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Série Releituras Visuais e Breves Comentários III: O Realismo de COURBET (1819 – 1877) e a Releitura de Antonio Peticov (1946 -)

2 maio

por Gisèle Miranda

 

Jean Désiré Gustav COURBET (Ornans, França, 1819 – La Tour-de-Peilz, Suiça, 1877) veio de uma família rural bem estabelecida. Iniciou o curso de Direito, mas abandonou para estudar desenho de maneira independente até criar o seu próprio Realismo – da construção do discurso e da prática. 

Courbet foi fascinado pelo Barroco Laico de Frans Hals (1580-1666), Rembrandt (1606-1669) e Rubens (1577-1640). E se curvou ao retratista do Barroco Religioso Diego Velázquez (1599-1669).

A pintura de Courbet foi anticlerical e tinha uma técnica de trabalho peculiar a Caravaggio (1571-1610) – o uso da faca na pintura. Também fazia uso do polegar e irritava os críticos da metade do século 19 com a grandeza de sua assinatura, o tamanho e a energia de suas telas, considerados provocações para os críticos conservadores. (Schapiro, 1996, 124-125)

Jean Désiré Gustav COURBET (Ornans, França, 1819 - La Tour-de-Peilz, Suiça, 1877), O Ateliê do Artista,1855. Óleo sobre tela 359  x 598 cm. Museu D’Orsay, Paris.

Jean Désiré Gustav COURBET (Ornans, França, 1819 – La Tour-de-Peilz, Suiça, 1877), O Ateliê do Artista,1855. Óleo sobre tela 359 x 598 cm. Museu D’Orsay, Paris.

O Ateliê de Courbet tem a amplitude e a força do Realismo construído. Um autorretrato compartilhado com inúmeras releituras: ao lado direito com amigos (intelectuais da época) e seus pais. Ao lado esquerdo a miscelânea  de culturas e de quão popular era em seu ofício – no discurso e na prática! Crianças, cachorro e a representação da Verdade (a mulher).

 

Na Releitura de Antonio Peticov, entitulada Pintando com a Verdade Olhando, 2018 há um recorte do ateliê de Courbet. Esse recorte tornou-se o ateliê de Antonio Peticov, bem mais intimista, mas onde os artistas se confundem em tempos distintos.

O filho de Antonio Peticov, Pedro Antonio, retratado criança (hoje adulto) ativa toda a esperança no aprendizado, no exercício diário do tempo vivido. O ateliê também é representada pelo gato “gordo” e pela saudosa akita, a Yuke.

A representação da mulher (Gisele Miranda/amiga teórica) com o artista autorretratado foi um convite  incorporado nas entrelinhas, a partir da História da Arte e de muitas aulas ministradas sobre o Realismo. E da mesma forma, o conhecimento sobre o artista Antonio Peticov, sua biografia e sua obra.  Agraciada por representar essa fusão de temporalidades e de movimentos artísticos – de todo o processo – da fotografia, do desenho à pintura.

Antonio Peticov (Assis, SP, Brasil, 1946 -) Pintando com A Verdade Olhando, 2018. Acrílica sobre tela 140 x 120 cm. Série Releituras.

Antonio Peticov (Assis, SP, Brasil, 1946 -) Pintando com A Verdade Olhando, 2018. Acrílica sobre tela 140 x 120 cm. Série Releituras.

Revivi o ateliê de Courbet e aproveitei a escada cósmica de Peticov para conversar com Charles Baudelaire (1821-1867), Champfleury (1821-1889), Proudhon (1809-1865), Alfred Bruyas (1821-1876), seus pais e mais dois amigos que na pintura estavam à sua direita.

Baudelaire está lendo um livro; avisei a Baudelaire que o representaria intelectualmente, junto a Peticov, o filho, o gato e o cachorro, os esquadros, a escada cósmica, a ampulheta e os livros.

 

 

(*) Nota: Esse texto foi realizado no Instituto de Arte e Cultura Antonio Peticov https://www.peticov.com.br/

(**) Sobre Realismo e Courbet: Movimento Realista, parte I

Série Retorno V: O Realismo de Courbet   (parte desse texto foi reproduzido aqui)

 

Referências:

AMARAL, Aracy. Arte para que? São Paulo: Nobel/ Itaú Cultural, 2003

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

BURKE, Peter. (Org.) A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

 

Sobre Antonio Peticov:

Antonio Peticov: alquimia dos mestres!

