Tag Archives: escravidão

Série Retorno II: Os olhares (colonizadores)

30 ago

 por Gisèle Miranda

 

A estética dos artistas viajantes que documentaram características ambientais estava muito atrelada ao registro das novas terras colonizadas, ou seja, uma aventura ao desconhecido.

Tivemos muitas linguas com a estética de suas origens que se aventuraram às terras novas. Dos países baixos a presença das pinturas de paisagens, natureza-morta com uma luminosidade muito diferente do Barroco laico impregnado nas comitivas dos séculos 16 e 17, a exemplo as obras de Frans Post (1612-1680) e Albert Eckhout (1610-1666).

Outros vieram a convite da corte real portuguesa no momento da queda de Napoleão Bonaparte (1815), ou seja, a vinda da Missão Artística Francesa (1816) que nos remeteu a um Neoclassicismo tardio.

Vindos com a segurança necessária de seu ofício, os artistas franceses tornaram-se a base da educação na colônia, contudo com um discurso monárquico subtraído da Europa e que desencadeou no academicismo amalgamado de subserviência para com o discurso da mestiçagem a desqualificação.

O preconceito aos artistas brasileiros pesou por suas misturas. Outrora como princípio ao diminuto, o que retardou pinçar alguns alunos para bolsas de estudos em meados do século 19. Parcas possibilidades aos nativos miscigenados brasileiros, contudo, as primeiras iniciativas. Ironia do tempo, pois o que mais valioso temos no século 21 são nossas misturas.

Terra dos doces em fartura, também pelas frutas trazidas, do plantio extensivo da cana de açúcar a extração de pedras preciosas. Tudo tão doce e tão reluzente sob as marcas dolorosas da escravidão de indígenas, de africanos ao último país a abolir a escravidão (1888), um século depois da Revolução Industrial e da Revolução Francesa.

chih, sem título, 2013

Chih Wei Chang, s/ título, 2013.

Futebol arte e alienação: ginga ou assepsia?

22 jun

Por Lia Mirror,  Laila Lizmann & Gisèle Miranda

 

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão. Se a injustiça social não encontrou entre nós – ao menos até os anos 80 – uma resposta política efetiva, parece fora de questão que artisticamente nosso meio cultural seria muito menos rico sem a contribuição daqueles que teriam tudo para permanecer silenciosamente à margem.  (Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014)

 

Reminiscências da Copa de 2010

Por mais asséptico que o treinador tenha sido, a ginga de misturas mirabolantes fez do futebol do Brasil ser aquém! Ser arte! Arre, pedaladas de Robinho! Até Kaká, o bom moço religioso foi expulso em prol da guerrilha da Costa do Marfim. Os caras bateram no desespero. Mas não merece ser dito: – “Tá vendo, quem manda torcer pelos Africanos!”

Nelson Mandela, 2010

Nelson Mandela (Mvezo, África do Sul, 1918 – Joanesburgo, África do Sul, 2013) Foto divulgação, 2010.

Quem falou isso? Um infeliz. Prefiro milhões de vezes a porrada da Costa do Marfim que Materazzi implicando com Zinedine Zidane por questões étnicas na Copa de 2006. Daria mil cabeçadas nesse boçal Materazzi . A cabeçada de Zidane foi a cabeçada de milhões.

Mas, o infeliz continuou: “- você não entende nada de futebol.” Aquilo ficou engasgado. Apartheid de gênero?  Sei que me dói matar no peito como Luiz Fabiano fez, além do gol contra com a Costa do Marfim.

Esqueço que a invenção vem dos ingleses e vislumbro uma raiz que resplandece da fome, da mestiçagem, dos negros do Apartheid, do escravismo do último país a abolir a escravidão: o Brasil! 

Isso lembra a busca incessante do bode expiatório do Flamengo. Ou será o próprio Flamengo comandado por uma mulher? Se fez tem que pagar! Vagner Love saiu praticamente ileso e com elegância do complô/mídia. Acusado de ser negro (?), de ter saído de uma favela (?) e de ter reminiscências/essência do homem que é – do submundo. Padrinho de 500 crianças do morro (a força de expressão por ser maior)  e alvo de idolatria até “dos bandidos.”

Opa, mas favela só tem negros, pobres, drogas e armas!? Também trabalhadores, benfeitores que não esqueceram suas infâncias. Vagner Love e Adriano, por exemplo! Love saiu ileso pela boa oratória, mas o Imperador…  hum..  chutou o pau da barraca. O Imperador foi preterido pela assepsia da seleção, mas não pelo discernimento do bom brasileiro que sabe das misturas de nossa gente.

Mas querem saber o que mais chamou atenção até esse momento da Copa de 2010, apesar dos bons lances e da hipocrisia? A vocalista do “The Black Eyed Peas” (que fez a abertura da Copa) que em entrevista falou do seu maior desejo: conhecer o Brasil e ir a uma festa na favela. A jornalista fez aquela cara de… Ponto turístico? Será que a jornalista lembrou do Adriano ou do Vagner Love? Ou ainda, será que a entrevistada não teve tempo de perceber que estava no continente da maior favela do mundo? Maior número de fome, AIDS, pobreza, guerrilhas, violências…?

Meu ídolo no futebol arte ainda é Mané Garrincha que tinha as pernas tortas e vida tortuosa. E mais, pela parceria de arte e amor com Elza Soares, “a mulher do fim do mundo” que descia o seu morro com “a lata d´água na cabeça” ensaiando para nos dizer que “Deus é Mulher”.

Nos Direitos Humanos meu ídolo é Nelson Mandela que nunca abandonou os princípios básicos de humanidade apesar de toda a violência sofrida e longe de ser sanada.

%d blogueiros gostam disto: