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Série: O Barroco no Brasil e a vertente européia, parte III

13 jun

Por Gisèle Miranda

 

A música vem em parte da tradição oral vinda dos excluídos ou de populações sem acesso à escrita*. E a música Sacra vinda dos eruditos, em grande parte dos religiosos – que nesse contexto histórico ganhou contornos diferenciados, ou seja, à maneiradamelodias irregulares, ritmos quebrados chegando à harmonia mais extravagante do Barroco em uma polifonia composta por coros.

Nesses coros houve participações de indígenas inerente ao processo de catequização que surpreendeu às ordens religiosas, em uma apuração sonora pela grande sensibilidade auditiva ligada à natureza.

Com relação aos desenhos, o viajante mercenário Hans Staden (Homberg, Alemanha, c. 1525 – Wolfhagen, Alemanha, c. 1576)[1] é o exemplo mais próximo a essa primeira fase e o mais conhecido por registros de indígenas –  entre estética e a fantasia.

 

Outros viajantes artistas também vieram, tais como Frans Post (Haarlem, Holanda, 1612- idem, 1680) e Albert Eckhout (Groninga, Holanda, c. 1610- idem c. 1666), e legaram pinturas de paisagens próprios do Barroco Laico, ao pintaram a fauna, flora e frutas, sem se aterem aos aspectos religiosos. [2]

 

Os retratos, os mitos, paisagens e a natureza-morta (flores, frutas) eram usuais no Barroco Laico, enquanto as imagens religiosas abundaram em gestualidades persuasivas e bem aportadas ao horizonte colonial (espanhol e português) denominados de Barroco Periférico, e com uma história à parte pela criação de um Barroco Mineiro feito por artesãos.

O ofício do artista não era reconhecido no Brasil para negros e mestiços, então eram denominados de mestres. Antonio Francisco Lisboa, o mestre Aleijadinho (Vila Rica, MG, 1738 – Ouro Preto, MG, 1814) era mulato, filho de escrava e pai português, assim com o também não foram reconhecidos em vida outros grandes nomes como Mestre Valentim da Fonseca e Silva (Serro, MG, c. 1745 – Rio de Janeiro, RJ, 1813), também mulato, filho de uma escrava com um português; Mestre Inácio Ferreira Pinto (Rio de Janeiro, RJ, 1765 – idem, 1828), tudo indica que fosse mulato, pois seu batismo não constava dos brancos, nem dos libertos. E Mestre Manuel da Costa Ataíde (Mariana, MG, 1762 – idem, 1830), filho de portugueses e com mais respeitabilidade de seu ofício por ser branco. [3]

 

Aleijadinho foi precursor do Barroco Mineiro ao estilo Rococó, estilo que reflete o maior exagero. Apesar de sua ascendência escrava, Aleijadinho e outros tiveram acesso a produção de artistas que encantaram o Renascimento através das gravuras (reproduções) que chegaram através dos viajantes. Aleijadinho foi um fã dos trabalhos do artista do Quattrocento Italiano Lorenzo Ghiberti (Pelogo, Itália, 1378 – Florença, Itália, 1455).

Todo o reflexo do Barroco das Minas Gerais no século 18, teve a base da imaginação e da alegoria que eclodiu nos séculos 16 e 17 na Europa e nos países baixos. Mas com princípios muito particulares e exacerbados pelo ouro das Minas Gerais, a ponto de ser reconhecido pela História da Arte como um Barroco genuíno. O Barroco Mineiro tão belo ou mais que o Barroco Europeu.

 

Os grandes mestres brasileiros do Barroco do século 18 conheciam os objetos do Barroco Religioso Europeu, vistos nas igrejas na Bahia, no Rio de Janeiro e no Recife desde o auge do Barroco Periférico do século 17. Em temporalidades distintas, e de adaptações culturais construíram elementos particulares, em princípio à margem, mas depois aplaudidos pela história da arte.

