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A Peculiar Madri

28 ago
Por Sta. Sbaile

 

A chegada a um outro país é sempre motivo de excitação. Excitação nem sempre é uma coisa boa, mas, geralmente é. No entanto, naquele dia, me dava um pouco de medo; medo sim, porque eu havia programado uma viagem de dois meses e acabava de chegar a um lugar muito longe de casa: Madri.

Eu finalmente podia acender um cigarro. O funcionário da imigração olhou para a minha cara de latino-americana fumante e me viu tirar o maço do bolso. Eu perguntei para ele se precisava passar por alguma entrevista, ou algo do tipo, ele sorriu com aquela cara de latino-europeu fumante e disse: “Você está livre agora”. Nada poderia me causar mais alívio. Saí do aeroporto. Cigarro!

Sentei com a mala em um banquinho (não estava tão frio). Naquele momento eu só precisava fumar oito cigarros, encontrar o papel amassado com o endereço do albergue, pegar o metrô e chegar lá. Aquela filha da puta daquela mochila estava muito pesada. Cacete! Era um peso desgraçado e eu sentia meus ombros rasgando.

Check in: “- Brasileira, huh?” – disse o recepcionista.

– Espanhol, huh? – eu respondi.

– Aonde eu posso comer alguma coisa?
– Fala com o Adrián, ele cuida da cozinha.

– Você é o Adrián?
– Sou eu.

Eles dispararam a falar em Francês. Caralho. Comida, porra!

– Ô Adrianzão, meu chapa..

– Oh pardon!

– Je ne parle pas Français… ‘ Cê é’  francês?

– Não, basco.

Óbvio, ele não podia ser Francês. O Adrián era careca, lembrava um pouco o Barthez, mas tinha olhos azuis e olheiras bem demarcadas. Não tinha sobrancelhas ou barba. Uma mistura de Barthez com Collina, talvez, mais novo que ambos, suponho eu. Aquela mistura de bola de boliche com cabeça de lâmpada, porque ele era assim. Um tanto lustroso, magro, no entanto, também bem narigudo e antipático, além de um pouco grosseiro. Não. Talvez nem grosseiro, nem antipático, só esnobe.

E, aonde os bascos nascem? Eles precisam nascer nos países bascos para serem bascos? Ou basco é como judeu – você encontra em qualquer lugar mesmo uns sendo morenos e outros loiros? Eu, na verdade, não sei bem o que é um basco, só sei que eles existem, como os curdos. Mas o Manu Chao é basco, e ele não parece nem com o Barthez, nem com o Collina, nem com o Adrián. Tipo, um “citizen of the world”?

– Basco? Ah, eu conheço um basco!
– Sério? De onde?
– Ah, de CDs. O Manu Chao*. Ele é basco, não é?
(Sorriso)

– Sim! Você gosta dele?

– Claro, adoro os bascos!

– Que ótimo!… Hey, espera um minuto!

(Putz, fome! Muita fome!)

 

Capa do disco Clandestino – Manu Chao,1998.

O Adrián vinha meio pulando, meio andando e até meio cantarolando e, impressionantemente, simpático.

Yeah! Desbanquei a francesa na difícil saga pela comida no albergue. Comi. Ufa! Depois do papo sobre o Manu Chao, o Adrián virou brother. Obviamente eu fiquei pensando sobre o que é ser um basco, mas não podia perguntar isso a ele, então peguei um mapa no albergue e tentei achar os países bascos, mas eles não estavam lá. Os países bascos são vários países ou é um país só chamado “Países Bascos”? Antes de entrar em crise existencial por me achar ignorante e prepotente, fui ao wikipedia e lá encontrei informações sobre os bascos. Alívio.

Não dormi, ainda eram seis da tarde. Eu e minha companheira de viagem, a Malu, resolvemos sair para ver o que é que o Madrilenho tem, e fomos em busca das cervejas. Não sei se o mais adequado é beber cerveja na Espanha, mas é de cerveja que eu gosto. Talvez seja algo hereditário.

Meu bisavô cresceu na Alemanha, mas era Iugoslavo (o que significa que hoje, não sei dizer exatamente de onde ele era, já que a Iugoslávia não existe há algum tempo). Lembro dele sentado em uma cadeira de balanço, bebendo, quase o dia todo, aí ele ficava bêbado e dormia. E ele só bebia cerveja. Por isso, em casa, todo mundo bebe cerveja. Não bebemos vinho.

