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O pote de riquezas do arco-íris: Séries de ANTONIO PETICOV (Assis, SP, Brasil, 1946-)

10 dez

por Gisèle Miranda

O pote de riquezas do arco-íris é a materialização desse múltiplo e inquietante artista de notoriedade plástica construída pelo Modernismo Brasileiro, pela Vanguarda Tropicalista com interferências da Vanguarda Europeia.

Em sua Série Releituras, o gênero natureza-morta é representado por uma Cesta de Frutas de Caravaggio (1571-1610). Suas frutas são como as personagens: vivas, de uma violência gritante, para falar da dor e da luz sem piedade; o mesmo se dá com a natureza-morta, ele ousa com uma fruta machucada ou podre, a maçã, onde fundamenta sua crítica ao convívio religioso de sua época.

A pintura Caravaggio´s (1997) de Antonio Peticov é a releitura mais fiel. A pintura desse gênero foi muito mais comum no Barroco Laico e considerada gênero menor no Barroco Religioso. As cópias de pinturas são exercícios necessários. Courbet quando deixou o curso de Direito exerceu livremente seu ofício no Museu do Louvre e fez muitas cópias. Muitos fizeram e o fazem como estudos.

Ademais, como Caravaggio, Peticov é admirador das mulheres artistas, as tão poucas da História da Arte. Até meados do século 20, as mulheres artistas não eram bem vistas como pintoras ou intelectuais. Em geral os pintores não apoiavam pintoras. O gênero menor natureza-morta foi o indicativo de pinturas para mulheres em atividades recreativas.

De Pablo Picasso, Peticov abraça seu lado mais Cubista (além do charme). A Série Professor dedicado ao mestre Picasso, destacou a mesa como elemento pictórico comum do movimento, atrelado ao perfil de Picasso e associado ao conhecido perfil de Alfred Hitchcock (1899-1980). Daí por diante surgiram outros perfis, dos mestres aos amigos.

Na série O Cérebro e a Mente há uma trama histórica e memorial, significados coletivos que convergem na complexidade humana e artística. Peticov propôs, através da reflexão plástica, o uso da maquinaria, provendo-a com sabedoria.

Em The Trip in the Moon, de 2019, Peticov viaja com as cores à lua e com atitudes interiores, sob a inspiração fílmica de Viagem à Lua de Georges Meliès (1861-1938).

Em Nightfall , o dia potencializa o fluxo do rio de cor branca e que encontra o conteúdo imaterial do quadrado branco sobre o fundo branco de Malevich (1878-1935), ou seja, o transbordamento de possibilidades vivas. Nas curvas daquele rio, o curso delineado, a sublimação das cores no reverso – Noites neons, as conhecidas Torres e Escadas de Peticov, escaladas para o dia e para a noite.

Pouring à Pouring More – das telas à escultura, as cores brincam – um derramamento de cores ou o pote de riquezas do arco-íris?
É a magia do pote encontrado e o encantamento natural do sol com a chuva, incorporado a noite pela imaginação, pelos pincéis, tintas, madeira, mármore, aço e neon.

A casa/ateliê de Peticov é educacional, as crianças de todas as idades são bem-vindas, pois a casa é feita de jogos, quebra-cabeças, esculturas, pinturas e desenhos. Nos tornamos personagens de Lewis Carroll e percorremos sua incrível estória com várias interpretações históricas, através de uma mesa/ instalação/escultura por releituras de Carroll.

Referências:

(*) Parte desse texto foi publicado no catálogo da Exposição A LUZ de ANTONIO PETICOV, 2019 por Gisele Miranda- GALERIA RICARDO VON BRUSKY. Texto ampliado.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

Sobre Antonio Peticov:

https://www.peticov.com.br/ (site de artista)

https://tecituras.wordpress.com/2019/05/02/serie-releituras-visuais-e-breves-comentarios-iv-velazquez-1599-1660-e-a-releitura-de-antonio-peticov-1946/

https://tecituras.wordpress.com/2019/05/01/serie-releituras-visuais-e-breves-comentarios-i-o-barroco-laico-de-johannes-vermeer-deft-paises-baixos1632-idem-1669-e-a-releitura-de-antonio-peticov-assis-brasil-1945/

https://tecituras.wordpress.com/2017/02/15/serie-antonio-peticov-iv-cerebro-full-circle-2/

https://tecituras.wordpress.com/2017/02/15/serie-antonio-peticov-iii-cerebro-o-sonho-de-xama-2/

https://tecituras.wordpress.com/2010/06/01/serie-antonio-peticov-ii-cerebro-duck-dreams/

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