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Gestação violência (por gerações)

30 ago

Por Gisèle Miranda

 

Ao acompanhar a prisão de Goran Hadizic (em 2011), um dos líderes da limpeza étnica da Bósnia e considerado o ultimo assassino em massa do conflito da Península Balcânica – penso que – pela geração de jovens filhos de estupros, estamos longe de ter o último assassino em massa.

As prisões de Ratko Mladic e Goran Hadizic, (em maio e julho de 2011), assim como de Slobodan Milosevic (em 2000) foram conquistas do Tribunal Internacional da ONU. Estima-se que 50 mil mulheres foram estupradas sob incentivo desses líderes.

A dura temática é recorrente neste blog, donde se coloca a mulher como – arma de guerra –, historicamente uma das mais antigas violências em vigor, independente dos avanços contabilizados pelas mulheres em diversos espaços. Já que, além das guerras de outrora aos conflitos do século 21, os filhos de estupros continuam a agregar números altíssimos.

No Congo os registros contabilizam 200 mil estupros; cálculo efetuado a partir da criação de um hospital específico para casos de estupros seguidos de mutilações, desde 1999.

No Brasil, o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP (2012) vem discutindo sobre os estupros seguidos de morte durante a Segunda Guerra Mundial – “no sofrimento das mulheres durante o Holocausto” (cerca de dois milhões), até então tema ocultado no genocídio de judeus.

Longe de guerrilhas e depois da mudança do Código Penal de 2009, o estupro no Brasil deixou de ser ‘atentado violento ao pudor’ sendo punido com maior rigor, mas nem por isso extinguiu. Mesmo sabendo que o silêncio das vítimas predomina e não contabiliza. É fato que o estupro desumaniza e o covarde ato é danoso há longo prazo.

Avenida Atílio Martini, Campinas/ SP, julho de 2011 (Foto: Reprodução/ EPTV)

Em 2014,a luta do médico congolês Denis Mukwege foi reconhecida, em paralelo, a luta por driblar os atentados sofridos em decorrência do ofício de salvar e dignificar vidas.

 

Sugestões e referências:

Sobre o médico congolês Denis Mukwege:  http://cndhc.org/index.php/noticias-4/88-premio-sakharov-2014-medico-congoles-denis-mukwege-premiado-pelo-tratamento-de-vitimas-de-violacao

Sobre Louise Bourgeois: http://www.elidatessler.com/textos_pdf/textos_artista_1/Da%20casca%20de%20laranja%20ao%20casaco%20do%20pai%20LOUISE%20BOURGEOIS.pdf

HEHGEPETH, Sonja M. & SAIDEL, Rochelle G. Sexual Violence against Jewish Women during the Holocaust, HBI Series on Jewish Women Brandeis University Press, 2010.

SORG, Letícia. A mais covarde das armas de guerra. In: Revista Época, 18 de julho de 2011, p. 104-106.

Série Retecituras IV: Guerras (Parte I)

15 mar

Por Gisèle Miranda

 

A temática adentra séculos e civilizações, remonta histórias de combatentes, libertadores, despóticos ou comuns; por motivos religiosos, políticos, econômicos, familiares ou banais; entre passado, presente e até de perspectivas futuras.

 

Marina Abramovic, The Family I (from the series of works the quiet in the Land), Laos, 2008

 

Esse múltiplo midiático e tecnológico que às vezes abunda em lixo, também germina em possibilidades contemporâneas para lidar com o passado.

Nós podemos filtrar (não é censurar);  filtrar no melhor das textualidades do historiador Peter Burke,  sobre ‘empréstimos culturais’ e os ‘inevitáveis empréstimos culturais’, ou seja, diz respeito a utilização e a reutilização: reciclagem e lixo.

É por esse elo que chamo à escrita : Guerras (via periódicos e links) na reflexão sobre as guerras atuais.

Que tal pensarmos nos EUA, Afeganistão, Iraque, Israel e Palestinos?  O continente Africano em guerrilhas de diversas naturezas, enfim, toda essa constante que vem ´esbofetear´ a História Contemporânea com questões de difícil entendimento pela proximidade e fugacidade das informações. No entanto, reconheço nas artes uma boa temperatura para pensarmos a respeito – dado seu caráter experimental e de subjetividades inerentes.

Então, quais as razões para a guerra? [1]Ou, como viver junto? Claro que cada área há de se interrogar e pensar na melhor resposta dentro dos limítrofes informacionais e de tempo a reflexão.

A resposta dada a segunda questão foi vertida na 27ª Bienal de Artes de São Paulo, sob curadoria de Lisette Lagnado[2].

Foram artistas de várias partes do mundo com problemáticas diversas que se encontraram numa experimentação e numa tentativa de responder a indagação de ambas as perguntas e tantas outras insurgentes.

EUA, Afeganistão e Iraque

Em 2001 reuni três crianças entre 7 e 8 anos que montaram um roteiro para um vídeo caseiro, sob minha supervisão, para refletirmos sobre as guerras através de alguns entrevistados, pessoas que de alguma forma, viveram a guerra ou a sofreram indiretamente.

A ideia surgiu por conta da confusão informacional acerca da guerra entre EUA e Afeganistão. As imagens de TVs, o nome Osama Bin Laden, religiões, americanos, explosões, pareciam parte de jogos eletrônicos. Seria, então, um filme de ficção da indústria cinematográfica norte americana ? O que era tudo aquilo? Fatos ou jogos?

Registrei de forma amadora, um interessante bate-papo entre as crianças com um jornalista (correspondente internacional) e cientista político (*).

-“Por que jogam bombas e comidas?”; “Por que matam crianças e pessoas que não querem a guerra?” ( encarte da Folha de S. Paulo – Folhinha, sobre o episódio de 11 de Setembro 2001, Afeganistão, e muitos outros pontos obscuros repensados)

‘Que mundo é esse?’ Era o título de capa em 2004. É um mundo que reage cada vez mais jovem. Que venham essas inquietações! E que elas sejam cada vez mais, para contrapor a falta de ‘reação’ dos mais velhos, sobre os lugares em guerras, com fome, sede, miséria e doenças.

Marina Abramovic, The Family X (from the series of works the quiet in the Land), Laos, 2008

Uma das três crianças entrevistadoras é meu filho, hoje com 24 anos. A guerra no Afeganistão continua pelo trauma pós retirada de tropas vencedoras. Em paralelo, a guerra no Iraque estourou. E o mantenedor dessas duas guerras ganhou o Prêmio Nobel da Paz.

– “Por quê?” (1)

(*) Nome que prefiro deixar in off por conta da rigidez que há entre empresa e liberdade da palavra.

[1] Questionamento que o geógrafo Wagner Costa Ribeiro (USP) coloca quando perguntado pelos alunos. No caso específico sobre EUA e Iraque, o geógrafo termina seu texto optando por reconhecer que o objetivo desta guerra é mostrar a capacidade militar dos EUA. No entanto, há nesse texto vencedores inesperados In: AGB Nacional, 7/4/2003: Entre a barbárie e a civilização.

[2] Bienal pioneira: pela primeira vez eletiva e eleita uma mulher; A 27 Bienal extrapolou o usual espaço projetado por Oscar Niemayer, deslocando algumas obras para espaços públicos (ruas, praças), facilitando o acesso para pessoas que jamais puderam comparecer em uma Bienal de artes, independente de ser gratuita, pois há vácuos históricos sobre cultura, educação.

Referências/Periódicos:

Folha de S. Paulo, 15 mar. 2003. Em dias decisivos para a solução do conflito entre Iraque e Estados Unidos, crianças que vivem e viveram em áreas de combate questionam a guerra e pedem paz. Folhinha, F1-6.

Folha de S. Paulo, 30 mar. 2003. Crianças no fogo cruzado: conflito do Iraque invade o mundo de meninos de até 4 anos e provoca dúvida, angústia e o temor de ver uma bomba cair no quarto. Cad. Mundo, A23.

Folha de S. Paulo, 20 jan. 2003. Arte do diálogo: exposição pela paz reúne palestinos e israelenses. Cad. Ilustrada, E8.

Folha de S. Paulo, 16 fev. 2003. Milhões vão às ruas contra a guerra/ Maior protesto da história pede paz. Cad. Mundo, A-15 a A21.

Folha de S. Paulo, 25 mar. 2003. Batalha por Bagdá. Cad. Especial: Ataque do Império, A13 a A22.

Folha de S. Paulo, 27 mar. 2003. Massacre em Bagdá. Cad. Especial: Ataque do Império, A13 a A24.

Folha de S. Paulo, 31 mar. 2003. Iraque anuncia que tem 4.000 mártires. Cad. Especial: Ataque do Império, A11 a A20.

Folha de S. Paulo, 31 mar. 2003. Homens na mira: jovens em Bagdá contam como é viver em uma cidade sob bombardeio. Folhateen.

