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As “experiências” de Julio LE PARC (Mendoza, 1928-)

2 jun

por Gisèle Miranda

A Arte Cinética tem algumas ciladas quanto a sua proposta, o que é natural se pensarmos que as primeiras experiências foram cunhadas de alguns movimentos de vanguarda, historicamente entrincheirados entre as duas grandes guerras mundiais.

Uma outra questão aureolar é o movimento real da obra e não a representação do movimento; por isso nem toda obra que se mexe é cinética. A exemplo do Futurismo (1909)  que até tem feixes que parecem encaixar como cinético, ou que de alguma maneira confundem no manifesto, mas destoam quando aproximadas. Obviamente o contexto geopolítico do Futurismo foi tenso com o fascismo italiano de Mussolini e do comunismo russo de Stalin ou, – de Marinetti a Maiakóvski.

Ou mesmo, o germe do Manifesto Realístico (1920) dos irmãos Gabo e Pevsner pinçado em suas experiências técnicas valorizadas, mas superadas. Na Arte OP dos anos de 1950, o efeito cinético aparece quando o espectador parado sente que a arte se move. Tecnicamente não é arte cinética.

O efeito escultura da luz de László Moholy-Nagy (teórica em parceria com Alfred Kemeny, em 1922) fecundou a arte cinética da qual Le Parc compraz, mas com o efeito de 38 anos de diferença até a criação do GRAV – Groupe de Recherche d´Art Visuel, 1960, dos quais foram partícipes Garcia-Rossi, Morellet, Sobrino, Stein Yvaral e Le Parc.

As experiências foram observadas à luz de temporalidades e apreensões técnicas justapostas. Da importância do ar através dos móbiles de Alexander Calder nos anos de 1950, e em meio a fabricação de brinquedos onde ele resgatou e ampliou a discussão com aspecto lúdico, da fonte de energia natural e com as cores de Mondrian e Miró.

Nesse acúmulo de experiências e metamorfoses foram criadas as intervenções vibratórias, a energia (seja natural ou não), do pictórico ao escultural de Soto, Cruz-Diez, Liliane Lijn, Martha Boto, entre outros, até  Le Parc com sua premissa da Luz – seus efeitos às parcerias desconhecidas e o coletivo. Ou seja, previa-se inicialmente a parceria ativa “por forças que se desenvolvem por iniciativa própria” (In: Stangos, 153) até a abdicação do ego em prol da parceria.

São vieses que obviamente compõem leituras e questões associativas para só então criar o conceito do GRAV, que primou pela interferência e, dentro da esfera de Le Parc conjuga a Experiência (1) do artista que cede espaço para a criação em fluxos intensos e singulares que compõem a experiência de algo esperado – a imagem  que surge com o movimento ou o movimento  que cria uma forma no espaço com as variantes inesperadas sob efeito da Luz.

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Nota:

(1) É de conhecimento público que o artista Julio Le Parc prefere designar seus trabalhos de Experiências (ou Alquimias) e não Obras.

(*) Nas fotos as alunas do curso de Artes Visuais da Universidade Estadual de Maringá / Bienal de Curitiba 2015/2016. Museu Oscar Niemeyer.

(**) Um pouco mais sobre Le Parc: tornou-se cidadão de dupla nacionalidade franco-argentina em função de suas atividades políticas; desterrou-se para sobreviver a ditadura militar da Argentina. Em 1964 recusou-se a participar da Bienal de Artes de São Paulo em protesto ao golpe militar no Brasil.  Em 1966 foi premiado na Bienal de Veneza. Junto com Gontran Netto fez parte da Brigada Internacional Antifascistas (1972-1987); Criou a série “Sala Escura da Tortura”, em conjunto com Gontran Netto, Alejandro Marco e Jose Gamarra, partindo de depoimentos de torturados da América Latina em final da década de 1970.

 

Referências:

ARGAN, G. C. (1909-1992) Arte Moderna. Trad. Denise Bottmann e Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

GULLAR, F. Relâmpagos – dizer o ver. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

STANGOS, N. (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1991.

Teleconferência dos artistas Julio Le Parc e Gontran Guanaes Netto, março de 2016 Paris/ Maringá – Universidade Estadual de Maringá/NEAD, sob coordenação de Gisèle Miranda e participação de alunos do 4º ano de Artes Visuais.

Site do artista Julio Le Parc

Bienal Internacional de Curitiba  3/10/2015 a 14/02/2016 no Museu Oscar Niemeyer – Le Parc foi o artista homenageado Bienal, Luz do Mundo, curadoria geral de Teixeira Coelho.

Grito do Silêncio

24 ago

Por Gontran Guanes Netto

Nesta sala obscura e silenciosa um grito repercute na consciência.

