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Série Falésias I: em seus tempos

1 dez

Por Gisèle Miranda


Na temporalidade plural dos percalços, na incisão necessária ou na falésia necessária? Na crise da história e suas infinitas histórias a ´des-historização´?

À beira da falésia – a história entre certezas e inquietude. De fato há um aparador (in-visivel) para quem atinge a falésia. No ápice, entre a queda, o vôo, o medo, a necessidade – podemos ouvir Chartier reverberando Foucault numa arqueologia das problematizações e de uma genealogia das práticas´.

Historiadores têm de manter um diálogo com os pensadores contemporâneos. Para quê, por quê? Para consolidar a consciência de sua inserção no mundo de hoje, bem disse Maria Odila Dias.

E o historiador em sua capacidade narrativa? Que amplie seus espaços de ação! Que seja além de seus pares, confirmaria Luiz Felipe de Alencastro.

E quanto aos riscos? Sempre há riscos na vaga ausência da obra. A obra resgatada dos sentidos ocultos, inimaginados, que escapam das camisas-de-força, retruca Jorge Coli. Pontos de estranhamentos em seus devires.

Rachel Korman, Marginal (para / to Oiticica), 2010 impressão sobre tecido / print on fabric 200 x 180cm

Ao compartilhar a fugacidade do tempo em falésias precisamos ter alguma relação com o  passado, complementaria, Hobsbawm (*). Ou, adaptar e testar modelos, teorias e conceitos e constituir a marca tanto do bom historiador como do bom teórico, perpetraria Peter Burke.

Jacques Le Goff desmistificou o próprio conceito de história, para então pensar a história como problema.  Surgiram: a história vivida, a história como ciência, história e memória, história social, entre tantas outras, além do próprio mito como recusa da história.

E por que não um ´rizoma temporal´ ? Entre a discussão do devir (outrora futuro) e a condena da linearidade. O que escapa não precisa antagonizar. Mas ser pensado e tecido para o campo da reflexão e da ação, Le Goff ratificaria.

Eric Hobsbawm (1917-2012) em sua lúcida e  quase centenária vivência apregoou a diferença de esquerda e direita – para lidarmos com o devir política. Ele inter-fere: a dúvida está procriando um núcleo de direita.

Mas ´por quê ´de sermos ignorantes de nosso passado, disse Marc Bloch? Indagação que se adéqua ao silêncio de um Estado que, num processo retro-ativo, foi legitimador da tortura. Silêncio. O tema silenciado; o tema que deseja ser esquecido; que carece de diálogo, ou o tema sem memória?

Se melhor devir que futuro – quiçá serei mais poeta; se o linear possa ser rizomático e intenso – estarei em companhia dos pensadores, à beira da falésia e na inquietude do pensamento.

 

 

Referências (agenciamentos):

(*) Eric Hobsbawm nasceu em Alexandria, no Egito sob o domínio britânico. Ele faleceu em 01 de Outubro de 2012  aos 95 anos em Londres, Reino Unido.

ALENCASTRO, L. F. et tal. Straumann (Org. ) Rio de Janeiro cidade mestiça. Ilustrações e comentários de Jean-Batiste DEBRET). São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

ALENCASTRO, L. F.  (Org. ) Coleção Dir. Fernado A. NOVAIS. História da vida privada no Brasil.  São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Vol. 2.

BLOCH, Marc L. B., 1886-1944. Apologia da história ou o ofício do historiador. Prefácio de Jacques Le Goff; apresentação à edição brasileira de Lilia Moritz Schwarcz. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

BURKE, Peter. (Org.) A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.

BURKE, Peter. Inevitáveis empréstimos culturais. Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 de julho de 1997. Cad. Mais!

BURKE, Peter. História e teoria social. Tradução Klauss Brandini Gerhardt, Roneide Venâncio Majer. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

CARDOSO, Ciro F. & VAINFAS, Ronaldo. (org.) Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

CARDOSO JR, Hélio Rebello. Para que serve uma subjetividade? Foucault, tempo e corpo. Revista Psicol. Reflex. Crit. vol. 18, n. 3. Porto Alegre, set. /dez. 2005. (http://ht.ly/3ieDw)

CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre as incertezas e inquietude. Tradução Patríca Chittoni Ramos. Porto Alegre: Editora Universidade/UFRGS, 2002.