Folha de S. Paulo, 25 mai. 2003. ‘Nós, o povo’, somos o verdadeiro inimigo (por Gore Vidal). Cad. Mundo: A24.

Folha de S. Paulo, 14 set. 2003. Arquiteturas da destruição: Em amém de Costa-Gravas mistura ficção e história para culpar, conscientizar e entreter (por Inácio Araújo). Cad. Ilustrada: E12.

Folha de S. Paulo, 4 set. 2004. Seqüestro na Rússia acaba em massacre de mais de 2000. Cad. Mundo, A13-16.

Folha de S. Paulo, 4 set. 2004. Traços da tristeza: Mostra em SP exibe desenhos de crianças prisioneiras durante a Segunda Guerra Mundial. Folhinha, F-3.

Folha de S. Paulo,11 set. 2004. Que mundo é este? Crianças de várias partes do planeta opinam sobre o terror, no terceiro aniversário dos ataques de 11 de setembro. Folhinha, F4-7.

Folha de S. Paulo, 28 ago. 2004. Futebol com as mãos: o pebolim foi inventado durante a Guerra Civil Espanhola para que as crianças feridas se divertissem. Folhinha, F4.

Folha de S. Paulo, 20 jan. 2006. Chega de exotismo no Oriente Médio, diz Gitaï. Cad. Ilustrada: E-8.

Folha de S. Paulo, 16 out. 2006. Ser moderno no século 21 é olhar para o passado: crítico e curador francês Nicolas Bourriaud fala à Folha sobre o conceito de “como viver junto”, tema da Bienal de SP. Cad. Ilustrada, E8.

Folha de S. Paulo, 22 fev. 2008. Sérvios queimam a Embaixada dos EUA: grupo de radicais tentam destruir edifício em resposta ao reconhecimento de Washington à independência de Kosovo. Cad. Mundo: A12.

O Estado de S. Paulo, 19 mar. 2008. Preciosidades que chegam do Chile: Mostra reúne parte do acervo do Museu da Solidariedade Salvador Allende, formado por doações de artistas do mundo todo. Cad. 2 – D3.

Folha de S. Paulo, 27 jul. 2008. O Mutante (por Slavoj Zizek). Cad. Mais! p.10.

Folha de S. Paulo, 17 ago. 2008. Por trás da miniguerra no Cáucaso, o xadrez geopolítico (por Immanuel Wallerstein). Cad. Mundo, A22.

Folha de S. Paulo, 24 ago. 2008.Um mundo desregrado: conflito entre Rússia e Geórgia marca a ascensão de relações multipolares perigosas, em que as potências testam umas as outras (por Slavoj zizek). Cad. Mais! p. 12.

Folha de S. Paulo, 17 set. 2008. Fundação Bienal diz apoiar curador. Cad. Ilustrada, E5.

Folha de S. Paulo, 27 set. 2008. Artista descobre relações de sua obra com favela. Cad. Ilustrada, E3.

Folha de S. Paulo, 28 set. 2008. Quase sem memória (por Peter Burke). Cad. Mais! p. 3.

Revista BRAVO! A arte à sombra do mal: Leni Riefenstahl. São Paulo: Editora Abril, 2001. Ano 4, n. 44, p. 26-37. (maio)

Revista BRAVO! GOYA. São Paulo: Editora Abril, 2007. Ano 10, n. 116, p. 26-37 (abril

Exposições:

“Arte e Sociedade: uma relação polêmica. São Paulo: Instituto Itaú Cultural, abr. a jun. 2003.

“Israel e Palestina: dois estados para dois povos”. São Paulo: SESC Pompéia – galpão, jul. e ago. 2003.

“Napoleão”. São Paulo: Museu de Arte Brasileira e Salão Cultural (MAB): Fundação Armando Alvares Penteado, ago. a nov. 2003.

“O desenho das crianças de Terezin”. São Paulo: Centro de Cultura Judaica, ago. a out. 2004.

“Sala Escura da Tortura”. Coletivo sobre as torturas na América Latina. Museu do Ceará, Fortaleza, 2005. Curadoria Edna Prometeu. Exposto a primeira vez no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1973, com o nome “Sala Negra da Tortura”, seguindo para exposições na Itália, Suíça, Alemanha e Brasil. Veja neste Blog https://tecituras.wordpress.com/2010/09/19/historia-e-memoria-sob-tortura-%E2%80%9Csala-escura-da-tortura%E2%80%9D/

