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O TECER dos 10 Anos do Blog TECITURAS

11 abr

por Gisèle Miranda, Lia Mirror & Laila Lizmann

 

O Blog Tecituras nasceu nas paredes de um quarto, gestado e parido. As palavras foram esculpidas, ora na pena, ora com as unhas. O caos, a dor e a “solidão do porvir de poucos” atentou que a “consciência sobrevive a qualquer circunstância”. As incisivas palavras são do artista Gontran Guanaes Netto* (Vera Cruz, São Paulo, Brasil, 1933 – Cachan, França, 2017), amigo, professor e tutor às avessas. Do Sujeito Histórico, Artista Realista Político, Professor da Memória à História.  Gontran Netto deu-nos a honra de sua colaboração no Tecituras com suas obras e suas reflexões em manuscritos e interferências.

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A homenagem dos 10 anos do Tecituras vem de um conteúdo Histórico, Artístico, Crítico e Político. De conteúdo imaterial, inquietações do pensamento à escrita com o objetivo de compartilhar conhecimentos, experienciar e zelar pelos bens culturais, com colaboradores – com ou sem vínculos acadêmicos e com uma bagagem de textos não perecíveis ao tempo, atualizados, conscienciosos de sua necessidade, por isso, nossa justa homenagem a Gontran Guanaes Netto! Há inúmeros textos sobre sua arte, sua luta, além de tutelar um pequeno espaço tecido há 10 anos.

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O conteúdo artístico faz uma grande diferença. O conteúdo crítico é uma filtro necessário diante da abundância do vazio, da educação cara e fria, frente a educação da exclusão. Dessa homenagem, tecemos reverência a missão ou o ofício dos professores em situações de falta d´água, restrições, endividamento, aluguel atrasado, ajuda de familiares e amigos. Inevitavelmente, ratificar a data de 29 de abril de 2015, o cenário ápice da violência na Educação brasileira, ao Brasil atual, machista a misógino, ignorante que enaltece a intervenção militar quando desconhece a violência histórica, cuspiu na História e na Educação.

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Nosso Brasil tão diverso, nascido de um histórico de pura violência, dos séculos de escravidão, da exclusão, dos preconceitos, Esses séculos não foram sanados, tão pouco, os 21 anos de violência do Estado Militar Brasileiro, porque não há Consciência Histórica.
As ditaduras devastaram toda a América Latina. Torturaram violentaram, reprimiram, subornaram, difamaram e mataram. Toda essa herança resiste e, que cada vez mais, estratifica nos professores, na moral da violência e da “sub -missão”  material, nos salários, na ausência dos livros, das leituras, do tempo, das escritas, numa “missão impossível”.
Entre a teoria, o discurso frio e confortável da boa escrita (e cara educação) há o extremo da prática, do discurso de luta, nada confortável. Entre as fases antagônicas existem mais falas sujas, oportunas e arrogantes. Sem dúvida, a figura opressora tem cúmplices entre os próprios oprimidos. (1)

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Entre os traumas, há sobreviventes na floresta dos homens e mulheres livros (2), independente da indexação, do conforto, da assepsia, da insensibilidade, do apodrecimento, dos muros, onde os discursos, principalmente econômicos, falam mais alto, não por acidente, mas por natureza. (3)
Os professores que apanharam em 2015, os que mais adoecem a olhos (não) vistos nos representaram no front, e hoje, unidos a população em geral, principalmente com os mais pobres para aplaudir os profissionais da área médica e de serviços essenciais à beira do precipício Humano e Político, na pandemia Covid-19.

Já dizia nosso querido Gontran Guanaes Netto: Antigo combatente, jamais!

Então, Antigas combatentes, Jamais! & Marielle, presente!

 

 

(*) Sobre O Artista GONTRAN GUANAES NETTO

(1)  BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo Vol 2: A Experiência Vivida, Difusão Européia do Livro, 1967. “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.

