Tag Archives: Bas Jan Ader

Série Ficcional H. Miller XXVI: Do Pacífico ao Atlântico

26 jan

por Lia Mirror

 

 (…) Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina…
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico… E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Ode Marítima, 1890.

 

 

Enquanto içava as velas no Atlântico lembrei dos 23 tripulantes resgatados de um naufrágio; um não sobreviveu a sua própria tormenta. Antes mesmo de chegarmos em terra firme, o lobo do mar jogou-se no Pacífico como isca para tubarões, amarrado à proa numa enorme corda. O nó que o galego marinheiro fez tem nome: chama-se Bispo do Rosário, em homenagem a outro marinheiro.

Logo, contando comigo retornamos aos 23. Somados 2+3 resultou no número de tripulantes dessa nova empreitada pelo Atlântico.

 

O propósito dessa viagem é resgatar Bas Jan Ader, ou, quiçá oferecer-lhe minha escuta ou o desejo de percorrer limites e sentir do ardor a dor. Ser ridícula como no poema de Álvaro de Campos: só para ridículos como nós. Debater a queda; cair da bicicleta, cair do telhado, cair da árvore, cair no rio que leva o corpo, que afoga por instantes e que salva por um ‘triz’. Adentrar as profundezas do mar. E de tanto borbulhar o mar, tropeçar e dizer amar.

 

 

Não! Bas Jan Ader não foi salvo. Ele foi libertado. Cansou do riso fácil, enquanto a olhos nus relampejavam seus estudos sobre a queda e o limítrofe de vida e morte. Tênue fio da navalha. “Ele partiu e nunca mais voltou…”.

Quando dei por mim, estávamos nós cinco: Bas Jan Ader, seu Alberto, meu amigo ancião Blake, Miller e eu.

O medo da solitária viagem pelo Atlântico dissipou-se. Abrimos nossos braços às tempestades, gritamos aos deuses impropérios, embriagamo-nos de nossas falas ao falo. Trituramos nossa própria carne, cuspimos trovoadas e retornamos ao desejo. Do desejo ao gozo como em um álbum além  mar… mar… mar… a… mar!

 

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Série Ficcional H. Miller XXIII: “Sei que a água é tranquilizante para os loucos, assim como a música” (1)

9 abr

por Lia Mirror, Gisèle Miranda & Laila Lizmann

 

Depois de ser esbofeteada por argumentações lascivas à liberdade tive que me afogar. Não esbocei nenhum nado, nenhum movimento de sobrevivência. Quis sentir a tranquilidade dos loucos enquanto ouvia o som daquele mar escuro e das borbulhas do pensamento.

Não esperava nada (r), assim fui deliciosamente tragada pela queda em câmera lenta. Ao abrir os olhos deparei-me com Robert Redford aos 77 anos, sem dublê, em seu retorno a “origem” através do personagem solitário de um barco naufragado. (2)

No fundo do mar e com os braços abertos eu estava exatamente como ele. Íamos nos olhando como um espelho até que nossos pensamentos foram perdendo a razão e, consequentemente passamos a nos ver como alucinação. Mas como nos víamos naquela escuridão?

No instante em que percebemos a luz em nossos corpos à deriva movimentamos nossos braços como nadadeiras e desesperadamente subimos à superfície. Fomos resgatados por um barco com 23 tripulantes. Foi uma noite conturbada.

Enquanto contava para seu Alberto sobre a noite passada em um almoço, ele tossiu como um pedido para falar. Interrompi meu naufrágio e ele perguntou: – você não viu o Bas Jan Ader? (3)

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Bas Jan Ader (1942-1975), “Historiador”. 30ª Bienal de São Paulo, 2012 (foto G.M)

Lamentei não ter visto o Bas Jan Ader. E disse a seu Alberto: – prometo procura-lo quando estiver no Atlântico, pois estive no Pacífico. Ele levantou as sobrancelhas e pediu-me com um gesto que continuasse minha desventura. Mas, imediatamente levantou novamente as sobrancelhas. Às vezes preciso decifrar o seu Alberto como um código visual, pouco sonoro. Logo fomos interrompidos por aquela voz conhecida.

– Com licença, o que temos hoje além de Robert Redford?

– Maldito H. Miller! (falei)

– Que prazer, H. Miller ! (falou seu Alberto)

Miller sentou-se conosco e olhou-me como há muito tempo não fazia. Seu Alberto apenas sorria. Então eu disse: – Quis me revoltar contra tudo e contra todos: – “inclusive contra a mim mesmo (a)”, dissemos Miller e eu concomitantemente esse finalzinho de frase; e ele continuou: – O desejo de liberdade é um desejo de um condenado! (4)

– Liberdade como fim da dominação! Sem a condenação do “Outro” imposto pelo sexismo. (disse, exasperadamente)

– Vamos continuar nossa conversa no balanço do barco. Convido a todos para um passeio pelo Atlântico, o que acham? Vamos mergulhar com Bas Jan Ader.

 

Referências/notas:

(1) Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, p. 115.

(2) Filme: ATÉ O FIM (All is lost) Direção C. Chandon. EUA, 2013, 106 min., color., son., leg. Português. O Único personagem do filme é interpretado por Robert Redford. A palavra “origem” entre aspas deve-se ao comentário de Redford por seu retorno a seu ofício de ator, já que esteve afastado um bom tempo em função da co-criação e militância do Festival de Sundence e em seu outro ofício como diretor de filmes.

