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A (…)MAR ou “vivendo com saudades”

13 abr

Por Caio Madeira

 

Ela vivia num tempo diferente do meu. A vida dela passava com mais rapidez, e meus pensamentos sobre ela eram como ela se comportava, e como ela agia, e como ela rompia os relacionamentos dela com tamanha facilidade.

Ela é uma mulher que entregou seu corpo ao mar sem medo da solidão do oceano, e que, em retorno, recebeu a dádiva de ser parte das águas. Pele por escamas, pernas por cauda, guelras e música. Uma mulher que tinha sua beleza refletida sobre as águas cristalinas, com o cabelo salgado e o corpo nu molhado, sem o medo narcisista de se matar ao entregar-se ao próprio reflexo na água. Ela nadava com todos os peixes, em conversas intimas com as criaturas sob a maré calma, e quando sentia que sua humanidade à chamava, respirava o oxigênio com orgulho de ser a mulher que era.

Acima da água, ela alegrava-se pensando no que lhe trazia alegria e sentia saudades do que lhe trazia lembranças. E no meio de sua vida tão completa, marinheiros apareciam aqui e ali, seduzidos pela sua beleza. Eles saudavam-na, desejavam-na, atiçavam-na e queriam a bela sereia de qualquer jeito, e, ela ali no seu mar apenas olhava eles se fazerem de bobos.

Seu canto deixavam os idiotas em seus barcos gritando qualquer poesia barata, elogiando e se decompondo nas ideias que eles nem entendiam só pela esperança de conquista-la. E a sereia, tão bondosa, aceitava os desesperos dos homens que achavam que o mar era um trilho para seu automóvel, tão egoisticamente.

Os homens iam e vinham, se jogando no mar e nadando sem futuro para matar a fome dos peixes; as sereias alimentavam o mar antigamente, sabia? Pelo mar todo boiavam e afundavam corpos de homens estúpidos, que alimentavam os peixes enquanto caiam e caiam até o fundo do oceano, não sobrando nada na escuridão mais funda…

E. Nery, A mulher dos quadros do museu, 1988.

Emmanuel Nery (Rio de Janeiro, RJ, 1931- Rio de Janeiro, RJ, 2003) A mulher dos quadros do museu, 1988.

 

 

– E como eu nasci então?

– Você nasceu das linhas de um poema de amor – dela com o mar.

Série Obra Inacabada I: Estamos todos no mesmo barco

25 mar

Por Sérgio Augusto

 

“…todos nós, poetas, temos nossos barcos no ar, na terra e no mar…”
(Paschoal Carlos Magno, 1974)

Li as cartas que o artista Emmanuel Nery  (RJ,1931-RJ,2003) escreveu para Gisele Miranda e, logo pensei no trabalho visual.

Fiz uma pintura como um gesto afetivo reunindo cartas do artista à professora e o coletivo que concluiu o curso de Artes Visuais na Universidade Estadual de Maringá /UEM, 2012-2016. Pensei, estamos juntos há mais de quatro anos no mesmo barco!

sergio augusto coletivo obra 2016

Sérgio Augusto, “estamos todos no mesmo barco”, 2016; mista sobre papelão, 70 x 70 cm.

Nesse mar estamos nós: Eva, Beatriz, Ana, Janaina Borges, Priscila, Raony, Daiane, Felipe, Ricardo, Larissa, Camila, Anieli, Adilson, Sara, Letícia, Jean, Mailara, Giovana, Tatiane, Ana Caroline, Victor Hugo, Janaina Andrade, Sérgio Augusto e Gisele.

Os retratos foram compostos por tinta acrílica e lápis de cor; a palavra MAR foi bordada com linha azul; Gisele veste palavras de “Manú”, ou seja, as cartas que o artista Emmanuel Nery escreveu para ela.

 

Referências:

Cartas manuscritas / enviadas da cidade do Rio de Janeiro para a cidade de São Paulo, datadas:20/04/1988; 19/03/1991; 11/04/1991; 8/06/1991; 7/10/1991; 13/11/1991; 26/11/1991; 27/03/1992; 30/04/1992.