(2) homens e mulheres livros e livres. t tecituras.wordpress.com/2010/03/11/serie-retecituras-iii-fogo-451-aos-doutores-de-historia/

(3)  DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 2010, p. 221. 

 

Provocativas e “Quem tem medo de Simone de Beauvoir?”

6 out

Provocativas 

por Gisèle Miranda

O texto Quem tem medo de Simone de Beauvoir?fez-se – em meio a provocativas; proposta de parceria do Tecituras que varia conforme a necessidade, ou seja,  questões do pensamento vertendo à escrita numa plasticidade gestada (na fabricação do próprio mel – palavras, signos, paisagens… com as folhas do campo e das ervas daninhas, reverbrando Le Goff). No exercício diário do experienciar, de encontro aos muros, de verter obras e pensamentos a uma própria e necessária escrita. Não numa linguagem verborrágica, maledicente, sob uma privilegiada, rara, (e cara) educação, que faz da escrita um discurso fatalista do incorreto/correto, a pouca valorização do pensamento. Afinal, mais do que desigualdades, a educação convulsiona no esfarelado do patrimônio a comercialização.

O verborrágico sem a temporalidade necessária incorre nas muitas impossibilidades merecedoras de criações e, no entanto, desviam no conglomerado de citações rumo ao vazio, o que não deixa de ser um caminho, por pior que seja. Ora contemporâneos e de difícil compreensão pela falta de distanciamento, ora pelo pegajoso da facilidade; ora ou outra, o personagem asséptico ecoando uma ordenada leitura num silêncio impermeável ao diálogo, logo, no conforto e na assepsia.

Talvez, a simplicidade das palavras esteja em falta, assim como o trabalho do pensamento – lento, que desvenda e desaponta, desestabiliza porque há uma consciência encarnada num corpo humano (Merleau-Ponty), mesmo hoje, em meio à desmaterialização do espaço (por Pierre Levy), ou que o sujeito neurótico seja substituído pela falta de identidade (o esquizo de Deleuze).

Afinal que tempo ou pensamente é esse? Tempo em que Sartre em sua irreversível velhice dizia que jamais se sentiu velho. Ele morreu em 1980, aos 74 anos assumindo posições e reiterando que o silêncio é reacionário.

Sartre criticou o comunismo assassino de Stalin, por um Humanismo que o vitimou em estado de utopia. Em tempo de domínio marxista propôs a anarquia dos jovens ao conceito. Pela utopia criticou com veemência o papel do intelectual clássico (e asséptico), que tem seus encantos na boa escrita; mas para criticar precisou dos longos e pacientes 16 anos para o ina(cabado) L´idiot de la famille, sobre o intelectual Flaubert pela dificuldade de falar de Bovary, pois tinha a seu lado, em carne e osso – Simone de Beauvoir.

Ao longo das vidas de Sartre e Beauvoir muitos nomes circularam, sob críticas, embates de egos aos infortúnios; e viver numa guerra é sem dúvida aterrorizador. Há os que não resistiram as guerras, como Marc Bloch, mas sua escrita subterrânea sobreviveu; assim como há os que escaparam, dificilmente sem danos por força das circunstâncias como Sartre; em função da trincheira ou do campo de concentração, não há como pensar menos ou mais sofrimento neste momento.

E se Sartre parecia mais sensível e popularizado – o que certamente seus críticos mais ferrenhos adoram diagnosticar como melindre burguês e populista – talvez devêssemos nos deter “a sensibilidade e a inteligência (que) não estão separadas… sensibilidade produz inteligência”. (Sartre, In: Beauvoir, 1981, p. 411)

Inteligência para discutir, atritar, conviver, enfim, trabalhar o pensamento em seus vários momentos, mas percebê-los necessários e maturados, assim com a vida de seus contemporâneos, Merleau-Ponty, Camus, Foucault, Althusser, Deleuze, entre tantos; e sensibilidade de partilhar seus dividendos para suprir necessidades de amigos, conhecidos, grupos e propostas utópicas.