“Estéticas, sonhos e utopias dos artistas do mundo pela liberdade”. Parte do acervo do Museu da Solidariedade Salvador Allende”. São Paulo: Galeria de Arte do SESI (FIESP), mar. a jun. 2007. Curadoria de Emanuel Araújo. V. Tb. Neste blog: Manifesto de Gontran Guanaes Netto em virtude da participação de seu quadro ´La Prière’ https://tecituras.wordpress.com/2010/08/17/serie-retecituras-v-gontran-guanaes-netto-e-o-seu-manifesto-pelo-chile/

“Marina Abramovic: Transitory object for human use”. São Paulo: Galeria Brito Cimino, jun. e jul. 2008. (Sobre Marina Abramovic: Considerada a melhor performer em atividade, ela nasceu em Belgrado (Sérvia), ex-Iugoslávia, em 1946. Seu trabalho “explora a relação entre artista e público, os limites do corpo, as possibilidades da mente” – questões latentes da política internacional.)

“José de Quadros: Jogos de armar”. São Paulo: Museu Lasar Segall, ago. a nov. 2008. V.: https://tecituras.wordpress.com/2010/03/06/jose-de-quadros/

V. Tb. http://bit.ly/9xGzmU, por Luiz Felipe Alencastro.

Série Retecituras II: Marcas – mulher, mãe, prostituta e armas de guerra

8 mar

Por Gisèle Miranda

(À memória de Sabine Spielrein)

 

“… o pensamento é uma espécie de cartografia conceitual cuja matéria-prima são as marcas e que funciona como universo de referência dos modos de existência que vamos criando, figuras de um devir. (…) escrever é traçar um devir. Escrever é esculpir com palavras a matéria-prima do tempo…(…) a escrita enquanto instrumento do pensamento, tem o poder de penetrar nestas marcas, anular seu veneno, e nos fazer recuperar nossa potência. ” ROLNIK, Suely, 1993.

 

E. Nery para Gisèle Miranda, “Quadros no Museu”, 1988.

Teodora em 527 d.C ao casar com Justiniano tornou-se Imperatriz e deixou de vez a prostituição. Em cerimônia pós morte recebeu o título de Santidade pela igreja Ortodoxa.

A Pop Art de Andy Warhol perpetuou o ícone de Marilyn Monroe by wold, aquém do ‘happy birthday to you president’.

Mulheres que oscilaram entre o limbo ao luxo. Do luxo a morte. Outras são contemporâneas à nossa existência, anônimas que estão marcadas entre o silêncio e o medo.

O documentário de Lisa Jackson de 2007, The greatest silence: rape in the Congo, também fala das marcas; as próprias e as de outras mulheres.

Lisa há uns 20 anos foi estuprada por três homens na saída de seu trabalho. O antídoto que encontrou para tratar o seu veneno foi –  falar – e fazer com que outras vítimas falassem com apoio terapêutico. As marcas de todas elas são mostradas à consciência de quem assiste: o que é ser mulher em pleno século 21?

O que há na República Democrática do Congo que os soldados estupradores de Ruanda tanto almejam? E sob comando de quem?  O ouro, a prata, o petróleo são velhas cobiças. E as mulheres?

Em 1880, foram os belgas os donos da extração. De 1960 até os anos de 1990, anos de ditadura da etnia Mobutu. Posteriormente, as guerrilhas no comando alternado. Há no Congo, 80% das reservas de Coltan – mineral usado para celulares e laptops.

Por contingências das guerras foram registrados mais de 200 mil casos de estupros – 30% com contágio de HIV. São resultados de parcerias de um hospital e grupos independentes. O hospital foi criado em 1999, com verbas humanitárias. Desde então, o hospital sobrevive com lotação máxima de casos sérios de mutilações, ou seja, estupros seguidos de mutilações. Casos de escravização com crianças de 4 a 9 anos de idade e que passaram por violência sexual. As crianças em sua grande maioria são filhos de estupros. 80% das mulheres não têm escolarização.

Pátrias famílias, religiões e preconceitos…” (1) de idade, credo, opção sexual, formação intelectual, que transpôs o século 19, com tantos literatos, poetas, filósofos que reinaram no Positivismo (aquém do Romantismo): em geral  sob a delimitação à potência da mulher. Ao longo dos tempos, os movimentos dos mais variados focaram uma ascensão e uma atenção à mulher.

