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Série Falésias III: Os intelectuais e os descaminhos da fala

23 fev

Por Laio Bispo

 


O afastamento da prática é a forma mais cretina da vida intelectual; em todo caso, há um vicio cada vez mais gritante e perigoso que, tal qual a inoperância se faz presente no mundo fabuloso dos intelectuais: a fala – suja.

Um dos principais aspectos da vida intelectual que, por motivos muito específicos, não deve ser relegado a uma atividade secundária, ou mesmo qualquer, é a fala. As implicações desse ato são, por vezes, tão fundamentais quanto à escrita ou a prática. Vistos, de modo geral, como atos em comum e de construção consoante, estes guardam suas especificidades embora não possam trabalhar isolados, sob pena de não aceitação de seus aspectos de validade e também, por consequência, da não efetividade de suas implicações práticas.

 

Carlos Zilio, Lute, 1967. Serigrafia, resina plástica e alumínio.

 

A fala, tomada aqui em ato, é um das manifestações mais ativas (ao menos em termos representativos) da vida intelectual. Ora, sabe-se, no entanto, que os “atos de fala” podem engendrar ações diversas – mesmo mantidos em seus estritos limites linguísticos (Searle) ou mesmo se trabalhados fora dos muros estabelecidos pela convenção linguística analítica (Derrida). Mas esses “atos da fala” são aqui, sob aspectos pontuais, dispensáveis por serem o foco da questão em seu problema estrutural.  O problema aqui está na fala enquanto elemento cênico, cultural, estético e político e nas implicações possíveis em outras manifestações intelectuais cujos (des) caminhos fortuitos levam ao desvelamento de um perigoso estado comunicativo que se apresenta, também, representativo e devaneador.

A fala exerce, sobretudo em relação à escrita, uma vantagem: a capacidade de reprodutibilidade e coerção. Há no ato da fala um investimento de desejo que se projeta de maneira muito mais rápida e irrefletida do que na escrita. Um dispositivo de fala produz e exerce de maneira eficiente uma influência que pode ser, na maioria das vezes, estúpida e grosseira. Isso se dá graças aos suportes que compõem o ato; um investimento que envolve um dinamismo cênico que quando aliado a uma retórica competente encontra meios muito eficazes de aceitação; o que, porém, não deixa de ser o cinismo mascarado da fala representativa de que se valem, a tanto tempo, os intelectuais sujos – esses homens da fala totalizadora.

Há nos intelectuais um costume – um tino para insensatez – que parece autorizá-los a falar em nome de outros. Falar em nome “de” é um risco e uma ousadia a qual poucos podem, com competência, trabalhar. A fala totalizadora – que é representativa e não ativa – mostra o quanto indigno pode ser falar em nome de outros. É aí que, de maneira mais específica, a fala torna-se suja; suja porque está apodrecida por investimentos de desejos totalizantes. Nesse sentido o aspecto comunicativo de qual se valem as sociedades de controle em suas manobras retóricas está, também, próximo da fala dos intelectuais. Sendo, no primeiro caso um investimento de desejo com fins de justificativas e esclarecimentos de fatos; e o segundo, um investimento que tem por principio o controle. Os intelectuais tornam-se, dessa maneira, publicitários de uma razão qualquer. Deleuze situa bem a função da fala quando diz:

 

Talvez a fala, a comunicação, estejam apodrecidas. Estão inteiramente penetradas pelo dinheiro: não por acidente, mas por natureza. É preciso um desvio da fala. Criar foi sempre coisa distinta de comunicar. O importante talvez venha a ser criar vacúolos de não-comunicação, interruptores, para escapar ao controle.  (2010, p.221)

Deleuze talvez tenha sido um dos pensadores que com maior lucidez apontou para a problemática da fala e suas implicações nos aspectos supracitados. Em todo caso, não há uma sistematização e os apontamentos sobre a questão são breves – porém assertivos. Outro pensador que contribuiu decisivamente para a questão é Michel Foucault, cuja crítica à representação é mais sistematizada, como bem pontuou Deleuze em conversa com o mesmo:

 

A meu ver, você foi o primeiro a nos ensinar – tanto em seus livros quanto no domínio da prática – algo de fundamental: a indignidade de falar pelos outros. Quero dizer que se ridicularizava a representação, dizia-se que ela tinha acabado, mas não se tirava a conseqüência desta conversão “teórica”, isto é, que a teoria exigia que as pessoas a quem ela concerne falassem por elas próprias. (1973, p.73)

A fala – independente das situações que lhe ocorram – não pode servir a propósitos reguladores e totalizantes, bem como não deve dissimular incompetências, vaidades e más intenções, embora não seja isso que se perceba no ato. A contemporaneidade está marcada pelo fluxo de falas fálicas, discursos de penetração e investimento de desejos que falam e sussurram, mas não gritam para não despertar a ousadia da escrita. Falas que ao invés de abrir possibilidades constroem muros, barreiras sob as quais se erguem e se escondem discursos.

 

Geraldo Zamproni, concreto e zíper, s/d.

 

Em suma, parece razoável a idéia de que aqueles que se valem em demasia da fala querem, com isso, achar um meio para disfarçar a frigidez intelectual de que são “vítimas”, tentando a partir do estardalhaço falacioso disfarçar uma intelectualidade que, em última analise, não é mais do que uma farsa ou um intelectualismo postiço.

Assim posto, a fala é, quase sempre, para os que a ela se atém em demasia, uma dublagem medonha em descompasso com os fatos da vida concreta.

 

 

 

REFERÊNCIAS:

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed. 34, 2010.