Quando Sartre e Beauvoir estiveram no Brasil, em Araraquara, 1960, houve uma conhecida foto da platéia: Ruth Cardoso, Bento Prado Jr. e Fernando Henrique Cardoso.

Prato cheio para o olhar conservador (de hoje) falar do lado burguês de Sartre, o que ressoaria uma posição centro-esquerda a centro. Afinal, qual era o público de Sartre e Beauvoir? Como se não estivéssemos à beira de uma ditadura militar por longos vinte anos! Nessa mesma platéia estava também o jovem pintor autodidata Gontran Guanaes Netto, filho de um boia-fria, que logo se tornaria um militante de pseudônimo André, exilado político na França, humanista e colaborador do Tecituras.

Platéia da conferência de Jean-Paul Sartre, 1960, Araraquara/SP: Gontran Guanaes Netto é o terceiro na segunda fila; primeira fila Ruth, FHC, Bento Prado Jr.

“Uns gatos mijaram em mim”, relato de Simone de Beauvoir do humano Sartre sobre sua incontinência urinária. Simone vocifera na escrita: “É terrível assistir à agonia de uma esperança”. E para fechar essa parceria Sartre e Beauvoir – atual, e por que não dizer humana e utópica, cabe o destaque a pergunta de Beauvoir a Sartre: “Quando perdeu essa ideia estúpida de que moças que se deitam livremente são mais ou menos putas?” Sartre respondeu que aos dezoito anos caiu em si. (Beauvoir, 1981, p. 93; 406)

No mais, deixo aos leitores o exercício do pensamento de Beauvoiriana, com a licença de relembrar o seu I am not a woman writer “… sou uma pessoa que ocupa na sociedade uma posição qualquer, independente de meu gênero.”

Quem tem medo de Simone de Beauvoir? (*)    por Beauvoiriana

Recentemente, tenho lido e ouvido muitos julgamentos, de teor e tom questionáveis, a Simone de Beauvoir que suscitam uma pergunta: por que sua figura e seu pensamento incomodam tanto? Sua bissexualidade, amantes, a recusa do casamento e da maternidade, a liberdade e independência em um mundo cada vez mais conservador.

Simone de Beauvoir nasceu há 113 anos. Suas obras mais influentes foram escritas entre os anos 1940 e meados dos anos 1970. O Segundo Sexo, seu livro mais importante, foi publicado em 1949. Lá se vão mais de 60 anos. Ainda hoje, muitas pessoas se recusam a ler Simone de Beauvoir porque ela era “uma libertina”. E repetem-se afirmações forjadas para atribuir a ela tudo aquilo contra o que ela lutou no plano das ideias e no plano da ação. Acusam-na de submissão, de dependência, de pregar o feminismo para as outras mulheres e não praticá-lo.

Essa resistência a Simone de Beauvoir esbarra em questões mais profundas sobre nossa sociedade: a condição da mulher, especificamente a mulher intelectual; a relação entre a experiência vivida e a escrita da memória com a subjetividade; as expectativas que recaem sobre os intelectuais. Tentarei abordar brevemente, e de forma não sistemática, alguns desses temas tendo como referência a figura de Simone de Beauvoir.

Simone de Beauvoir em seu quarto no Hotel Louisiane, Paris, 1946. Foto: Fonds Photographique Denise Bellon.

Os intelectuais vivem, obviamente transformando-se. É pouco racional ignorar que esse trabalho exige esforço.

Há quem queira invalidar o pensamento libertário e antissexista de Simone de Beauvoir baseado em sua relação com Sartre.