(*) a Série Obra Inacabada contará com a participação dos alunos acima referenciados.

Série Ficcional H. Miller, XXII, parte II – Tudo ou nada (mediado)

4 mar

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

Diz o ditado: Os loucos chegam correndo onde os anjos temem pisar (Miller, Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch, 2006, p. 159)

 

A mediação é um antídoto ao vazio do pensamento. Ela tem que ser ampla para alcançar as partículas que anseiam pela banalidade.  Miller insistiu no diálogo com Arendt e Chauí. Mas vociferou como Bóreas, um dos filhos do senhor dos ventos: –  pense…. Vá antes que eu lhe mate!  (Miller repetiu a frase de seu Nexus como um épico tempestuoso).

Enquanto expandia meu pensamento numa sala de espera do hospital fui chamada pelo médico. Voltei a sentir as pontadas em meu peito. Desta vez me contorci, apertei os olhos e gemi o som da dor.

Ao abrir os olhos vi e senti suas mãos percorrerem os campos minados do meu peito e logo semearam os girassóis de Van Gogh. Recitei em silêncio o Nexus: – “Você me dá coragem. Mesmo quando não diz nada. Tenho que tirar êsse pêso do peito.” (Miller, 1968, 393)

Logo, a respiração assumiu uma cadência pausada, apesar da dor que insistia. Tomei a coragem que me ofertou e caminhei pelos becos sombrios até o ponto da bifurcação. Caminhei sem temer a falésia e gritei aos quatro ventos.

Emmanuel Nery, Sucessor, 1988. Acrílico sobre tela 55 X 46 cm. Coleção Moacyr dos Reis Abreu, RJ

Emmanuel Nery, Sucessor, 1988. Acrílico sobre tela    55 X 46 cm. Coleção Moacyr dos Reis Abreu, RJ

–  Pronto! (disse o doutor) A dor e as misturas de colorações do roxo ao amarelo serão graduais.

Sorri a frieza de suas palavras enquanto lembrava do reencontro com Miller. Vasculhei os seus punhos à procura das iniciais HM, mas nada encontrei.

– Vamos aguardá-la na semana que vem. (foram as últimas e enxutas palavras do doutor)

– “Vamos?” (retruquei) Quem me aguardará além do senhor?

O médico hesitou sua gélida saída por alguns segundos, virou o rosto e sorriu o largo sorriso de H. Miller.

 

Referências:

MILLER, Henry. Nexus. Rio de Janeiro: Record, 1968. 

MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006

Sobre o artista Emmanuel Nery.

Série Ficcional H. Miller, XXII, parte I: tudo ou nada

3 mar

por Lia Mirror & Laila Lizmann 

 

 

…volte para casa e pense…. Vá antes que eu lhe mate!

Voltei-me imediatamente e parti rumo à porta. Necessitei de tôda a coragem para não romper em uma corrida. (H. MILLER, Nexus, 1968, p. 170)

Véspera de tempo outonal em pleno verão. As mãos ficaram trêmulas e a voz embargada pela resposta que veio sobre absolutamente tudo ao mesmo tempo. Não ousaria dizer: talvez  sob tortura.

Tremi depois de observar o entorno: todos estavam acolhidos, em pares, em ímpares e até crianças correndo lá e cá, mas ninguém estava sozinho. Caíram as moedas do meu bolso furado, depois os exames e em seguida, a água esparramou pelo chão como uma explosão estelar de braços, pernas, muitos peitos e um cachimbo no canto esquerdo – que não é um cachimbo, diriam Magritte e Foucault.

Emmanuel Nery, Fêmea completa, 1988,  acrílico sobre tela (55 x 46 cm) Coleção P. M. Bardi, SP.

Emmanuel Nery, Fêmea completa, 1988, acrílico sobre tela (55 x 46 cm) Coleção P. M. Bardi, SP.

Fui chamada.  Pensei: e se H. Miller for o doutor ? Mas não era.  No taciturno doutor a dessemelhança da foto do sorridente filho, entre os outros filhos.