Esse bisavô tinha um problema nas bolas, as bolas dele eram enormes e minha avó queria que ele operasse de qualquer maneira, mas ele nunca quis deixar ninguém mexer nas bolas dele. Morreu disso, das bolas, e não do fígado – como imaginávamos que ele morreria, mas morreu bêbado, em casa, e as bolas dele estavam tão inchadas quanto intocadas. Não conseguiram achar uma calça que se adequasse ao velho defunto. E, obviamente, os homens da minha família morrem de orgulho disso – gente esquisita.

Ah, voltando à cerveja. Saímos. Bebemos. Tomando o caminho de volta eu já não estava nos meus melhores dias. Vi um Mustang fundido em uma parede, na verdade, só a frente de um Mustang. A Malu me perguntou como eu sabia que aquele carro era um Mustang. Não soube responder porque apesar de eu ainda não entender o que é um basco ou um iugoslavo, eu sabia o que era um Mustang. E era um Mustang azul calcinha. Era a frente de um bar e tinha uma plaquinha piscando escrito “Karaokê”.

– Vamos aí?
– Vamos!

Fumaça. Não dava para ver os rostos das pessoas, e não só porque eu já estava meio bêbada. Era escuro e tinha muita fumaça. Um balcão, uma bartender com mais cara de latino-americana fumante que eu, usava decote, peitudíssima. Meu pai acharia que ela é gostosa, mas eu achei um pouco gorda.

Banquinhos de oncinha, zebrinha e tigrinho. Reduto dos quarentões espanhóis. Um dia na vida você aprende que por mais que você ache que já tenha visto o brega, ainda existe a música pop espanhola – e lá estava ela, no meio da fumaça, dos quarentões, dos banquinhos de oncinha, da bartender peituda e do Pepe.

O Pepe era espanhol, quarentão, estava no bar e veio falar comigo. O Pepe era um pouco gordo, camisa xadrez e cantava música pop espanhola.

– Pepe! É idiota? Você é idiota, Pepe?
– Mas o que foi agora, Juan?
– Pô, Pepe! Você sabe que tem que ficar de olho! Eles estão por toda a parte! Não pode ficar bebendo a noite toda, tem que estar sóbrio para vigiar!

– Tudo bem Juan, você vigia a porta e eu continuo aqui, sem beber.

– Vou confiar em você! (E o Juan foi vigiar a porta)

Cinco minutos depois, ele volta com o José.

– Não tem condições! Vocês dois me deixam doido! Não posso fazer todo o serviço sozinho e… E você, quem é?

– Eu? Ah, eu não sou daqui não, sou brasileira.

– Brasileira? Eu sou Juan, de Sevilla. Da polícia secreta de Sevilla, mas agora estou aqui em Madri.

– Ah, sim, sim, claro!

– Conhece os mouros?

Calma! Pára tudo! Os bascos já eram complicados o bastante, e ele me vem com os mouros? Um cara, naquele bar, com um amigo chamado Pepe no meio daquele terrível pop espanhol, da polícia secreta, falando dos mouros?

– Malu, esse cara existe ou eu preciso ir vomitar?

– Não precisa, ele existe, mas se quiser uma desculpa para ir ao banheiro…

Otelo era mouro e ele era moreno, acho que os mouros são morenos, mas não negros. Agora não sei se existe mouro negro, porque existe judeu negro, mas não existe basco negro… No entanto, é possível que existam mouros judeus. Puta merda! Wikipediaaa!!! **

 

Cacilda Becker (Desdêmona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

Cacilda Becker (Desdemona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

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– Mouros?
– Sim, os mouros! E os bascos…
– Ah, os bascos! Eu sei quem são os bascos. Oba!
– Sabe? Hmmm… Eles explodiram Atocha, e vão explodir de novo! Por isso fui enviado com Pepe e com Jose, estamos vigiando…

– Vigiando…Os mouros?”
– É! E os bascos! Que vão explodir Madri!
– Entendo, entendo… Olha, eu conheço um basco.
– Não me diga!
– Sim, sim. O Manu Chao. E, pelo que sei, ele vai explodir a Atocha, é um líder basco, mas você provavelmente já sabe disso.

