário foi posta em cena na Bienal de Perez-Orama  através da “invenção da linguagem”. Sim, linguagem periférica, símbolos resgatados pela inventividade dos magníficos objetos renomeados e realocados; pelos mantos bordados  por linguagens de um artista pleno, em um mundo desconhecido e encarcerado por ser diferente.

Que venha Arthur Bispo do Rosário! Que Arthur Bispo do Rosário nos permita a arte da diferença, neste aparente momento feliz, politicamente correto de proliferação artística.

Arthur Bispo do Rosario Manto da Apresentação Tejido e hilo. 118. 5 x 141 x 20 cm, s/d

Referências e sugestões:

AMARAL, Aracy. Arte para que? São Paulo: Nobel/ Itaú Cultural, 2003

OBRIST, Hans Urich Obrist. Uma breve historia da curadoria. Trad. Ana Resende. São Paulo: BEÏ Comunicação, 2010.

GREENBERG, Clemente e o Debate público. (Org. Glória Ferreira e Cecília Cotrim; Trad. Maria Luiza Borges). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed. 2001.

GRUPO de estudos sobre curadoria. São Paulo: MAM, curadoria de Tadeu Chiarelli, 1999.

Sobre artista Arthur Bispo do Rosário por Márcio Seligmann-Silva, clique aqui

Sobre o artista Leonilson, referências necessárias de Ivo Mesquita e Lisette Lagnado. Em exposição Sob o Peso do meus Amores sob curadorias de Bitu Cassundé e Ricardo Resende. V. Tb. Texto do Blog Tecituras sobre Leonilson, política e educação https://tecituras.wordpress.com/2011/06/19/%E2%80%9Ca-estranha-derrota%E2%80%9D/

 

Bienais de Arte de São Paulo, Salve Basquiat!

Arte Conceitual, ar e ar!

Documentário de João Wainer e Roberto Oliveira – PIXO http://www.youtube.com/watch?v=KHVwEq97ukg

Documentário de Vladmir Seixas  http://www.youtube.com/watch?v=UHJmUPeDYdg


[1] http://olhodecorvo.redezero.org/nova-cruzada-moral-e-caca-as-bruxas-o-pixo-em-belo-horizonte/“a grafia “pixo” no lugar de “picho’, conforme o uso que os ativistas fazem, diferenciando-se assim do termo oficial, que se tornou pejorativo” (Garrocho, L. C.) Sugestão Documentário de João Wainer e Roberto Oliveira – PIXO
http://www.youtube.com/watch?v=KHVwEq97ukg

BIENAIS DE ARTE DE SÃO PAULO (salve, Basquiat)

2 mar

Por Gisèle Miranda

 

Minha intenção com este texto é problematizar alguns acontecimentos da 28ª Bienal de Arte de São Paulo. Tais como: a abertura oficial da Bienal; o fato de um dos andares do prédio da Bienal sem obras, o que gerou a frase ‘Bienal do vazio’ e a pichação ocorrida dentro do prédio durante a Bienal.

Porém, o percurso que farei remete a 1ª Bienal de Arte de 1951, na época local adaptado. Ano em que foi pela segunda vez empossado o presidente Getúlio Vargas (1882-1954), pelas mãos de seu antecessor presidente Gaspar Dutra (1883-1974).

Vargas historicamente ficou conhecido como um ‘nacionalista’ de práticas ‘populares’ e ‘populistas’ (criação da carteira de trabalho, o aumento de 100% do salário mínimo, ‘o petróleo é nosso’, entre outros). Mas por outro lado, cometeu o inesquecível e inequívoco apoio ao Fürer, através do ato de deportação a Alemanha de Olga Benário Prestes (1908-1942), grávida do então, ‘cavaleiro da esperança’ Carlos Prestes (1898-1990). Olga quando entregue ao nazismo foi assassinada, sendo uma dos seis milhões de judeus assassinados na história do holocausto.

Não perdi o fio Ariadne, apenas faço um leve apanhado histórico do entorno da 1ª Bienal. E o destaque do ‘nacionalismo’ que aludia o governo ia na contra mão dos questionamentos levantados para a Bienal pelo organizador da mesa redonda, a figura de Flávio de Carvalho (1899-1973), arquiteto, pintor e performer que participou do ‘modernismo’ da década de 1922.

Performance de Flávio de Carvalho: traje tropical, 1956.

As discussões tomaram corpo via questões:

a) por que sob auspícios dos ‘autoritários’ e já ultrapassados ‘modernistas’?

b) Arte de grã-fino?

c) Qual o significado da Bienal?

d) Será que obra realizada por um louco é arte?

e) Arte figurativa ou abstrata?

As questões acima geraram muitas polêmicas e até mesmo ‘tapas’.  Os antigos ‘modernistas’ foram massacrados. E, sobre a questão – arte de ‘louco’ ou pessoas com problemas psíquicos poderiam ser artistas – chamo a discussão o trabalho pioneiro no Brasil da psiquiatra junguiana Nise da Silveira (1905-1999), que respondeu com resultados indiscutíveis, fechando assim, não uma questão, mas discutindo o preconceito. Vieram Emygdio de Barros (1895-1986), Raphael Domingues (1912  – 1979 ) entre outros; e se não bastar, o divino Arthur Bispo do Rosário (1909-1989).

Arthur Bispo do Rosário com seu manto bordado s/d

Sobre figurativo ou abstrato houve reverberação na nova geração de artistas de 1951, que ficou dividida em dois grupos manifestos: o ‘Ruptura’ encabeçado por Waldemar Cordeiro (1925-1973), Abstracionista, Concretista e, em 1959, Neoconcretista. Versus o ‘manifesto contra o manisfesto’ ou o segundo grupo – ‘Consequência’ -, cuja participação de Gontran Guanaes Netto (1933-), figurativo, e de comprometimento político permanece nos dias de hoje. Embora hoje essa divisão não seja polêmica como outrora.