Segundo José Gomes Machado (2003) há um Barroco luso brasileiro de posições contrárias ao Absolutismo.[4] Sabendo que o Barroco Europeu foi fruto das monarquias absolutistas, mas em meados a final do século 18 passou por diversos reveses pelas revoluções.[5]

No entanto, o Brasil Colônia do século 18 ecoou no Iluminismo e adentrou através do Marques de Pombal ao assumir inúmeras reformas, dentre elas, a expulsão dos jesuítas da colônia em 1759, além de acabar com a discriminação aos cristãos novos (judeus) e proibição da escravidão indígena. O contexto histórico também confluiu em repercussões na Conjuração Mineira em 1789.  [6]

Ligado a essa figura imponente do Marques de Pombal, cabe destacar a valorização dos azulejos artísticos. Antes de vir para o Brasil, Pombal foi deveras importante na reconstrução de Lisboa e Algarves, em 1755, quando houve o terremoto (além de incêndio). Todo o projeto de reconstrução foi calcado em larga escala nos azulejos, que por sua vez foram pintados como nunca, para recontar a história dessas cidades que sofreram com a destruição. [7]

Os azulejos sempre foram usados artisticamente em Portugal e repassados ao Brasil como parte artística do estilo Barroco ao Rococó. Mas no século 17, os azulejos não eram tão vastamente desenhados como no século 18, ápice da economia do ouro nas Minas Gerais. Os azulejos passaram a compor um contexto exacerbado de signos, através de muitos santos, talhas douradas, revestimentos de ouro, prata, objetos litúrgicos, pinturas etc., pertinentes a fase do Barroco ao Rococó.

Há exemplos da vista da cidade de Lisboa pintado nos azulejos na Sacristia da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, Salvador, Bahia, no século 18; e no claustro há um outro painel de azulejos figurados do Convento de São Francisco com a inscrição latina “Concordia Populi Insuperabilis” – Pela Concórdia o povo é invencível. (Tirapelli, 2005)

Os holandeses também fizeram uso dos azulejos, mas em geral com menos figuras humanas, mas ressaltando a vestimenta típica dos países baixos; ou formas geométricas comumente usadas na Europa Oriental. Esses azulejos são vistos no Convento Santo Antônio, no Recife, que tem um acervo datado de 1660; e há uma cúpula revestida de azulejos de padrões mouriscos em três cores datados de 1780.[8]

 

Em tese, O Barroco europeu se desfez pelo Neoclassicismo no século 19, buscando o retorno da estética do Renascimento, ou seja, o Clássico na estruturação da cultura figurativa sobre o modelo antigo… de um historicismo heroico e moralista. (Argan,1999, 283)

No Brasil, o Neoclássico chegou na colônia alterando o vetor artístico à outra fase colonizadora, ou seja, com a chegada da Família Real portuguesa, em 1808, e a chegada da Missão Artística Francesa, em 1816.

Mas, o Barroco no Brasil efetivamente terminou no século 19? A produção artística do Barroco no Brasil, segundo Eugenio D’Ors (In: Machado, 2003) criou uma amálgama conceitual chamada Eon (potência re-criadora) que hoje é vislumbrado nas igrejas Barrocas recriadas na simplicidade, dos objetos artesanais às imagens de santos da cultura popular e religiosa.

 

Notas:

(*) Sobre a tradição oral à musicalidade ver textos: Série Retorno I: “Matuiú”  & Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème

[1]  Era um Brasil Colonial, depois Imperial do escambo humano. Triste história da escravidão no Brasil que perdurou até 1888; O tráfico – estigma oficial de último país a abolir a escravidão, um século depois da Revolução Industrial Inglesa e  Revolução Francesa. Além do estigma aniquilador de culturas indígenas. Se analisarmos com seriedade ainda não foram sanados os prejuízos com os africanos e com os negros brasileiros; a mestiçagem é inerente à História da cultura brasileira. Cabe a sugestão RIBEIRO, Darcy. O povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[2]Hans Staden esteve duas vezes no Brasil. A primeira veio com uma embarcação portuguesa em 1547, ficando apenas um ano. A segunda, numa embarcação espanhola que naufragou no litoral de Santa Catarina em 1550; salvou-se e permaneceu alguns anos no Brasil; foi capturado e ameaçado de morte pelos Tupinambás, mas resgatado pelos franceses. Quando retornou a Alemanha publicou seus desenhos. Sugestão fílmica Hans Staden. Direção Luiz Alberto Pereira, 1999.

[3] Frans Post e Albert Eckhout chegaram juntos ao Brasil através da expedição de Maurício de Nassau (Dillenburg, Alemanha, 1604 – Cleves, Alemanha, 1649) em 1637 que permaneceu até 1644. Vale destacar a importância de Nassau no Nordeste Brasileiro, pois ele permitiu o culto do Barroco Laico, assim como outros cultos de povos perseguidos pela inquisição, a exemplo dos judeus. Por conta disso foi criada a primeira sinagoga das américas no Recife. No entanto é sabido que no Brasil não houve inquisição como ocorreu em Portugal e Espanha – na queima de pessoas consideradas bruxas ou que professavam outros cultos.