– É claro que eu não ia entregar o paradeiro do Adrián, mesmo porque, sem o Adrián não tinha cafezinho de graça, e nem Manu Chao no saguão do albergue. Além do mais, o paradeiro do Adrián era exatamente o mesmo que o meu, se o Pepe, o José ou o Juan me torturassem, eu ia ter que contar. Já o paradeiro do Manu Chao, ele poderia encontrar na parte de “cultura” do jornal. Entretanto, me arrependi depois. Ai meu Deus!

Juan permaneceu calado por aproximadamente dez segundos, fiquei com um pouco de medo sobre o que ele poderia fazer comigo, mas ele sorriu, abaixou a cabeça e sorriu de novo. Finalmente, ele olhou bem para mim e indagou:

– Eu já saquei! Eu saquei tudo. Você também foi enviada para cá, para me dar essa grande pista!

Antes de eu realmente acreditar que era Mata Hari em uma missão secreta e entrar na onda do Juan, perguntei ao Pepe:

– Ele já trabalhou para a polícia? Enlouqueceu na guerra ou alguma coisa do tipo?

– Ele é amigo de infância, se mudou para Madri há algum tempo, e é carteiro há uns dois anos, antes disso morava com os pais em Toledo.

– Ah sim, entendo…

Fiquei feliz com a resposta de Pepe, porque na linha tênue entre a sanidade e a embriaguês da minha cabeça de bagre, eu esperava uma resposta como: “Sim, somos parceiros, agora pare de beber e vamos vigiar, porque eles vão explodir Atocha!”

 

 

(*) Manu Chao (Paris, 21 de junho de 1961), cujo nome completo é Jose-Manuel Thomas Arthur Chao é um músico francês. Sua identidade com o povo Basco surgiu quando Manu montou o Mano Negra, uma banda eclética com influências de música francesa, espanhola, além da forte presença do punk via The Clash. O nome é uma homenagem a uma organização anarquista que operava na Espanha na época.

(**) Otelo, o Mouro de Veneza é uma obra de William Shakespeare escrita por volta do ano 1603.  Otelo é um general mouro que serve ao reino de Veneza, sua esposa é Desdemona. A trama gira em torno do “racismo, amor, ciúme e traição”.

Meu nome é VLADIMIR!

31 jul

Por Srta. Sbaile


 

Não faz muito tempo que a Gabriela me liga em busca de algum entretenimento casual. Chego no bar, ela não está lá. Latinas são foda, sempre atrasadas.

– Meu filho, me traz uma New Castle enquanto eu espero pela Gabi, por favor.

O bar está meio lotado, eu fico um pouco claustrofóbica. Um bando de europeus gritando, uns por cima dos outros, já bêbados. Argh! Que nojo eu tenho de pessoas amontoadas! O bartender me serve o pint. Eu me debruço no balcão para pegar a minha tão esperada New Castle quando…

– Mocinha! Essa cerveja é minha. (Um maldito inglês fala pra mim)

– Não, ela é minha.

– Não é, não. Eu pedi New Castle.

– Pois eu também pedi New Castle, Mr. Bean!

– Eu estava na sua frente.

– Tem seu nome escrito na cerveja?

– Você é um porre, menina.

– E você precisa de uma namorada.

Agarrei aquela New Castle como se ela fosse o Andrew Bird de cueca durante o meu período fértil. Fui andando em direção a uma mesa. O inglês grita:

– Qual é seu nome, princesa?

– Vladimir!

Não sei porque falei “Vladimir”. Acho que foi porque eu sempre me senti um russo, daqueles bêbados, barbudos e sem paciência. Um cara com seus quarenta e poucos anos. Sei lá, eu me sinto assim por dentro. Sabem? Esse é meu íntimo: o Vladimir. É, é isso.

 

Meu nome é Vladimir, mas pode me chamar de Vlad

 

No meio da confusão entre mim e o cara de fuinha britânico, o pobre do bartender se confundiu e me serviu um segundo pint.

– Queridão, você já me serviu.

– Já?

– Já. Olha aqui, bicho. Tô bebendo.

– Ah tá. Essa fica pela casa, então.

– Valeu!

Fiquei lá, com dois copos cheios me encarando. Até eu terminar a primeira cerveja, a segunda já ia estar quente. Foi aí que eu ouvi:

– Uma New Castle!

De uma mesa, sozinha, lá num cantinho do bar, uma menina magrinha grita para o bartender. Andei até a mesa dela com a minha cerveja extra e falei:

– Aqui. Sua New Castle. Essa é por minha conta.

Ela olhou meio sem entender e continuei: – Pode tomar, não tá envenenada.