Vi um servo do oficio enquanto atendia as ligações; a secretária que entrou repentinamente. Nesse exato momento apareceram as iniciais em seu punho esquerdo: HM. Do punho saltaram duas exasperantes dores em meu peito. Bravamente não deixei transparecer.

Entre as interferências externas ele fazia perguntas rápidas e formais ao pronto encaminhamento: “- Pode ser tudo ou nada. Eu prefiro assim porque existe a dúvida. “

Sempre vi na dúvida uma posição a ser tomada. Como a direita e a esquerda por uma liberdade consciente mesmo que esta esteja em construção, pois onde há raízes da violência não há ética. Onde há abominação política projeta-se o fascismo. (CHAUÍ, M. In: CULT, 2014, 42-52)

Será uma tomada de posição cognitiva se opondo ao vazio do pensamento, independente do lado. (Harendt, 1999).

 

 

Referências:

ARENDT, H. Eichmman em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

CHAUÍ, M. In: Revista CULT, Edição Especial Grandes Entrevistas, n. 1, ano 17, 2014, pg. 42-52

MILLER, Henry. Nexus. Rio de Janeiro: Record, 1968. 

Sobre o artista Emmanuel Nery (E. NERY): V. neste blog a Série Emmanuel Nery

Série Reflexões sobre o Anarquismo II: a militância de Fábio Luz

5 set

Por Jozy Lima

 


Fábio Luz nasceu e viveu no interior da Bahia (Valença), e cursou medicina em Salvador entre 1883-1888, ou seja, numa sociedade monárquica e escravista. Por conta disso foi ativo abolicionista e republicano:

… constrangido quando observava a miséria, os sofrimentos e humilhações impostos pelos policiais negros aos seus semelhantes. O Estado, o Império, apareciam-me como responsáveis por estes atos de desumanidade. Esse entendimento fez nascer em mim aspiração de uma forma de Governo que fosse mais humano e igualitário.

Supus que a República democrática realizaria esse ideal e me tornei republicano apesar do decreto que pôs fim à escravidão ter sido aprovado pela Monarquia, forçada pela propaganda que o povo fazia. Enganei-me. Comecei então a preocupar-me com a questão econômica e a má distribuição da riqueza social, criada pelo trabalhador, dinamizada pelos exploradores e açambarcada pelos capitalistas. (Fábio Luz. In: Rodrigues, 1988, p. 208)

NERY, Emmanuel, Denominador comum, 1986 acrílico s/ tela 100 x 65 cm.

 

Pela prática médica vivenciou um período epidêmico no Rio de Janeiro que vinha desde final do século 19. Associado a isto, estudou com afinco sobre o comunismo libertário do pensador anarquista Peter Kropotkin (1842-1912) e, inevitavelmente, os vetores do movimento anarquista europeu, tal como Elisée Reclus (1830-1905) e Malatesta (1853-1932).

Porém, foi com Kropotkin que Fabio Luz mais se aproximou; o que resultou em uma antologia crítica literária denominada Dioramas, sobre o espírito libérrimo, um tanto o quanto iconoclasta, rebelde e revolucionário.

Fábio luz como médico retratou a reação da população pobre às campanhas de saneamento, às inspeções nas habitações e, as epidemias que vinham ocorrendo no estado do Rio de Janeiro desde o final do século 19.  Dedicando várias páginas para mostrar a violência, a truculência com que eram tratados os suspeitos de doenças contagiosas, por aqueles que eram encarregados da higiene.

Quando Fábio Luz escreveu o Ideólogo –  criou o personagem Anselmo – um abolicionista, republicano e de origem burguesa.

Anselmo era um advogado que atuava na defesa de miseráveis, por entender que as injustiças sociais – fruto do egoísmo burguês – eram responsáveis pelas atitudes tidas como criminosas – daqueles que foram privados do pão como alimento e do pão espiritual. Como advogado conhecia e rechaçava o sistema penitenciário – acostumado que estava a visitar a Casa de Detenção, dizia: filhos da miséria, vítimas do capitalismo. Anselmo aproximou-se dos operários atuando como tipógrafo e jamais desistiu de divulgar suas idéias anarquistas em seu próprio meio social.

