Tag Archives: Impressionismo

Série Movimentos de Vanguarda I: Impressionismo, Neoimpressionismo, Fauvismo.

5 maio

por Gisèle Miranda

O conceito de Arte Moderna a ser apresentado situa-se nos escritos literários de Charles Baudelaire (1867-1921) e no turbilhão artístico ocorrido em final do século 19 até meados do século 20.

Nesse breve período surgiram os Movimentos de Vanguarda. Alguns com manifestos outros sem. Essa Modernidade é amparada historicamente pela Idade Moderna – mas são conceitos distintos.

Essa modernidade é ditada por mudanças de fases e processos de depuração. A perspectiva foi desaparecendo e a Arte Abstrata alçou pilar próprio e conquistou espaço paralelo ao figurativo. A colagem ganhou o ápice do Op antinaturalismo, ou seja, o espaço moderno.

O que o artista moderno procura… Ele procura algo que nós nos permitimos chamar modernidade… o eterno no transitório. (Baudelaire,1995: 694).

O Impressionismo

Alguns pensadores não creditam no Impressionismo como um movimento de experimentação se comparado aos que surgiram posteriormente. O Impressionismo perto do Fauvismo, Expressionismo ou Cubismo tornou-se mais de retaguarda do que de vanguarda. Mas em relação aos movimentos anteriores essa visão de retaguarda enfraquece.

A primeira exposição Impressionista ocorreu em 1874. O grande público e os críticos ficaram chocados com o que viram, pois estavam calcados em uma longa história do figurativo Clássico, Neoclássico e do Realismo.

O Impressionismo abriu o espaço público para a pintura fora dos estúdios, utilizando a luz solar, os primeiros raios do sol, o entardecer, os movimentos das nuvens, o vento no vestido, no cabelo, na embarcação à vela, nas ondas do mar, na fumaça dos trens.

A bandeira do Impressionismo foi levantada por Claude Monet (1840-1926), unanimidade dos teóricos. Só ele capturou o caráter aéreo em turbilhões de fumaça branca e azul.[1] Contudo, entre os jovens artistas o Impressionismo foi bem recebido e incorporado.

Claude Monet (Paris, França, 1840 - Giverny, França, 1926), A Estação Saint-Lazare, 1877.  Óleo sobre tela, 74,9 x 100,3 cm. Museu d’Orsay, Paris.

Claude Monet (Paris, França, 1840 – Giverny, França, 1926), A Estação Saint-Lazare, 1877. Óleo sobre tela, 74,9 x 100,3 cm. Museu d’Orsay, Paris.

Édouard Manet (1832-1883) era bem estabelecido no mercado de arte e vindo de trabalhos ligados ao Realismo. Manet aplaudiu, aderiu, renovou e tornou-se também um Impressionista.

O movimento batizado ironicamente por um crítico à tela Impressões, nascer do sol de Monet. Chamando-a de impressões, de borrõesUm papel de parede é mais elaborado que esta cena marinha[1].

Claude Monet (Paris, França, 1840 - Giverny, França, 1926), Impressão, nascer do sol, 1872. Óleo sobre tela 48 x 63 cm. Museu Marmottan Monet, Paris.

Claude Monet (Paris, França, 1840 – Giverny, França, 1926), Impressão, nascer do sol, 1872. Óleo sobre tela 48 x 63 cm. Museu Marmottan Monet, Paris.

Nomes como Camille Pissarro (1830-1903), Edgar Degas (1834-1917), Alfred Sisley (1839-1899), Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Vincent van Gogh (1853-1890), Berthe Morisot (1841-1895), uma das raras mulheres da História da Arte em um mundo totalmente masculino e muito reticente com a presença da mulher como artista. Morisot casou com o irmão de Manet e aluna dos pintores Realistas Jean-Baptiste Corot (1796-1875) e Jean-François Millet (1814-1975).

Berthe Morisot (Bourges, França, 1841 - Paris, França, 1895), O Berço, 1872. Óleo sobre tela, 56 x 46 cm. Museu d’Orsay, Paris.

Berthe Morisot (Bourges, França, 1841 – Paris, França, 1895), O Berço, 1872. Óleo sobre tela, 56 x 46 cm. Museu d’Orsay, Paris.

O Impressionismo passou por uma divisão quanto à técnica criada pelo pontilhismo ou Neoimpressionismo. Nomes como Georges Seurat (1859-1891), Maximilien Luce, (1858-1951) Paul Signac (1863-1935), entre outros.

Georges Seurat (Paris, França, 1859- Paris, França, 1891), Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, 1884 – 1886. Óleo sobre tela 2017,5 x 308,1 cm. Art Institute of Chicago.