– Ah, obrigada.

Ela começa a beber e eu não resisti: – Pronto. Agora você vai ter que transar comigo, gata. Ou acha que eu saio pagando cerveja de seis dólares sem segundas intenções?

“Puta que o pariu. Eu acabei de falar isso pra uma menina? Que bosta!” Eu pensei, claro, depois de falar. Não se faz esse tipo de brincadeira com meninas, elas levam tudo a sério. Eu deveria ter sido mais sensível e falado: “Ganhei uma extra por engano, pode beber essa”. Mas ela deu risada. Ufa! Sério mesmo: ufa!

– Meu nome é Heather. Qual é o seu?

– Vladimir.

– Vladimir?

– É, Vlad.

– Seu nome é mesmo Vladimir?

– Não, mas eu gosto desse nome. Acabei de inventar.

– Ah tá.

– Vladimir Chuvalo. Por causa do Chuvalo, sabe?

– Não, não sei. Quem é Chuvalo?

– Um boxeador.

– Latino?

– Não.

– Italiano?

– Não. Canadense.

– Um canadense chamado Chuvalo?

– Pois é, também pensei nisso quando ouvi o nome dele pela primeira vez.

Vejo a maldita da Gabriela entrando no bar. Já era hora.

– Gabriela, sua desgraça de peitos! ESTOU TE ESPERANDO FAZ MEIA HORA!

A Gabi faz uma cara de “não tenho desculpa para estar atrasada, é falta de respeito mesmo” e vem ao meu encontro.

– Heather, legal te conhecer. Agora eu vou lá ver qual é o drama da vez com a Gabriela.

– Valeu pela cerveja, Vlad.

– Ah, sem problemas. Alguns minutos se passam. Eu tô lá com a Gabi no bate-papo, nada muito interessante… só dramas de alguém que casou e está em crise com a moral ao pensar em trair. Conhecem o tipo?

Enfim, recebo um bilhete do garçom: “HEATHER (954) 766-7825” Eu me mato de rir. Penso em responder o bilhete assim: “JENNY 867 5309”. Mas ah, sou boazinha, não tive coragem.

– Sbaile! O que é esse papalzinho? Pára de rir!

– Gabriela, filhota…

– Que é? Me responde!

– Esquece. Eu pago sua próxima tequila. Aliás, esse seu sapato é legal, gostei dele. Quer sair para jantar, Gabi?

– Agora?

– É, por minha conta. Mas você vai ter que transar comigo depois. E… ah, me chama de Vladimir.

 

CULTURA QUASE INÚTIL PARA PESSOAS QUASE DE PLÁSTICO

10 jul

Por Sta. Sbaile


Hoje o Sam passou pela minha casa porque estava entediado.

–       Sbaile, cadê o Mike?

–       Trabalhando. Chega daqui a pouco. Por quê?

–       Ah, nada. Tô entediado.

–       Entra aí, França e México estão jogando. Quer New Castle?

–       New Castle soa bem.

A Stella vem correndo do jardim para cumprimentar o Sam. Ela descobriu uma poça d’água agora, entra em casa toda molhada, coberta em grama, terra e carrapichos, numa versão miniatura do monstro do lago Ness.

–       Stella, você não tem a mínima classe. – eu comento.

–       Bom, ela é um terrier escocês, afinal de contas.

–       E o que isso tem a ver?

–       Escoceses não têm classe. (o Sam comenta; ele é escocês)

–       Ah, irlandeses também não. Você imagina, Sam, o Mike queria comprar um wolfhound irlandês!

–       Aqueles cachorros são gigantes. Além do mais, como diriam os ingleses: escoceses são ingleses grosseiros, mas irlandeses são escoceses que não foram à escola.

–       Malditos ingleses, tomara que eles tomem uma surra na copa.

–       Ah, eles vão tomar.

–       Aliás, eu tô com uma música escocesa na cabeça, “MacPherson’s Lament”, conhece?

–       Não, não conheço…

–       Mas que porra de escocês é você?

–       Eu conheço Belle and Sebastian, Franz Ferdinand

–       Ai, moderninho. “MacPherson’s Lament” foi composta no século 18, por James MacPherson; ele compôs na prisão.

–       Quem foi ele?

–       Sério que você não sabe?

–       Eu cresci em Chicago, Sbaile.

–       E eu cresci no Brasil. Você é o escocês mais fajuto que eu já conheci, Sam.