FOUCAULT, Michel.  Microfísica do poder. Org. e Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

Sobre o professor e artista visual Carlos Zilio, http://www.imagem.ufrj.br/index.php?id_exposicao=14

Sobre arquiteto e artista visual Geraldo Zamproni, clique aqui

Série Falésias II: O conforto da mudez intelectual

10 dez

por Gisèle Miranda, Jozy Lima & Lia Mirror


“Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. ….” (Clarice Lispector)

O Tecituras desdobrou-se do blog Rudeza: escrita rasgada, que vinha – como dizia Paschoal Carlos Magno: de nossos barcos no céu, na terra e no mar. Ou seja, vem de uma experiência de escrita ativa e retro-ativa.

Essa experiência unida à necessidade da escrita vem acompanhada de críticas sobre a vida intelectual e suas manifestações. Por isso enxergamos o conforto irritante do mundo acadêmico, cujos intelectuais não escrevem uma linha senão tiverem a certeza do retorno indexado. Nem mesmo para simples comentários de textos.

São muitos os indícios e sinais de que intelectuais exercem sua capacidade crítica para alcançar, quando muito, os seus pares na academia. Raramente saem para o mundo. Mas alguns perguntarão: por acaso o intelectual tem ou deveria ter algum compromisso, além daqueles estabelecidos pelas regras burocráticas da academia que determinam seu avanço na carreira?

Intelectual tem responsabilidades com a construção de justiça social, de cidadania, de política, de alguma coisa?  O quê?  É ingenuidade desejar que pensadores venham à mídia dar alguma contribuição? Intelectual tem que expressar opinião, convicção, cismas? Intelectual tem que propor interrogações, preocupações, meditações, conclusões, considerações?  Intelectual pode ficar mudo? Intelectual tem que manifestar?

O espaço é usado pela escassez da voz, da escrita, da atitude de intelectuais omissos e com claras dificuldades para lidar com sua própria liberdade e sua consciência. Mas onde estão os mudos que não deveriam ser surdos nem cegos?

Estamos afirmando que há poucos aportes de pensadores nos espaços midiáticos. E por que não usamos os espaços por direito, necessidade? Por que não lidar bem com a imagem, a assinatura? Para que expor-se? Para que servirá escrever se não pontuará nas regras acadêmicas? Para que escrever além das atribuições pagas ou necessárias?

No  Tecituras há pensadores que exercem sua intelectualidade.  Outros criam espaços públicos e nômades e atuam em uma política educacional macro. E ainda, os que agenciam grupos de estudos, momentos de discussões e acreditam na parceria, e assim por diante.

I am not a woman writer

18 out

por  Beauvoiriana


A expressão não tem equivalente em português. Je ne suis pas une femme écrivain/I am not a woman writer. Traduzida para o português, perde-se o sentido da negação parcial mantida nos outros idiomas. E é justamente por essa negação parcial que, em francês e em inglês, a frase expressa uma profunda reflexão.

De que lugar escreve uma mulher? Existe uma escrita feminina? E até que ponto essa hipotética escrita está enraizada nos preconceitos em relação à mulher como intelectual e indivíduo do mundo das letras?

 

Simone Beauvoir aos 44 anos. Foto Art Shay/Nelson Algren, 1952

 

Simone de Beauvoir jamais foi alheia a essas questões. Na verdade, elas sempre impuseram a Simone um dilema. Exatamente por ter contribuído tanto para os estudos sobre as mulheres, e por ter escrito sobre as mulheres, com destaque especial para a composição de suas personagens femininas, Simone sempre foi vista como uma mulher que escrevia. (a woman writer/une femme écrivain).

Assumir tal lugar na sociedade, entretanto, é assumir uma posição inferior? Eis o dilema. Estando a mulher em condições de inferioridade na vida em sociedade – como Simone mostrou e como Virginia Woolf argumentou em Um teto todo seu, obra que Simone admirava – estaria a escritora também em um nível abaixo ao dos escritores? Ao mesmo tempo, exercer a função política do intelectual, que Simone tanto prezava, não significa falar a partir de sua posição, de seu lugar na sociedade? Valem as ideias de uma mulher tanto quanto as de um homem? As questões não param aí. Assumir-se como mulher escritora é assumir-se como diferente das mulheres que não galgaram uma  posição no mundo da reflexão?

O dilema é de difícil solução, e se Simone abriu as portas para a formulação dessas questões, certamente não trouxe, em sua atuação como escritora e filósofa, todas as respostas possíveis. Simone falava do ponto de vista de suas convicções existenciais e políticas. E quando essas convicções exigiam que se posicionasse como mulher, ela o fez. Quando exigiam que se posicionasse como indivíduo, também o fez. Mas a publicação de O Segundo Sexo exigiu, cada vez mais, que ela falasse a partir do ponto de vista de uma mulher intelectual.

As mulheres intelectuais sabem o quanto o gênero pesa sobre suas realizações, sobre o reconhecimento de sua obra e de sua originalidade. O dilema não vai ser resolvido a partir de uma pensadora, de um grupo de mulheres que alcançam sucesso com seus escritos, nem de uma ou duas gerações. O dilema só será resolvido quando a condição da mulher for efetivamente transformada e a igualdade conquistada.

Até lá: é legítimo a qualquer mulher reivindicar seu posto como independente de seu gênero. Eu não sou uma mulher que escreve; eu não sou uma mulher presidente; eu não sou uma mulher executiva; eu não sou uma mulher operária. Eu sou uma pessoa que ocupa na sociedade uma posição qualquer, independentemente de meu gênero.

A genial Cecília Meireles tinha a solução para seu dilema. Ela recusava-se a ser chamada de poetisa (a woman poet/une femme poète). Cecília Meireles era poeta. Igual a qualquer outro poeta.

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