CHARTIER, Roger. Do palco à página: publicar teatro e ler romances na época moderna – séculos XVI-XVIII. Tradução Bruno Feitler. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.

CHARTIER, Roger. Cultura Escrita, literatura e história: conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre Anaya, Jésus Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. Tradução Ernani Rosa. Porto Alegre: ARTMED Editora, 2001.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade (Vol. II: O uso dos prazeres). Rio de Janeiro: Graal, 1984.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: Uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1981.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) O novo século: entrevista a Antonio Polito. Tradução Claudio Marcondes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

HOBSBAWM, E.; Ranger T. (Org.) The Invention of Tradition. Cambridge, 1983.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

LE GOFF, J. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro: Record, 2001.

LE GOFF, J. São Luis: biografia. Rio de Janeiro: Record, 1999.

LE GOFF, J. Por amor às cidades: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: UNESP, 1998.

PELBART, Peter Pál. Bárbaros e Ameríndios em MundoBraz! nov. 2010. http://ht.ly/3j7G5

Globo News entrevista o historiador Eric Hobsbawm 2014.

Programa Roda Viva – TV Cultura: Roger Chartier, 2001; Conexões 2014 – Entrevista com o Roger Chartier – Completo

Sequências Parisienses de Luiz Felipe ALENCASTRO http://sequenciasparisienses.blogspot.com/

Rachel Korman no Tecituras


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Série Releituras & Breves Comentários I – História e Memória através de Maurice Halbwachs & Marc Bloch

8 set

Por Gisèle Miranda

 

“os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais”

(Provérbio Árabe, In: Apologia da História ou o ofício do Historiador, 2001)

Maurice Halbwachs faz parte dos seis milhões de judeus que os nazistas assassinaram. Ele estava com 68 anos quando às vésperas de 1945, no final da Segunda Guerra Mundial tiraram-lhe o tempo de quiçá novos escritos. Sociólogo admirado em diversas áreas deixou-nos a obra Memória Coletiva publicada postumamente em 1950 e, uma segunda edição no auge do enigmático ano de 1968, Francês.

Marc Bloch era historiador e deixou-nos Apologia da História ou o ofício do Historiador e, A Estranha Derrota, manuscritos durante a sua prisão; logo depois foi assassinado por um pelotão de fuzilamentos da Gestapo. Bloch e muitos outros foram admiradores de Halbwachs, tinham-no como referência, assim como admiravam e remetiam comumente Émile Durkheim.

O que move esse encontro de dois pensadores, hoje, além da memória histórica e a historicidade pulsante é, primeiramente, o fato incontestável dos assassinatos de judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Em 2018, Ano Novo Judaico de 5.778 anos, século 21,  a lembrança e respeito à memória e história dos mortos inocentes, vítimas da intolerância, do preconceito.

O ex presidente do Irã (de 2005 a 2013) Mahmoud Ahmadinejad declarou à revelia na Universidade do Teerã, a inexistência deste fato histórico de horror. Fato que também nos remete a temática de culturas em conflito entre o estado de Israel e o não estado da Palestina. Esse conflito surgido em 1948 esbarra em muitos valores, em que as vítimas do passado tornaram-se algozes no presente[1].Conflitos de caráter econômico acionaram uma máquina de política ou cultura que tem que ser tratada com particularidades e subjetividades, diferentemente das improbidades do antissemita, homofóbico e ex presidente do Irã.

 

A Memória Coletiva de Halbwachs

Recordo Halbwachs através de leituras e aulas da prof. Márcia Mansur D’Aléssio, em 1992. Do autor à impossibilidade de ´conceber o problema da evocação e da localização das lembranças se não tomarmos para ponto de aplicação os quadros sociais reais que servem de pontos de referência nesta reconstrução que chamamos memória´ (DUVIGNAUD, In: Memória Coletiva, p. 9).