Série Antonio PETICOV I: Cérebro Meditation # 3

Série Antonio PETICOV II: Cérebro Duck Dreams

Série Antonio PETICOV IV: Cérebro Full Circle

Série Releituras Visuais e Breves Comentários II: O Barroco Laico de REMBRANDT (1606 – 1669) e a Releitura de Antonio Peticov (1946-)

1 maio

por Gisèle Miranda

 

O Barroco laico tem três pilares associados a Frans Hals (1580-1660), a Rembrandt (1606-1669) e a Vermeer (1632-1675).

Rembrandt foi um bom articulador de seu próprio nome, por isso alçou em vida um nome importante, incluso com recursos provenientes de seu casamento. Um dos poucos a assumir o primeiro nome – Rembrandt – e não o sobrenome comumente àquela época que em geral correspondia à cidade ou vilarejo de nascimento. O exemplo mais próximo a esses três artistas, ou seja, a reverência inesgotável ao italiano Caravaggio (1571-1610) – que correspondia ao nome da vila onde nasceu Caravaggio.

Mas como Rembrandt morreu pobre, endividado? Filho de um moleiro calvinista que casou bem e adquiriu notoriedade em seu ofício. Administrar os próprios recursos não foi uma tarefa simples para Rembrandt, se contabilizados gastos com processos: a esposa, a amante, o filho, o sócio, entre outros processos. Os Países Baixos (mercantil e burguês) sempre priorizaram a área do Direito. Não é a toa que Haia tornou-se sede das Conferências de Paz de 1899 e 1907, e continua sede internacional dos Direitos Humanos.

Rembrandt viveu 63 anos –  da juventude a velhice capturou-se através de autorretratos, mas analisando-os, percebe-se, o que menos importava era a vaidade. O autoconhecimento, as rugas ou as expressões através do tempo foram suportes para a estética do Barroco Laico – os melhores Retratos do claro-escuro, os detalhes veementes do gênero Retrato – sobrancelhas, pintas, rugas, a vestimenta e suas rendas ao visível processo de envelhecimento e detalhes capturados magnificamente por Rembrandt.

Na obra O artista em seu estúdio de 1629, Rembrandt estava com 40 anos. Seu ateliê é um autorretrato com sua bela vestimenta à moda holandesa. Mas onde estão os pincéis, as tintas? Onde estão as telas, pinturas?

Rembrandt Harmenszoon Van Rijn (Leida, Países Baixos,1606 - Amsterdã, Países Baixos 1669) O Artista em seu Estúdio, 1629. Óleo sobre madeira 25,1 x 31,9 cm. Museu de Boston, EUA.

Rembrandt Harmenszoon Van Rijn (Leida, Países Baixos,1606 – Amsterdã, Países Baixos 1669) O Artista em seu Estúdio, 1629. Óleo sobre madeira 25,1 x 31,9 cm. Museu de Boston, EUA.

Rembrandt fez esse autorretrato com um visível objeto escatológico, uma mesa e a sensação de vazio. Vinte e três anos depois sua cama foi vendida para ajudar no seu enterro – o autorretrato da vida de um artista na miséria. Mas o tempo deu a ele a admiração dos Românticos e Realistas do século 19.

O mestre Rembrandt viveu há poucas quadras do bairro judeu. Há inúmeros desenhos que registraram essas andanças. Vale ser dito que a Espanha perseguiu os judeus até o início do século 19. Os portugueses mesmo com a União Ibérica (1580-1640) e toda a atrocidade histórica de perseguições à inquisição dos espanhóis – o Brasil não adotou a inquisição; e melhor, acolheu a comunidade judaica que construiu sua primeira Sinagoga no Recife, 1637, durante o domínio do governador do Brasil Holandês, Maurício de Nassau (1604-1679). Em sua comitiva vieram os artistas Albert Eckhout (1610-1666), Georg Marcgraf (1610-1644) e Frans Post (1612-1680), entre outros ofícios.

 

A Releitura que Antonio Peticov fez de Rembrandt é um autorretrato para ambos. O acervo memorial de Peticov, o acúmulo de documentos, fotos, desenhos, pinturas, objetos culturais e o conteúdo imaterial ao longo dos seus 73 anos resultaram na Série Releituras. Na luta e nas oscilações financeiras em um autorretrato da vida. Como manter o Instituto de Arte e Cultura Antonio Peticov?

Antonio Peticov optou pelas cores do espectro em seu autorretrato com o mesmo ambiente que Rembrandt – o atelier – as mesmas dificuldades, o objeto escatológico, o vazio, o silêncio e a necessidade do trabalho diário.

Antonio Peticov (Assis, Brasil, 1945-) O Pintor Holandês, 2017. Acrílica sobre tela, 100 x 120 cm.

Antonio Peticov (Assis, Brasil, 1945-) O Pintor Holandês, 2017. Acrílica sobre tela, 100 x 120 cm. Série Releituras.

Seu autorretrato em cores sobrepostas, irregulares está longe de ser um arco íris. Mas o resultado dessa releitura é um pote de riquezas.

 

 

(*) Nota: Esse texto foi realizado no Instituto de Arte e Cultura Antonio Peticov https://www.peticov.com.br/

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

TIRAPELI, Percival (Org.) ARTE Sacra Colonial: Barroco Memória Viva. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo; Editora UNESP, 2005.

Sobre Antonio Peticov

Antonio Peticov: alquimia dos mestres!

Série Antonio PETICOV I: Cérebro Meditation # 3

Série Antonio PETICOV II: Cérebro Duck Dreams

Série Antonio PETICOV IV: Cérebro Full Circle

 

Série Retorno V: O Realismo de Courbet

15 nov

por Gisèle Miranda

 

Jean Désiré Gustav COURBET (1819-1877) veio de uma família rural bem estabelecida. Iniciou Direito mas abandonou o sonho do pai para estudar desenho de maneira independente e condizente ao seu Realismo – da construção do discurso e da prática.

Em suas andanças pelo Museu do Louvre ficou fascinado pelo Barroco Laico de Frans  Hals (1580-1666), Rembrandt (1606-1669), Rubens (1577-1640), entre outros. E se curvou ao retratista do Barroco Religioso espanhol, Diego Velázquez (1599-1669).

 

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Empenhado como a estética Realista e a causa popular, Courbet foi descaracterizando-se do rapaz bem trajado do autorretrato com cachorro preto (1841) ao andarilho em Bonjour Monsieur Courbet (1854).

Nesse processo visível de embrutecimento físico e de sensibilidade com os menos favorecidos, Courbet manteve boas relações de Daumier (1808-1879), Proudhon (1809-1865), Champfleury (1821-1889), Baudelaire (1821-1867), Mallarmé (1842-1898).

Mesmo optando por ilustrar publicações em prol dos trabalhadores e pintar os mais simples, Courbet manteve laços com pensadores distantes da vertente popular, tal como o burguês  Baudelaire – que na pintura O atelier do pintor de 1855, encontra-se do lado direito da tela lendo ou flanando. 

Baudelaire, que pertencia à geração de Courbet e por ele foi pintado duas vezes ainda estava ligado à visão aristocrática e desprezava o realismo; fala frequentemente da diferença entre Delacroix que era uma mente soberana e universal… (Schapiro, 1996, 118)

Courbet se diferenciou do Realismo de Delacroix (1789-1863) por volta de 1848 ao posicionar-se a favor da Comuna Francesa e por assinar ilustrações populares. Delacroix ilustrou Shakespeare e Goethe evitando panfletagem e mantendo-se revolucionário em 1830, mas contra revolucionário em 1848, muito embora a obra A liberdade Guiando o povo, seja de fato o maior ícone da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Com Daumier, Courbet assumiu uma parceria artística e política através dos desenhos e de pinturas de populares, charges em jornais não consideradas como arte e pejorativamente chamada de  primitiva e considerada vulgar.

A pintura de Courbet foi anticlerical e tinha uma técnica de trabalho peculiar a Caravaggio (1571-1610) – o uso da faca na pintura – embora o mote não tivesse a duplicidade aliada à segurança ou intempéries. Também fazia uso do polegar e irritava os críticos da metade do século 19 com o grande tamanho de sua assinatura, o tamanho e a energia de suas telas…considerados provocação para os críticos conservadores. (Schapiro, 1996, 124-125)

Courbet sempre acreditou na força da pintura e conseguiu romper com a dramaticidade vazia do objeto; para ele o artista não precisava gostar da obra. Procurou na realidade de seu tempo as contradições.

 

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

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