Freud quando criou a psicanálise rompeu com uma gama de preceitos para lidar e tratar a psiquê. Vanguarda na época. Libertário, conceitos e mais conceitos. Sexualidades feminina e masculina em questão. Entre os seus discípulos esteve Carl Jung que tempos depois rompeu com alguns desses conceitos e práticas de análise. Seu ponto era contrapor o cerne de Freud, ou seja, a sexualidade como referência básica. (2)

Jung tratou entre muitos pacientes uma mulher, judia e sem critérios lúcidos para o diálogo. Ele a tratou. Ela saiu de sua longa internação, estudou medicina e especializou-se em psiquiatria, aplicando em seu exercício de trabalho técnicas para suas atividades terapêuticas em sua clínica para crianças, a ‘Creche Branca’ (3)

Freud sugeriu o fim desse amor. Afinal, Jung era casado e sua amante era ex paciente e  nessa época, sua futura colega de profissão. Ela não deixou de escrever a Jung. Ele envelheceu e deixou uma obra sobre suas atividades. Ela, em tempos stalinista acabou sendo entregue à milícia nazista e foi assassinada.

As marcas são diferentes e há crepúsculos geracionais. Tempos marcados sendo mulher.

Eu, que os enveredei às minhas palavras, às minhas tentativas de criar antídotos aos venenos de minhas marcas, e de não deixar adoecer minha consciência, não vou esquiva-los de saber quem sou. Uma mulher. A mulher dos “Quadros no Museu”.

“No pedante espaço

do salão sem fim,

Quadros e Quadros

penduravam-se isolados

pelo imenso espaço solene.

Perdidos, expostos,

longe dos seus colóquios,

de tempos juntos, no aconchêgo familiar

do estúdio que os pariu.

Ficaram sós, nús, frágeis.

E, então,

uma Mulher chegou.

Quieta, anônima, pequena,

sensível, grande, vibrante.

E, na sua emocionalidade,

Ela os aconchegou,

com o calor de sua emocionalidade,

do seu humanismo sensível.

Os Quadros tranquilizaram.

Gisele os reuniu.

Porque os sentiu.”

(E. Nery, MASP, 1988.)

E. Nery para Gisele Miranda, “Quadros no Museu”, 1988.

Notas:

(1) “Pátrias famílias, religiões e preconceitos…” letra da música de Antonio Cícero e Marina Lima.  Ela canta que Pátrias famílias, religiões e preconceitos quebraram…” – apesar de gostar muito da letra, não acredito que os preconceitos foram quebrados. Um delicioso sonho para o futuro.

(2) JUNG, C.G. (1875-1961) Memórias, sonhos, reflexões. Compilação e prefácio de Aniela Jaffé. (prefácio à edição brasileira de León Bonaventure). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1975. 1a Ed. Inglesa 1961. Apenas um exemplo: “No que concerne o conteúdo do recalque eu não concordava com Freud…. ele apontava o trauma sexual, e eu achava isso insatisfatório… ele não quis admitir como causa qualquer outro fator que não fosse a sexualidade…” p. 134. “Tenho ainda uma viva lembrança de Freud me dizendo: ‘Meu caro Jung, prometa-me nunca abandonar a teoria sexual… olha, devemos fazer dela um dogma, um baluarte inabalável…”  p. 136.

(3) Sabine Spielrein foi a primeira paciente de Jung. Sugestão fílmica que conta essa história verídica: Jornada da Alma. Dir. Robero Faenza. Itália/França/Inglaterra, 2003. color., son., leg. em português. V. Tb. Um Método Perigoso. Dir. David Cronenberg. Reino Unido, Alemanha, Canadá, Suiça, 20111. http://www.youtube.com/watch?v=SmU0oL0Iswc

(*) Sobre o artista E. Nery (1931-2003): Emmanuel Nery – filho de Aldalgisa e Ismael Nery. Foi aluno de Candido Portinari, Alberto Guignard, De Chirico, Salvador Dalí, Diego Rivera, Clemente Orozco, Frida Kahlo e Norman Rochwell. V. neste blog a Série Emmanuel Nery ;

Sobre o desenho e o texto de Emmanuel Nery acima: ambos realizados no MASP e no livro: NERY, Emmanuel. Forças Contrastantes. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

Sugestão:

NERY, Emmanuel. Couraça da Alma. Rio de Janeiro: Editora Expressão e Cultura, 1996.

Série Releituras & breves comentários III – ‘O novo século’ de Eric Hobsbawm e a ‘História e teoria social’ via Peter Burke

7 jan

Por Gisèle Miranda


Eric Hobsbawm era um historiador* com ares de profeta e pessoa atuante no pensamento contemporâneo. Por isso, O novo século: entrevista a Antonio Polito (de 2000) chegou como uma assinatura no tempo desse respeitado e reverenciado historiador.