Ao penetrarmos em uma caverna pré-histórica uma grande emoção nos invade diante das pinturas, marca indelével de humanidade. Outras marcas através dos tempos deixaram testemunhos diversos desta presença humana. A capela Sistina nos energiza de calor humano. Através da pintura Guernica será eternizada uma testemunha da violência exterminadora.

Ao realizarmos a Sala Escura pensamos dar uma modesta contribuição em uma exposição limitada no seu tempo. Hoje nos sentimos surpresos diante do fato de nosso impulso coletivo ter se transformado em símbolo das realidades de uma época de violências arbitrarias movidas pelo poder do Estado.

Sala Escura da Tortura, trabalho coletivo: Gontran Guanaes Netto, Julio Le Parc, Alejandro Marco, Jose Gamarra, 1973

Atualmente nada nos move ao apropriarmos desta sala, mas estamos convencidos do que ela representa na apropriação de todas as consciências não omissas, motivando- as a darem uma contribuição concreta para que seja admitida a necessidade de punição exemplar para definitivamente extirpar este vírus maligno.

Não podemos de nenhuma forma aceitar omissões, justificativas que isentem responsáveis das aberrações cometidas. Esta sala silenciosa será símbolo permanente de cobrança de justiça e pesa como memória silenciosa e duradoura.

http://salaescuradatortura.com.br/

Gerações

24 ago

por Gisèle Miranda

 

Dentre as leituras em periódicos encontrei uma pérola temática: “a Geração Perdida” no espaço do leitor. (‘Somos a geração perdida’, avalia aluno da UnB )

A bem capturada ideia à marca da geração remeteu a Hobsbawm (1917-2012), em sua escrita e na licença necessária do historiador de experienciar o presente, a partir de sua trajetória intelectual. De sua geração, a maioria se foi. Mas as gerações posteriores estão aí como partes (geracionais) do “breve século 20” – desde seu fluxo tardio às questões atuais do século 21.

Há todo um contexto histórico nas minúcias geracionais. Para uns, a liberdade, para outros, a existência, a democracia e etc. Mas há marcas desses contextos históricos que nos fazem elos geracionais. O lixo abunda, e a valorização dos canais com o mundo raramente alimentam o olhar sobre o outro em solidariedade, mas ego-massageia a alienação. Para quê o outro?

O que se detecta criticamente é que o outro não tem importância, não tem história, não tem memória, e que na intensidade de alcançar o futuro, esquece-se das diferenças. Há a socialização cultural ou comosocialização política, isto é, os meios pelos quais o conhecimento, as idéias e os sentimentos são transmitidos de uma geração para outra. (BURKE, 2002: 111).  Essa transmissão tem tomado a forma alienante e cogita ser apolítico – como se pudesse!

E um dos pontos que precisa ser reconhecido em função desse desmembramento é que, quem nega a diferença entre esquerda e direita está procriando um núcleo de direita, segundo Hobsbawm.

Os dois historiadores citados conheceram o Brasil, não como turistas, mas como pensadores e amigos de causas que lhes dizem respeito. E a historiadora que vos escreve é uma brasileira; e sou de um tempo – de uma geração – que provém do existir como exercício memorial; pelas condições de inexistencialidade; geração da ditadura militar, do silêncio, da abertura democrática, da AIDS, da diversidade das drogas, de um alto índice de suicídios, da presença na ausência, da globalização. (Lia MIRROR)

Sou de um povo e de uma geração de cidadania ainda em construção pela herança cultural, que sobrevive sob vários aspectos e preponderantemente na violência. Historicamente temos marcas não sanadas no genocídio indígena, na escravidão de negros africanos, dos quais somos descendentes em mistura aos colonizadores.

Algo tem que ser reinterpretado e passado a limpo, pois ainda temos como memória imediata, um Estado que legitimou a tortura e o silêncio. Os frutos estão como bem relatado pelo aluno da UNB, na “impregnação de preconceitos” e de retrocesso dessa geração – geração desdobramento da minha, e por conseguinte, desdobramento da geração que lutou por um Estado democrático – e que convivem.

Sala Escura da Tortura, trabalho coletivo: Gontran Guanaes Netto, Julio Le Parc, Alejandro Marco, Jose Gamarra, 1973

O estudante universitário da UnB tem motivos de sobra para expor sua geração, afinal, as questões colocadas nos remetem a atos como a queima de índios e mendigos, agressões as mulheres, aos nordestinos, ao crescimento de neonazistas, homofobia, bullying, entre outros.

Paralelos a isso temos manifestações temáticas como: feminismo, drogas, sexualidade, entre outras. Em princípio encabeçadas por grupos sérios, mas que têm tido adeptos temáticos sem aprofundamento das questões – “a geração perdida”. Por isso, é mais comum do que se possa imaginar, encontrar feminista com tatuagem da suástica, homossexual com preconceito a nordestinos…, “jovens universitários defenderem que é a mulher quem precisa cuidar dos filhos, enquanto o homem provê o sustento da casa. Ouço também que os direitos das minorias não podem prevalecer caso “incomodem” à maioria.” (relato do jovem da UnB).