Georges Seurat (Paris, França, 1859- Paris, França, 1891), Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, 1884 – 1886. Óleo sobre tela 2017,5 x 308,1 cm. Art Institute of Chicago.

Henri Matisse (1869-1954) fez nus simplificados com o pontilhismo que o marcou no Neoimpressionismo, assim como sua tridimensionalidade através das fortes manchas.

Henri Matisse (Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954), Luxe, Calme et Vulupté, 1904. Óleo sobre tela, 98,5 x 118,5 cm. Museu d’Orsay, Paris.

Henri Matisse (Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954), Luxe, Calme et Vulupté, 1904. Óleo sobre tela, 98,5 x 118,5 cm. Museu d’Orsay, Paris.

Matisse era conhecido e respeitado mesmo assim sofreu com as críticas, principalmente com a forma para representar o corpo feminino e como deixava suas modelos feias em sua fase Fauvista (1904-1907)

O retrato de sua mulher usando um enorme chapéu foi interpretado como sendo de um inexplicável mau gosto, uma caricatura da feminilidade. (Stangos, p. 17)

Matisse (Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954), Mulher com Chapéu, 1905. Óleo sobre tela 80,6 x 59,7 cm. Coleção particular.

Henri Matisse (Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954), Mulher com Chapéu, 1905. Óleo sobre tela 80,6 x 59,7 cm. Coleção particular.

O irmão da escritora Gertrude Stein (1874-1946) adquiriu o Retrato de Madame Matisse. Leo Stein deixou registrado: Era o mais nojento borrão de tinta que jamais vi. (Stangos, p.17)

(Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954) Madame Matisse, 1905. Óleo sobre tela, 40,.5 cm × 32,5 cm. Statens Museum for Kunst

Henri Matisse (Le Cateau-Cambrésis, França, 1869- Nice, França, 1954) Madame Matisse, 1905. Óleo sobre tela, 40,.5 cm × 32,5 cm. Statens Museum for Kunst

Matisse passou pelo Fauvismo, Expressionismo e Cubismo. O Fauvismo foi um movimento de cores puras, exageradas e com o contraste das cores complementares, do qual Maurice de Vlaminck (1876-1958) com seu espírito livre tornou-se um expoente; e oponente veementemente ao pontilhismo dos Neoimpressionistas.

Maurice de Vlaminck (Paris, França, 1876 – Rueil-la-Gadelière, França, 1958), Hauses at Chateau, c.1905. Óleo sobre tela 81,3 x 101,6 cm. Art Institute of Chicago

Maurice de Vlaminck (Paris, França, 1876 – Rueil-la-Gadelière, França, 1958), Hauses at Chateau, c.1905. Óleo sobre tela 81,3 x 101,6 cm. Art Institute of Chicago

Vlaminck, Matisse e Picasso (1881-1973) tornaram-se grandes colecionadores de esculturas africanas, a principal fonte para a primeira fase Cubista, das interferências da cultura africana e suas máscaras.

Matisse apadrinhou André Derain (1880-1954) no Fauvismo e no Cubismo, a ponto de interceder junto aos pais de Derain sobre o importante ofício e a qualidade da obra do artista/filho. Eles se tornaram os Les Fauves, os feras, os selvagens para falar das cores. Outros foram agregando ao grupo como Georges Braque (1882-1963), Raoul Dufy (1877-1953), Georges Rouault (1871-1958), Albert Marquet (1875-1947), Jean Puy (1876-1960) e sempre Picasso por perto, entre outros.

André Derain (Chatou, França, 1880 - Garches, França, 1954), Henri Matisse, 1905. Óleo sobre tela 46 x 34 cm. Tate Modern, London

André Derain (Chatou, França, 1880 – Garches, França, 1954), Henri Matisse, 1905. Óleo sobre tela 46 x 34 cm. Tate Modern, London

Para alguns artistas como Matisse, Derain, Picasso, as passagens de Movimentos, de fato, tornaram-se depurativas. Também Vincent van Gogh e Paul Gauguin (1848-1903) na fase Expressionista, entre outros.

Houve sobreposição de movimentos, não como rupturas, mas como fases, experimentações e, obviamente, a relação dessas vanguardas com o momento histórico. A guerra Franco-Prussiana (1870-1871), ou concomitante às duas Guerras Mundiais (1914-1918 e 1939-1945). Essa relação artista/soldado foi presente na estética dos feridos, dos sobreviventes aos traumas de guerra e morte.