[4] O Absolutismo na Europa tem sua temporalidade delimitada entre 1600 a 1815. E no Brasil desde o processo de colonização a 1889, ano da República. Imagem do Soberano

[5] Em 1750, Revolução Industrial; 1776, Revolução Americana; 1789, Revolução Francesa.

[6] Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal e Conde de Oeiras (Lisboa, Portugal, 1699- Pombal, Portugal, 1782). Pombal foi ministro do Rei D. José I, e figura notória durante o trágico momento de Lisboa e Algarves. Mesmo apoiando o Absolutismo, agiu com a racionalidade Iluminista (despótico esclarecido).

[7] Cabe lembrar que os azulejos foram utilizados pelas antigas civilizações como Egito e Mesopotâmia e com referências de povos nômades; também foram difundidos durante o medievo oriental com a arte dos mosaicos. 

[8] TIRAPELI, Percival. Igrejas Barrocas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008.  Acervo Barroco Memória Viva

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BURY, John. Arquitetura e arte no Brasil Colonial. Organização Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira. Brasília, DF: IPHAN / Monumento, 2006.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

KIEFFER, Anna Maria (Org). Teatro do descobrimento (CD). São Paulo: Estúdio Cia. do Gato, 1999.

MICHELANGELO Buonarroti (1475-1564). Org. Maria Berbara. Campinas, SP: Editora da UNICAMP; São Paulo: Editora da UNIFESP, 2009.

MACHADO, Lourival. Barroco Mineiro. São Paulo: Perspectiva, 2003.

PROENÇA, Graça. História da arte. São Paulo: Ática, 2007.

TIRAPELI, Percival (Org.) ARTE Sacra Colonial: Barroco Memória Viva. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo; Editora UNESP, 2005.

TIRAPELI, Percival. Igrejas Barrocas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008.

Série: O Barroco no Brasil e a vertente européia, parte II

13 jun

por Gisèle Miranda

 

A primeira igreja construída no Brasil foi de São Cosme e Damião, em Igarassu, Pernambuco, em 1535, mas ao longo do tempo foi totalmente modificada. Nessa época a técnica era a Taipa de Pilão, muito utilizada pelos portugueses e espanhóis. No Brasil utilizou-se bastante barro vermelho para a taipa, depois as argamassas de cal e a areia; outro material utilizado era a pedra, muito difundida nas construções de fortificações e nas igrejas Barrocas das Minas Gerais.

A igreja da Sé em Olinda foi construída em 1537 em taipa ao estilo chão Maneirista, mas alterada e ampliada diversas vezes em alvenaria até ser praticamente destruída em um incêndio em 1631, provocado pelo Holandeses durante seu domínio a essa região do Brasil. Depois do incêndio, novamente a igreja foi reconstruída, mas descaracterizada do estilo original, tornando-se totalmente Barroca.

O Mosteiro de São Bento no Rio de Janeiro também é um outro exemplo da mescla da arquitetura Maneirista ao Barroco. Foi desenhada por um militar em 1617, mas somente construída em 1633, tendo o projeto ampliado, alguns anos depois, pelo frei beneditino português Bernardo de São Bento Correia e Souza (c. 1624 -?).  Foram acrescidas mais três naves[1] à construção, mas ainda hoje é possível visualizar a fachada Maneirista. Apesar que, desde sua construção, o interior do Mosteiro sempre foi decorado ao estilo Barroco ao Rococó. O grande artista português do interior do mosteiro foi o frei beneditino Domingos da Conceição (Matosinhos, Portugal, c. 1643 – Rio de Janeiro, RJ, 1718).[2]

 

 

As igrejas das Minas Gerais, construídas no século 18, durante o ciclo do ouro, são consideradas fachadas Maneiristas pela simplicidade, embora os interiores sejam sem dúvida alguma, no estilo Barroco. Os exemplos mais veementes são a catedral de Vila Mariana e a matriz de Sabará, embora suas construções sejam acrescidas de outras torres e naves. Mas mantêm a simplicidade embrionária da marca do Barroco Mineiro.

Afora as fachadas, todo o interior das igrejas é de grande exuberância. A talha dourada marca todo o processo escultórico do Barroco no Brasil, seja ele realizado por europeus ou na singularidade Mineira dos grandes mestres.