Enquanto construía sua literatura social na livraria Garnier, ponto de discussões sobre a passagem do Império à República, Fábio Luz também esteve envolvido na proposta da Universidade Popular e vivenciava a insalubridade da capital.

Naquela época, o seu olhar de médico era para o foco endêmico da varíola, tuberculose, malária, febre tifóide, lepra, escarlatina e, sobre tudo, a terrível febre amarela. Por outro lado, a modernização da área portuária da cidade do Rio de Janeiro e a construção da Avenida Central tomaram o curso das obras encampadas por Pereira Passos (prefeito na época), cujos desdobramentos implicaram num processo de limpeza do centro da cidade com a expulsão da população pobre.

Fábio Luz – como médico – admitia as medidas sanitárias que eliminassem o quadro de epidemias que vitimou a população da cidade. Entretanto, discordava dos métodos aplicados: a obrigatoriedade, a truculência, a violência e a invasão de privacidade que semeava o pânico. Entendia que as resistências sociais às medidas sanitárias:

era  o povo que se levantava para defender sua liberdade, em titânicas e ferozes convulsões. E quando o povo chega a essa alta compreensão de seus direitos, ponha-lhe os diques que quiserem, que ele como torrente impetuosa fará a enchente atirando os obstáculos por terra. (Fábio Luz, 1924, p. 76-77)

Referências:

ARVON, H. El Anarquismo en el siglo XX. Madrid: Taurus, 1979.

BAKUNIN, M. Escrito contra Marx. Brasília: Novos Tempos, 1989.

BOSI, A. A História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1975.

DAVIS, N. Z. Culturas do Povo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1990.

DULLES, J. W. F. Anarquistas e comunistas no Brasil, 1900-1935. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1977.

FAUSTO, B. Trabalho urbano e conflito social. São Paulo: Difel, 1976.

FENELON, D. R. Trabalho, cultura e história social. Revista Projeto História, São Paulo: EDUC, jun. 1984.

GUERIN, D. Anarquismo. Rio de Janeiro: Germinal, 1968.

KHOURY, Y. M. A. A poesia anarquista. In: Revista Brasileira História. São Paulo: Marco Zero, v. 8. 15, set. 1987- fev. 1988.

LEUENROTH, E. Anarquismo: roteiro libertação social. Rio de Janeiro: Mundo Livre, 1962.

LIMA, J. T. A palavra e a pena: dimensões da militância anarquista de Fábio Luz (Rio, 1903/1938) São Paulo, PUC, dissertação de mestrado, 1995.

LUZ, F. Ideólogo. Rio de Janeiro: Altina, 1903.

LUZ, F. Os Emancipados. Lisboa: Clássica Editora, A. M. Teixreira e Cia., 1906.

LUZ, F. Nunca: o soldado e cântidos da aurora e do crepúsculo. Rio de Janeiro: Leite & Ribeiro, 1924.

LUZ, F. Dioramas. Rio de Janeiro: Ravaro, 1934.

MAGALHÃES, Jr. A Vida Vertiginosa de João do Rio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, INL, 1978

MAGNANI, S. O Movimento Anarquista em São Paulo. São Paulo: Brasiliense, 1982.

OITICICA, J. Ação direta. Rio de Janeiro: Germinal, s/d.

RAGO, L. M. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

RODRIGUES, Edgar. Os Libertários: idéias e experiências anárquicas. Petrópolis: Vozes, 1988.

RODRIGUES, Edgar. O Anarquismo na Escola, no Teatro, na Poesia. Rio Janeiro: Achiamé, 1992.

SÜSSEKING, F. As revistas de ano e a invenção do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

WOODCOCK, G. Os Grandes Escritores Anarquistas. Porto Alegre, LPM, 1986.

* Sobre o artista Emmanuel Nery: http://bit.ly/9WxuXm

Jornais:

LUZ, F. Elysio de Carvalho, ALMANAQUE GARNIER, 1907.

