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Movimento Realista, parte I

10 jan

 por Gisèle Miranda

O Movimento Realista na França tem seu enfoque histórico na primeira metade do século 19, movido pelas grandes revoluções do século 18, valorizado em parte pelo Romantismo Histórico (*) que floresceu pelo vetor literário, da música, da pintura e do teatro. Também foi fruto da crise do Neoclassicismo nas primeiras décadas do século 19 e findou com as perdas do movimento operário à entrada dos movimentos de vanguarda.

O século 19 foi Positivista nos territórios de controle jurídico e médico, mas inseriu o Romantismo Histórico de Victor Hugo (1802-1885), Dostoiévski (1821-1881), entre outros, e interferiu no Realismo de Delacroix (1798-1863) e Courbet (1819-1877) ao resgatarem os populares e as presenças de mulheres nos processos de lutas e transformações. Vide a famosa Marianne na obra de Delacroix, A Liberdade guiando o povo, de 1830, reinventada no Realismo Político do pintor brasileiro Gontran Guanaes Netto em 1989, nos 200 anos da Revolução Francesa.

Delacroix, a liberdade guiando o povo, 1830

Eugène Delacroix (Saint-Maurice, 1798- Paris, 1863), A Liberdade Guiando o Povo, 1830. Óleo sobre tela, 2,6 x 3,25. Museu do Louvre.

A mulher partícipe dos Direitos Humanos a partir de 1789 vem das ruas, do povo, do público e não dos retratos de nobres, rainhas. Mesmo não sendo obras pintadas por mulheres houve destaque de suas participações

Gontran-Guanaes-Netto, 1989 A liberdade guianando o povo, 1989.

Gontran Guanaes Netto (Vera Cruz, 1933- Paris, 2017), A liberdade Guiando o Povo, 1989. Óleo sobre madeira, 2,0 x 2,0. Estação do Metrô Marechal Deodoro/ SP.

No Brasil, o Romantismo foi disseminado em meados do século 19 na literatura e no teatro de renomados à uma clandestinidade própria de cultura popular. No âmbito do teatro foi na mudança dos atores negros escravizados que se mascaravam de brancos, por ser um ofício pouco valorizado. Vieram companhias importantes como de Sarah Bernhardt (1844-1923) e Eleonora Duse (1858-1924) que se apresentaram em francês e Italiano nas altas rodas da Monarquia à República, ou seja apresentações quase particulares. E quando aberto ao grande público:

Um grande teatro… murmúrios ininterruptos na platéia e nos camarotes, do princípio ao fim da peça… sem falar nas dificuldades da lingua italiana, ao lado dêsse português tão rude, e do brasileiro ainda pior… (Eleonora Duse. IN:Abreu, 1958, 14)

De meados do século 19 às duas primeiras décadas do século 20, a mudança de alunos Neoclassicistas e do Academicismo Histórico as transformações dos caipiras, dos violeiros e dos picadores de fumo à virada da Semana de Arte de 1922, em que o Movimento Modernista assumiu elementos dos movimentos de vanguarda e agregou aos valores culturais brasileiros, um vetor nacional (antropofágico) e internacional vanguardista.

O Realismo ligado ao movimento operário no Brasil ecoou na década de 1930, a especificidade do nome Di Cavalcanti (1933), embora o nome de Lívio Abramo anteceda com suas gravuras de militância e preocupação social:

É ele o primeiro artista, ao que se saiba, a transpor para xilo o tema da luta de classe: o operário na fábrica, o operário coletivamente em protesto, a velha fábrica de tecidos com o seu perfil recortado, grades e chaminés erectas como uma infantaria em face do inimigo e em volta… o casario operário, em grupos…como troços emboscados de assaltantes (guerrilheiros)… (In: Amaral, 2003, 33; 38)** 

Logo, Portinari despontou em meio aos operários, camponeses e anti fascistas aglutinados à Aliança Libertadora Nacional de 1935, e tornou-se o pintor histórico do Brasil do século 20 (Amaral, 2003, 60). A psiquiatra Nise da Silveira (correspondente de Carl Yung) em seu trabalho: a filosofia e realidade social adentrou o experiementalismo junto a pacientes psiquiátricos com interferências importantes nas artes visuais. No México o Muralismo de Rivera, Orozco e Siqueiros.

 

 

 

(*)Final do século 18 e início do século 19, o Romantismo histórico aconteceu na pintura e na ressurreição Gótica ou Neo Gótico (verticalização das igrejas; a primeira fase Gótica se deu entre os séculos 13 e 15). O Romantismo deu sinais de seus esgotamento em meados do século 19.

Romantismo tem uma face demasiadamente histórico-filosófico via tese de doutorado de Walter Benjamin (1917-1919) – a partir dos pensadores Novalis e os irmãos Schelegel-  ascendeu a discussão sobre ´cartografia dos conceitos´, através do Romantismo Alemão – tais como: ´aura´, ´modernidade´, ´reminiscência,, ´reflexão´ (via conexão e não continuidade) entre outros. A primeira fase desse Romantismo: entre ´a religião e a revolução´, ´crítica e crítico´, ´idéia e ideal´, ´prosa e poesia´. Tb. – ´obra inacabada´-, ou seja, ´ o devir´; conceito conduzido com traquejo neste século pelos filósofos Deleuze & Guattari.

Na perspectiva histórica do Romantismo encontram-se também: autonomia das nações; povos com suas realidades geográficas, históricas, religiosas e lingüísticas; experiência vivida e à genialidade artística. No Brasil dos 1800, há forte influência dos trabalhos de Goya, Delacroix, Turner, Rodin sobre a arte de Araújo Porto Alegre, Rugendas e August Miller.

Cabe a sugestão fílmica: François Truffaut –´A história de Adèle H´ (1975), sobre a vida e a morte – o amor que vagueia na insanidade. Adèle era a filha mais nova de literato Romântico Victor Hugo. Truffaut, brilhantemente roteirizou em parceria (a partir do diário de Adèle) e, dirigiu essa película, desde a sua concepção artística literária a composição cenográfica da época (1863). Adèle Hugo é vivida pela  (sempre) bela atriz francesa Isabelle Adjani.

V. também: NAPOLEÃO (filme/ IV partes/ produção HBO), sob direção de Yves Simoneau. França, 2002, 369 min. Atores de primeira linha: Christian Clavier, notável Napoleão, a sempre bela Isabella Rossellini como Josephinnne, além dos grandes Gerard DepardieuJohn Malkovich, entre outros.

Dos séculos antecedentes ao Romantismo Histórico, ou seja, 17 e 18. Ver ARGAN 1992: as divisões dos conceitos Clássico X Romântico. Incluso Romântico no Medievo, do Românico ao Gótico e no Barroco-  em oposição ao Clássico e Neoclássico.

(**) Sugestão da Exposição: Livio Abramo, Insurgência e Lirismo na Biblioteca Mário de Andrade/SP de 7 dezembro 2016 à 12 março 2017. Curadoria e Pequeno Guia de Leitura por Paulo Herkenhoff (Org.) e Leno Veras.

Referências:

AMARAL, Aracy. Arte para que? São Paulo: Nobel/ Itaú Cultural, 2003

ABREU, B. Eleonora Duse no Rio de Janeiro (1885-1907) Rio de Janeiro: MEC, SNT, 1958.

BURKE, Peter. (Org.) A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.

GONTRAN Guanaes Netto (entrevistas-vídeo a Gisele Miranda): 04, 11 e 18/12/2002; 12/02/2003; 15/01/2003; 15/03/2003; 07/01/2005; 24/04/2005; 08/06/2006.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

Série Ficcional H. Miller XXI, parte II: “a traição das imagens”

7 abr

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

 Às vezes acho que nasci com fome. E essa fome está associada a caminhadas, à vagabundagem, à procura, ao incessante e febril perambular de um lado a outro.

(MILLER, 2003, p. 27)

 

Antes de Turner, Miller dissertou sobre Bosch: – As laranjas da época de ouro de Bosch restabelecem a alma: a atmosfera onde ele as suspendeu é eterna, é a do espírito tornado real (Miller, Big Sur: 43). Objetou por alguns segundos, e tão logo referendou: o desejo de liberdade é um desejo de um condenado! (Miller, 2003, 114)

Joguei a toalha, mas ele a interceptou no ar e continuou: – as laranjas de Bosch ou as de Van Eyke, as maçãs ou os cachimbos de Magritte? Nada acontece pelo conforto, mas pelo boicote a estabilidade que aprisiona o pensamento. O que a trouxe aqui? Falar das frutas ou do fálico cachimbo? A liberdade, a dor, as cicatrizes? Ou a solidão de Goya em sua série Gigantes, Colossos? Seu assombro por minhas palavras permeia os incorrigíveis deleites do Romantismo de Madame Bovary, Anna Karenina e Adèle Hugo.  Recordo a bela Fanny Ardant ao falar de A mulher do Lado: – “Eu me lembro que Truffaut dizia que essa era uma história atual… pode-se morrer de amor mesmo hoje em dia”.