Simone de Beauvoir e Sartre tinham 20 e poucos anos quando firmaram um pacto que previa  um relacionamento aberto. Quem propôs este pacto foi Sartre. E Simone de Beauvoir o aceitou. Logo depois, eles foram nomeados para lecionar em cidades diferentes da França. O que unia a ambos: o relacionamento sexual, amoroso, e uma afinidade intelectual que provavelmente nenhum de seus críticos ou seguidores jamais experimentou. Sartre propôs casamento a Simone. Ela recusou.

O amor necessário entre ambos sempre superou os amores contingentes. Com o escritor Nelson Algren, envolveu-se no amor romantizado e “tradicional” para sua época. Ele a pediu em casamento. Ela recusou.

Simone de Beauvoir escreveu milhares de páginas em romances, ensaios, memórias abordando esses e outros fatos. Considerada uma das maiores memorialistas do século 20.

Em cada página das memórias, a honestidade de Simone é invejável. Ela reconhece, por exemplo, as críticas mal-informadas que ela e Sartre fizeram a Freud, os enganos que cometeram em algumas avaliações a respeito de personagens e colegas durante a guerra, o fato de que, durante muito tempo, ela e Sartre, embora lutando contra os ideais burgueses, se submeteram totalmente e sem sequer perceber ao estilo de vida que abominavam.

Simone de Beauvoir acreditava que a matéria-prima do intelectual, além da capacidade de compreender e criticar as teorias – é a própria experiência. A partir daí, pensava construir nossa relação com o mundo, talhar subjetividades e, assim, produzir uma obra intelectual, nos anos 1930, época que, uma mulher desacompanhada nem sempre era aceita em um café; ela optava por estar só. A solidão era a chave de sua abertura para o mundo.

Outra crítica comum a Simone de Beauvoir é de que ela era feminista em seus livros, mas não era feminista em seu relacionamento com Sartre. Dizem que ela pregava o feminismo para outras mulheres e não o praticava.

Em suas memórias, Simone de Beauvoir afirma que jamais foi feminista e que O Segundo Sexo, publicado em 1949, nunca foi concebido como um livro feminista. Por isso, quem cobra dela uma postura feminista em todos os episódios de sua vida age de má-fé. Simone de Beauvoir só se alinha ao feminismo nos anos 1970.

Eles não podiam viver a juventude de acordo com algo que ela só reconheceu e valorizou na velhice. Sim, os intelectuais mudam e se transformam ao longo do tempo, e isso não invalida seu pensamento.

O julgamento que ataca Simone de Beauvoir não é apenas aquele forjado no sexismo. Há um outro substrato nas acusações levianas que enumerei aqui e em outras que não há espaço para detalhar. Esse substrato é a necessidade de fazer de intelectuais verdadeiros deuses, modelos de comportamento, pessoas infalíveis que têm soluções infalíveis e que não podem ser questionadas.

Simone e Sartre construíram um sistema de pensamento que enfatiza: todos somos livres e a liberdade nos confronta a cada segundo com a angústia de fazer escolhas e com o sofrimento de nos responsabilizarmos por elas. Viver na insegurança, na incerteza e em constante contato com sua própria falibilidade e a ambiguidade.

Há quem Busque desqualificar o pensamento libertário, radical, transformador que, por definição, se constrói com base na exploração de visões de mundo, atitudes e comportamentos fora dos padrões e na diversidade de ideias e de ação. Nesse sentido, criticar Simone de Beauvoir (e Sartre) é muito mais construir empecilhos para que os intelectuais de hoje se inspirem ou busquem referências em suas ideias e possam pensar algo novo e tão transformador como eles pensaram em suas épocas.

Quem resiste a pensadores como Simone de Beauvoir e Sartre teme que alguém possa continuar a trilhar os caminhos que eles abriram. Teme palavras como liberdade, ambiguidade, imperfeição, descoberta, independência e, principalmente, responsabilidade e consciência. Talvez possam encontrar algo assim em alguma religião. Jamais encontrarão isso em pensadores livres e, felizmente, imperfeitos.