(3) Bas Jan Ader (Winschoten, 1942- Atlântico, 1975) desapareceu “no oceano Atlântico ao tentar atravessá-lo com minúsculo veleiro enquanto realizava a segunda parte de um tríptico chamado In Search of the Miraculous”. In: Catálogo da 30ª Bienal, 2012, p. 110-111. Documentário de Rene Daalder, O desaparecimento de Bas Jan Ader, 1975

(4) MILLER, Henry. A hora dos assassinos. São Paulo: Francis, 2003, p. 114.

30ª Bienal de São Paulo: Os fios tecidos de Arthur Bispo do Rosário

21 set

por Gisèle Miranda

 

A Bienal se reencontrou com as obras de Arthur Bispo do Rosário e desta vez sob curadoria de Luis Pérez-Oramas.

Pérez-Oramas foi incisivo em sua “iminência das poéticas” e nas vozes diferenciadas que ecoam. Esse é o elo, o fio de Bispo (outrora de Ariadne) que fia e desfia na arquitetura de Oscar Niemeyer. Se Babel, labirinto ou oceano, as vozes apresentam-se  em um “ensaio polifônico”.

Em meio a isto, Bispo surpreende. Foi alvo da limpeza social da época, escapou da lobotomia e conviveu sob preconceitos, mesmo que isso não tivesse claro para ele. Melhor assim, bastavam as vozes de sua esquizofrenia já que as vozes do Estado e da sociedade só o discriminavam.

Superação com sentidos variados incluso pela perspectiva-escrita de Rodrigo Naves quando relacionou a vida de Bispo (e de muitos outros artistas) às dificuldades gritantes de nossos atletas, visto pelo histórico e os recentes jogos Olímpicos e Paralímpicos. Disse ele:

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão. Se a injustiça social não encontrou entre nós – ao menos até os anos 80 – uma resposta política efetiva, parece fora de questão que artisticamente nosso meio cultural seria muito menos rico sem a contribuição daqueles que teriam tudo para permanecer silenciosamente à margem. [1]

De fato essa correlação é muito oportuna. Alguns superam “a margem” quase como um milagre. Para o descrente, a revolta e a certeza que muitos ficaram no caminho sem volta.

Arthur Bispo do Rosário

A 30ª Bienal foi tomada pelo fio e desfio de Bispo do Rosário – o des- A- fio de suas vestimentas, das palavras bordadas e alinhavadas aos pensamentos. Bispo é nosso Oceano Atlântico. Nele Bas Jan Ader continua vivo no encanto performático e mítico de seu desaparecimento. [3]

O oceano Atlântico que expurgou o marinheiro-artista Bispo do Rosário é o mesmo que sugou o artista-marinheiro Bas Jan Ader – se nos atermos sobre “a falha, a queda, o risco… e a finitude da vida”[2] – elementos intrínsecos a curadoria sem estrelismos de Pérez-Oramas; “clean” para a maioria crítica, mas com a consciência histórica das Bienais desde 1951 às oscilações da 29º Bienal em meio às controvérsias da”pichação e do vazio”. (*)

Neste oceano há fios, redes conectados à arte têxtil de Sheila Hicks, “rejeitando os limites tradicionais que separam a arte, artesanato e design”, seduzida pelos cantos inebriantes da “tecelagem das Américas do Sul e Central”[4].

Michel Aubry também içado pelos fios costurou “mobílias, instrumentos, tecidos…” como mantos históricos e com seus “sintomas políticos e sociais ”[5]. Em um dos mantos  – “sobretudo” – Aubry imprime traças à visão de tragédias e intolerâncias de um passado recente e numa taxidermia com linhas e agulhas.

Bispo alinhavou com outros artistas, cortou, fez e desfez no “risco” de Bas Jan Ader à preponderância das texturas, dos tecidos e tons, visibilidades geracionais em consonância a identidade e a coletividade através das fotografias de Hans Eijkelboon, na moda dos anos de 70 e 80 do Studio 3Z , de August Sander, entre os 111 artistas desta 30ª Bienal de São Paulo.

Muitos tecidos, muitas costuras, muitas experiências; muitas linhas e agulhas. Por quê? – Há uma amplitude e complexidade do tema. [6]

 

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Notas:

(*) V. Bienais de Arte de São Paulo: Salve, Basquiat

(1) Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014.

[2] Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo: A iminência das poéticas / curadores Luis Pérez-Oramas  {et al.}. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2012, p. 110

[3] Bas Jan Ader desapareceu “no oceano Atlântico ao tentar atravessá-lo com minúsculo veleiro enquanto realizava a segunda parte de um tríptico chamado In Search of the Miraculous”. In: Catálogo da 30ª Bienal, 2012, p. 110-111.

[4] In: Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo, 2012, p. 279.

[5]  In: Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo, 2012, p. 228-229.

[6] Walter Zanini em 10 de fevereiro de 2010 – na apresentação do Livro de: COSTA, Cacilda Teixeira da. Roupa de artista – o vestuário na obra de arte. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: EDUSP, 2009.

Outras referências:

ARTHUR Bispo do Rosário. Emanuel Araújo {et. AL} Organizador e curador Wilson Lázaro. Rio de Janeiro: Réptil, 2012.

BOUCHER, François (1885-1966) História do vestuário no Ocidente: das origens aos nossos dias. São Paulo: Cosac & Naify, 2010.

Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo: A iminência das poéticas / curadores Luis Pérez-Oramas  {et al.}. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2012

DANTAS, Marta. Arthur Bispo do Rosário: a poética do delírio. São Paulo: UNESP, 2009.

HIDALGO, Luciana. Arthur Bispo do Rosário: o senhor do labirinto. Rio de Janeiro: ROCCO, 2011.

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