René MAGRITTE (1898-1967), A traição das imagens (Isto não é um Cachimbo), 1929. (a primeira versão é de 1926)

 

 

– Pretensioso Milller! Não falei de Tolstoi, Flaubert, Magritte, Bosch, Rimbaud, Goya, Truffaut ou Foucault. São todas elucubrações suas! Tu desejas que todos esses pensamentos estejam em mim. Morrerei de amor em seus braços deleitando-me em gozo. Gozo por todos os olhares que não quis olhar, por todas as bocas e sexos que não desejei pela ausência de afinidades eletivas do bendito Goethe.
– Minha doce Lia: “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” (Foucault, 1990)

 

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

FRANCO JR. COCANHA – a história de um país imaginário. Prefácio Jacques Le Goff. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

FOUCAULT, Michel. O pensamento do exterior. Trad. Nurimar Falci. São Paulo: Princípio, 1990.

FOUCAULT, M. Isto não é um cachimbo. Tradução Jorge Coli. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 2ª Edição. (Neste livro Foucault trabalhou com a primeira versão de 1926)

MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006

MILLER, Henry. A hora dos assassinos. São Paulo: Francis, 2003.

ARDANT sobre TRUFFAUT:  Fanny Ardant. (atriz foi casada com o François Truffaut)

Série ficcional H. Miller XIX: o desvio na história

15 maio

Por Lia Mirror, Laila Lizmann e Gisèle Miranda

 

“Baudelaire simplesmente desnudou o coração; Rimbaud arranca o seu e o devora lentamente…” (Miller, 2003, p. 121)

Estava ilhada sob uma chuva torrencial. O vento uivava. Abracei a parede daquele abrigo em pé sobre o banco. Chorei e maldisse Henry Miller pelo silêncio secular, nem mesmo as poucas palavras inscritas.

A tempestade ou o intempestivo? Prendi a respiração e desejei morrer pelo impulso de salvação da liberdade. Não devo ter ficado muito tempo sem respirar, mas quando voltei, a chuva havia parado. Respirei como um orgasmo abraçando a parede que me consolou.

– Moça! Aqui passa o ônibus 455?

Não quis acreditar que alguém estivesse falando comigo. De onde ele surgiu? Cadê a chuva? Ele fitou-me sem esboçar estranhamento do quase ato sexual com a parede. Tirou do bolso um papel dobrado e colocou sobre o banco próximo aos meus pés e se foi. Agachei e desdobrei aquele papel que dizia: “Estaremos na mesa do seu Alberto. E eu, doce Lia… à espreita. H. Miller”. (*)

– Maldito seja! Sempre à espreita da carne e do sangue! Você é bendito entre os libertos, ditos e malditos do escárnio.

Fui ao encontro deles no restaurante sem nome na José Livres, número 455. Estava ansiosa por tê-los novamente, nada me satisfaria tanto. Quando adentrei o recinto vi a mesa do seu Alberto vazia. Busquei-os e nada.

Sentei e logo chegou o Antonio que não era Conselheiro, nem casamenteiro; beijo-me a mão e perpetrou um olhar profundo. Nesse olhar eu vi Rubens, Goya e seus Saturnos. Vi Arthur Bispo do Rosário com seu estandarte vindo em minha direção com as seguintes palavras: O impossível só pode ser atingido por investidas e o nome para isso é loucura[1]; vi José Leonilson bordando sua bagagem de mão “O Mentiroso”; vi montanhas de livros abertos gritando palavras. Mas não vi o seu Alberto – foi o que pensei, antes de desfalecer nos braços de Antonio.

Quando acordei não era Antonio que me acolhia; estava nos braços de Henry Miller;  ele sussurrou fitando-me: Eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro… um mundo inexplorado.[2]

 

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

MILLER, Henry. A hora dos assassinos (um estudo sobre Rimbaud). Trad. Nilton Persson. Porto Alegre: L & M, 2003.

MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963.

Sobre José Leonilson

MESQUITA, Ivo. Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. São Paulo: Projeto Leonilson/ Cosac & Naify, 1997.

(*)  “a mesa do seu Alberto” Batucada, Miller e a mesa do seu Alberto


[1] Miller, 2003, p. 118.

[2] Miller, 1963 a, p. 177.

Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème

7 abr

Por Gisèle Miranda

Toda natureza produz seus monstros… esquece-se que uma anomalia é o fato em busca de  interpretação. Paul Zumthor, 1993, p. 17.

Paul Zumthor em A Letra e a Voz [1]

Conheci o trabalho de Zumthor via departamento de Comunicação e Semiótica da PUC/SP, pouco antes de seu falecimento, em 1995.[2].

Zumthor era poeta e medievalista; esteve no Brasil pela primeira vez em 1977, e ficou fascinado pela Literatura de Cordel como exemplo de que as tradições garantem continuidades;  sua memória vocal é corpórea e emocional, primordial para compreender a tradição oral.

O autor absorveu a história da música, teatro e pintura tendo como base a instauração dos princípios da literatura medieval através da voz e da performance.

Zumthor foi contra a discriminação dicotômica do popular/erudito, por isso foi extremamente cauteloso ao uso dos termos. Por exemplo: “popular” utilizado entre aspas e deveras atento às suas diferentes aplicações, principalmente exaltando a pontuação poética da voz.

Com Bakhtin, Zumthor se aproximou via alegoria do Realismo Grotesco[3]presente nos trabalhos artísticos de Bosch, Goya, entre outros.

GOYA, Two old people eating soup, 1820-21

Embora o estudo da oralidade tenha se dado tardiamente (década de 1950) – a oralidade estava ocultada e recalcada em nosso inconsciente cultural e escravizados pelas técnicas escriturais e pela ideologia que elas secretam[4]. É justamente nesse momento que surge a ideia de oposição do “popular” e “erudito”, pois a literatura erudita marca o liame do que é admissível deixando de lado o inadmissível e o conjecturado como folclore ou como ausência de escritura.

O livro A Letra e a Voz fala da teatralidade do discurso, da poesia existente na textualidade. Distinguindo as diferenças da tradição oral (duração) e da transmissão oral (movimento performático), assim como suas constituições temporais.

A performance, segundo Zumthor equilibra a comunicação com a recepção. Dessa forma, o autor se organizou através de marcos cronológicos para a realização da poética da voz exemplificado o período correspondente de seus estudos como medievalista. Ele elaborou seu livro de maneira descontínua valsando por várias áreas.

Vertentes de Geneviève Bollème

É interessante compor O Povo por escrito de Bollème a discussão de Zumthor. Bollème enfoca o julgamento do termo “popular”. Essa investigação se deu através dos estudos de linguas e absorções do termo – de Platão, Sartre, Foucault… concentrando em Michelet, Luxan e Simone Weil. Segundo Le Goff, que prefaciou O Povo por Escrito, Bollème conseguiu tecer sua investigação no campo da reflexão e da ação.

O uso do termo “popular” remete a apropriação política que, em geral é utilizada de modo indireto para falar do povo sem nomeá-lo. Tal é o prisma de Michelet, ou seja, o povo como memória onde coabita a consciência política, ou como Luxan que situa sua escrita como prática política (arma).

Pela via de Simone Weil – através da infelicidade da condição operária –, a filósofa colocou-se em laboratório no vivenciar de uma operária até esbarrar na solidão e em um monólogo que amarga nos seus limites.

Do real e do imaginário; da prática e da teoria; da vida e da obra. E, compreende que o povo não se define, nem se pensa, nem se fala, e indaga: pode-se apreendê-lo em sua ação ou haverá pelo menos uma representação dele? Então, diz: o povo é a própria revolução, pois ele se apresenta como poder de participação e de integração, no momento em que a comunidade unânime subverte qualquer hierarquia e qualquer ordem estabelecida. [5]

GOYA, O sono da razão produz monstros, 1797-8

(*) Sobre a imagem: Goya: “O sono da razão produz monstros”, por Sergio Paulo Rouanet:  “A coruja tirânica que quer impor sua vontade ao artista é a razão narcísica do hiper-racionalismo. Os morcegos são as larvas e os fantasmas do irracionalismo. Dois animais deficitários, truncados. O morcego tem uma audição aguda, mas é cego. A coruja enxerga de noite, mas não de dia. Falta um terceiro animal na zoologia de Goya, mais completo. Não, não falta. Ele está no canto direito, enorme, olhando fixamente o espectador. É um gato. O gato ouve tudo e tem uma visão diurna e noturna. Sabe dormir e sabe estar acordado. E sabe relacionar-se com o Outro, sem arrogância, ao contrário do seu primo selvagem, o tigre, e sem servilismo, ao contrário do seu inimigo domestico, o cão. É a perfeita alegoria da razão dialógica, da razão que despertou do seu sonho, é atenta a todos os sons e todas as imagens, tanto do mundo de vigília como do mundo onírico, e conversa democraticamente com todas as figuras do Outro, sem insolência e sem humildade”. V. Tb. http://bit.ly/bXZ9Qa