Sartre e Beauvoir. Foto: Antanas Sutkus, 1965

Apontamentos e sugestões:

(*)  Quem tem medo de Simone de Beauvoir? publicado na íntegra no portal O Pensador Selvagem.

(**) Sobre Gontran Guanaes Netto . Dados biográficos de Gontran Guanaes Netto por Gisèle Miranda  https://tecituras.wordpress.com/2010/01/11/brava-luta/ Cabe destacar que Gontran Netto não aceitou a indenização concedida por Fernando Henrique Cardoso a presos políticos)

https://tecituras.wordpress.com/2010/10/25/a-atualidade-de-simone-de-beauvoir/

https://tecituras.wordpress.com/2010/10/18/i-am-not-a-woman-writer/

BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambigüidade. Rio de janeiro, Nova Fronteira, 2005.

BEAUVOIR, Simone de. A cerimônia do adeus. Seguido de entrevistas com Jean-Paul Sartre (ago/set 1974). Tradução de Rita Braga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

SARTRE, Jean-Paul. Sartre no Brasil: a conferencia de Araraquara. Filosofia marxista e ideologia existencialista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenologia. 3. ed. Petropolis: Vozes, 1997.

“A Estranha Derrota” (*)

19 jun

por Gisèle Miranda

  

“Leo não consegue mudar o mundo. O nome do artista ausente pulsa vida na memória como um legado. Que memória é essa? Que geração é essa?

Como pensar uma exposição de Leonilson sem o sarcasmo ou a subjetividade de falar politicamente?

 

Leonilson (1957-1993), Leo Não Consegue Mudar o Mundo, 1989

Sim, politicamente sobre: “Leo (que) não consegue (iu) mudar o mundo”, sobre a AIDS, avassaladora nas décadas de 1980-90[1]. Um corpo marcado pela homofobia e pelos danosos anos de ditadura militar no Brasil. Um politicamente incorreto[2] sobre o poder macho, sobre a violência e o silêncio do Estado

Há um Leonilson associado ao inconsciente linguístico. Palavras exacerbadas, tecidas, bordadas, escritas: Mentiroso, Ninguém, Vazio, o espelho, o tombo, a bibliotecaJosé  (Leonilson Bezerra Dias ).  Um interno de um Estado como outrora foi Arthur Bispo do Rosário.

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Como já dito há os que se fortalecem diante da falta de memória; o que nos faz um povo de cidadania ainda em construção pela herança cultural, que sobrevive sob vários aspectos, e preponderantemente na violência.[3]

O legado de Leonilson nos aponta isso. E o que foi delegado à família, aos amigos está na culturalidade brasileira, que nos remete a um povo de encontros históricos, miscigenado, sofrido e carente. Isso reflete diretamente na educação que  como governar e analisar estão no rol das impossibilidades. Ou, seriam: nos possíveis a partir das impossibilidades?

Penso que o momento da educação brasileira é de INFELICIDADE, de VAZIO e de patrulhamento que fortalece um paradoxo de ervas daninhas, para acobertar sua falência múltipla de órgãos. Do berço à cafetinagem das ditas empresas educacionais de ensino superior.

Que fique claro que – de Leonilson, Bispo do Rosário, a Nuno Ramos; de Cartola, Adoniran Barbosa a Sabotagem; Mario Quintana, Leminski, a Cora Coralina; e por aí vai. Não ignoro as diferentes linguas de nossa lingua; é irrefutável! Anterior as minúcias da oralidade resgatada na década de 1950.[4] As manifestações do inconsciente linguístico estão por aí! Não compartilho a discriminação dicotômica do popular/erudito, pois se cria um modo infeliz para falar do povo.

Tampouco visto a carapuça de ´xerife da língua´ – um espelho refletido de patrulhamento ideológico utilizando noções históricas, e paradoxos do poder,  fazendo-se de politicamente incorreto, num momento INFELIZ, num poder sem precedentes da comunicação, que passa agora claramente por um renascimento da barbárie, como bem lembrado por Edward Said sobre as perspectivas do historiador Eric Hobsbawm. [5]

Será que terei a liberdade de falar sobre esse assunto sem que eu seja a força da Ordem em seu espelho? Ordem pela desordem.

