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Série Retecituras III: “Política Interna Dependente” – Fogo 451 aos doutores (de história)

11 mar

Por Gisèle Miranda

“A ilusão acalentada por aqueles que queimam livros é a de que podem cancelar a história e abolir o passado…  em 10 de maio de 1933, em Berlim… Paul Joseph Goelbbels discursou durante a queima de mais de 20 mil livros…  Freud, Steinbeck, Marx, Zola… Proust… Bertold Brech…”. (MANGUEL, 1997, p. 315-316)

Ou,

“No lugar onde se queimam livros, no fim se queimam homens (Heinrich Heine)

 

Atearam fogo aos doutores: mas eles sobrevivem, aqui, acolá ou em uma floresta dos homens-livros e livres, emprestada de FAHRENHEIT 451. Cenas ficcionais que Truffaut fez questão de dirigir a partir da incrível estória de Ray Bradbury, que se adéquam numa realidade cruel, deixando de ser ficção, tal qual a queima de doutores.[1]

Censores na queima de livros – cena do filme Fahrenheit 451

Mas até quando estaremos vivos? Em maio de 2007, quando recebi o texto protesto da historiadora Ana Gicelli Garcia Allanis, Dra. em História Social pela USP – publicado na Revista Caros Amigos (edição 120), a situação já estava alarmante. E o que foi feito?

Passei – assim como outros doutores- a ser alvo das fogueiras. Qual o nosso crime? Termos nos especializado, estudado, qualificado e conseguido o título de doutores para melhorarmos a educação de nosso país? Por continuarmos estudando, pesquisando, escrevendo? É duro sabermos da cafetinagem da educação.

Nos tornamos alvos mortais para as empresas educacionais pelo fato de sermos onerosos aos cofres da educação particular em detrimento da qualidade de ensino. Quantos professores doutores há nos cursos de graduação? Dependendo da época, o mínimo estabelecido pelo MEC.

Se perguntarmos aos estudantes de graduação quantos profissionais doutores há em seu curso, a resposta vem em coro: quase nenhum.

Quanto as universidades públicas há obrigatoriedade da titulação. O problema está no número de vagas. Em geral uma vaga por curso. É um investimento exaustivo intelectual e financeiro.

Também há os colegas que estão iniciando uma especialização ou mestrado que são o básico da mão de obra nas universidades particulares mas, se continuarem seus estudos estarão todos desempregados?

Há dois anos era comum sugerirem aos doutores que escondessem sua qualificação ao se colocarem como candidatos a vagas de professores universitários. Hoje, há agentes do fogo 451 para verificarem no Curriculum Lattes CNPq se de fato o candidato a professor não está escondendo ser um doutor, ou seja, um banido, um condenado ao fogo 451.

Que doutor vai esconder do CNPq Lattes uma formação qualificada, de experiência educacional, do exercício do pensamento, da escrita, a voz, a postura de anos pesquisando e sendo financiado por CNPq, CAPES, FAPESP?

Recordo uma frase de uma distinta professora da PUC/SP ao parabenizar-me pela trajetória que me fez doutora: “Você é uma doutora pela PUC/SP”. Senti o peso das atividades de anos após minha graduação, ligados às pesquisas, escrita, leituras; atividades que continuam no meu universo como pensadora.

Após dez anos da titulação ‘doutora’ e de práticas alternativas de sobrevivência, fui uma foragida. Vivi em florestas educando informalmente, mas perseguida pelo fogo 451: “Até quando a mídia, o MEC e os tecnocratas vomitadores de estatísticas vão fingir que está tudo bem? Quem deve ser processado e responsabilizado por toda essa esbórnia? Que país queremos?” [2]



[1] O filme FAHRENHEIT 451 é de 1966. O livro foi publicado em 1953. 451 é a temperatura celsius utilizada pelos censores para queimarem os livros.

[2] Ana Gicelli Garcia Allanis em sua frase final no texto “Tiro ao Doutor”, maio 2007.  Revista Caros Amigos. V. tb. “Título atrapalha professor doutor nas universidades particulares“:http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/titulo_atrapalha_prof_univ_particulares.htm

O que mudou de 2000 a 2016? 

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