Que geração é essa?!

 

 

(*) Eric Hobsbawm nasceu em 1917 no Egito (Alexandria), sob o domínio britânico. Ele faleceu em 01 de Outubro de 2012, em Londres, aos 95 anos.

 

*

Julio LE PARC

9 fev

Por Gontran Guanaes Netto

(Paris, janeiro 2011)


Atualmente ´vivo´ preocupações ao estudar e refletir sobre as implicações que existem no domínio da arte e em suas relações possíveis com a história e a filosofia da ciência.

Ao vislumbrar os níveis teórico e prático (de maneira intuitiva) deparo-me como associações que validam certas situações aproximativas. Por isso, abarco horizontes mais vastos deixando à escrita questões elucidativas na criação artística que na sua forma de comunicação e representação abordam fronteiras onde insinuam, analogicamente, referências do universo científico.

Ao observar as aparências deparamo-nos com supostas contradições nas linguagens a serem confrontadas. Há uma sucessão ou um processual de interrupções determinando variantes e alternativas na compreensão do espectador diante de situações imprevistas. As mesmas vertidas em resistências preconceituosas que abrem caminhos às participações involuntárias; esse estado de ser potencial inerente ao universo infantil em sua fase lúdica.

Se avaliarmos o homem em sua trajetória histórica, ele sempre foi movido por uma curiosidade instintiva; como consequência houve a permissão acumulativa das experiências compreensivas de realidades exteriores que, ao se abrirem em melhores condições, conservam melhor a sobrevivência da espécie.

Em uma consequência histórica a ciência encontrou uma linguagem onde há alternâncias entre verdade – inverdades, ou seja, são denominadores comuns que se encaminham às novas alternativas.

Por exemplo, a obra de Le Parc: percebe-se de maneira, sobretudo visual e analogicamente, a obtenção de uma linguagem. Os resultados obtidos a partir de suas reflexões racionais sobre a luz, as ondulações, as alquimias, determinam aproximações de formas intuitivas que interpõem questões científicas complexas, a partir de evidências explícitas sugeridas.

 

Le Parc, Alchimie 46, 130×195 cm, 1989.

 

Não creio que Le Parc seja um profundo conhecedor da linguagem científica, mas ele produz e cria formas singulares e similares, que através da estimulação visual nos envolve em um universo científico.

O metafísico – da física quântica nos retira da terra firme e das concepções clássicas da matéria e nos incita a novas compreensões sobre a energia, extrapolando e nos permitindo indagar outras formas de representatividade.

Sua obra visual talvez nos leve a uma compreensão de imaterialidade ao levantar o véu de sua inverdade, ou seja, em sua nua verdade implícita.

Caminhamos nos limites das fronteiras do racional positivista ao empírico relativista. Realidade-compreensão/ Compreensão-realidade – que são conjecturas que a obra visual de Le Parc nos apresenta como um veículo intuitivo às novas fontes de uma realidade cinética.

Dessa forma, uma trajetória se abre em campos que abrigam conceitos diversos, mas diferenciando da noção Tempo-espaço, que no caso de uma intuição exacerbada admite-se ultrapassagens possíveis.

No mais, é evidente que o mito do referencial religioso está ultrapassado.

 

 

 

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Série Retecituras V: Gontran Guanaes Netto e o seu manifesto pelo Chile

17 ago

Por Gisèle Miranda & Gontran Guanaes Netto


A Série Retecituras nasceu pelo revigoramento da escrita, em seu devir inacabado, também rememorado e retecido. Uma aula de história, arte e política.

O tema desse devir maturado é o Museu de Solidariedade Salvador Allende – que  nascido político teve fases significativas de suas obras.

Antes do golpe militar no Chile, o Museu foi pensado entre 1971-72, por Salvador Allende e contou com participação, entre outros, do crítico de arte brasileiro Mario Pedrosa.

Durante a ditadura militar do Chile, iniciada em 11 de setembro de 1973, as obras doadas tinham o intuito de reafirmamento/reconhecimento da luta externa contra Augusto Pinochet e por solidariedade ao Chile livre. Mesmo sob repressão, o Museu Salvador Allende resistiu.

Quando o Chile resgatou a sua democracia o Museu foi revitalizado por intermédio da Fundação Salvador Allende e com a participação do artista e curador brasileiro Emanoel Araújo.

Para selar a parceria Chile-Brasil, reconhecida desde o início do projeto do Museu, além de Mario PedrosaEmanoel Araújo, também estiveram presentes Gontran Guanaes Netto, Antonio Henrique Amaral, Lygia Clak e inúmeros artistas de outras nacionalidades.