Ele esteve algumas vezes no Brasil. Na Flip, feira de livros de Paraty, ele foi a estrela daquela deliciosa cidade que hoje, tombada e salvaguardada é considerada a cidade das letras.

Em 2003, ele concedeu entrevista em um dos grandes momentos do pensamento, do exercício e do ofício constante do historiador. Sim, os acontecimentos futuros precisam ter alguma relação com os do passado, e é nesse ponto que intervém o historiador. (Hobsbawm, 2000, p. 8 )

Peter Burke também é da grande safra. Historiador inglês que está comprometido com seu tempo, trabalha com a história cultural e  tem forte ligação com o Brasil – dos espaços acadêmicos à mídia com ensaios vigorosos a Folha de São Paulo – Caderno Mais!

E como lidar com as armadilhas do presente e do juízo de valores? Pelos empréstimos culturais e suas filtragens necessárias, segundo Burke. Aberto às diferentes vertentes teóricas – as exerce, as pratica. Sim, teoria social para historiadores e história para teóricos sociais – entre modelos, teorias e conceitos; aplica na escrita midiática como pensador contemporâneo e um admirador da Invenção da Tradição de Hobsbawm.i

Foto de Jean-Marc Bouju em março de 2003, pai abraçando seu filho em um campo de prisioneiros durante a guerra EUA x Iraque.

O novo século de Eric Hobsbawm

Sabemos que a história que Hobsbawm gostava era a analítica. Diante do que denominou de século breve, ou seja, o século 20, por que equacioná-lo entre 1914 (Primeira Guerra Mundial) e 1991 (colapso da URSS)? Por que não delimitar para análise ou descobrir pela análise o quão importante é o recorte?

Estes são questionamentos que Hobsbawm tirou de letra nessa entrevista. Assim como precisou nomear o século breve e seu fluxo tardio, também foi preciso discutir a globalização – seu processo, sua intensidade e, até mesmo, a homogeneidade da tecnologia nesse tempo que atropela e que desembocou no século 21.

Ao falarmos de cultura estamos também falando de política. E quem nega a diferença que há entre a esquerda e a direita está sem dúvida procriando um núcleo de direita, segundo Hobsbawm.

E como ficam as gerações mais novas com relação politização ou a despolitização? Parece um fato tanto quanto uma data. Porém, a terminologia pode neste século 21 ter outra característica e estar atrelada ao posicionamento de direita e esquerda. O que diferencia é a mobilização, que atualmente se distingue das gerações anteriores. Não há o grande e único mote, mas questões específicas – como drogas, meio ambiente, sexualidade e etc , mas contraditórias entre si.

A experiência é significativa. E, o que precede? Algo que tem de ser reinterpretado ou contornado a fim de se adequar a circunstâncias que obviamente não são como as do passado. (HOBSBAWM, 1998, p. 37)

História e teoria social por Peter Burke

Se por um lado Hobsbawm encontrou eco na palavra progresso para pensar a história e ampliar seu terreno e suas interferências junto a outras áreas, diria que Burke está do mesmo lado, mas com outras palavras.

Não há dúvidas quanto as diferenças de esquerda e direita, mas há no progresso, acessibilidade, recursos, técnicas e fios imprescindíveis para análises. Não há dúvidas também que ambos são comprometidos com o seu tempo.

Burke discorre com propriedade sobre diversas vertentes teóricas. Ao dialogar e aplicá-las, independente de serem específicas da história, cabe ao pesquisador experienciar. Se pertinente ao progresso do historiador – adaptar e testar modelos, teorias e conceitos constituem a marca tanto do bom historiador como do bom teórico. (BURKE, 2002, p. 230)

Para exemplificar, nada mais presente que as discussões sobre o conceito de cultura, que em 1950, foram aguçadas por cientistas políticos, antropólogos e historiadores.

À esfera da cultura, Burke trouxe-nos os problemas políticos de dominação e resistência. Essa socialização cultural também pode ser entendida como socialização política, isto é, os meios pelos quais o conhecimento, as idéias e os sentimentos são transmitidos de uma geração para outra. (BURKE, 2002, p. 111; 128)

Aberto a transmissão, tradição ou reprodução cultural, Burke exaltou o melhor dos historiadores, não relegando nem mesmo a questão poética da ficção no trabalho e análise do historiador, pois, ao depurarmos os elementos ficcionais em nossos documentos, poderemos atingir os fatos mais verdadeiros. (BURKE, 2002, p. 179)

(*) Eric Hobsbawm nasceu em 1917 no Egito (Alexandria) sob o domínio britânico. Ele faleceu em 01 de Outubro de 2012 em Londres  aos 95 anos.