[1] Exposição Impressionismo: Paris e Modernidade, Obras-Primas do Acervo do Museu d’Orsay de Paris, França. CCBB SP, 2016. Obra roubada em 1985 e recuperada em 1990.

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do mal. Edição bilíngue. Tradução de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

FERRREIRA, Glória; COTRIM, Cecilia (Org.) Clemente Greenberg e o debate crítico. (Tradução Maria Luiza X. de A. Borges). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2ª ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

SCHAPIRO, Meyer. Impressionismo: percepções e reflexões. Tradução de Ana Luiza Dantas Borges. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.

STANGOS, Nikos (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

TASSINARI, Alberto. O Espaço Moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

(*) Parte desse texto foi realizado no Instituto de Arte e Cultura Antonio Peticov.

Reminiscências & Reflexões por Gontran Netto (parte I)

5 nov

Por Gontran Guanaes Netto (*)


A dinâmica da existência do homem se caracteriza pela sua capacidade de interiorizar e exteriorizar experiências.

É através da representação deixada pelo homem, desde seus primórdios, que nos permite ter uma noção aproximada do humano em sua dimensão mais abrangente.

Isto nos possibilita especular sobre as motivações e as constantes através dos tempos em etnias marcadamente diferenciadas e evidenciadas pelas representações nas cavernas. Frutos dessas pinturas, observa-se uma grande preocupação Realista, principalmente em Lascoux e Altamira.

Por outro lado, vemos vestígios em lugares e tempos  – da preocupação Simbólica. Portanto podemos dizer que a representação dita artística está presente na atividade humana. E, de acordo com as formas de organização social ela preenche funções diferenciadas. Ela serve para validar crenças, criar expectativas, coadjuvar estruturas sociais.

Ao observarmos a extensão histórica da cultura em geral, detectamos uma acentuada preocupação humanista em dois períodos: o Clássico Grego e a Renascença Italiana, que poderíamos resumir como um Idealismo Realizado. Isto se materializado na preocupação de ver a representação a partir de cânones de beleza estética.

Michelangelo transformou-se num gênio; fragmentam-se as ideologias do corpo social e os conhecimentos – que deram curso às especificidades científicas.

Suave e sem formas angulares convencionou-se ser o adolescente, a forma humana ideal de beleza. Os adolescentes de Caravaggio são as representações mais perfeitas dessa forma de Realismo.

 

Caravaggio, (Milão, Itália, 1571- Porto Ercole, Itália, 1610). Amor Vincit Omnia, 1601-1602. óleo sobre tela 156 x 113 cm. Gemäldegalerie, Berlim.

 

Buscando formas diferentes de se expressar, Leonardo Da Vinci gostava de desenhar figuras deformadas ou feias como forma de beleza.

Portanto podemos dizer que nesta busca incessante de uma beleza hipoteticamente inatingível ultrapassa os limites do real, postura que perdurou até o período Romântico em variantes, donde se preconizou a exacerbada forma dos antigos conceitos dados aos sentimentos, a emoção.

O Romantismo determina o fim dos limites estabelecidos pelos cânones, antevendo nossos rumos. É nesse estado de espírito que a história se reescreve, onde os valores assumem colorações especiais.

Com isso, outras formas de representações se abrem, e se apresentam como opções diametralmente opostas, configurando um Romantismo Impressionista ou Expressionista.

 

Anita Malfatti (São Paulo, SP, 1889-Idem, 1964), a boba, 1915-16. Óleo s/ tela (61×50,5). Col. Museu de Arte Contemporânea/ MAC/USP.

 

Os criadores continuam buscando novas técnicas para obterem a representação desejada.  Os antigos valores centrais são anarquizados. Vemos então, tendências e escolas se distanciarem umas das outras.

Surgem as novas representações visuais e nesse contexto estão a fotografia e o cinema – que por sua vez, interconectam experiências e linguagens.

Desta fragmentação decorre uma diluição da antiga presença humanista, que paulatinamente perde espaço para uma presença virtual. Os sistemas globalizados determinam formas de representações ostensivas e com inevitável saturação visual.

As dúvidas existenciais cedem lugar às certezas visuais. Vêm-se empobrecidos os antigos meios de questionamentos e cedendo lugares a caminhos programados. A arte visual, como forma de representação se torna obsoleta e imperfeita para atender este novo homem virtual. Pois era justamente essa imperfeição humana da arte que media com o homem existencial.

 

(*) Esse texto é parte de manuscritos de Gontran Guanaes Netto que, ao longo dos últimos cinco anos vem escrevendo por uma necessidade própria de discutir suas reminiscências conjugadas as reflexões atuais.

%d blogueiros gostam disto: