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Série Retorno V: O Realismo de Courbet

15 nov

por Gisèle Miranda

 

Jean Désiré Gustav COURBET (1819-1877) veio de uma família rural bem estabelecida. Iniciou Direito como um filho comportado mas abandonou o sonho do pai para estudar desenho de maneira independente e condizente ao seu Realismo – da construção do discurso e da prática.

Em suas andanças pelo Museu do Louvre ficou fascinado pelo Barroco Laico de Frans  Hals (1580-1666), Rembrandt (1606-1669), Rubens (1577-1640), entre outros. E se curvou ao retratista do Barroco Religioso espanhol, Diego Velazquez (1599-1669).

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Empenhado como a estética Realista e a causa popular, Courbet foi descaracterizando-se do rapaz bem trajado do autorretrato com cachorro preto (1841) ao andarilho em Bonjour Monsieur Courbet (1854).

Nesse processo visível de embrutecimento físico e de sensibilidade com os menos favorecidos, Courbet manteve boas relações de Daumier (1808-1879), Proudhon (1809-1865), Champfleury (1821-1889), Baudelaire (1821-1867), Mallarmé (1842-1898).

Mesmo com radicalismo em prol dos trabalhadores, Courbet manteve laços com pensadores distantes da vertente popular, tal como Baudelaire – que na pintura O atelier do pintor de 1855, encontra-se do lado direito da tela lendo ou flanando.

Baudelaire, que pertencia à geração de Courbet e por ele foi pintado duas vezes ainda estava ligado à visão aristocrática e desprezava o realismo; fala frequentemente da diferença entre Delacroix que era uma mente soberana e universal… (Schapiro, 1996, 118)

Courbet se diferenciou do Realismo de Delacroix (1789-1863) por volta de 1848 ao posicionar-se a favor da Comuna Francesa e por assinar ilustrações populares. Delacroix ilustrou Shakespeare e Goethe evitando panfletagem e mantendo-se revolucionário em 1830, mas contra revolucionário em 1848, muito embora a obra A liberdade Guiando o povo, seja de fato o maior ícone da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Com Daumier, Courbet assumiu uma parceria artística e política através dos desenhos e de pinturas de populares, charges em jornais não consideradas como arte e pejorativamente chamada de  primitiva e considerada vulgar.

A pintura de Courbet foi anticlerical e tinha uma técnica de trabalho peculiar a Caravaggio (1571-1610) – o uso da faca na pintura – embora o mote não tivesse a duplicidade aliada à segurança ou intempéries. Também fazia uso do polegar e irritava os críticos da metade do século 19 com o grande tamanho de sua assinatura, o tamanho e a energia de suas telas…considerados provocação para os críticos conservadores. (Schapiro, 1996, 124-125)

Courbet sempre acreditou na força da pintura e conseguiu romper com a dramaticidade vazia do objeto; para ele o artista não precisava gostar da obra. Procurou na realidade de seu tempo as contradições, mas sem a idealização estética.

 

Referências:

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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Série Ficcional H. Miller XXI, parte II: “a traição das imagens”

7 abr

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

 Às vezes acho que nasci com fome. E essa fome está associada a caminhadas, à vagabundagem, à procura, ao incessante e febril perambular de um lado a outro.

(MILLER, 2003, p. 27)

Antes de Turner, Miller dissertou sobre Bosch: – As laranjas da época de ouro de Bosch restabelecem a alma: a atmosfera onde ele as suspendeu é eterna, é a do espírito tornado real (Miller, Big Sur: 43). Objetou por alguns segundos, e tão logo referendou: o desejo de liberdade é um desejo de um condenado! (Miller, 2003, 114)
Joguei a toalha, mas ele a interceptou no ar e continuou: – as laranjas de Bosch ou as de Van Eyke, as maçãs ou os cachimbos de Magritte? Nada acontece pelo conforto mas pelo boicote a estabilidade que aprisiona o pensamento.
Mas, o que a trouxe aqui? Falar das frutas ou do fálico cachimbo? A liberdade, a dor, as cicatrizes? Ou a solidão de Goya em sua série Gigantes, Colossos? Seu assombro por minhas palavras permeia os incorrigíveis deleites do Romantismo de Madame Bovary, Anna Karenina e Adèle Hugo.  Recordo a bela Fanny Ardant falando de A mulher do Lado: – “Eu me lembro que Truffaut dizia que essa era uma história atual… pode-se morrer de amor mesmo hoje em dia”.
– Pretensioso Milller! Não falei de Tolstoi, Flaubert, Magritte, Bosch, Rimbaud, Goya, Truffaut ou Foucault. São todas elucubrações suas! Tu desejas que todos esses pensamentos estejam em mim. Morrerei de amor em seus braços deleitando-me em gozo. Gozo por todos os olhares que não quis olhar, por todas as bocas e sexos que não desejei pela ausência de afinidades eletivas do bendito Goethe.

