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Série Ficcional H. Miller XXIX: A cama divã

26 jan

por Lia Mirror, Laila Lizmann, Lara Kleine Augen & Gisèle Miranda

 

 

(…) As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
(Álvaro de Campos pseudônimo de Fernando Pessoa)

 

 

 

Após a morte de nosso amigo ancião Blake, os livros foram dispersos, as histórias perderam os fios de Ariadne e os monstros que roíam as entranhas dos que LIAM, deixaram de existir.

O salto para o abismo se deu entre a realidade e a ficção; passou por Foucault* e se deleitou no escarnio de Henry Miller. Assim sucedeu a árdua tarefa.

– Ele pegou a caneta, os olhos, o papel, o corpo dela e riu. Riu e os colocou no tempo perdido, díspares. O bicho raivoso da vaidade predatória, desumanizou e fez das suas noites, outras bocas, outros corpos na cama dela.

 

Louise Bourgeois (1911–2010) Sete na cama, 2001.

Louise Bourgeois (NY, EUA,1911– Paris, França, 2010) Sete na cama, 2001.

 

Todos riram! A nobreza plebeia construída nas solitárias leituras rasgou uma carta. Uma, das tantas cartas de amor, porque só os ridículos escrevem cartas de amor. **

Ela rasgou o tempo, cortou as letras, os segredos, as palavras, as mãos, a grafia, o cheiro, a tinta, o gosto e as fotos. Não bastasse, ela devorou o próprio coração, assim como Rimbaud, lentamente.

A memória será esquecida. O olhar não enxergará. O gosto não provará. O toque será um iceberg. Reconstruirá um Frankenstein, só amado por seu criador; ou, uma Alma Mahler inflável e amada por Kokoschka?

Alma Mahler de Oscar Kokoschka, s/d.


A febre foi testemunha, enquanto ela confeccionava seus monstros, ardia e jorrava larvas. No delírio ela foi em busca de um livro, o que desencadeou um pesadelo Shakespeariano. Aos prantos, ela gritou por Shakespeare diversas vezes.

Amanhã será outra dor. Enquanto as pessoas rirem, nós protegeremos a ingenuidade, o sorriso do olhar menina que percorreu os mesmos rios dos algozes e enfrentou a fadada miséria, violência, pedras, precipícios, afogamentos, curras, enforcamentos e surras.

Da pedra bruta brotou uma flor rara. Da brutal fragilidade nasceu um vento forte para as ondas de um mar tempestuoso. Náufraga, salva pelo olhar atento do lobo do mar.

Louise Bourgeois (1911–2010) Cama azul,  1998 gravura 49,5 x 67,3 cm

Em terra firme ela foi jogada no picadeiro com nariz de palhaço. De lá viu o lixo abundante, nada reciclável. Viu a crosta numa casca podre que escorria água suja.


Ah, esse monstro que nos rói as entranhas tem nome, tem história, tem o valioso conteúdo dos livros, dos saberes e até do rejuvenescimento, segundo Thomas Mann. Ah, Henry Miller, Rimbaud, Dostoiévski e tantos outros que venham eternizar nossos sentimentos, nossas falas, nossos sexos, nossas dores, nossas palavras.

“Agora

não navega

nem tampouco vive

erra

se

escrito” (Vogt, Marinheiro Pessoa***)

 

Nota:

(*) Foucault: “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” (Foucault, 1990)

(**) Álvaro de Campos, in “Poemas” Heterônimo de Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 1888- Idem, 1935): “Todas as cartas de amor são ridículas” Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 84. 1ª publ. in Acção, nº41. Lisboa: 6-3-1937.

 (***) Carlos Vogt. O Itinerário do Carteiro Cartógrafo – Cantografia. São Paulo: Massao Ohno, 1982.

(1) MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963.

 

 

CULPA, DOR OU ENCANTO?

13 maio

Por Gisèle Miranda

{para Samira Osman}

 

A culpa encanta? Em um ensaio de Luiz Felipe Pondé, na Folha de S. Paulo, 11/05/2009, o autor afirmou que a culpa o encanta.

Sua afirmativa causou-me um desconforto pelo fato clássico de que toda mãe sente culpa. Então, confesso que a culpa não me encanta.

Mas, saindo da minha culpa nata e adentrando a culpabilidade alheia, via outro prisma, faço uma troca de palavras – culpa por dor; principalmente, quando a crença culpa ou dor vem da literatura clássica.

Pondé quer sentir toda a culpa via grandes e necessários autores clássicos; hoje, deixados de lado pelos best sellers. A dor da literatura vem carregada de textualidades de séculos anteriores e que ao lermos nos vemos numa atualidade e até numa reflexão sobre o que somos ou o que queremos.

Entre o processo de humanização pela culpa ou pela literatura clássica, Pondé destacou que: ´chorar nos torna uma pessoa menos ridícula´, muito em função de um clássico de Dostoiévski, Sonho de um homem ridículo.

Ao lermos um clássico, somos lidos. Ao sermos tomados pela história, somos personagens ou pelo menos, um agente do pensamento sobre questões morais, medos, ´sua capacidade de amar´, enfim, sentimo-nos vulneráveis aos inúmeros sentimentos  surgidos por uma boa história.

Ou, uma trágica história que sutura uma camada epitelial, que com o tempo pode voltar a abrir e, transforma-se numa ferida cada vez maior até incurável; ou, cicatrizes que não comportam invisibilidade nos atos diários.

A ação transformadora está muito atrelada ao sofrimento – não é unânime, mas tem potencialidades; isso desde os casos clássicos aos confins de grandes histórias. A dor que se reconhece na vida ou na literatura dos grandes autores é uma dor muitas vezes diária, do cotidiano de cada um de nós, do comum ao longo da difícil tarefa de viver e da difícil tarefa de amar.

Ismael Nery, Figura, ca. 1927.

 

 

Sugestão bibliográfica:

CALVINO. Italo. Por que ler os clássicos? São Paulo: Cia. das Letras, 1994

 

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