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“A Estranha Derrota” (*)

19 jun

por Gisèle Miranda

  

“Leo não consegue mudar o mundo. O nome do artista ausente pulsa vida na memória como um legado. Que memória é essa? Que geração é essa?

Como pensar uma exposição de Leonilson sem o sarcasmo ou a subjetividade de falar politicamente?

 

Leonilson (1957-1993), Leo Não Consegue Mudar o Mundo, 1989

Sim, politicamente sobre: “Leo (que) não consegue (iu) mudar o mundo”, sobre a AIDS, avassaladora nas décadas de 1980-90[1]. Um corpo marcado pela homofobia e pelos danosos anos de ditadura militar no Brasil. Um politicamente incorreto[2] sobre o poder macho, sobre a violência e o silêncio do Estado

Há um Leonilson associado ao inconsciente linguístico. Palavras exacerbadas, tecidas, bordadas, escritas: Mentiroso, Ninguém, Vazio, o espelho, o tombo, a bibliotecaJosé  (Leonilson Bezerra Dias ).  Um interno de um Estado como outrora foi Arthur Bispo do Rosário.

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Como já dito há os que se fortalecem diante da falta de memória; o que nos faz um povo de cidadania ainda em construção pela herança cultural, que sobrevive sob vários aspectos, e preponderantemente na violência.[3]

O legado de Leonilson nos aponta isso. E o que foi delegado à família, aos amigos está na culturalidade brasileira, que nos remete a um povo de encontros históricos, miscigenado, sofrido e carente. Isso reflete diretamente na educação que  como governar e analisar estão no rol das impossibilidades. Ou, seriam: nos possíveis a partir das impossibilidades?

Penso que o momento da educação brasileira é de INFELICIDADE, de VAZIO e de patrulhamento que fortalece um paradoxo de ervas daninhas, para acobertar sua falência múltipla de órgãos. Do berço à cafetinagem das ditas empresas educacionais de ensino superior.

Que fique claro que – de Leonilson, Bispo do Rosário, a Nuno Ramos; de Cartola, Adoniran Barbosa a Sabotagem; Mario Quintana, Leminski, a Cora Coralina; e por aí vai. Não ignoro as diferentes linguas de nossa lingua; é irrefutável! Anterior as minúcias da oralidade resgatada na década de 1950.[4] As manifestações do inconsciente linguístico estão por aí! Não compartilho a discriminação dicotômica do popular/erudito, pois se cria um modo infeliz para falar do povo.

Tampouco visto a carapuça de ´xerife da língua´ – um espelho refletido de patrulhamento ideológico utilizando noções históricas, e paradoxos do poder,  fazendo-se de politicamente incorreto, num momento INFELIZ, num poder sem precedentes da comunicação, que passa agora claramente por um renascimento da barbárie, como bem lembrado por Edward Said sobre as perspectivas do historiador Eric Hobsbawm. [5]

Será que terei a liberdade de falar sobre esse assunto sem que eu seja a força da Ordem em seu espelho? Ordem pela desordem.

Não compactuei com o MEC – seja na tentativa de abolir Monteiro Lobato à retirada do Kit anti-homofobia[6]. Acho uma INFELICIDADE.

Um VAZIO, que peço emprestado a LEONILSON, em seu sarcasmo divino, a partir de uma belíssima curadoria – Sob o peso dos meus amores.[7] Nesse modo subjetivo e não dicotômico de falar de política.

Leonilson (1957-1993), Sob o Peso dos Meus Amores, 1990.

Notas:

(*) Reverberando BLOCH, Marc. A Estranha Derrota. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

[1] 1º de Dezembro: Dia Mundial de Combate à AIDS e sua História

[2] O politicamente incorreto com o seguinte parâmetro: de Leonilson a Nuno Ramos – com sua obra Bandeira Branca, desfeita na 29ª Bienal de Arte de São Paulo sob o artífice do correto. (Cura-dores: “arte para quê?”/

No entanto, para exemplificar uma mascarada vestidura perigosa e criminosa, do politicamente incorreto, a recente fala do aclamado diretor dinamarquês Lars Von Trier, quando em uma entrevista coletiva em Cannes falou sobre o nazista. Interessante perceber que alguns de seus fãs incorreram  pelo mesmo caminho ao defenderem Lars Von Trier nesse momento, como politicamente incorreto.  Já me identifiquei como ‘leitora’ dos filmes de Lars neste blog, mas deixo claro que Lars e fãs foram partícipes de uma história de horror. “Vale à pena ler o filósofo Islavoj Zizek, em entrevista a Revista Época, em 30 mai. 2011:No caso de Lars tem outra questão: o artista deve ser julgado pelo que ele faz. O que eles sabem está no que eles produzem. Muitos deles são idiotas.” (…).

