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Série Emmanuel Nery V: Ismael Nery (2) e sua essência tríade

27 maio

Por Gisèle Miranda

A Essência Filosófica e o Surrealismo encontraram na Circularidade do Um, do Dois e do Três, assinado por Affonso Romano de Santana para a Dan Galeria em 1991, ou seja, a textualidade tríade, a partir de 65 desenhos de Ismael Nery entre 1912 e 1923.[1]

Nessa Circularidade estão: narcisismo, erotismo e melancolia. Ismael Nery desenhava, pintava e escrevia, a partir do ego filosófico e do culto grego de virilidade e idealização do corpo, além da dubiedade do feminino e masculino – a beleza feminina com traços do masculino – Adalgisa e Ismael Nery.

Ismael Nery (Belém, 1900-RJ, 1934) Guerreiro, nankim/ aquarela s/ papel 20 x 30 cm, 1924

Mas o triângulo se deu a partir do poeta Murilo Mendes, amigo pessoal e inseparável de Ismael Nery. A tríade Ismael/Adalgisa/Murilo deu o tom necessário do conceito filosófico Essencialismo: que uniu catolicismo e concepção de arte (Nehring, 2002, p. 27) e, rumores sobre a relação dos três.

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003) Adalgisa Nery ou Retrato de Adalgisa, acrílico s/ tela 50 x 40 cm, 1986.

A tríade rompeu com a morte de Ismael Nery. Murilo Mendes foi para Portugal e casou com a poetisa Maria da Saudade. A poetisa Adalgisa Nery casou com o braço direito da era Getúlio Vargas – Lourival Fontes.[2]

Às vésperas da morte anunciada, já nos 34 anos, mas sentindo-se aos 33 anos como Cristo e seu pai – Ismael Nery pediu a Murilo Mendes que queimasse toda a sua obra. Pedido não aceito; mas Murilo só trouxe a público grande parte da obra, após 40 anos da morte de Ismael Nery,  através  da exposição no MASP, em 1974[3].

É instigante perceber no Retrato de Adalgisa de Emmanuel Nery (o filho), a mescla do feminino e do masculino, tal como Ismael Nery (o pai). Porém Emannuel Nery teve a independência de traços, cores e formação, além da memória construída do pai ausente.

Referências:

A VERTIGEM poética de Murilo Mendes. São Paulo: Revista CULT, Ano IV, n. 46.

GUIMARÃES, Júlio Castañon(Org.)MURILO Mendes: 1901-2001. Juiz de Fora: CEMM/UFJF, 2001.

MIRANDA, Gisèle. Ismael Nery: narcisista, erótico ou melancólico? Araçatuba: Jornal Folha da Manhã, 8 jan. 1992.

MIRANDA, (ou MADEIRA) Gisèle. Ismael Nery em três tempos. Rio de Janeiro/ UERJ: Revista Informação Psiquiátrica, Vol. 15, n. 3, 1996. (Série A Arte de Falar de Arte)

NEHRING, Marta Moraes. Murilo Mendes: crítico de arte: a invenção do finito. São Paulo: Nankin Editorial, 2002.


[1] Ismael Nery nasceu em Belém (PA) em 1 de julho de 1900; mudou com seus pais para a cidade do Rio de Janeiro quando tinha 2 anos.  Ismael começou a desenhar muito cedo; cursou a Escola de Belas Artes e aperfeiçoou-se na Europa. Trabalhou como arquiteto-desenhista e desenvolveu um sistema filosófico denominado Essencialismo, baseado na abstração do tempo e do espaço na seleção e cultivo dos elementos essenciais à existência, na redução do tempo à unidade… (Catálogo Dan Galeria, 1991). Suas influências na pintura foram Marc Chagall, Picasso, Max Ernst e Klimt. Ismael Nery não vendeu nenhum de seus trabalhos em vida. Faleceu em 6 de abril de 1934, na cidade do Rio de Janeiro.

Catálogo Dan Galeria – exposição de 26 de novembro a 14 de dezembro de 1991.

[2] Murilo Mendes: Poeta e crítico de arte nascido em Juiz de Fora (MG) em 1901; falecido em Portugal em 1975. Murilo foi casado com a poetisa portuguesa Maria da Saudade Cortesão.  Em Juiz de Fora há o Museu Murilo Mendes http://www.museudeartemurilomendes.com.br/

Lourival Fontes, 1895-1967, advogado; foi embaixador no México durante o primeiro governo de Getúlio Vargas; também foi chefe da Casa Civil no segundo governo de Vargas; diretor do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) criado pelo Estado Novo e Senador em Sergipe.