A estatuária sacra do século 16 no Brasil, aos poucos foi ganhando dramaticidade e contornos mais expressivos quando adentrou o século 17. Poucas esculturas têm autorias, visto que na grande maioria foi realizado por anônimos. Diz-se anônimos aos já nascidos no Brasil, que como dito anteriormente, não eram considerados artistas, no máximo chegaram a mestres no século 18.

 

As esculturas iniciais eram realizadas por artistas religiosos, lembrando que o ofício artista somente teve reconhecimento e valia a partir do Quattrocento italiano, ou seja, na primeira fase do Renascimento. Portanto, os missionários artistas são os primeiros escultores no Brasil.

Cabe destacar dois grandes nomes de artistas missionários e suas obras: O frei beneditino Agostinho da Piedade (Alcobaça, Portugal, c. 1580 – Salvador, Bahia, 1661) que entre suas esculturas, destaca-se a Nossa Senhora de Montserrat, feita de barro cozido policromado, que está no Museu de Arte Sacra da Bahia. E, o frei também beneditino Agostinho de Jesus (Rio de Janeiro, c. 1600 – idem 1661) com a Nossa Senhora da Purificação, feito de barro cozido policromado, que estava na igreja matriz de Santana de Parnaíba/ SP e, atualmente encontra-se no Museu de Arte Sacra de São Paulo/SP.

 

Mas, em geral, nas oficinas dos missionários havia escravos negros e indígenas como ajudantes. E o processo de miscigenação entre europeus acabou criando uma leva abastarda que logo se tornariam representantes brasileiros – alguns escravos e outros libertos.

Nos estudos de Arte Sacra Colonial (Org. Tirapelli, 2005) há registros de inúmeras interferências indígenas e da natureza tropical. Plumagens escultóricas próximas a diversidade da fauna brasileira. Os exemplos dessa mescla escultórica são:  São Francisco das Chagas, da Capela de Nossa Senhora dos Aflitos (século 18), que é um trabalho narrativo ingênuo feito de barro cozido policromado com asas de madeira e que atualmente encontra-se no Museu de Arte Sacra de São Paulo/SP; e a figuração simbólica da aparição do divino na anunciação de Cristo no dia de Petencostes (século 17), de madeira esculpida e policromada, que está na igreja de Araçariguama, SP. Ambas esculturas são de anônimos.

Mesmo sob controle das ordens religiosas, por vezes era incontrolável esse traço peculiar. Conforme a passagem para os séculos 17 e 18 os escultores anônimos vão produzindo um Barroco genuíno.

 

Notas:

[1] Nave: origem grega “naos”; dizer-se ala central da igreja ou catedral.

[2] Vale destacar que o Mosteiro de São Bento em Salvador, Bahia, ao estilo Maneirista de 1582, criado pelos monges beneditinos e depois destruído em 1624 pelos holandeses, foi reconstruído em 1624 pelo frei espanhol beneditino Macário de São João (Reino de Castela, Espanha, c.162? – Salvador, Bahia, 1676). Anterior ao Mosteiro, no mesmo lugar houve uma pequena igreja construída pelos jesuítas)

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BURY, John. Arquitetura e arte no Brasil Colonial. Organização Myriam Andrade Ribeiro de Oliveira. Brasília, DF: IPHAN / Monumento, 2006.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

KIEFFER, Anna Maria (Org). Teatro do descobrimento (CD). São Paulo: Estúdio Cia. do Gato, 1999.

MICHELANGELO Buonarroti (1475-1564). Org. Maria Berbara. Campinas, SP: Editora da UNICAMP; São Paulo: Editora da UNIFESP, 2009.

MACHADO, Lourival. Barroco Mineiro. São Paulo: Perspectiva, 2003.

PROENÇA, Graça. História da arte. São Paulo: Ática, 2007.

TIRAPELI, Percival (Org.) ARTE Sacra Colonial: Barroco Memória Viva. São Paulo: Imprensa Oficial de São Paulo; Editora UNESP, 2005.

TIRAPELI, Percival. Igrejas Barrocas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008.

 

Mulheres artistas (Parte I)

11 jan

por Gisèle Miranda

Os espaços artísticos foram e são misóginos segundo a Guerrilha Girls, grupo de mulheres que se manifesta sobre a memória de artistas. Essas mulheres se apresentam com máscaras de gorilas desde que apareceram pela primeira vez na década de 1980.

Um dos itens listados pela Guerrilha Girls sobre as “vantagens de ser uma artista mulher” é a revisão da História da Arte e encontrar nessas histórias, os sufocamentos realizados por mentalidades misóginas ao longo do tempo, através de instituições e códigos morais.