Referências:

BAKHTINE, Mickhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, Editora da Universidade de Brasília, 1993

BOLLÈME, Geneviève. O povo por escrito. Tradução Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

FERREIRA, Jerusa Pires. Cavalaria em Cordel: o passo das águas mortas. São Paulo: Hucitec, 1993.

ROUANET, Sergio Paulo. A Deusa Razão. In: NOVAES, Adauto (Org.) A Crise da Razão. São Paulo: Companhia das Letras; Brasília, DF: Ministério da Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Arte, 1996, pp. 298-299)

ZUMTHOR, Paul. A Letra e voz: a “literatura” medieval. Tradução Amálio Pinheiro & Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Tradução Jerusa Pires Ferreira; Maria Lúcia Diniz Pochat; Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.


[1] Zumthor nasceu em Genebra, 1915 e faleceu em  Montreal, 1995.  O livro A Letra e a Voz foi escrito entre 1982 e 1985. Três situações de cultura  na Oralidade: primária e imediata (sem contato com escritura); oral mista (coexiste com a escritura – defasada –dos séculos V ao XV, a oralidade estava mais para a mista, conforme época, regiões, classes sociais e indivíduos); oral segundo (com base na escritura – valores da voz no uso do imaginário – ou seja, cultura letrada.

[2] Através das traduções de Jerusa Pires Ferreira, pesquisadora da Novela de Cavalaria, temas medievais e de estudos orais e relações escrita/oral. Professora da ECA/USP e do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC/SP.

[3] Realismo Grotesco: “… sistema de imagens da cultura popular cômica … o cósmico, o social e o corporal… numa totalidade viva. IN: A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, 1993, p. 17.

[4] Zumthor, 1993, p. 8.

[5] Bollème, 1988, p. 131; 139; 140 e 152.

´O Gigante´ de GOYA

2 jan

Por Gisèle Miranda


Ao

Amor

e à

Guerra

Francisco GOYA (Fuendetodos, Espanha, 1746 – Bordéus, França, 1828)  O Gigante, c. 1818. Água forte e buril, 28,5 x 21 cm. Museum of Modern Art, New York.

Designado: ´O Gigante´! Ninguém conhecia sua estatura ou peso. Ele foi muitas vezes representado no imaginário popular como Napoleão Bonaparte. Não pela França, pois Goya fez ´O Colosso´ para a Espanha. Mas ninguém representava tão bem a figura desse Gigante como aquele homem que surgiu entre a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Errou ao sagrar-se imperador?

– Aquele homem? Era um comum! Lutou e conquistou. Perdeu e morreu.

Goya fez um mortal que se tornou imortal nas proporções de sua potência. Na poesia de sua arte retratou-o ardorosamente amado. Amado gigantemente. Amado para ser na sua eternidade, uma imagem indestrutível.

– Por quantas guerras mais? Qual guerra?

O pintor da corte do Neoclássico Espanhol foi a forte expressão do Romantismo. O Séc. 19 deve muito a Goya que na aparente estabilidade profissional empunhou seu Realismo Social e Político sobre o amor e a guerra; dor como parte intrínseca. Naquele momento seu tempo expirava. Rasgou o Barroco e os olhos cegos de sua aristocracia.

Goya cavou o Romantismo e cruzou mares e movimentos em um historicismo confortável ladeado pela Modernidade.

Sólidas estruturas para o tão só e desnudo Gigante de Goya! Que frágil e duro corpo coloca-se à nossa frente?! Era o desterro:

– Em Santa Helena? Sem o gozo do perto: solitário!

Lá está o Gigante na forma disforme da opulência de seu corpo ou da imaginação de seu povo?  Como pode estar tão solitário com toda a devoção à sua grandeza?

O tato e o afeto não se aproximavam. Havia reverência e distanciamento. Muitos gritaram seu nome em coro, uníssono. Goya já estava surdo!

Muitos choraram por temerem perdê-lo e, por fim, a derrocada. Mas Goya não permitiu que a fúria do tempo ousasse esquecê-lo.