[3] Em 1974 no Museu de Arte de São Paulo (MASP), a primeira exposição individual intitulada: Ismael Nery: 1900-1934; e, retrospectiva, no MAB/Faap, São Paulo. Antes disso, em 1948, na cidade do Rio de Janeiro RJ, Murilo Mendes publicou uma série de artigos no jornal O Estado de São Paulo e, em Letras e Artes, posteriormente reunidos pela EDUSP no livro Recordações de Ismael Nery de 1996.

Em1969, também na cidade do Rio de Janeiro, o Vídeo Sérgio Santeiro: O Guesa, Ismael Nery, Viagem pelo Interior Paulista, de Paulo Mendes de Almeida.

Em 1973 foi publicado o livro Ismael Nery, de Antonio Bento (1902 – 1988), com introdução de Murilo Mendes.

Em 1984, na cidade de São Paulo, a crítica de arte Aracy Amaral (1930-) lançou um livro sobre a obra do pintor na Retrospectiva Ismael Nery – no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo – MAC/USP; entre outros.

Série Emmanuel Nery III: Bar Alpino em Orelhas sobre a mesa

27 abr

por Gisèle Miranda

 

 

 

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003), Orelhas sobre a mesa, acrílico s/ tela 55 x 46 cm, 1986.

 

 

Orelhas sobre a mesa reforça o relato pictorial do artista sobre a cidade e a transforma em possibilidades de exprimir a tensão entre a racionalidade e o emaranhado das existências humanas. (Calvino, 1991)

Em Orelhas sobre a mesa os excessos da incomunicabilidade através de duas figuras deformadas pela falta de diálogo; o raciocínio confunde-se com a força bruta: “facas sobre a mesa… não orelhas sobre a mesa…” – ato falho de Emmanuel Nery.[1] Facas ou orelhas?

A incomunicabilidade da fala e da escuta se estende à inexistência do entorno. Nas cores rosa e azul por Goethe e Kandinsky: a busca teórica de suas escolhas. Para ambos a junção da matriz vermelho que em suas variações resultam em rosa e lilás; e com o azul, o resultado da violeta, que variavelmente chegará à rosa – em movimento concêntrico.

 

 


[1] Emmanuel Nery em 30 de junho de 1993; entrevista à Gisèle Miranda.

Série Emmanuel Nery II: espaços de percepções

26 abr

Por Gisèle Miranda


Em 1967, Emmanuel Nery, então com 36 anos pintou Bar Alpino – outrora lugar de memória e história. Lá, quando criança a lembrança dos encontros com a sua mãe, a poetisa Adalgisa Nery provavelmente nos fins de semana quando saía do internato Frei Fabiano.

A tela Bar Alpino foi uma exceção, pois de 1967 até 1973, quase não pintou. Vivia para as atividades de relações públicas e jornalista na área de economia.

Mas, se … toda a obra de arte é filha de seu tempo e, muitas vezes, mãe dos nossos sentimentos (Kandinsky, 1990, p. 27), algo do silêncio entrecortado deve ter motivado a exceção, afinal, era o auge da ditadura militar no Brasil, final do governo do Gal. Castello Branco (1964-67) e o começo do governo do Mal. Costa e Silva. (1967-69)

Talvez houvesse por parte do menino Emmanuel, a sensação de pouco espaço para expressão; pouco tempo para estar com sua mãe; sentia-se desterrado. Essa lembrança veio justamente em um período em que se sentiu enfraquecido para produzir, para criar na pintura.

A representação do Bar Alpino como lugar de memória – na cidade do Rio de Janeiro – tem o privilégio de ser o lugar onde o usuário inscreve história… e preserva a memória do seu repertório coletivo. (Lynch, 1988, p. 122) É um vulcão de memórias e significações, espaço de percepções que exprimem seus modos de vida, diferenças sociais, embates políticos, olhares de uma sociedade complexa. Consciente no embate de realidade; inconsciente onde a memória ecoa angústias, medos, desejos, sonhos.

A mãe que observa o filho comer. Um jogo de espelhos, um labirinto ou um túnel do tempo? A memória do menino despontando no homem de 1967.

 

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003), Bar Alpino , óleo s/ tela 55 x 48 cm, 1967.