–       Aye!  (ele solta)

“Aye” é a palavra escocesa para “sim”. Não é só escocesa, no desenho do Bob Esponja, o narrador fala “Aye! Aye! Capitain!”, que significa “Sim! Sim! Capitão”: é inglês arcaico. É como a palavra “old”, que alguns escoceses ainda escrevem “auld”; entre outras centenas de palavras do inglês arcaico que, hoje em dia, só escoceses ainda entendem.

–       Vou colocar a música para você ouvir, Sam.

Coloquei.

O Sam fez uma cara de saco cheio.

–       Que foi? Não gostou?

–       Ah, esses folks aí, Sbaile… Não curto.

–       Mas olha só, Sam: James MacPherson era um highlander, mas a  mãe dele era cigana. Ele era meio Robin Hood: roubava dos ricos para dar aos pobres. Só que um dia, ele foi pego. O governo escocês colocou o MacPherson na prisão, depois decidiram que ele seria enforcado. Quando os ciganos souberam que James MacPherson estava pra morrer, eles organizaram um protesto de liberdade…

… Mas é aí que vem a parte legal, Sam: os policiais escoceses foram avisados que os ciganos estavam se aproximando, e colocaram os relógios da prisão para vinte minutos mais tarde, quando os ciganos chegaram, ele já tinha sido enforcado.

–       Que trágico, né Sbaile?

–       Tem mais, Sam! Antes do MacPherson morrer em praça pública, ele pegou o violino dele e tocou essa música, a qual ele intitulou “O Lamento do MacPherson”. Ele falou: “Para o homem que conseguir tocar essa música, eu vou deixar meu violino”. Um monte de gente tentou, porque todo mundo queria aquele violino caro, mas ninguém conseguiu acertar as notas de ouvido. Aí o James quebrou o violino em duas partes e falou, assim num ato dramático: “Então nenhum de vocês é digno deste violino”.

–       Entendi…

–       Você gosta da música agora?

–       Não, ainda não.

–       Eu contei toda essa história para você, e ainda não acha a música legal?

–       Sabe o que é? É que folk não é exatamente um tipo de música sofisticada. Você ouve isso, aí ouve o que os alemães faziam no mesmo período, porra, música clássica era muito melhor. Mozart, que é mais antigo, já fazia coisas fantásticas.

–       Sam, Mozart era austríaco pra começo de conversa. E o período clássico, tecnicamente, começa no século 18, mas Mozart só aparece no século 19. Você nem sabe o que tá falando.

–       Ah, mas sei lá, Bach.

–       Bach nem é clássico, Sam. Mas ele sim era alemão.

–       Quando eu falo clássico, eu quero dizer música clássica, não período clássico.

–       Não existe isso, Sam. Clássico é clássico, barroco é barroco, e romântico é romântico. Vocês pseudo-intelectuais adoram falar que gostam de música clássica, arte moderna… Balela! Moderno é moderno, contemporâneo é…

–       Putz! Chega! Que saco você é! Toda pentelha sobre coisas que não importam.

–       Aye! Eu sou mesmo. Vocês gringos vêem o mundo todo errado: acham que socialismo é comunismo, que comunismo é ditadura e que o Hugo Chávez é ditador.

–      E o que isso tem a ver com música? Eu desisto… Sbaile, eu não vou gostar de folk.

–       O pobre MacPherson morreu para que você escute a música dele e você diz isso, Sam? Você não tem coração, menino?

–       O que eu posso fazer? Só porque ele foi enforcado, não significa que a música dele seja boa.

O Mike chega em casa.

–       Mike, você conhece “MacPherson’s Lament”? (eu pergunto)

–       É mais um dos seus folks? – ele pergunta.

–       É.

–       Não gosto.

–       Mas você nem escutou esse ainda!

–       Não escutei e não gostei. Oi Sam!

–       Oi Mike! Vai se preparando, ela vai te contar uma história real comovente sobre a morte do MacPherson.

–       Ah,  ela sempre tem alguma cultura inútil para dividir com meros mortais insensíveis como nós, que não damos a mínima para isso. Mas, dessa vez, Sbaile, espera a gente assistir a França contra o México.

–       Afe! Eu não ligo…  Além do mais, os países de vocês nem estão na Copa. Quintais da Inglaterra, vocês dois!

–       Agora ela tá jogando pesado, Mike.

–       É, agora ela tá.

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