O que diz esse olhar querendo ser olhado? O corpo almejando ser tocado? Essa boca como a de um mortal desejando ser beijada. Despudorado esse sexo comum ser amado!

–         É divino ou poesia?

–         É medo ou poesia?

–         É dor ou poesia?

Do alto o mar à vista.  A lua é um quarto crescente. A sensação é de vazio, enquanto estava a seus pés a fêmea cidade! Por ela, ´O Gigante´ lutou até cair nos braços da morte.

Se encarada a versão mitológica, ´o gigante´ é o monstro, é o cruel; ciclope, minotauro, monstros submarinos shakespereanos. Meio homem, meio animal.  Mortal e imortal. De Goya, a imagem de Saturno devorando sua própria cria.

 

Goya (Fuendetodos, Espanha, 1746- Bordéus, França, 1828), Saturno devorando seu filho, 1815. 146 x 83 cm. Museu do Prado (Madri/ ESpanha)

 

Não por acaso que é unanimidade entre os críticos e biógrafos de Goya confessar a dor como base para ousar escrever sobre este artista e sua arte. Confessarei apenas que:

´Eu vi´, ´O Gigante´ de Goya! Tal qual o próprio Goya respondia ao ser indagado sobre o que pensava ao criar.

 

Referências:

V. Tb. versão “Saturno” por Peter Paul Rubens (1577-1640)

Francisco GOYA, nasceu em Fuendetodos (Saragoça – Espanha), em março de 1746, e faleceu em Bordéus (França), em abril de 1828.

Final do século 18 e, início do século 19, o Romantismo aconteceu na pintura histórica e na ressurreição Gótica ou Neo Gótico (verticalização das igrejas; a primeira fase Gótica se deu entre os séculos 13 e 15. O Romantismo deu sinais de seu esgotamento em meados do século 19.

O Romantismo tem uma face demasiadamente histórico-filosófico via tese de doutorado de Walter Benjamim (1917-1919) – a partir dos pensadores Novalis e os irmãos Schelegel-  ascendeu a discussão sobre ´cartografia dos conceitos´, através do Romantismo Alemão – tais como: ´aura´, ´modernidade´, ´reminiscência,, ´reflexão´ (via conexão e não continuidade) entre outros. A primeira fase desse Romantismo: entre ´a religião e a revolução´, ´crítica e crítico´, ´ideia e ideal´, ´prosa e poesia´. Tb. – ´obra inacabada´-, ou seja, ´ o devir´; conceito conduzido com traquejo neste século pelos filósofos Deleuze & Guattari.

Na perspectiva histórica do Romantismo encontram-se também: autonomia das nações; povos com suas realidades geográficas, históricas, religiosas e lingüísticas; experiência vivida e à genialidade artística. No Brasil dos 1800, há forte influência dos trabalhos de Goya, Delacroix, Turner, Rodin sobre a arte de Araújo Porto Alegre, Rugendas e August Miller.

Cabe a sugestão fílmica: François Truffaut –´A história de Adèle H´ (1975), sobre a vida e a morte – o amor que vagueia na insanidade. Adèle era a filha mais nova de literato Romântico Victor Hugo. Truffaut, brilhantemente roterizou em parceria (a partir do diário de Adèle) e, dirigiu essa película, desde a sua concepção artística literária a composição cenográfica da época (1863). Adèle Hugo é vivida pela bela atriz francesa Isabelle Adjani.

V. também: NAPOLEÃO (filme/ IV partes/ produção HBO), sob direção de Yves Simoneau. França, 2002, 369 min. Atores de primeira linha: Christian Clavier, notável Napoleão, a sempre bela Isabella Rossellini como Josephinne, além de Gerard Depardieu, John Malkovich, entre outros.

Outra sugestão fílmica, (apresentação no Festival do Rio 2007/ Mostra Internacional de Cinema SP 2007 – set. e out. 2007): Sombras de Goya, 2006, dirigido por Milos Forman e roteiro de Jean-Claude Carrière,  com atuações de Javier BardemNatalie Portman.

Também cabe lembrar a exposição GOYA: as séries completas das gravuras (coleção Caixanova), que ocorreu em abril/maio de 2007, no MASP, sob a curadoria de Teixeira Coelho.

Dos séculos antecedentes ao Romantismo Histórico, ou seja, 17 e 18. Ver ARGAN 1992: as divisões dos conceitos Clássico X Romântico. (incluso Romântico do Medievo, do Românico ao Gótico e Barroco em oposição ao Clássico e Neoclássico.