O verde que decorre da mistura do amarelo (excêntrico) com o azul (concêntrico) – da cor quente para a fria remete o distanciamento, mas com um quê de satisfação: olho e alma repousam nessa mistura como se fosse algo simples. (Goethe, 1993, p. 135)

O Princípio da Necessidade Interior – fundamento teórico de Kandinsky ressalta a base na produção de uma obra, a personalidade do autor, a época que desponta na busca da própria linguagem, da fala política, corroborando à técnica apurada de Emmanuel Nery – o triângulo e o amarelo (teoricamente o triângulo é sempre amarelo).

E para exemplificar, recorro a geometria do antigo Egito pela doutrina religiosa dos princípios da Trindade (Osíris, Ísis e Horus), associados diretamente à luz solar ou Deus Sol ´Rá´. (Carvalho, s/d, p. 229) Ou seja, o estudo de cores e formas associado às reminiscências – do racional ao emocional.

Mesmo que  haja a distância ou a incompreensão comunicativa aparente na obra – entre mãe e filho – o ambiente é um refúgio, um abrigo de segredos, de silêncio.

“…Tempo real –

De mãe e filho.

Em tempo –

Sem qualquer tempo –

Durante algum tempo irrisório,

Encontro.”[1]


[1] Parte da poesia Tempos de Emmanuel Nery, s/d.

 

Série Emmanuel Nery I: Ismael Nery (1) “em três tempos”

24 abr

Por Gisèle Miranda

 

Emmanuel Nery nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 3 de julho de 1931 e faleceu na mesma cidade em 3 de julho de 2003. Artista visual e poeta foi aluno de Cândido Portinari, Alberto Guignard, De Chirico, Salvador Dali, Diego Rivera, Frida Kahlo, Norman Rochwell e, filho caçula do Surrealista brasileiro Ismael Nery e da poetisa Adalgisa Nery.

Em 1988, no MASP, sob escolha a dedo de Pietro Maria Bardi, quarenta telas foram expostas. Foi durante essa exposição que tive o prazer de conhecer Emmanuel Nery.

Seu trabalho figurativo crítico referendava alguns de seus mestres – dos pincéis às longas conversas sobre o multifacetado mundo das artes. Houve ênfase de imagens surreais, elo vertiginoso de três de seus mestres De Chirico, Salvador Dali e Frida Kahlo. Mas, e Ismael Nery?

Com seu pai o vínculo afetivo foi de ausência, marcado pelo pouco tempo de convivência, já que Ismael morreu quando Emmanuel tinha apenas 3 anos de vida. Mas seus desenhos e pinturas efetivamente têm algo em comum – de pai para filho? Melhor dizer, o filho resgatando o pai em gestos e expressões exteriores com segredos de atitudes interiores. (VOVELLE, 1991:31)

Caso explícito da obra “Ismael em três tempos”, donde questões de autoria, canonicidade e interpretação tecem três momentos conhecidos de Ismael Nery, ou seja: vida, morte e consagração póstuma[1]. A obra “Ismael em três tempos” de Emmanuel Nery teve um ar de acerto de contas à memória de seu pai.

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003), Ismael em três tempos, acrílico s/ tela 95 x 85 cm, 1986.

Os três momentos distintos foram alicerçados pelo fundo azul conhecidamente uma cor profunda, circular e concêntrica; tonalidade quase para o roxo; fruto dos grandes mestres? Fruto de reminiscências da infância – um vidro de biscoitos que sua avó levou quando foi visitá-lo no internato Frei Fabiano. Momento este revigorado na realização da obra.

E, para aquém da obra visual, o poeta Emmanuel Nery declamou à morte e consagração póstuma de seu pai, elementos interativos:

 

“… Pai, nunca tive.

Mas foi sobre-humano

Assim eu o fiz:

Moldado no perfeito.

Cheio do bom.”[2]



Ou,



“Viver meus filhos

Justifica viver.

Conhecer meu pai

Justifica morrer.”[3]

 

Ismael Nery – o pai – às vésperas de sua morte, também registrou em forma de testamento a necessidade de ser poeta:

 


“Todo homem recita um poema nas vésperas da sua morte – a humanidade recitará também o seu nas vésperas da sua, pela boca de todos os homens que nesse tempo serão poetas.” [4]






[1] Nery, Ismael. Parte do Testamento Espiritual, novembro de 1933; Catálogo da Dan Galeria, 1991.

