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Série Paschoal Carlos Magno IX: a Concentração e o marco Shakespereano no Brasil

16 out

Por Gisèle Miranda


Os Teatros de Estudantesos mais de quatrocentos que a ditadura matou-os um a um -, que por volta de 1980, Paschoal à beira de atear fogo na Aldeia de Arcozelo (que era para ser uma Universidade Livre de Artes) em ato de desespero berrou como um louco, quixotesco, um bobo aos olhos dos militares que estavam no poder.

Paschoal persistiu porque havia saído de uma longa batalha, desde 1929, com a criação da Casa de Estudantes por d. Anna Nery e por ele.

Nos idos de 1939, após ter criado o Teatro de Estudantes do Brasil, e durante suas atividades diplomáticas, Paschoal conheceu Hoffmann Harnish, na época, um notável ator e diretor de Shakespeare pela Europa.

Longe do Brasil, Paschoal acompanhou e delegou funções à Maria Jacintha e a José Jansen para que, sob pulsos, comandassem as atividades do Teatro de Estudantes, enquanto estivesse amealhando recursos para o Teatro Brasileiro.

Essa missão de personagens culminou na ideia de ensaiar e apresentar Hamlet. No papel de Hamlet foi escolhido o estudante de Direito, Sergio Cardoso. Pernambuco de Oliveira fez a cenografia, sob indicações de Santa Rosa. Walter Schultz Portoalegre na música, e Jacy Campos na assistência geral. Direção: Hoffmann Harnisch.

Em 6 de janeiro de 1948, às 21 horas:

Fazia muito calor. Imenso. Sufocante. Mas Shakespeare toma conta da salva visual e auditivamente. Domina esse milhar de espectadores. Vêm as primeiras palmas, calorosas. Aplausos… 16 chamadas à cena… delírio coletivo... (PCM, Obrigado Hoffmann Harnisch. In: jornal Correio da Manhã, 14 jan. 1948.)

A proposta de um Festival Shakespeare surgiu em 1949. Na bagagem, a apresentação do Teatro do Estudante do Brasil (TEB), de 1938: Romeu e Julieta (Paulo Porto e Sônia Oiticica), sob direção de Itália Fausta, marcando a primeira apresentação de Shakespeare no Brasil. (em português)

E, o inesquecível e o melhor Hamlet – por Sergio Cardoso, segundo Bárbara Heliodora.

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Sem dúvida a maturidade do TEB para o festival Shakespeare veio também das prerrogativas, já entranhadas do que viriam a ser as Caravanas e as Barcas da Cultura: a forma de palco que nasceu das carroças ambulantes da Idade Média. (Heliodora, 1997, p. 6)

Os atores que participaram dos estudos para o Festival Shakespeare (1949) vinham de um Seminário de Arte Dramática (1948) e, mais especificamente, vindos da Concentração dos Estudantes, criado e organizado por Paschoal, que ocorreu de 15 a 31 de jul 1947.

Em uma casa do bairro carioca (RJ), no final dos anos de 1940, jovens – homens e mulheres – reunidos. Os rumores do aglomerado jovens e artistas foram previamente atacados com os registros diários dos grupos da Concentração – através do jornal Correio da Manhã.

Sob direção geral de Paschoal Carlos Magno e alternância do diretor do dia, todas as manhãs aulas de línguas (francês, inglês, italiano), ritmo, esgrima, arquitetura, etc., das 13 às 18 hs ensaios das peças. Depois do jantar, conferências, debates, palestras, uso da biblioteca, sala de piano, discoteca.

O diretor do dia assinava a coluna do Jornal Correio da Manhã – por duas semanas, a cada dia, um diretor diferente: Hermilo Borba Filho, Sérgio Brito, Jacy Campos, Carlos Couto, Elísio de Abuquerque, entre outros. Palestrantes Lúcio Cardoso, Agnes Claudius, Hoffman Harnisch, Viriato Correa, Anna Amélia, Olga Olbry, Ester Leão, Luiza Barreto Leite, entre outros.