ARGAN, G. C. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

COLI, J. O sonho da razão produz monstros. In: A crise da razão. São Paulo, Companhia das Letras, 1999. p. 301-312.

BENJAMIN, Walter. O conceito de crítica de arte no Romantismo alemão. São Paulo: Iluminuras, 1999. 2ª ed. Tradução, prefácio e notas: Marcio Seligmann-Silva.

CARRIÈRE, J.C. & FORMAN, M. Os Fantasmas de Goya. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

GOMBRICH, E. H. História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

GUINSBURG, J. (Org.) O Romantismo. São Paulo: Perspectiva, 2005.

HUGHES, Robert. Goya. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

LÖWY, Michel. Romantismo e messianismo: ensaio sobre Lukács e Walter Benjamim. São Paulo: Perspectiva, 1990. Tradução: Myrian Veras Baptista e Magdalena Pizante Baptista.

LÖWY, Michel. Messianismo e revolução. In: A crise da razão. São Paulo, Companhia das Letras, 1999. p. 395-408.

Revista BRAVO! GOYA. São Paulo: Editora Abril, 2007. Ano 10, n. 116, p. 26-37 (abril).

TOMLINSON, Janis. Francisco Goya y Lucientes (1746-1828). New York: Phaidon Press Limited, 2006.

O Moderno GOYA

8 set

Goya, ´Prisão interior´ c. 1810-14

 

 

Por Gisèle Miranda

 


Goya utilizou seu pincel para estabelecer os limites angustiantes dos poderes da razão instaurando o irracional como universo ilimitado.[1] Dado condizente com o momento/tempo e lugar. Sua grandiosidade ou genialidade era o termo apropriado à Cultura Romântica. Contudo, essa genialidade antecede ao tempo não vivido por Goya, ou seja, a Modernidade dos movimentos de vanguarda (final do século 19 e ao longo do 20), em especial o surreal de seus trabalhos, que pressupõe, um esforço áspero de vigília…e falha da vigília que determina a invasão do irracional.[2]

Os trabalhos de Goya nos colocam em diversas contrariedades e diversos pensamentos, já que sua obra serviu de propaganda religiosa contra as heresias. Por outro, uma irracionalidade (de vigília) quando o momento pedia a realidade e racionalidade Além de, ora verter-se por uma liberdade vinda dos franceses, ora mostrando as atrocidades cometidas por eles na Espanha.

Quando os Românticos ganharam força com seus favoritos via Victor Hugo, Dostoiévisk, Stendhal, Delacroix, Courbet, entre outros, Goya já estava partindo[3]. Logo no momento de uma outra fase do Romântismo, ou seja, das reinvindicações operárias (a partir de 1820).

De meados ao final do século 19, a fotografia, a Art Nouveau e o Impressionismo e os demais ismos inscreveram na História da Arte um novo marco: A Arte Moderna, que no Brasil se deu através da vinda de artistas europeus, fugidos ou exilados das constantes mudanças políticas, e trazendo-nos as influências de Goya, Turner, Rodin e Delacroix, sobre os trabalhos de Araújo Porto Alegre, Rugendas, August Miller, entre outros.

Também grandes discussões filosóficas de Kant (o ´gosto´ ou juízo de valor como não sendo conhecimento); Goethe (teoria da arte sustentada pela intuição da ´não-criticabilidade´, repudiado pelos Romanticos, pois a base de sustentação das discussão de Goethe eram as obras clássicas; e Schelegel – ditando os limites da obra visível abrindo-se a invisibilidade da obra de arte, ou seja, em devir.

Outra questão demasiadamente importante no Romantismo, é a alteração dos  juízes de arte que passaram a ser reconhecidos como críticos de arte, função de aparato profissional e regulador da subjetividade.

Essas discussões vingaram no Século 20, em emblemáticas produções críticas, via Benjamim em sua fase posterior a tese. O Romantismo para o pensamento artístico começa a esgotar-se por volta de 1848, surgindo então, as discussões filosóficas no século 19, além de verter em discussão critica no século 20, por exemplo, através de Clement Greenberg[4].

Para Greenberg são duas as vertentes imprescindíveis:  o juízo de valor e o destaque de pintores Modernos como Courbet (Realista), Manet (Impressionista). No entanto, sem a particularidade de Goya como vetor de ruptura do Barroco e um dos precursores do Moderno.  Nada que abale sua importância e larga produção como crítico de arte. Seu olhar experiente fez grandes descobertas.