[4] ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a literatura medieval. Trad. Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.ZUMTHOR, P. Tradição e esquecimento. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich São Paulo: Hucitec, 1997.

[5] SAID, Edward. Reflexões sobre o Exílio e outros enssaios. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 234.

[6] Vazios que refletem bullying, neonazistas, homofóbicos, queima de índios, agressões a nordestinos, e patrocínios de diversas guerras que superam os números de mortos das duas últimas guerras mundiais.  V. Tb. STF nega pedido para suspender livro de Monteiro Lobato em escolas públicas

[7] Sob o Peso dos Meus Amores, 2011: elogios à curadoria de Bitu Cassundé e Ricardo Resende, assim como as participações no seminário de: Ana Lenice Dias, Lisette Lagnado, Paulo Herkenhoff, Ricardo Resende, Maria Esther Maciel e Carlos Eduardo Riccioppo.

 

(**) Sugestão:

MESQUITA, Ivo. Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. São Paulo: Projeto Leonilson/ Cosac & Naify, 1997.

 

Série Paschoal Carlos Magno VII: verdejantes moços pelas Barcas e Caravanas da Cultura

29 set

Por Gisèle Miranda


Moços era a denominação de jovens para Paschoal Carlos Magno. Assim como estudantes – deveria ser a situação desses moços. Ele bradava: Diga que eu acredito no teatro como elemento de educação! (Magno, PC, 197-)

Com sua trupe de moços, Paschoal desbravou tempos difíceis por uma linha de fuga em plena ditadura militar no Brasil. E como se não bastasse desbravou tempos longínquos.

Desde o período Carolíngio tem-se associado a cor verde para estabelecer a inquietude da juventude:

A pintura e a tintura medievais sempre tiveram dificuldade de dominar aos tons verdes. Estes são os mais instáveis…, uma relação possível entre a química e a ideologia. Como os tons verdes os jovens são volúveis, instáveis, às vezes perigosos. (Levi & Schmitt, 1996: 261)

Paschoal continuou clamando (em desvario) a dramaturgia dos moços-estudantes. As criações e sonhos o levaram ao estereótipo de louco quando realizou as Caravanas e Barcas da Cultura[1] com sua trupe, tangidos pela diversidade, numa inquietude nata, combativa e opositora a censura: matando a morte com a eternidade da arte. (Magno, PC. In: Jornal O Globo, 1974)

Caravana da cultura, 1964. Paschoal Carlos Magno,  Armando Maranhão (o primeiro do grupo à direita de Paschoal) e outros componentes do Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP)

A Barca da Cultura acreditou que o sertão viraria mar. Mas foi no mar da seca que a Barca tornou-se Caravana. Véspera do longo tempo, do silêncio, aviso na esquina, dando a impressão aos pobres de espírito que se tratava de propaganda comunista; eles confundiam as coisas. (Magno, PC. In: Jornal de Sergipe, 197-)

No cotidiano das Barcas/Caravanas, os espetáculos teatrais pelas manhãs, tardes e noites, sempre com distribuições de livros e discos, e reverberando uma proposta de erradicação do analfabetismo:

256 brasileiros chefiados pelo entusiasmo e sua fé. Oito ônibus, seis automóveis, dois caminhões carregados de livros e discos… 274 espetáculos, em praça pública, adros de igrejas, pátios de escolas, salas de orfanatos, asilos… (Magno, PC. In: O Jornal, 1967; Pasquim, 197-, p. 12)

Ou:

Descendo o Rio São Francisco, de Pirapora (MG) a Petrolina (PE) distribuindo livros e levando a população ribeirinha exibições nunca sonhadas de teatro, dança, cinema e artes plásticas.[2]

Essa empreitada não saiu ilesa para Paschoal. A Barca da Cultura também ficou conhecida como Barca pervertida, invertendo a ação cultural em campanhas infames, através de cartas anônimas aos jornais, prefeitos, cardeais e oficiais militares.

Paschoal Carlos Magno, Caravana da Cultura, s/d (foto família Carlos Magno)

Mas as Barcas e Caravanas existiram, independentes de estarem na contramão do período político e de suas condições financeiras. E, apesar de Paschoal ter declarado que houve quatrocentos Teatros de Estudantes no Brasil, e a ditadura militar matou-os um a um (Pasquim, 197-, p.13 e 14), formou-se uma matriz teórica para a descentralização do teatro (rompendo também com o preconceito contra o teatro):

A descentralização do teatro e o crescimento das atividades regionais – parece hoje mais próximo de se concretizar do que qualquer outro momento da história. No dia mesmo em que Paschoal era enterrado… eis uma confirmação consagradora de um apostolado que agora chega ao fim, mas cujos frutos continuarão alimentando de modo decisivo a atividade teatral brasileira. (Michalski, Yan. In: Jornal do Brasil, 27 mai. 1980, p. 2)

Referência:

LEVI, G. & SCHMITT, J. C. (Org.). História dos jovens: da antiguidade à era moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Vol. I.