Bibliografia:

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) O novo século: entrevista a Antonio Polito. Tradução Claudio Marcondes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

HOBSBAWM, E.; Ranger T. (Org.) The Invention of Tradition. Cambridge, 1983.

BURKE, Peter. História e teoria social. Tradução Klauss Brandini Gerhardt, Roneide Venâncio Majer. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

Sugestão Bibliográfica:

BURKE, Peter. (Org.) A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.

CARDOSO, Ciro F. & VAINFAS, Ronaldo. (org.) Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

COELHO, Teixeira. Dicionário crítico de política cultural. São Paulo: Editora Iluminuras, 1997.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HUNT, Lynn. A nova história cultural. Tradução Jefferson Luiz Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

Fontes:

BURKE, Peter. Inevitáveis empréstimos culturais. Folha de São Paulo, São Paulo, 27 jul. 1997. Cad. Mais! p. 5.

Programa Globo News  Eric Hobsbawm.

´O Gigante´ de GOYA

2 jan

Por Gisèle Miranda


Ao

Amor

e à

Guerra

Francisco GOYA (Fuendetodos, Espanha, 1746 – Bordéus, França, 1828)  O Gigante, c. 1818. Água forte e buril, 28,5 x 21 cm. Museum of Modern Art, New York.

Designado: ´O Gigante´! Ninguém conhecia sua estatura ou peso. Ele foi muitas vezes representado no imaginário popular como Napoleão Bonaparte. Não pela França, pois Goya fez ´O Colosso´ para a Espanha. Mas ninguém representava tão bem a figura desse Gigante como aquele homem que surgiu entre a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Errou ao sagrar-se imperador?

– Aquele homem? Era um comum! Lutou e conquistou. Perdeu e morreu.

Goya fez um mortal que se tornou imortal nas proporções de sua potência. Na poesia de sua arte retratou-o ardorosamente amado. Amado gigantemente. Amado para ser na sua eternidade, uma imagem indestrutível.

– Por quantas guerras mais? Qual guerra?

O pintor da corte do Neoclássico Espanhol foi a forte expressão do Romantismo. O Séc. 19 deve muito a Goya que na aparente estabilidade profissional empunhou seu Realismo Social e Político sobre o amor e a guerra; dor como parte intrínseca. Naquele momento seu tempo expirava. Rasgou o Barroco e os olhos cegos de sua aristocracia.

Goya cavou o Romantismo e cruzou mares e movimentos em um historicismo confortável ladeado pela Modernidade.

Sólidas estruturas para o tão só e desnudo Gigante de Goya! Que frágil e duro corpo coloca-se à nossa frente?! Era o desterro:

– Em Santa Helena? Sem o gozo do perto: solitário!

Lá está o Gigante na forma disforme da opulência de seu corpo ou da imaginação de seu povo?  Como pode estar tão solitário com toda a devoção à sua grandeza?

O tato e o afeto não se aproximavam. Havia reverência e distanciamento. Muitos gritaram seu nome em coro, uníssono. Goya já estava surdo!

Muitos choraram por temerem perdê-lo e, por fim, a derrocada. Mas Goya não permitiu que a fúria do tempo ousasse esquecê-lo.

O que diz esse olhar querendo ser olhado? O corpo almejando ser tocado? Essa boca como a de um mortal desejando ser beijada. Despudorado esse sexo comum ser amado!

–         É divino ou poesia?

–         É medo ou poesia?

–         É dor ou poesia?

Do alto o mar à vista.  A lua é um quarto crescente. A sensação é de vazio, enquanto estava a seus pés a fêmea cidade! Por ela, ´O Gigante´ lutou até cair nos braços da morte.

Se encarada a versão mitológica, ´o gigante´ é o monstro, é o cruel; ciclope, minotauro, monstros submarinos shakespereanos. Meio homem, meio animal.  Mortal e imortal. De Goya, a imagem de Saturno devorando sua própria cria.

 

Goya (Fuendetodos, Espanha, 1746- Bordéus, França, 1828), Saturno devorando seu filho, 1815. 146 x 83 cm. Museu do Prado (Madri/ ESpanha)

 

Não por acaso que é unanimidade entre os críticos e biógrafos de Goya confessar a dor como base para ousar escrever sobre este artista e sua arte. Confessarei apenas que:

´Eu vi´, ´O Gigante´ de Goya! Tal qual o próprio Goya respondia ao ser indagado sobre o que pensava ao criar.