A memória dessas discussões intercalou a presentificação social ao passado reinventado, nos dando o eterno retorno da memória histórica. Se adentrarmos a memória individual, pessoal, nos tornamos um ponto de vista sobre a memória coletiva e, por ora, vindo a se confundir com a memória coletiva, que por sua vez, não se confunde com a memória individual, pois a consciência social vive do movimento ao mesmo tempo que cria a recomposição do passado.

A renovação do tempo se faz neste momento, na escrita que o pensamento maturado do ofício (implicou) inicialmente na temporalidade em memória das aulas de D´Aléssio sobre Halbwachs, e que por conseguinte, sobreposto a livros, desenhos, poesias, performances, aulas, vivências, constroem as memórias dos tempos coletivos e individuais  que vão ao encontro da história. Saber conduzir o detalhamento do ofício requer, entre outras coisas, a reflexão sobre as mentalidades[2], que se encontram às vésperas das memórias e, consequentemente, podem formar elementos à história.

Mesmo que a morte intervenha, as lembranças são simuladoras, pois processam na renovação, na reconstrução, na releitura e, isso nada mais é que a memória em atividade. E para que as memórias não se percam, a história finca, estaca por estaca. As estacas somam, sem subordinar, além de serem descontínuas diante e durante a pesquisa histórica.

 

A Apologia da História de Marc Bloch

Marc Bloch tem um vigor necessário para todo historiador, pois discute o ofício em suas minúcias, faz apologia da história; ele escreveu sobre esse tema enquanto lutava pela Resistência Francesa (Lion) e, enquanto era torturado pela Gestapo.

Fundou a Escola e Revista dos Annales ou a Nova História em parcerias com outros historiadores em 1929; Como medievalista, nunca se absteve de participar de seu tempo, por isso deixou os manuscritos de seu ofício.

Rachel Korman – Benedito, 1999 photograph 140 X 100 cm.

O medievalista Jacques Le Goff ressaltou o lado apocalíptico de Bloch – inerente a geração vivida, acolhida em memória coletiva, e de valor histórico. Para ser  Marc Bloch  foi preciso ser carnívoro, andarilho… portanto, o historiador que escreveu Apologia da História (inacabado) reverteu-se em um ato completo de história (In: Apologia da história, p. 34); livro este, publicado postumamente por seu parceiro dos Annales, e também historiador, Lucien Febvre, em 1949.

Bloch foi daqueles a quem se diz aos homens pasmos do presente, o ´porque ´de serem ignorantes de seu passado. Perceber o recente, o presente como pensamento crítico via passado.

O conhecimento é incessante, transformador, e por isso rasga na escrita, abre novas trincheiras, arranca as entranhas com as próprias mãos. A pesquisa histórica reúne pedaços, lastros, escombros; consegue ler, ver, reler, criticar, analisar, avaliar para colocar na escrita.

Rachel Korman – Serena, 1999 photograph 140 X100 cm.

 

Bibliografia

BLOCH, Marc L. B., 1886-1944. Apologia da história ou o ofício do historiador. Prefácio de Jacques Le Goff; apresentação à edição brasileira de Lilia Moritz Schwarcz. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

HALBWACHS, Maurice, 1877-1945. A memória coletiva. Prefácio de Jean Duvignaud; Tradução de Laurant León Schaffter. São Paulo: Vértice & Editora Revista dos Tribunais, 1990.


[1]Sugestão bibliográfica:

SAID, Edward W. Cultura e Política. Prefácio de Emir Sader; Tradução de Luiz B. Pericás. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.

Ver tb. sobre Amos Gitaï neste blog GITAÏ diz: “Mais tarde, você vai entender…”; FICÇÃO OU REALIDADE?