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).


[1]A primeira Caravana se deu em 1963-1964 e a segunda, 1967-1968– atravessando os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas, e terminou na cidade de Maceió. Registros da Barca da Cultura 1973-1974. Porém, uma era o desdobramento da outra; quando necessária a Caravana transformava-se em Barca.

[2] Jornal do Brasil, 7 dez. 1973; Revista Veja, 27 fev. 1974; Diário de Pernambuco, 9 jul. 1980 (Stuttifera foi o segundo nome dado a Barca da Cultura por Antonio Callado)

Série Retecituras III: “Política Interna Dependente” – Fogo 451 aos doutores (de história)

11 mar

Por Gisèle Miranda

{para Heloisa Helena, minha mãe e Caio Graco, meu filho}

“A ilusão acalentada por aqueles que queimam livros é a de que podem cancelar a história e abolir o passado…  em 10 de maio de 1933, em Berlim… Paul Joseph Goelbbels discursou durante a queima de mais de 20 mil livros…  Freud, Steinbeck, Marx, Zola… Proust… Bertold Brech…”. (MANGUEL, 1997, p. 315-316)

Ou,

“No lugar onde se queimam livros, no fim se queimam homens (Heinrich Heine)


Atearam fogo aos doutores: mas eles sobrevivem, aqui, acolá ou em uma floresta dos homens-livros e livres, emprestada de FAHRENHEIT 451. Cenas ficcionais que Truffaut fez questão de dirigir a partir da incrível estória de Ray Bradbury, que se adéquam numa realidade cruel, deixando de ser ficção, tal qual a queima de doutores.[1]

Censores na queima de livros – cena do filme Fahrenheit 451

Mas até quando estaremos vivos? Em maio de 2007, quando recebi o texto protesto da historiadora Ana Gicelli Garcia Allanis, Dra. em História Social pela USP – publicado na Revista Caros Amigos (edição 120), a situação já estava alarmante. E o que foi feito?

Passei – assim como outros doutores- a ser alvo das fogueiras. Qual o nosso crime? Termos nos especializado, estudado, qualificado e conseguido o título de doutores para melhorarmos a educação de nosso país? Por continuarmos estudando, pesquisando, escrevendo? É duro sabermos da cafetinagem da educação.

Nos tornamos alvos mortais para as empresas educacionais pelo fato de sermos onerosos aos cofres da educação particular em detrimento da qualidade de ensino. Quantos professores doutores há nos cursos de graduação? Dependendo da época, o mínimo estabelecido pelo MEC.

Se perguntarmos aos estudantes de graduação quantos profissionais doutores há em seu curso, a resposta vem em coro: quase nenhum.

Quanto as universidades públicas há obrigatoriedade da titulação. O problema está no número de vagas. Em geral uma vaga por curso. É um investimento exaustivo intelectual e financeiro.

Também há, os colegas que estão iniciando uma especialização ou mestrado que são o básico da mão de obra nas universidades particulares mas, se continuarem seus estudos estarão todos desempregados?

Há dois anos era comum sugerirem aos doutores que escondessem sua qualificação ao se colocarem como candidatos a vagas de professores universitários. Hoje, há agentes do fogo 451 para verificarem no Curriculum Lattes CNPq se de fato o candidato a professor não está escondendo ser um doutor, ou seja, um banido, um condenado ao fogo 451.

Que doutor vai esconder do CNPq Lattes uma formação qualificada, de experiência educacional, do exercício do pensamento, da escrita, a voz, a postura de anos pesquisando e sendo financiado por CNPq, CAPES, FAPESP?

Recordo uma frase de uma distinta professora da PUC/SP ao parabenizar-me pela trajetória que me fez doutora: “Você é uma doutora pela PUC/SP”. Senti o peso das atividades de anos após minha graduação, ligados às pesquisas, escrita, leituras; atividades que continuam no meu universo como pensadora.

Após dez anos da titulação ‘doutora’ e de práticas alternativas de sobrevivência, fui uma foragida. Vivi em florestas educando informalmente, mas perseguida pelo fogo 451: “Até quando a mídia, o MEC e os tecnocratas vomitadores de estatísticas vão fingir que está tudo bem? Quem deve ser processado e responsabilizado por toda essa esbórnia? Que país queremos?” [2]



[1] O filme FAHRENHEIT 451 é de 1966. O livro foi publicado em 1953. 451 é a temperatura celsius utilizada pelos censores para queimarem os livros.

[2] Ana Gicelli Garcia Allanis em sua frase final no texto “Tiro ao Doutor”, maio 2007.  Revista Caros Amigos. V. tb. “Título atrapalha professor doutor nas universidades particulares“:http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/titulo_atrapalha_prof_univ_particulares.htm

O que mudou de 2000 a 2016? 

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