 

Referências:

V. Tb. versão “Saturno” por Peter Paul Rubens (1577-1640)

Francisco GOYA, nasceu em Fuendetodos (Saragoça – Espanha), em março de 1746, e faleceu em Bordéus (França), em abril de 1828.

Final do século 18 e, início do século 19, o Romantismo aconteceu na pintura histórica e na ressurreição Gótica ou Neo Gótico (verticalização das igrejas; a primeira fase Gótica se deu entre os séculos 13 e 15. O Romantismo deu sinais de seu esgotamento em meados do século 19.

O Romantismo tem uma face demasiadamente histórico-filosófico via tese de doutorado de Walter Benjamim (1917-1919) – a partir dos pensadores Novalis e os irmãos Schelegel-  ascendeu a discussão sobre ´cartografia dos conceitos´, através do Romantismo Alemão – tais como: ´aura´, ´modernidade´, ´reminiscência,, ´reflexão´ (via conexão e não continuidade) entre outros. A primeira fase desse Romantismo: entre ´a religião e a revolução´, ´crítica e crítico´, ´ideia e ideal´, ´prosa e poesia´. Tb. – ´obra inacabada´-, ou seja, ´ o devir´; conceito conduzido com traquejo neste século pelos filósofos Deleuze & Guattari.

Na perspectiva histórica do Romantismo encontram-se também: autonomia das nações; povos com suas realidades geográficas, históricas, religiosas e lingüísticas; experiência vivida e à genialidade artística. No Brasil dos 1800, há forte influência dos trabalhos de Goya, Delacroix, Turner, Rodin sobre a arte de Araújo Porto Alegre, Rugendas e August Miller.

Cabe a sugestão fílmica: François Truffaut –´A história de Adèle H´ (1975), sobre a vida e a morte – o amor que vagueia na insanidade. Adèle era a filha mais nova de literato Romântico Victor Hugo. Truffaut, brilhantemente roterizou em parceria (a partir do diário de Adèle) e, dirigiu essa película, desde a sua concepção artística literária a composição cenográfica da época (1863). Adèle Hugo é vivida pela bela atriz francesa Isabelle Adjani.

V. também: NAPOLEÃO (filme/ IV partes/ produção HBO), sob direção de Yves Simoneau. França, 2002, 369 min. Atores de primeira linha: Christian Clavier, notável Napoleão, a sempre bela Isabella Rossellini como Josephinne, além de Gerard Depardieu, John Malkovich, entre outros.

Outra sugestão fílmica, (apresentação no Festival do Rio 2007/ Mostra Internacional de Cinema SP 2007 – set. e out. 2007): Sombras de Goya, 2006, dirigido por Milos Forman e roteiro de Jean-Claude Carrière,  com atuações de Javier BardemNatalie Portman.

Também cabe lembrar a exposição GOYA: as séries completas das gravuras (coleção Caixanova), que ocorreu em abril/maio de 2007, no MASP, sob a curadoria de Teixeira Coelho.

Dos séculos antecedentes ao Romantismo Histórico, ou seja, 17 e 18. Ver ARGAN 1992: as divisões dos conceitos Clássico X Romântico. (incluso Romântico do Medievo, do Românico ao Gótico e Barroco em oposição ao Clássico e Neoclássico.

ARGAN, G. C. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

COLI, J. O sonho da razão produz monstros. In: A crise da razão. São Paulo, Companhia das Letras, 1999. p. 301-312.

BENJAMIN, Walter. O conceito de crítica de arte no Romantismo alemão. São Paulo: Iluminuras, 1999. 2ª ed. Tradução, prefácio e notas: Marcio Seligmann-Silva.

CARRIÈRE, J.C. & FORMAN, M. Os Fantasmas de Goya. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

GOMBRICH, E. H. História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

GUINSBURG, J. (Org.) O Romantismo. São Paulo: Perspectiva, 2005.

HUGHES, Robert. Goya. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

LÖWY, Michel. Romantismo e messianismo: ensaio sobre Lukács e Walter Benjamim. São Paulo: Perspectiva, 1990. Tradução: Myrian Veras Baptista e Magdalena Pizante Baptista.

LÖWY, Michel. Messianismo e revolução. In: A crise da razão. São Paulo, Companhia das Letras, 1999. p. 395-408.

Revista BRAVO! GOYA. São Paulo: Editora Abril, 2007. Ano 10, n. 116, p. 26-37 (abril).

TOMLINSON, Janis. Francisco Goya y Lucientes (1746-1828). New York: Phaidon Press Limited, 2006.

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