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Mulheres artistas (Parte II)

12 jan

por Gisèle Miranda

 

 

As transformações do século 20, principalmente a partir da década de 1960 ocorreram sob as vestimentas da revolução sexual, mas em meio aos destroços da Segunda Guerra Mundial, da Guerra Fria,  das guerrilhas, das ditaduras militares pela América Latina, do Apartheid, dos  “muros”, enfim uma série de acontecimentos históricos importantes.

Pensadoras começaram a deflagrar as ressacas de guerras às fugacidades do contemporâneo. O devir liberdade é incorporado por artistas pelos processos psicanalíticos, a exemplo de Louise de Bourgeios (1911-2010), Lygia Clark (1920-1988) ou de  Marina Abramovic (1946-) no próprio corpo, na geografia que imprime as catástrofes humanas e que acolhe os sujeitos.

É nesse momento que os Outros (sujeitos) são vistos na performance, muitas vezes de maneira cruel. O corpo apresenta marcas, vulnerabilidades e desgastes. De um devir-mulher a um devir-animal ou vegetal… até num devir-imperceptível. (Deleuze, 1993, 11)  Há um risco iminente, uma visualidade e sensações em um limite muito tênue entre o corpo e o que se pode suportar.

Há mulheres nas artes que nos remetem as questões de suas ausências na História da Arte; o número que pode ser representativo através de nomes da exposição ELLES: mulheres artistas na coleção do Centro Georges Pompidou, que em 2010 suscitou em Paris uma grande discussão sobre a importância dos museus, galerias e seus poderes de agregação ou de valorização de trabalhos ao gênero masculino por força de uma historicidade excludente a mulher.

A exposição  Elles, curadoria de Emma Lavigne e Cécile Debray saiu itinerante e chegou no Brasil em 2013; 115 obras expostas de 1907 a 2010. Entre “ELAS” estão as brasileiras Rosangela Rennó (1962-), Anna Maria Maiolino (1942-), Lygia Pape (1927-2004), Anna Bella Geiger (1933-), entre outros nomes internacionais como Suzanne Valadon (1865-1938), Frida Kahlo (1907-1954), Marina Abramovic, Louise de Bourgeois. Todas com obras de temporalidades e técnicas diferenciadas, contudo, sob perspectivas de debate sobre a inserção das mulheres ou a ausência das mulheres nas artes.

 

Lygia Pape, Divisor, 1968.

Lygia Pape, Divisor, 1968.

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Em paralelo a exposição ELLES, a Guerrilla Girls resolveu computar as participações de mulheres na história da arte pela Europa e EUA, constatando que: As mulheres precisam estar nuas para entrar no Metropolitan Museum? Menos de 5% dos artistas nas seções de arte moderna são mulheres, mas 85% dos nus são femininos.

 

 

Referências:

ABRAMOVIC, Marina: Transitory object for human use. (Exposição) São Paulo: Galeria Brito Cimino, jun. e jul. 2008.

ABRAMOVIC, Marina (performances e roteiro do filme): BALKAN Baroque. Direção Pierre Coulibeuf. Fotografia de Dominique Regoleur, França, 1998. 61 min.

ABRAMOVIC, Marina: a artista está presente. (filme) Direção Jeff & Druppe e Mathew Akers. EUA, 2012. 106 min.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambigüidade. Rio de janeiro, Nova Fronteira, 2005.

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

COHEN, Renato. Wok in progress na cena contemporânea: criação, encenação e recepção. São Paulo: Perspectiva, 1998.

COHEN, Renato. Performance como linguagem: criação de um tempo-espaço de experimentação. São Paulo: Perspectiva; Editora da Universidade de São Paulo, 1989.

DUBY, George & PERROT, Michelle. Imagens da mulher. Porto: Edições Afrontamento, 1992.

FREIRE, C. Poéticas do processo da arte conceitual no museu. São Paulo: Iluminuras, 1999.

GOMBRICH, Ernst H. História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

GULLAR, Ferreira. Relâmpagos:  dizer o ver. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

LOUISE BOURGEOIS: o retorno do desejo proibido & Escritos psicanalíticos. Org. Philip Larratt-Smith. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2011.

NAVES. Rodrigo. O vento e o moinho: ensaios sobre arte contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

ROLNIK, S. Pensamento, corpo e devir. São Paulo: Caderno de subjetividades, V.1, n. 2 PUC/SP, 1993.

RIVERA, Tania. O avesso do imaginário: arte contemporânea e psicanálise. Casc Naify, 2013.

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Série Falésias III: Os intelectuais e os descaminhos da fala

23 fev

Por Laio Bispo

 


O afastamento da prática é a forma mais cretina da vida intelectual; em todo caso, há um vicio cada vez mais gritante e perigoso que, tal qual a inoperância se faz presente no mundo fabuloso dos intelectuais: a fala – suja.

Um dos principais aspectos da vida intelectual que, por motivos muito específicos, não deve ser relegado a uma atividade secundária, ou mesmo qualquer, é a fala. As implicações desse ato são, por vezes, tão fundamentais quanto à escrita ou a prática. Vistos, de modo geral, como atos em comum e de construção consoante, estes guardam suas especificidades embora não possam trabalhar isolados, sob pena de não aceitação de seus aspectos de validade e também, por consequência, da não efetividade de suas implicações práticas.