LUZ, F. No Ser Papel, REVOLUÇÃO SOCIAL, 2 jun. 1923.

LUZ, F Pontos nos ii, SPÁRTACUS, Ano I, out, 1919.

LUZ, F. Comunismo Libertário, A PLEBE, out., 1934.

Série Emmanuel Nery VII: Velhice

9 jun

Por Gisèle Miranda


Historicizar a imagem em sua potência múltipla possibilita frutos pelo estímulo à memória e pelo promulgar do diálogo que conduz a instauração da documentação, da tradição, do comemorativo, do monumento a preservação e quiçá, a imortalidade.

Possibilita também que em cada tempo haja um olhar diferenciado, questionador que dialogue por entre temáticas, formas e cores. Cada obra, filha de seu tempo, mesmo que esse tempo pareça inconcebível, inquietante, irrepreensível. Não é a toa que arte tem o hábito de instigar posicionamentos.

Em uma sociedade de injustiças, de descaso e despreparo para absorver o melhor que a maturidade nos traz,  as instituições e núcleos familiares ainda têm um amorfo olhar sobre o envelhecimento, e no que tange às condições de vida ou aos direitos elementares da cidadania esta população é credora de uma incomensurável dívida social. (Montenegro, 1992, p. 14)

Os estímulos a construção são maiores do que os estímulos a preservação e por conta da falta de políticas públicas, entre inúmeras ações institucionais aos pequenos núcleos familiares, a velhice para muitos ainda é sinônimo de inutilidade. Ou seja, o tempo transcorrido, o saber adquirido, as experiências tornam-se memórias ao lixo, do lixo dos sem memórias.

Nos percalços da velhice, aquém da questão de saúde, estão perdidos os sinais de reconhecimento, de pertencimento – a praça, o coreto, as linhas de trens, as fachadas, as ruas. A memória é uma noção que legitima como cultura vivida e na qual cada experiência passada é uma virtualidade aberta. Estendendo a dimensão da memória, estende-se proporcionalmente a da imaginação. (Argan, 1992, p. 67-68)

 

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003), Velhice, 1986, óleo s/tela 60 X 50 cm

 

A tríade que aparece representada por idosos na obra de Emmanuel Nery – duas mulheres e um homem marcam a sexualidade existente sim, muito embora ao primeiro olhar social, vislumbra-se a morbidez dos corpos quase derretidos pelo tempo.

O idoso não é assexuado, pulsa-lhe vida, portanto, desejos. E, por outro ângulo, o pintor não deve educar somente os olhos, é alma sobretudo tornar capaz de pesar. (Leclaire, 1996, p. 65)

A cor é uma preponderante nos trabalhos de Emmanuel Nery, e dentre as que estão na imagem Velhice, cabe o destaque da cor branca, que age em nossa alma como silêncio absoluto. Esse silêncio que não é morto, ele transborda de possibilidades vivas. (Kandinsky, 1990, p. 89)

Apesar da cor branca praticamente inexistir em seus trabalhos, o pouco inserido em seus quadros referenda o tempo – o tempo passado. Vale o destaque de parte do poema Branco de Emmanuel Nery:

Luzes brancas,

Que não iluminam

– Só clareiam.

… Branco estéril.

…Branco da máxima produção.

Sem trabalho

Ou lazer.

… Branco asfixiante.

…Nos brancos

Vazando as últimas cores.

(Nery, 1987, p. 86)

Referências:

ARGAN, G. C. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

KANDINSKY, N. Do espiritual na arte. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

LECLAIRE, S. Psicanalisar. São Paulo: Perspectiva, 1986. (Coleção Debates, 126)

MONTENEGRO, A. T. História oral e memória: a cultura popular revisitada. São Paulo: Contexto, 1992. (Caminhos da História)

NERY, E. Forças Contrastantes. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

Série Emmanuel Nery VI: Imagem feminina

8 jun

Por Gisèle Miranda


 

 

Prostituta é uma imagem fortemente produzida; dir-se-ia em sua plena sexualidade e explícita de sua anatomia feminina. Uma pintura gestual, mas criteriosa e reminiscente. Libidinosa, dolorosa e tematicamente histórica.

 

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003), Prostituta, acrílico s/ tela 55 X 46cm, 1986.

 

Dos registros…  mais de três mil anos de serviços[1] e fins variados entre a pobreza,  desemprego à falta de privilégios. É sabido que as Damas das Cortes que passavam por refinamentos eram induzidas a prestarem serviços, inclusive de espionagens.

A livre vontade muitas vezes tinha o caráter ambicioso que determinou pensamentos estratégicos de guerra e poder. Também, aquelas que inverteram sua condição – surgidas da obscuridade à luz da Santa Igreja, tal como no caso de Teodora[2].

Os castigos oscilavam entre prisões, mortes por afogamentos e sufocamentos com excrementos[3]. As sombras do passado assolaram degradação e dignidade.

A Prostituta foi adquirida pela Sra. A. J. , que outrora entrevistei para um trabalho específico, e agora, preservo sua identidade utilizando apenas as siglas.

A. J.: “Saí da exposição com a idéia… eu tenho uma prima artista… mais moderna, mais ousada! Vou falar para ela comprar esse quadro…. Quando eu cheguei na esquina, eu pensei: se é lindo para ela por que não é lindo para mim? Eu já estava na esquina e voltei! E ao conversar com o artista… ele falou… é uma mulher quebrada. Ele a amou. É um quadro cheio de força, cheio de energia, chama atenção! Uma aceitação da parte dele!” (Depoimento de A. J. à Gisèle Miranda, em 1995)

A. J. ficou surpresa com a beleza do imperfectível. Da mulher quebrada. Imperfeita e amada pelo artista. Tornou-a musa. Imortalizando-a? Sim, uma prostituta, a Prostituta do artista Emmanuel Nery.

A.J.: “Meus filhos – Tem essa coisa pendurada! …acham que eu ponho aí de birra… meu pai também me deu um quadro de presente. Na condição que não ficasse na mesma sala que desse aí. As amigas não comentam nada. Mas chama atenção…” (A. J., 1995)

A. J. fez o possível para ser filha, esposa e mãe perfeitas. Mas ela se descobriu com imperfeições diante da moral de seus filhos e pai. Viúva, sentia apenas a liberdade de viver seus erros, seus desejos. Como um desafio e a constatação de sua força que surgiu a partir da pintura Prostituta.

Para o artista Emmanuel Nery a satisfação da venda de Prostituta:

“… a venda mais fabulosa, a mais inesquecível. Eu tenho um retrato dela, uma senhora… ela entrava, saía… e por fim comprou o quadro, porque era a antítese dela. Foi incrível!” (Entrevista de Emmanuel Nery à Gisèle Miranda, 1991)

 


[1]Murphy, E. História dos grandes bordéis do mundo. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1994. 261.

[2] Em 527 d. C. casou-se com o Imperador Justiniano tornando-se Imperatriz, e pós morte Santidade diante da Igreja Ortodoxa. Outras de esplendor histórico: Bess Dysart, Nell Gwyn, Liane de Pougy Duquesa de Lauderdale.  Muitas modelos e messalinas foram amantes de grandes mestres da pintura.

[3] Quando a sífilis se alastrou – séc. XV na Inglaterra. Ou, talhavam-lhes os rostos na França a partir de 1619, séc. XVII, nos reinados de Luis XIII e XV, sendo estes apreciadores de bordéis e prostíbulos, tanto que anexaram ao Palácio de Versailles.

Série Emmanuel Nery V: Ismael Nery (2) e sua essência tríade

27 maio

Por Gisèle Miranda

A Essência Filosófica e o Surrealismo encontraram na Circularidade do Um, do Dois e do Três, assinado por Affonso Romano de Santana para a Dan Galeria em 1991, a textualidade tríade a partir de 65 desenhos de Ismael Nery entre 1912 e 1923.[1]

Nessa Circularidade estão: narcisismo, erotismo e melancolia. Ismael Nery desenhava, pintava e escrevia, a partir do ego filosófico e do culto grego de virilidade e idealização do corpo, além da dubiedade do feminino e masculino – a beleza feminina com traços do masculino – Adalgisa e Ismael Nery.