Dessas descobertas há também fracassos, segundo o crítico  Arthur Danto[5]. O autor discute o fim da arte e os limites da história. A discussão é de interesse para a construção de idéias e de formulações históricas.

Mais uma vez o conceito de Modernidade/Moderno se faz necessário, inclusive porque se tornou opcional o uso de Moderno ou Pós Moderno e vice versa. E assim, a confusão de terminologia carece de pesquisa sobre Cultura, tecnologia e globalização [6], e a relação com guerras e a produção artística.

Os historiadores Peter Burke, Francisco Falcon, Ronaldo Vaifas, entre outros, vêm discutindo a História Cultural de maneira veemente. Também chamaria ao grupo, o crítico de arte e prof. de política cultural Texeira Coelho para esclarecimentos de termos que proliferam do conceito de política cultural.

Feito esse apanhado, proclamo à criação e recriação das artes em geral – Moderna/ Pós Moderna e Contemporânea – como alicerces revigorantes e plenos de elementos didáticos alternativos para as discussões diversas.

 

Goya, ´Isto é pior´ (série guerras), c. 1812-13.


 

 

[1] COLI, JORGE. O Sono da razão produz monstros. In: A Crise da razão, 1999, p. 301.

[2] COLI, p. 310.

[3] Faleceu em 1828, em Bordéus – França/ nasceu em Fuendetodos (Saragoça – Espanha), em março de 1746

[4] COTRIM C. & FERREIRA, G. Clement Greenberg  o debate crítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

DANTO, A. C. Após o fim  da arte. São Paulo: Odysseus, 2006.

[6] Destaco o nome do Prof. da PUC/SP Philadelpho Menezes (falecido precocemente), com debates sobre a `mídia, arte e cotidiano na globalização´ (1997) e a produção do CD Poesia Sonora, onde o autor marca sua vinculação de pesquisador cultural, através de uma das faixas do CD, em que estão sobrepostos uma sinfonia de Mozart com o canto dos Pigmeus Africanos; e, do mesmo departamento a prof. Jalusa Pires Ferreira quando trouxe ao Brasil o culturalista Paul Zumthor.

MEMÓRIA HISTÓRICA

23 jul

Por Gisèle Miranda

(À memória de Adèle Hugo)

Ao ler o ensaio de Luiz Felipe Pondé sobre a alma Romântica (Folha de S. Paulo, 20 julho 2009) fui acometida por uma memória autobiográfica que resultou, naquele momento, em uma dor tendo como mote um fracasso profissional. Mas, foi justamente nesse abismo que conheci e me apaixonei por uma imagem de Goya, O Gigante, c. 1808.

Dessa imagem fiz um texto, fruto de estudos sobre o Romântismo e da incrível trajetória de Goya. E, como se não bastasse, criei uma mesa-livro, ou seja, um objeto inanimado, a partir da alma romântica que me assolou.(*) Ou ainda, o exílio do qual, inevitavelmente, deu-se.

 

Bonecas: dama das Camélias, Jane Eyre, madame Bovary e Anna Karénina. Foto GM, 2009

 

Obviamente fui ridicularizada pelo sentimento que me fazia escrever, chorar e amar todos os detalhes de uma obra. Daquele tempo em diante fui sobrevivendo. Será que minha natureza “é não ter futuro”?

Se eu pudesse escolher, viveria e morreria como Anna Karénina ou madame Bovary. Ou, quiçá suplantaria o preconceito como Jane Eyre. Ou seria Eleonora Duse interpretando a dama das Camélias? Queria ser todas elas em cada palavra de seus autores.

Então corro do dia solar e embeveço-me no silêncio da madrugada e vejo as marcas de uma temporalidade que não é a minha.

Essas lembranças históricas são alimentadas e ampliadas pelas leituras de imagens e textos que criam uma “memória histórica projetada no passado reinventado” (Halbwachs, 1950) e vivido numa memória coletiva ficcional.

De fato, o desafio é conviver com o turbilhão de sensações que vão deixando muitas marcas e são invisíveis para o nosso entorno – “da estupidez burocrática” ao “riso do amor”. Ou, visíveis à intolerância.

Pondé terminou seu ensaio pedindo segredo sobre a alma romântica que o fez melhor. Esse segredo gerou o meu segredo, que não está “entre as minhas mãos”, mas em um lugar que pode parar de bater, caso não encontre eco.

(*) O texto O Gigante de Goya encontra-se neste blog, assim como outros textos relacionados ao Romântismo.

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