 

Carlos Zilio, Lute, 1967. Serigrafia, resina plástica e alumínio.

 

A fala, tomada aqui em ato, é um das manifestações mais ativas (ao menos em termos representativos) da vida intelectual. Ora, sabe-se, no entanto, que os “atos de fala” podem engendrar ações diversas – mesmo mantidos em seus estritos limites linguísticos (Searle) ou mesmo se trabalhados fora dos muros estabelecidos pela convenção linguística analítica (Derrida). Mas esses “atos da fala” são aqui, sob aspectos pontuais, dispensáveis por serem o foco da questão em seu problema estrutural.  O problema aqui está na fala enquanto elemento cênico, cultural, estético e político e nas implicações possíveis em outras manifestações intelectuais cujos (des) caminhos fortuitos levam ao desvelamento de um perigoso estado comunicativo que se apresenta, também, representativo e devaneador.

A fala exerce, sobretudo em relação à escrita, uma vantagem: a capacidade de reprodutibilidade e coerção. Há no ato da fala um investimento de desejo que se projeta de maneira muito mais rápida e irrefletida do que na escrita. Um dispositivo de fala produz e exerce de maneira eficiente uma influência que pode ser, na maioria das vezes, estúpida e grosseira. Isso se dá graças aos suportes que compõem o ato; um investimento que envolve um dinamismo cênico que quando aliado a uma retórica competente encontra meios muito eficazes de aceitação; o que, porém, não deixa de ser o cinismo mascarado da fala representativa de que se valem, a tanto tempo, os intelectuais sujos – esses homens da fala totalizadora.

Há nos intelectuais um costume – um tino para insensatez – que parece autorizá-los a falar em nome de outros. Falar em nome “de” é um risco e uma ousadia a qual poucos podem, com competência, trabalhar. A fala totalizadora – que é representativa e não ativa – mostra o quanto indigno pode ser falar em nome de outros. É aí que, de maneira mais específica, a fala torna-se suja; suja porque está apodrecida por investimentos de desejos totalizantes. Nesse sentido o aspecto comunicativo de qual se valem as sociedades de controle em suas manobras retóricas está, também, próximo da fala dos intelectuais. Sendo, no primeiro caso um investimento de desejo com fins de justificativas e esclarecimentos de fatos; e o segundo, um investimento que tem por principio o controle. Os intelectuais tornam-se, dessa maneira, publicitários de uma razão qualquer. Deleuze situa bem a função da fala quando diz:

 

Talvez a fala, a comunicação, estejam apodrecidas. Estão inteiramente penetradas pelo dinheiro: não por acidente, mas por natureza. É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle.  (2010, p.221)

Deleuze talvez tenha sido um dos pensadores que com maior lucidez apontou para a problemática da fala e suas implicações nos aspectos supracitados. Em todo caso, não há uma sistematização e os apontamentos sobre a questão são breves – porém assertivos. Outro pensador que contribuiu decisivamente para a questão é Michel Foucault, cuja crítica à representação é mais sistematizada, como bem pontuou Deleuze em conversa com o mesmo:

 

A meu ver, você foi o primeiro a nos ensinar – tanto em seus livros quanto no domínio da prática – algo de fundamental: a indignidade de falar pelos outros. Quero dizer que se ridicularizava a representação, dizia-se que ela tinha acabado, mas não se tirava a conseqüência desta conversão “teórica”, isto é, que a teoria exigia que as pessoas a quem ela concerne falassem por elas próprias. (1973, p.73)

A fala – independente das situações que lhe ocorram – não pode servir a propósitos reguladores e totalizantes, bem como não deve dissimular incompetências, vaidades e más intenções, embora não seja isso que se perceba no ato. A contemporaneidade está marcada pelo fluxo de falas fálicas, discursos de penetração e investimento de desejos que falam e sussurram, mas não gritam para não despertar a ousadia da escrita. Falas que ao invés de abrir possibilidades constroem muros, barreiras sob as quais se erguem e se escondem discursos.

 

Geraldo Zamproni, concreto e zíper, s/d.

 

Em suma, parece razoável a idéia de que aqueles que se valem em demasia da fala querem, com isso, achar um meio para disfarçar a frigidez intelectual de que são “vítimas”, tentando a partir do estardalhaço falacioso disfarçar uma intelectualidade que, em última analise, não é mais do que uma farsa ou um intelectualismo postiço.

Assim posto, a fala é, quase sempre, para os que a ela se atém em demasia, uma dublagem medonha em descompasso com os fatos da vida concreta.

 

 

 

REFERÊNCIAS:

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 2010.

FOUCAULT, Michel.  Microfísica do poder. Org. e Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

Sobre o professor e artista visual Carlos Zilio, http://www.imagem.ufrj.br/index.php?id_exposicao=14

Sobre arquiteto e artista visual Geraldo Zamproni, clique aqui

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