Ismael Nery nasceu em Belém (PA) em 1 de julho de 1900; mudou com seus pais para a cidade do Rio de Janeiro quando tinha 2 anos.  Ismael sempre gostou de desenhar, desde muito cedo; logo fez Escola de Belas Artes e aperfeiçoou-se na Europa.  Trabalhou como arquiteto-desenhista e desenvolveu um sistema filosófico denominado Essencialismo, baseado na abstração do tempo e do espaço na seleção e cultivo dos elementos essenciais à existência, na redução do tempo à unidade… (Catálogo Dan Galeria, 1991).

Suas influências na pintura foram Marc Chagall, Picasso, Max Ernst e Klimt. Ismael Nery não vendeu nenhum de seus trabalhos em vida. Faleceu em 6 de abril de 1934, na cidade do Rio de Janeiro. É conhecida a sua visionária história de querer morrer aos 33 anos, como Cristo e como seu pai, o médico Ismael Nery. O Surrealista Ismael Nery morreu aos 34 anos com ares de 33.

 

[2] Parte do poema inédito `Órfão de mãe´, de Emmanuel Nery, s/d.

[3] NeryEmmanuel. Forças Contrastantes. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. Poema Antídotos, p. 80.

[4] NeryIsmael. Parte do Testamento Espiritual, novembro de 1933; Catálogo da Dan Galeria, 1991.

Série ficcional H. Miller – IX: A releitura de Miller

12 mar

Por Lia Mirror


Estava à espreita de algo para escrever depois de ser lida e relida por Miller.

Miller, apareça! Diga algo! Diz… nada diz.

Foste quem me arrebatou no tênue fio da temporalidade. Horas passionais e antropofágicas. Brindo em seu entorno; debruço-me plena no cheiro que reconheço. Grito, sussurro… tudo! Não me calo, não me censuro. Sou livre. Sou tua e livre.

Ismael Nery (Belém, Pará, 1900-Rio de Janeiro, RJ,1934) s/título, óleo s/tela, s/d.

Saibas Tu, que Cronos fez-me semideusa. Não me importa o seu lado mais cruel. Dele escrevo; dele sublimo. Mereço esse encontro, Miller! Dizer-te tudo o que acabei de pensar e depois vagar por estes becos escusos do pensamento.

Quando penso em não tê-lo – vezes e vezes até a exaustão – corro até o impensável. Voo com o aval de Dédalo. Então, ajoelho-me diante de ti com a ´doçura´ inerente. No olhar o desejo, o jogo, tempestades e o mar. Quanta coisa ao mesmo tempo!

– “E por fim acendes um cigarro para a despedida – sem o amanhã!” – disse o insurgente.

Miller!!!!!!! Você estava escutando o meu pensamento? Apareces do nada. Do tudo; da ebulição, do fascínio e do fantástico!

– “Minha cara, ouço os teus desejos. Desta vez sem os riscos do sedutor filho de Dario e seus soldados – sem trincheiras e sem conquistas. Irei acompanhá-la até o reino de Perséfone. Somente você e Eurídice têm livre acesso. Cronos a fortalece diante dos deuses. E, além do mais, eu a quero; minha e  livre; minha e liberta; minha e plena nessa fugacidade do contemporâneo. Quero ler-te e reler-te. Decorar suas curvas, adentrar em seus segredos e seus abismos. Ler-te e reler-te insaciavelmente.”

 

(*) Sobre Ismael Nery:

Considerado pela história da arte, o pioneiro no Surrealismo no Brasil. Teve participações junto ao Movimento Modernista na década de 1920. Obcecado pela morte aos 33 anos – idade de Cristo e de seu pai – Ismael morreu aos 34 anos de tuberculose sem ter vendido nenhum de seus trabalhos em vida.

A pedido do próprio Ismael, grande parte de sua obra esteve sob a vigília do amigo poeta e crítico de arte Murilo Mendes, com a promessa que só viria a público após, pelo menos, trinta e três anos de sua morte. Essa promessa foi cumprida. Em 1974, após 40 anos, Murilo escreveu um texto que foi para a exposição no MASP, e com ela um acervo inédito. Murilo assumiu o messianismo essencialista, fiel a filosofia de seu amigo.

A poetisa Adalgisa Nery teve dois filhos com Ismael: Ivan e Emmanuel Nery.  Adalgisa foi musa e figura singular na obra de Ismael Nery e na vida de Murilo Mendes.

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