Não compactuei com o MEC – seja na tentativa de abolir Monteiro Lobato à retirada do Kit anti-homofobia[6]. Acho uma INFELICIDADE.

Um VAZIO, que peço emprestado a LEONILSON, em seu sarcasmo divino, a partir de uma belíssima curadoria – Sob o peso dos meus amores.[7] Nesse modo subjetivo e não dicotômico de falar de política.

Leonilson (1957-1993), Sob o Peso dos Meus Amores, 1990.

Notas:

(*) Reverberando BLOCH, Marc. A Estranha Derrota. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

[1] 1º de Dezembro: Dia Mundial de Combate à AIDS e sua História

[2] O politicamente incorreto com o seguinte parâmetro: de Leonilson a Nuno Ramos – com sua obra Bandeira Branca, desfeita na 29ª Bienal de Arte de São Paulo sob o artífice do correto. (Cura-dores: “arte para quê?”/

No entanto, para exemplificar uma mascarada vestidura perigosa e criminosa, do politicamente incorreto, a recente fala do aclamado diretor dinamarquês Lars Von Trier, quando em uma entrevista coletiva em Cannes falou sobre o nazista. Interessante perceber que alguns de seus fãs incorreram  pelo mesmo caminho ao defenderem Lars Von Trier nesse momento, como politicamente incorreto.  Já me identifiquei como ‘leitora’ dos filmes de Lars neste blog, mas deixo claro que Lars e fãs foram partícipes de uma história de horror. “Vale à pena ler o filósofo Islavoj Zizek, em entrevista a Revista Época, em 30 mai. 2011:No caso de Lars tem outra questão: o artista deve ser julgado pelo que ele faz. O que eles sabem está no que eles produzem. Muitos deles são idiotas.” (…).

[4] ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a literatura medieval. Trad. Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.ZUMTHOR, P. Tradição e esquecimento. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich São Paulo: Hucitec, 1997.

[5] SAID, Edward. Reflexões sobre o Exílio e outros enssaios. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 234.

[6] Vazios que refletem feminicidio, bullying, neonazistas, homofóbicos, queima de índios, agressões a nordestinos, e patrocínios de diversas guerras que superam os números de mortos das duas últimas guerras mundiais.  V. Tb. STF nega pedido para suspender livro de Monteiro Lobato em escolas públicas

[7] Sob o Peso dos Meus Amores, 2011: elogios à curadoria de Bitu Cassundé e Ricardo Resende, assim como as participações no seminário de: Ana Lenice Dias, Lisette Lagnado, Paulo Herkenhoff, Ricardo Resende, Maria Esther Maciel e Carlos Eduardo Riccioppo.

 

(**) Sugestão:

MESQUITA, Ivo. Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. São Paulo: Projeto Leonilson/ Cosac & Naify, 1997.

 

Série Paschoal Carlos Magno VII: verdejantes moços pelas Barcas e Caravanas da Cultura

29 set

Por Gisèle Miranda

 

Moços era a denominação de jovens para Paschoal Carlos Magno. Assim como estudantes – deveria ser a situação desses moços. Ele bradava: Diga que eu acredito no teatro como elemento de educação! (Magno, PC, 197-)

Com sua trupe de moços, Paschoal desbravou tempos difíceis por uma linha de fuga em plena ditadura militar no Brasil. E como se não bastasse desbravou tempos longínquos.