René MAGRITTE (1898-1967), A traição das imagens (Isto não é um Cachimbo), 1929. (a primeira versão é de 1926)

Ele riu. Olhou-me deliciosamente e disse: – Por isso eu os atravesso nadando… por inteiro… um mundo inexplorado, doce L (ia), leituras, laços, lapsos à liberdade. A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível. (Foucault, 1990, p. 30)

 

 

Referências:

FRANCO JR. COCANHA – a história de um país imaginário. Prefácio Jacques Le Goff. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

FOUCAULT, Michel. O pensamento do exterior. Trad. Nurimar Falci. São Paulo: Princípio, 1990.

FOUCAULT, M. Isto não é um cachimbo. Tradução Jorge Coli. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 2ª Edição. (Neste livro Foucault trabalhou com a primeira versão de 1926)

MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006

MILLER, Henry. A hora dos assassinos. São Paulo: Francis, 2003.

ARDANT sobre TRUFFAUT:  Fanny Ardant. (atriz foi casada com o François Truffaut)

Série Antonio PETICOV I: Cérebro Meditation # 3

28 maio

Por Gisèle Miranda


 

Antonio PETICOV nasceu em Assis (SP), em 1946.  Além da notoriedade plástica foi partícipe da vanguarda tropicalista dos anos de 1960; mesclou o Surrealismo, Pop Art e experimentalismos no Grafismo. E, entre o final da década de 1980 e início de 1990 esteve ligado a projetos ambientais[1].

Na reminiscência de Peticov, o seu lado artístico surgiu aos doze anos de idade, e pode ser conjugado aos doze temas destacados pelo filósofo Martin Gardner no livro Home Faber: o trabalho de Antonio Peticov remonta o jogo de Leis do Universo, ou seja, um jogo no qual as ironias dos paradoxos desmascaram as crenças enganosas e estimulam novas visões com um charme vertiginoso.[2]

 

 

Cérebros por Peticov

O tema cérebro quando presente na área médica soa como busca científica. Mas, e o cérebro para os artistas? Ou, para historiadores?

Seu interesse por cérebros começou por um folheto de um congresso científico.  Peticov contatou um amigo dentista que sugeriu algo mais místico. Mas Peticov bateu o pé, até ter em mãos um livro de anatomia da face.

Daí por diante, os relances pessoais e profissionais surgiram. Desde a imagem de seu irmão que esteve em coma por meses ao interesse de criar artisticamente algo que, em primeira instância, não se faz claro para um leigo.

A série Cérebros surgiu porque chamou a atenção dos mais familiarizados e também instigou os sentidos dos leigos permitindo uma aproximação lúdica.

As alterações anaptoantropológicas registram as transformações ao longo do tempo, desde os recuos maxilares, aumento do encéfalo[3], diminuição da face[4] ao desaparecimento do terceiro molar. Dessa maquinaria, do ponto de vista objetivo e subjetivo, até os orifícios (forames) têm designações vitais (transitam nervos, artérias, veias): sendo possível estimar a idade, detectar o sexo e o crescimento.[5]

O Bregma tem sua historicidade identificada pelos gregos como sinônimo da alma, assim como acreditavam que a alma era absorvida por essa abertura e se fixava vibrante em seu fechamento natural.

 

Antonio Peticov (Assis, SP, 1946-), Meditation #3, 1996

 

Em Meditatin # 3, Peticov mostra a imagem cerebral vista por baixo, sem cerebelo, visualizando o mesencéfalo (local onde existem centros de coordenação motora), os dois nervos olfatórios e os nervos ópticos acolhidos pelo artista como nervos culturais – que agem juntos aos neurônios (são polivalentes), e se aglutinam em vários locais do cérebro.