Mas, como tudo isso aconteceu? Tal como o Incrível Exército de Brancaleone[1]?!

O Festival Shakespeare de 1949 apresentou Hamlet, Macbeth, Romeu e Julieta e outras peças. Por trás dessas montagens, diretores, músicos, dançarinos, cenógrafos, palestrantes, contas para pagar de alugueres de teatros, roupas, alimentação, etc.

Paschoal Carlos Magno chegou até: a Despedida do fracassado:

…Pensei que me ouviriam. Dei tudo…de entusiasmo, trabalho… assumi pessoalmente compromissos financeiros… serão postos a venda mais de mil livros de minha biblioteca… a Ceia do Senhor de Gregório Prieto… lamento não poder encenar Otelo e Sonho de uma noite de verão, já prontas ensaiadas nos seus menores detalhes… (PCM, Despedida do Fracassado. In: jornal Correio da Manhã, 23 jun 1949.

Em seguida, os Teatros de Estudantes (TE’S – regionais e independentes desdobramentos do Teatro dos Estudantes do BrasilTEB) além dos Teatro dos 12, Teatro Experimental do Negro (TEN), entre outros, uniram-se aos anônimos que peregrinaram através de suas cartas, telefonemas; gestos que se transformaram em uma legião – em um Exército de Brancaleone –, fazendo com que Paschoal escrevesse: Meu ato de Contrição: é preciso também salvar o teatro profissional brasileiro.

…Como dizer obrigado aos humildes, anônimos, pequeninos que, em tão grande número, me cercam… caras na sua maioria desconhecidos… Eu me penitencio de haver, num instante de fraqueza, me esquecido da reserva de bondade, idealismo do meu povo, de haver enchido de desespero, inquietação, a existência dos milhares de jovens que pelo Brasil afora afrontando dificuldades inacreditáveis, estão enriquecendo nossa vida como nação, através do teatro… (PCM. In: jornal Correio da Manhã, 28 jun. 1949)


Referências

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

HELIODORA, B. (1923-2015) A expressão do homem político em Shakespeare. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.

HELIODORA, B. Falando de Shakespeare. São Paulo: Perspectiva; Rio de Janeiro: FUNARTE: Cultura Inglesa, 1997 (Estudos, 155)

SHAKESPEARE, W. Tradução Barbara HELIODORA. William Shakespeare: Teatro Completo. São Paulo: Nova Aguilar, 1999. V. I e II.

ZUMTHOR, P. A letra e a voz: a ´literatura´ medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1993

Jornal Correio da Manhã, de 9 de maio de 1947 a 31 de julho de 1947.

Jornal Folha de S. Paulo, 21 maio 2009.Muito barulho por nada. (entrevista com Bárbara Heliodora por Lucas Neves)


[1] Baseado na obra de Cervantes – uma sátira medieval que enfocando o cavalheiro Brancaleone de Nórcia – foi dirigido e encenado por um amigo de Paschoal: Mario Monicelli, em 1966.

Série Paschoal Carlos Magno VII: ingênuo ou comprometido?

11 ago

Por Gisèle Miranda

 

É realmente constrangedora, para um velho combatente como eu, a miopia daqueles que esbordoam moços, porque desejam pensar alto… inquietos carregados daquela flama da paixão que é privilégio dos moços e daqueles que, não sendo medíocres, envelhecem com o mesmo ardor e o mesmo entusiasmo… {Paschoal Carlos Magno, Diário de Notícias (196-): A miopia da repressão}

O teatro de Paschoal e suas derivações, ascendentes de laboriosas designações, tais como paschoalino, quixotesco, franciscano, entre outras, refletem pois, o paschoalhar, quase em tom de bufão.

Proposta imagética do quixotesco Paschoal Carlos Magno, por Jesualdo Gelain, dez. 1999

Há um despojamento de interesses pessoais por parte do criador e condutor das Barcas e Caravanas da Cultura (décadas de 1960 e 1970), assim como há contradições em suas vinculações políticas.