Desde o período Carolíngio tem-se associado a cor verde para estabelecer a inquietude da juventude:

A pintura e a tintura medievais sempre tiveram dificuldade de dominar aos tons verdes. Estes são os mais instáveis…, uma relação possível entre a química e a ideologia. Como os tons verdes os jovens são volúveis, instáveis, às vezes perigosos. (Levi & Schmitt, 1996: 261)

Paschoal continuou clamando (em desvario) a dramaturgia dos moços-estudantes. As criações e sonhos o levaram ao estereótipo de louco quando realizou as Caravanas e Barcas da Cultura[1] com sua trupe, tangidos pela diversidade, numa inquietude nata, combativa e opositora a censura: matando a morte com a eternidade da arte. (Magno, PC. In: Jornal O Globo, 1974)

Caravana da cultura, 1964. Paschoal Carlos Magno,  Armando Maranhão (o primeiro do grupo à direita de Paschoal) e outros componentes do Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP)

A Barca da Cultura acreditou que o sertão viraria mar. Mas foi no mar da seca que a Barca tornou-se Caravana. Véspera do longo tempo, do silêncio, aviso na esquina, dando a impressão aos pobres de espírito que se tratava de propaganda comunista; eles confundiam as coisas. (Magno, PC. In: Jornal de Sergipe, 197-)

No cotidiano das Barcas/Caravanas, os espetáculos teatrais pelas manhãs, tardes e noites, sempre com distribuições de livros e discos, e reverberando uma proposta de erradicação do analfabetismo:

256 brasileiros chefiados pelo entusiasmo e sua fé. Oito ônibus, seis automóveis, dois caminhões carregados de livros e discos… 274 espetáculos, em praça pública, adros de igrejas, pátios de escolas, salas de orfanatos, asilos… (Magno, PC. In: O Jornal, 1967; Pasquim, 197-, p. 12)

Ou:

Descendo o Rio São Francisco, de Pirapora (MG) a Petrolina (PE) distribuindo livros e levando a população ribeirinha exibições nunca sonhadas de teatro, dança, cinema e artes plásticas.[2]

Essa empreitada não saiu ilesa para Paschoal. A Barca da Cultura também ficou conhecida como Barca pervertida, invertendo a ação cultural em campanhas infames, através de cartas anônimas aos jornais, prefeitos, cardeais e oficiais militares.

Paschoal Carlos Magno, Caravana da Cultura, s/d (foto família Carlos Magno)

Mas as Barcas e Caravanas existiram, independentes de estarem na contramão do período político e de suas condições financeiras. E, apesar de Paschoal ter declarado que houve quatrocentos Teatros de Estudantes no Brasil, e a ditadura militar matou-os um a um (Pasquim, 197-, p.13 e 14), formou-se uma matriz teórica para a descentralização do teatro (rompendo também com o preconceito contra o teatro):

A descentralização do teatro e o crescimento das atividades regionais – parece hoje mais próximo de se concretizar do que qualquer outro momento da história. No dia mesmo em que Paschoal era enterrado… eis uma confirmação consagradora de um apostolado que agora chega ao fim, mas cujos frutos continuarão alimentando de modo decisivo a atividade teatral brasileira. (Michalski, Yan. In: Jornal do Brasil, 27 mai. 1980, p. 2)

Referência:

LEVI, G. & SCHMITT, J. C. (Org.). História dos jovens: da antiguidade à era moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Vol. I.

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).


[1]A primeira Caravana se deu em 1963-1964 e a segunda, 1967-1968– atravessando os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas, e terminou na cidade de Maceió. Registros da Barca da Cultura 1973-1974. Porém, uma era o desdobramento da outra; quando necessária a Caravana transformava-se em Barca.