Ismael Nery (Belém, 1900-RJ, 1934) Guerreiro, nankim/ aquarela s/ papel 20 x 30 cm, 1924

Mas o triângulo se deu a partir do poeta Murilo Mendes, amigo pessoal e inseparável de Ismael Nery. A tríade Ismael/Adalgisa/Murilo deu o tom necessário do conceito filosófico Essencialismo: que uniu catolicismo e concepção de arte (Nehring, 2002, p. 27) e, rumores sobre a relação dos três.

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003) Adalgisa Nery ou Retrato de Adalgisa, acrílico s/ tela 50 x 40 cm, 1986.

A tríade rompeu com a morte de Ismael Nery. Murilo Mendes foi para Portugal e casou com a poetisa Maria da Saudade. A poetisa Adalgisa Nery casou com o braço direito da era Getúlio Vargas – Lourival Fontes.[2]

Às vésperas da morte anunciada, já nos 34 anos, mas sentindo-se aos 33 anos como Cristo e seu pai – Ismael Nery pediu a Murilo Mendes que queimasse toda a sua obra. Pedido não aceito; mas Murilo só trouxe a público grande parte da obra, após 40 anos da morte de Ismael Nery,  através  da exposição no MASP, em 1974[3].

É instigante perceber no Retrato de Adalgisa de Emmanuel Nery (o filho), a mescla do feminino e do masculino, tal como Ismael Nery (o pai). Porém Emannuel Nery teve a independência de traços, cores e formação, além da memória construída do pai ausente.

Referências:

A VERTIGEM poética de Murilo Mendes. São Paulo: Revista CULT, Ano IV, n. 46.

GUIMARÃES, Júlio Castañon(Org.)MURILO Mendes: 1901-2001. Juiz de Fora: CEMM/UFJF, 2001.

MIRANDA, Gisèle. Ismael Nery: narcisista, erótico ou melancólico? Araçatuba: Jornal Folha da Manhã, 8 jan. 1992.

MIRANDA, (ou MADEIRA) Gisèle. Ismael Nery em três tempos. Rio de Janeiro/ UERJ: Revista Informação Psiquiátrica, Vol. 15, n. 3, 1996. (Série A Arte de Falar de Arte)

NEHRING, Marta Moraes. Murilo Mendes: crítico de arte: a invenção do finito. São Paulo: Nankin Editorial, 2002.


[1] Ismael Nery nasceu em Belém (PA) em 1 de julho de 1900; mudou com seus pais para a cidade do Rio de Janeiro quando tinha 2 anos.  Ismael começou a desenhar muito cedo; cursou a Escola de Belas Artes e aperfeiçoou-se na Europa. Trabalhou como arquiteto-desenhista e desenvolveu um sistema filosófico denominado Essencialismo, baseado na abstração do tempo e do espaço na seleção e cultivo dos elementos essenciais à existência, na redução do tempo à unidade… (Catálogo Dan Galeria, 1991). Suas influências na pintura foram Marc Chagall, Picasso, Max Ernst e Klimt. Ismael Nery não vendeu nenhum de seus trabalhos em vida. Faleceu em 6 de abril de 1934, na cidade do Rio de Janeiro.

Catálogo Dan Galeria – exposição de 26 de novembro a 14 de dezembro de 1991.

[2] Murilo Mendes: Poeta e crítico de arte nascido em Juiz de Fora (MG) em 1901; falecido em Portugal em 1975. Murilo foi casado com a poetisa portuguesa Maria da Saudade Cortesão.  Em Juiz de Fora há o Museu Murilo Mendes http://www.museudeartemurilomendes.com.br/

Lourival Fontes, 1895-1967, advogado; foi embaixador no México durante o primeiro governo de Getúlio Vargas; também foi chefe da Casa Civil no segundo governo de Vargas; diretor do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) criado pelo Estado Novo e Senador em Sergipe.