A segunda Bienal, já no prédio projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012) e Burle Marx (1909-1994) no Parque do Ibirapuera continuou rançosa, pois perdurava o questionamento sobre o significado da Bienal. Problemática que ficou em segundo plano já que o importante foi associar a Bienal aos festejos do IV Centenário de São Paulo, ou seja, em 1954, ano do suicídio do então presidente Getúlio Vargas.

As Bienais percorreram tempos em que seu significado ficou abafado. Tempos adversos, tempos de ditadura militar em que o artista Cinético e alquímico Julio Le Parc (1928-) protestou com sua ausência na Bienal de 1964. Tempos de reabertura democrática, ‘diretas já’, ‘impeachment’, enfim, tempos em que a arte tomou a dianteira e assumiu sua potência.

Nada de bola de cristal, mas a natureza própria de sua indomável ou insubmissa coragem de compor os tempos sendo sua própria vanguarda. E, ao mesmo tempo, cobrindo um necessário olhar ao passado para justificar sua existência e seu indiscutível fascínio de estarrecer, criar,  fazer, tocar as feridas e as consciências. De criar um possível -um devir.

Após a experiência da Bienal, reporto-me em memória na cobertura  da 27ª Bienal de Arte, sob curadoria de Lisette Lagnado e sua proposta de ‘como viver junto’. Matéria que em 2006/2007  foi ao ar no canal São Paulo.  Algumas obras foram para as ruas, em bairros de baixa renda e centro expandido.

Ainda como eco, o significado da Bienal foi discutido como prévia a abertura oficial através de psicanalistas, historiadores, filósofos, artistas, entre outros. Nos eventos que participei deparei com uma boa quantidade de pessoas interessadas em ouvir, discutir, debater sobre as obras e sua configuração à ideia de como viver junto, seja ela abstrata, figurativa, conceitual.

Neste mesmo período, o Memorial da América Latina expôs um ‘novo muralismo latino-americano’, via trabalho de grafiteiros,  em diapasão nominal dos pichadores. A curadoria dessa exposição foi do grupo comando da Galeria Choque Cultural (B. Ribeiro/ M. Martins/ E. Saretta).

Vejamos o que diz a galeria sobre o tema:

“Numa visão simplista, costuma-se associar a pichação ao vandalismo inconseqüente… enquanto os graffiti seriam obras de arte, realizadas com autorização e competência… Mas, na verdade, não existe uma linha clara que separe o graffiti da pichação.
A pichação é uma forma de comunicação marginal, cultuada por estudantes do mundo inteiro, durante os anos ‘60 e ’70… ‘Abaixo a repressão’… Quanto aos museus, melhor do que tentar colocar a cidade dentro deles, seria abri-los para a arte que acontece a sua volta.”

Em 2008, a Galeria Choque Cultural foi pichada e algumas obras danificadas. A Galeria foi vítima de um ‘protesto contra a comercialização de obras das ruas’. Pouco tempo antes, o Centro Universitário Belas Artes foi pichado por um aluno que imprimiu na sua atitude ou vandalismo (como foi divulgado pela mídia), a proposta de seu trabalho de conclusão de curso.

Entrada da Galeria Choque Cultural, 2008.

Ainda em 2008, na 28º Bienal de Arte sob curadoria de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen – ‘em vivo contato’,  a Bienal foi pichada, justamente no segundo piso que ficou propositalmente vazio, dando o apelido de ‘Bienal do vazio’, que segundo a proposta da curadoria – visava promover ‘uma reflexão sobre o sistema das Bienais’ enfatizando a ‘arquitetura e romper com o tradicional’.

Pichação no prédio da Bienal, 2008

Antes da abertura oficial da 28 Bienal – de praxe as discussões bem pontuadas: para quê a Bienal? Para quem? E ao mesmo tempo, através dos convidados palestrantes fazer um apanhado sobre todas as Bienais desde 1951.

Destaco por escolha muito oportuna, o encontro que se deu em 18 de setembro de 2008 com a presença do crítico de arte Alberto Tassinari e o artista José Resende que em lugar de sua fala preferiu o silêncio e um pedido ao cinegrafista – pedido um tanto esquisito no primeiro instante – mas muito sagaz em um segundo momento: – filme a platéia! E, apesar de serem oradores de renome e essas atividades divulgadas em jornais de grande porte, a platéia estava vazia. No máximo 15 pessoas contando com os curadores e o quadro de pertencimento organizacional.

A ‘Bienal do vazio’ se deu anterior ao vazio oficial, e independente da arquitetura magnífica de Oscar Niemeyer.

A pichação na tênue linha de ser arte ou não – não foi tênue e muito menos novidade.

Salve, Basquiat! E que venha Bispo do Rosário!

J. M. Basquiat, (1968- 1988).

Referências:

AMARAL, A.  Arte para quê? A preocupação social na arte brasileira 1930-1970. São Paulo: Studio Nobel, 2003.

BASQUIAT (filme). Dir. Julian Schnabel, EUA, 1996, 106 min., color., son., leg. português (http://www.miramax.com/basquiat) (imperdível David Bowie como Andy Warhol)

GULLAR, F. Etapas da Arte Contemporânea: do cubismo à arte neoconcreta. Rio de Janeiro: Revan, 1999.

Filme Nise da Silveira Nise, o coração da loucura.

Documentário de João Wainer e Roberto Oliveira – PIXO http://www.youtube.com/watch?v=KHVwEq97ukg

Documentário de Vladmir Seixas http://www.youtube.com/watch?v=UHJmUPeDYdg

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