[2] Jornal do Brasil, 7 dez. 1973; Revista Veja, 27 fev. 1974; Diário de Pernambuco, 9 jul. 1980 (Stuttifera foi o segundo nome dado a Barca da Cultura por Antonio Callado)

Série Retecituras III: “Política Interna Dependente” – Fogo 451 aos doutores (de história)

11 mar

Por Gisèle Miranda

“A ilusão acalentada por aqueles que queimam livros é a de que podem cancelar a história e abolir o passado…  em 10 de maio de 1933, em Berlim… Paul Joseph Goelbbels discursou durante a queima de mais de 20 mil livros…  Freud, Steinbeck, Marx, Zola… Proust… Bertold Brech…”. (MANGUEL, 1997, p. 315-316)

Ou,

“No lugar onde se queimam livros, no fim se queimam homens (Heinrich Heine)

 

Atearam fogo aos doutores: mas eles sobrevivem, aqui, acolá ou em uma floresta dos homens-livros e livres, emprestada de FAHRENHEIT 451. Cenas ficcionais que Truffaut fez questão de dirigir a partir da incrível estória de Ray Bradbury, que se adéquam numa realidade cruel, deixando de ser ficção, tal qual a queima de doutores.[1]

Censores na queima de livros – cena do filme Fahrenheit 451

Mas até quando estaremos vivos? Em maio de 2007, quando recebi o texto protesto da historiadora Ana Gicelli Garcia Allanis, Dra. em História Social pela USP – publicado na Revista Caros Amigos (edição 120), a situação já estava alarmante. E o que foi feito?

Passei – assim como outros doutores- a ser alvo das fogueiras. Qual o nosso crime? Termos nos especializado, estudado, qualificado e conseguido o título de doutores para melhorarmos a educação de nosso país? Por continuarmos estudando, pesquisando, escrevendo? É duro sabermos da cafetinagem da educação.

Nos tornamos alvos mortais para as empresas educacionais pelo fato de sermos onerosos aos cofres da educação particular em detrimento da qualidade de ensino. Quantos professores doutores há nos cursos de graduação? Dependendo da época, o mínimo estabelecido pelo MEC.

Se perguntarmos aos estudantes de graduação quantos profissionais doutores há em seu curso, a resposta vem em coro: quase nenhum.

Quanto as universidades públicas há obrigatoriedade da titulação. O problema está no número de vagas. Em geral uma vaga por curso. É um investimento exaustivo intelectual e financeiro.

Também há os colegas que estão iniciando uma especialização ou mestrado que são o básico da mão de obra nas universidades particulares mas, se continuarem seus estudos estarão todos desempregados?

Há dois anos era comum sugerirem aos doutores que escondessem sua qualificação ao se colocarem como candidatos a vagas de professores universitários. Hoje, há agentes do fogo 451 para verificarem no Curriculum Lattes CNPq se de fato o candidato a professor não está escondendo ser um doutor, ou seja, um banido, um condenado ao fogo 451.

Que doutor vai esconder do CNPq Lattes uma formação qualificada, de experiência educacional, do exercício do pensamento, da escrita, a voz, a postura de anos pesquisando e sendo financiado por CNPq, CAPES, FAPESP?

Recordo uma frase de uma distinta professora da PUC/SP ao parabenizar-me pela trajetória que me fez doutora: “Você é uma doutora pela PUC/SP”. Senti o peso das atividades de anos após minha graduação, ligados às pesquisas, escrita, leituras; atividades que continuam no meu universo como pensadora.

Após dez anos da titulação ‘doutora’ e de práticas alternativas de sobrevivência, fui uma foragida. Vivi em florestas educando informalmente, mas perseguida pelo fogo 451: “Até quando a mídia, o MEC e os tecnocratas vomitadores de estatísticas vão fingir que está tudo bem? Quem deve ser processado e responsabilizado por toda essa esbórnia? Que país queremos?” [2]



[1] O filme FAHRENHEIT 451 é de 1966. O livro foi publicado em 1953. 451 é a temperatura celsius utilizada pelos censores para queimarem os livros.

[2] Ana Gicelli Garcia Allanis em sua frase final no texto “Tiro ao Doutor”, maio 2007.  Revista Caros Amigos. V. tb. “Título atrapalha professor doutor nas universidades particulares“:http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/titulo_atrapalha_prof_univ_particulares.htm

O que mudou de 2000 a 2016? 

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