[3] Em 1974 no Museu de Arte de São Paulo (MASP), a primeira exposição individual intitulada: Ismael Nery: 1900-1934; e, retrospectiva, no MAB/Faap, São Paulo. Antes disso, em 1948, na cidade do Rio de Janeiro RJ, Murilo Mendes publicou uma série de artigos no jornal O Estado de São Paulo e, em Letras e Artes, posteriormente reunidos pela EDUSP no livro Recordações de Ismael Nery de 1996.

Em1969, também na cidade do Rio de Janeiro, o Vídeo Sérgio Santeiro: O Guesa, Ismael Nery, Viagem pelo Interior Paulista, de Paulo Mendes de Almeida.

Em 1973 foi publicado o livro Ismael Nery, de Antonio Bento (1902 – 1988), com introdução de Murilo Mendes.

Em 1984, na cidade de São Paulo, a crítica de arte Aracy Amaral (1930-) lançou um livro sobre a obra do pintor na Retrospectiva Ismael Nery – no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC/USP; entre outros.

Série Emmanuel Nery IV: o simbólico em Gota de Paz

4 maio

Por Gisèle Miranda

 

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003) Gota de Paz, 1986, acrílico s/ tela 55 x 46 cm.

Quando uma imagem está em consonância com a natureza pode-se dizer que existe uma relação simbólica; e quando apresenta uma coloração significativa crê-se que abrange o imaginário coletivo. O exemplo é da morbidez da imagem e a contraposição do pequeno foco de luz, a Gota de Paz, que intriga.

Para Emmanuel Nery este homem de terno e gravata era o artista preso as amarras de uma necessidade. A construção se deu a partir de reminiscências de quando era auxiliar de publicidade.

As falanges desgarram-se sob efeito de sublimação. Contrária, a partícula ou a gota que cai. Forças contrárias que se encontram?

Mas o que leva uma pessoa a adquirir um trabalho que explicitamente choca à primeira instância? Coincidência que tenha sido comprado por um publicitário?

Durante a entrevista com o adquirente de Gota de Paz, em seu escritório, de terno e gravata observei a pintura a cerca de três metros à frente de sua mesa.1

Questionei a possibilidade da sensação de um retrato ou espelho. Mas o adquirente foi enfático em dizer: – “…até conversei com Emmanuel, a visão dele não era exatamente a minha visão…”.

No final de nossa entrevista:- “…eu gostei, eu não sei explicar, eu gosto do traço… ele é um pouco angustiado, ele tem essa coisa de terno e gravata… mas de certa forma eu me identifico, não sou dark… a cidade como São Paulo, ela angustia o cara…”.

 

 

1 Optei por deixar anônimo o adquirente pelo fato da entrevista ter ocorrido em 1992, tendo sido autorizada, na época, apenas para produção acadêmica. Destaco que Gota de Paz foi o primeiro quadro comprado pelo adquirente.

Série Emmanuel Nery III: Bar Alpino em Orelhas sobre a mesa

27 abr

por Gisèle Miranda

 

 

 

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003), Orelhas sobre a mesa, acrílico s/ tela 55 x 46 cm, 1986.

 

 

Orelhas sobre a mesa reforça o relato pictorial do artista sobre a cidade e a transforma em possibilidades de exprimir a tensão entre a racionalidade e o emaranhado das existências humanas. (Calvino, 1991)

Em Orelhas sobre a mesa os excessos da incomunicabilidade através de duas figuras deformadas pela falta de diálogo; o raciocínio confunde-se com a força bruta: “facas sobre a mesa… não orelhas sobre a mesa…” – ato falho de Emmanuel Nery.[1] Facas ou orelhas?

A incomunicabilidade da fala e da escuta se estende à inexistência do entorno. Nas cores rosa e azul por Goethe e Kandinsky: a busca teórica de suas escolhas. Para ambos a junção da matriz vermelho que em suas variações resultam em rosa e lilás; e com o azul, o resultado da violeta, que variavelmente chegará à rosa – em movimento concêntrico.

 

 


[1] Emmanuel Nery em 30 de junho de 1993; entrevista à Gisèle Miranda.

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