Ver tb. sobre o ex  presidente do Irã  de 2005 a 2013 Mahmoud Ahmadinejad“Faca de dois gumes”

[2] Sobre o termo Mentalidades Série Releituras & Breves Comentários II – ‘História e Memória’ por Jacques Le Goff e Déa Ribeiro Fenelon

Série Retecituras III: “Política Interna Dependente” – Fogo 451 aos doutores (de história)

11 mar

Por Gisèle Miranda

{para Heloisa Helena, minha mãe e Caio Graco, meu filho}

“A ilusão acalentada por aqueles que queimam livros é a de que podem cancelar a história e abolir o passado…  em 10 de maio de 1933, em Berlim… Paul Joseph Goelbbels discursou durante a queima de mais de 20 mil livros…  Freud, Steinbeck, Marx, Zola… Proust… Bertold Brech…”. (MANGUEL, 1997, p. 315-316)

Ou,

“No lugar onde se queimam livros, no fim se queimam homens (Heinrich Heine)


Atearam fogo aos doutores: mas eles sobrevivem, aqui, acolá ou em uma floresta dos homens-livros e livres, emprestada de FAHRENHEIT 451. Cenas ficcionais que Truffaut fez questão de dirigir a partir da incrível estória de Ray Bradbury, que se adéquam numa realidade cruel, deixando de ser ficção, tal qual a queima de doutores.[1]

Censores na queima de livros – cena do filme Fahrenheit 451

Mas até quando estaremos vivos? Em maio de 2007, quando recebi o texto protesto da historiadora Ana Gicelli Garcia Allanis, Dra. em História Social pela USP – publicado na Revista Caros Amigos (edição 120), a situação já estava alarmante. E o que foi feito?

Passei – assim como outros doutores- a ser alvo das fogueiras. Qual o nosso crime? Termos nos especializado, estudado, qualificado e conseguido o título de doutores para melhorarmos a educação de nosso país? Por continuarmos estudando, pesquisando, escrevendo? É duro sabermos da cafetinagem da educação.

Nos tornamos alvos mortais para as empresas educacionais pelo fato de sermos onerosos aos cofres da educação particular em detrimento da qualidade de ensino. Quantos professores doutores há nos cursos de graduação? Dependendo da época, o mínimo estabelecido pelo MEC.

Se perguntarmos aos estudantes de graduação quantos profissionais doutores há em seu curso, a resposta vem em coro: quase nenhum.

Quanto as universidades públicas há obrigatoriedade da titulação. O problema está no número de vagas. Em geral uma vaga por curso. É um investimento exaustivo intelectual e financeiro.

Também há, os colegas que estão iniciando uma especialização ou mestrado que são o básico da mão de obra nas universidades particulares mas, se continuarem seus estudos estarão todos desempregados?

Há dois anos era comum sugerirem aos doutores que escondessem sua qualificação ao se colocarem como candidatos a vagas de professores universitários. Hoje, há agentes do fogo 451 para verificarem no Curriculum Lattes CNPq se de fato o candidato a professor não está escondendo ser um doutor, ou seja, um banido, um condenado ao fogo 451.

Que doutor vai esconder do CNPq Lattes uma formação qualificada, de experiência educacional, do exercício do pensamento, da escrita, a voz, a postura de anos pesquisando e sendo financiado por CNPq, CAPES, FAPESP?

Recordo uma frase de uma distinta professora da PUC/SP ao parabenizar-me pela trajetória que me fez doutora: “Você é uma doutora pela PUC/SP”. Senti o peso das atividades de anos após minha graduação, ligados às pesquisas, escrita, leituras; atividades que continuam no meu universo como pensadora.

Após dez anos da titulação ‘doutora’ e de práticas alternativas de sobrevivência, fui uma foragida. Vivi em florestas educando informalmente, mas perseguida pelo fogo 451: “Até quando a mídia, o MEC e os tecnocratas vomitadores de estatísticas vão fingir que está tudo bem? Quem deve ser processado e responsabilizado por toda essa esbórnia? Que país queremos?” [2]



[1] O filme FAHRENHEIT 451 é de 1966. O livro foi publicado em 1953. 451 é a temperatura celsius utilizada pelos censores para queimarem os livros.

[2] Ana Gicelli Garcia Allanis em sua frase final no texto “Tiro ao Doutor”, maio 2007.  Revista Caros Amigos. V. tb. “Título atrapalha professor doutor nas universidades particulares“:http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/titulo_atrapalha_prof_univ_particulares.htm

O que mudou de 2000 a 2016? 

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