Paschoal se aproximou da política enquanto visionário das artes, e não como efetivo membro da direita ou esquerda. Sua trajetória política foi bizarra – não encontrando eco nem respeito partidário.

Ingênuo ou comprometido? Como pensar no profissional da diplomacia diante de um ou outro? Os tempos eram outros, de silêncios, de meias verdades, de cerceamento das liberdades.

Como pensar, por exemplo, a perspectiva do Cinema Novo desvinculado da União Nacional dos Estudantes (UNE) e do Centro Popular de Cultura (CPC), ou seja, de seus progenitores? – “A esquerda cobrava de Glauber Rocha uma coerência política que ele nunca teve. Glauber cobrava da esquerda…” [1] uma sensibilidade artística que ela não tinha?

Os votos trouxeram a Paschoal, a possibilidade do retorno ao Brasil. Os votos deram-lhe a dignidade e respeitabilidade por parte de seus seguidores. Os votos deram-lhe a possibilidade de criação do bufão diante das autoridades que dominaram por mais de vinte anos o Brasil.

Como louco inofensivo, Paschoal transitava por vias alternativas e de pouca vigília militar. Assim acolheu em tempo impróprio, a fome e a sede da juventude, que em agrupamentos, eram considerados de alta periculosidade.

Nem todos os jovens de esquerda, ou simpatizantes puderam fugir de seu país quando havia complicações. Muitos, em todas as ditaduras militares latino-americanas, morreram. Outros lutaram por suas convicções até o último momento, e depois foram exilados. Dolorosas histórias de perdas e danos. [2] Mas, e os que aqui ficaram?

Paschoal foi galgando questões morais que se tornaram intrínsecas às questões políticas. Travou uma larga luta por respeitabilidade aos profissionais das artes e princípios coletivizados em tempos que, o coletivo era pernicioso.

Também abriu um espaço cultural além dos limítrofes das grandes cidades burlando dificuldades quanto à ausência de investimentos, muito além do louco mecenato do qual, em parte bancou o teatro brasileiro. Foi andarilho de interlocuções; sobrepôs teorias e metodologias às mirabolantes performances.

Sua maior titulação não foi a de bacharel em direito, nem tampouco de embaixador, pois nunca assumiu uma embaixada, devido a sua aposentadoria forçada. Sua maior titulação foi a de Estudante Perpétuo do Brasil, dada pela União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1956.

 

Referências:

BARCELLOS, Jalusa. CPC da UNE: uma história de paixão e consciência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

GOMES, João Carlos Teixeira. Glauber Rocha, esse vulcão. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1997,

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).


[1] BEIRÃO, Nirlando: Glauber had sept cabezas. São Paulo: Revista Bravo! Março, 1999, ano 2, n. 18, p. 48.

[2]   O relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Acessado em 1 de fevereiro de 2017.

Série Paschoal Carlos Magno II: “Sol sôbre as palmeiras”

12 jul

Por Gisèle Miranda

 

Vou Paschoalando pelas ruas… Dom Quixote aparece sem auréolas, simplesmente como um ser humano, cuja justificação – é preciso dar-lhe alguma? – é de não ser unilateral, mas de alma que se renova com a fôrça universal de cada sonho. (MAGNO, P. C., 1969)

Paschoal ou Lúcio?

“Sol sôbre as palmeiras”(1962) foi o segundo livro de Paschoal Carlos Magno; é um romance histórico e autobiográfico com espacialidade delineada pelo morro de Santa Teresa ou morro Paula Matos, na época, bairro de ostracismo da cidade do Rio de Janeiro.

Lúcio – personagem central. Seu Chico, o pai, autodidata e criador do teatro da família Carlos Magno. Ele lia para os filhos e descrevia o que imaginava ter visto. Quando titubeava, no dia seguinte retornava ao assunto após pesquisas.