Nas áreas neuronais, de acordo com a idade, torna-se possível uma plasticidade – capacidade de um neurônio estabelecer novos contatos sinápticos. Por isso é possível viver normalmente (dependendo da área cerebral), sem problemas organizacionais e psicomotores com a perda de 85% dos neurônios.

O arco em forma de coração inverso sustentado pelo corpo humano em meditação torna-se instrumental da redoma cerebral vista por baixo – em sua cavidade. A imagem criada por Peticov se traduz na subjetividade  dos sentidos dessa maquinaria.

A tonalidade azul (em gradações) rege a concentricidade exposta em sua polaridade – na luz, o amarelo e no escuro, o azul se abraçam em estado puro: quanto mais espessas ou escuras.[6]

Há conotações místicas  que mesclam reminiscências ou tendenciosos experimentalismos de Peticov; pensando o tempo não apenas como relógio biológico, mas como Oscar Wilde, em o Retrato de Dorian Gray.

 

 

 


[1] Bosque NaturaNatura Forrest na cidade do Rio de Janeiro e Projeto Natura – Rio Pinheiros na cidade de São Paulo.

[2] GARDNER, M. Homo Faber – the work of Antonio Peticov. São Paulo: Pau Brasil, 1988 (326 p.)

[3] Situado no Neurocrânio e formado por oito ossos planos e irregulares que se constituem de uma grande cavidade donde se aloja o encéfalo.

[4] Viscerocrânio – corresponde a face e nele estão situados órgãos dos sentidos e o início dos sistemas digestório e respiratório.

[5] Pelo Fontículo Bregmático – cérebro visto de cima onde são perceptíveis as suturas (que desaparecem com o tempo). Sagital (seta – a ponta da seta é denominada de Bregma) e Coronal (conhecido por ser o local onde os reis e as rainhas encaixam as coroas).

[6] Segundo Goethe (1749-1832), em Doutrina das Cores (Apresentação, seleção e tradução de Marco Giannotti). São Paulo: Nova Alexandria, 2011.: amarelo, azul e vermelho são cores primárias que produzem cores secundárias. Construção baseada em estudos físicos, químicos e fisiológicos. Anterior a Goethe, o cientista Isaac Newton (1643-1727) em 1666 identificou sete cores do espectro: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta.

Já para o artista plástico e filósofo Kandisnsky (1866-1944) em Do espiritual da Arte (Tradução Eduardo Brandão). São Paulo: Martins Fontes, 1990. Primeira edição, de 1910, acrescido e publicado em 1912, a teoria caminha com a poética donde se observam as cores partindo de necessidades interiores.

Série Emmanuel Nery III: Bar Alpino em Orelhas sobre a mesa

27 abr

por Gisèle Miranda

 

 

 

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003), Orelhas sobre a mesa, acrílico s/ tela 55 x 46 cm, 1986.

 

 

Elencando o espaço de percepções de Bar Alpino (imagem-texto anterior da Série Emmanuel Nery)  à imagem Orelhas sobre a mesa reforça o relato pictorial do artista sobre a cidade e a transforma em possibilidades de exprimir a tensão entre a racionalidade e o emaranhado das existências humanas. (Calvino, 1991)

Em Orelhas sobre a mesa os excessos da incomunicabilidade através de duas figuras deformadas pela falta de diálogo; o raciocínio confunde-se com a força bruta: “facas sobre a mesa… não orelhas sobre a mesa…” – ato falho de Emmanuel Nery.[1] Facas ou orelhas?

A incomunicabilidade da fala e da escuta se estende à inexistência do entorno. Nas cores rosa e azul por Goethe e Kandinsky: a busca teórica de suas escolhas. Para ambos a junção da matriz vermelho que em suas variações resultam em rosa e lilás; e com o azul, o resultado da violeta, que variavelmente chegará à rosa – em movimento concêntrico.

 

 


[1] Emmanuel Nery em 30 de junho de 1993; entrevista à Gisèle Miranda.

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