O grupo também discursou o quão benéfico para as mulheres NÃO passarem pelo constrangimento de serem chamadas de gênios.

 

A partir do Renascimento

Quando o ofício do artista ascendeu no Renascimento em associação às novas técnicas e a racionalização, período este em que as mulheres conseguiram uma brecha para educação, elas foram ao encontro das artes como atividade de reclusão natural em seus lares e não como abertura dos artistas e dos espaços ao ofício.

Marietta Robusti – La Tintoretta (c. 1560-1590), filha do pintor Tintoretto (Jacopo Robusti, c. 1518-1594) teve a régia paterna ao ambiente de sua época ligado ao Maneirismo e em busca do Barroco. Passos seguidos pela filha falecida precocemente aos 30 anos.

Marietta destacou-se como retratista em Cortes. Sua qualidade para despontar como pintora foi “protegida” pelos princípios de uma época avessa a mulher em espaços de discussão pública.

Há muitas imagens atribuídas a Marietta, mas o Retrato de um homem velho com um garoto (c. 1585) conhecida pintura de Tintoretto trouxe a discussões ao ser atribuído a ela. No  entanto, “nenhuma obra seguramente dela tenha sobrevivido”. (BURKE, 2010) Por um lado, há estranheza de que todos os seus trabalhos tenham desaparecido. Por outro, que tenham sido assinados pelo pai.

Há também a famosa retratista Sofonisba Anguissola (c. 1532-1625) com trabalhos reconhecidos entre os grandes artistas de sua época e espalhados em algumas Cortes,  além de Fede Galízia (1578-1630), Artemísia Gentilesch (1593-1653).

Sofonisba Anguissola, Auto-retrato, 1566. Retrato da artista e irmã jogando xadrez, 1555.

Sofonisba Anguissola, Autorretrato, 1566. Retrato da artista e irmã jogando xadrez, 1555.

O autorretrato acima diz muito sobre a realização da pintora ao colocar-se em um território pouco explorado: da auto imagem. O tabuleiro de xadrez rodeado por mulheres é uma quebra de tabu de longos séculos da Idade Média e somente permitido à pratica dos religiosos, nobres e jamais às mulheres. Apesar do destaque na pintura, a posição de Sofonisba foi de alta importância como dama de companhia da corte espanhola.

A natureza morta, destaque abaixo de Fede Galícia, assim como os mitos e os retratos eram comuns às mulheres, independente da indicação do protestantismo sobre o Barroco Civil ou Laico (Argan, 2004), diferentemente do Barroco Religioso (Cristão), que via nas imagens de santos, anjos e  mitos a força da persuasão pela estética reverenciada, glorificada pela igreja, sem interferir no processo criativo, teórico e prático do artista como nos séculos medievais. O papel da igreja nesse momento era de mecenato, proteção e propagação, regalias e intenções negociadas entre os grandes nomes da arte e os mercadores de arte da igreja.

Fede Galizzia, Bacia de frutas, c. 1610

Fede Galizia, Bacia de frutas, c. 1610.

No Renascimento os alicerces a educação foram fortalecidos e agregados pela Culturalidade e pela eclosão da Reforma (1517). A educação feminina permitiu acesso as artes com finalidade ocupacional. Nos séculos seguintes surgiram pintoras, mas sempre acompanhadas de restrições. Tornou-se também comum nos conventos que as freiras tivessem aulas de artes: literatura, pintura e música.

Quando os Impressionistas deram o grande salto às vanguardas, muitos ainda discursavam a ojeriza aos ofícios permitidos às mulheres que não fossem os do lar. Porém é nessa fase que ocorre um deslocamento dos ateliês para as praças e jardins, por isso as pinturas Impressionistas têm uma intensa luminosidade solar. Esse é o momento em que as mulheres também se deslocam do espaço privado para o espaço público.

Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Edgar Degas (1834-1917), entre outros partícipes da abertura das vanguardas foram duros as participações de mulheres nas artes, embora as mulheres tenham sido musas de suas pinturas e esculturas. Assim como eles, a maioria do homens viram nos cercos médicos e policiais o aceite à inferioridade física e mental das mulheres; que ficou mais doloroso quando associado ao discurso jurídico.

 

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BURKE, Peter. O Renascimento Italiano. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Nova Alexandria, 2010.

DUBY, Georges & PERROT, Michelle. Imagens da mulher. Porto: Edições Afrontamento, 1992.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

A história de Artemisia Gentileschi, a pintora violentada que se vingou fazendo arte feminista no século 17

 

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