Dona Josefa, a mãe fervorosa em sua religiosidade que explicitava nos cômodos da casa imagens de santos católicos. No dia a dia, a compra fiado do pão, inadimplência dos alugueres, mas a cumplicidade junto ao marido à compra de muitos livros e, até: de Madona à Duse – sementes do Teatro Duse:

Seu pai é doido… substituir a Madona por um retrato de atriz… – Não o leve, mamãe… Veja: (Lúcio apontava à Duse) – tem um ar de Madona. E nessa noite Lúcio não se espantou de encontrar acesa a lamparina junto do retrato de Eleonora Duse-Checchi (1858-1924). Nessa noite e daí por diante. (MAGNO, 1922, p. 20-21)

Elenora Duse-Checchi, s/d

Em 1947, a atriz Henriette Morineau durante a famosa Concentração do Teatro do Estudante, sequenciou a crença do Teatro do Estudante celebrando e glorificando a madona Eleonora Duse: …com os olhos enevoados… abriu a bolsa e tirou uma nota que depositou no chão de veludo escuro do altar. (Jornal Correio da Manhã, 31 jul., 1947.)

Elenora Duse-Checchi, 1922

A atriz Eleonora Duse esteve no Brasil em 1885. A cidade do Rio de Janeiro foi a primeira de sua carreira internacional.  Mas o grande público da “prim´attrice assoluta” ainda não existia nos trópicos. Ressentida com poucas palmas, cadeiras vazias e, apesar das notas de jornais de alguns admiradores, deixou registrado:

um grande, grande teatro… murmúrios ininterruptos na platéia e nos camarotes, do princípio ao fim da peça… eles não conhecem de minha voz senão uma parte infinita e miserável, sem falar das dificuldades da língua (minha doce língua italiana, ao lado dêsse português tão rude, e do brasileiro ainda pior… (trecho da carta enviada por Duse à Mathilde Serao; carta publicada em A vida de Eleonora Duse, de Max Reinhardt)

Duse retornou ao Brasil em 1907. Desta vez, ovacionada pelo público, porém mais amargurada do que nunca. Sequer concedeu entrevistas, isolando-se até dos amigos, atitude que encolerizou Arthur de Azevedo:

Duse, a inacessível Duse, que fugindo a reportagem e aos Kodaks, torna-se quase um mito… neurastenia? aborrecimento?… vaidade? orgulho? ou desprêso de Deusa para com os míseros mortais?  (ABREU, 1958, p. 15)

Quem foi Eleonora Duse para Paschoal Carlos Magno? Não apenas a capacidade imensurável às interpretações, mas a figura imponente de mulher, sua trajetória de vida determinada pelo mambembe – em qualquer lugar e em qualquer hora. Princípio este que articulou as bases do Teatro do Estudante do Brasil, as Caravanas e Barcas da Cultura, Teatro Duse e Aldeia de Arcozelo.

Para Paschoal, as reações adversas de Duse no Brasil deveu-se a pressão de um momento pessoal desesperador – do falecimento do ator de sua companhia (e também seu amante esporádico) Arturo Giotte, acometido de febre amarela pouco depois de desembarcar no Brasil em sua primeira tournée. Além, é claro, da pouca receptividade do público brasileiro.

 

 

Referências

ABREU, Brício. Eleonora Duse no Rio de Janeiro (1885-1907). Rio de Janeiro: MEC, SNT, 1958.

MIRANDA (ou MADEIRA), G. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo: 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

MAGNO, Orlanda Carlos. Pequena história do Teatro Duse. Rio de Janeiro: SNT, 1973.

MAGNO, Paschoal Carlos. Tempo que passa. Rio de Janeiro: s/ed., 1922.

_____________________. Sol sôbre as palmeiras. Rio de Janeiro Letras e Artes, 1962.

_____________________. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

_____________________. Poemas do irremediável. Rio de Janeiro: Cátedra, 1972.

_____________________. Tudo valeu a pena. m.s, s.d.

REINHARDT, Max. A vida de Eleonora Duse. Rio de Janeiro Livraria José Olympio Editôra 1940.

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