Emanoel Araújo assinou a mostra itinerante de cento e trinta obras selecionadas das duas mil obras do Museu Salvador Allende, denominada: Estéticas, sonhos e Utopias dos Artistas do Mundo pela Liberdade que ocorreu na Galeria de Arte do SESI de São Paulo de março a junho de 2007.

Um ano antes da exposição recebi um e-mail para avaliação da obra doada por Gontran Guanaes Netto, de 1973[1]. Contudo, o mais importante a saber sobre a obra – depois de ter conversado com o artista Gontran Netto foi que a obra designada no e-mail estava `sem título´. E que a obra chama-se La Prière (A Oração)

Gontran Guanaes Netto, La Prière, 1973, acrilico s/ tela 97 x 130 cm.

Gontran Guanaes Netto (1933-2017), La Prière, 1973, acrilico s/ tela 97 x 130 cm.

Dado o nome à obra comparecemos Gontran Netto e eu à abertura da exposição: Estéticas, sonhos e Utopias dos Artistas do Mundo pela Liberdade.

No mais, deixo o manifesto de Gontran Guanaes Netto e as considerações finais:

“Foi com surpresa que recebi o convite para a inauguração do Museu Solidariedade Salvador Allende. Julguei como certo que minha obra não estaria inclusa neste Novo Museu. A surpresa maior foi ver o meu quadro com a designação “obra sem título” – o que tirou o significado irônico da obra: Nixon (Estados Unidos) e Pompidou (França), presidentes de duas potências durante a guerra na República do Vietnã (1959-1975, Vietnã X EUA)

A obra chama-se La Prière (A Oração). Tema escolhido para ironizar a atitude de ambos diante da história; ambos implicados na guerra do Vietnã. Preocupado revirei papéis antigos e a dar voltas com à minha consciência.

Seria válido estar presente em uma exposição no coração do sistema e movido ao preço de um equívoco histórico, e sendo eu testemunha – vivido com ardor e entusiasmo – participando e assinando documentos que contrariam a atual apresentação do Museu?

O golpe do Chile consternou a Europa e, especialmente, a França que naquela época se preocupava com as perspectivas democráticas via eleições. As tendências de denúncia e resistência eram intensas.

Participei da exposição Viva Chile, na galeria Dragão, em Paris; com a venda dos quadros doados angariou-se fundos para retirar pessoas em situação de risco do Chile. Nós, os responsáveis pela iniciativa: Julio Cortázar, Le Parc, Cecília Ayala e eu, além da colaboração de Roberto Matta. No momento do golpe estávamos em Havana e assinamos o Manifesto Setembro 73, contra o golpe de Augusto Pinochet.

E fundamos a Brigada Internacional de Pintores Antifascistas quando recebemos o convite da Bienal de Veneza e apoiamos a greve de doqueiros venezianos que recusaram-se a carregar armamentos para o Chile de Pinochet. 

A Brigada era composta por quinze artistas de diversos países. Além de considerar-me partícipe com outros artistas da criação do Museu contra Apartheid, Museu da Palestina e Museu da Nicarágua. Isso não foi ou é utopia. Agora é história e memória.

Parte da obra coletiva do Grupo Denúncia: Gontran Guanaes Netto, Jose Gamarra, Julio Le Parc e Alejandro Marco a partir de relatos de Frei Tito Alencar, 2m x 2m, óleo s/ tela, início dos anos de 1970/ Exposição Sala Escura da Tortura

Só me resta dizer:

Arafat não pertencia a sua família, senão ao povo palestino.

Salvador Allende pertence ao seu povo e sua morte representou um inequívoco ato de Resistência.

Eu vejo os Museus atuais desodorizados, esterilizados e protegidos de manifestações.

Meu único patrimônio ainda é a minha consciência: Ancien combatant, jamais.”

Referências:

GUANAES NETTO, Gontran. Manifesto. Manuscrito,  Itapecerica da Serra, outubro de 2007.

MOLINA, Camila. Preciosidades que chegam do Chile: Mostra reúne parte do Museu Salvador Allende, formado por doações de artistas do mundo todo. Jornal O Estado de S. Paulo, 19 de março de 2007, Caderno 2, D-3

Filme: 11 de Setembro (11’09”01), 2002 (França). Direção: Youssef Chahine (segmento Egito) , Amos Gitai (segmento Israel) , Alejandro González-Iñárritu (segmento México) , Shohei Imamura (segmento Japão) , Claude Lelouch (segmento França) , Ken Loach (segmento Reino Unido) , Samira Makhmalbaf (segmento Irã) , Mira Nair (segmento Índia), Idrissa Ouedraogo (segmento Burkina-Faso) , Sean Penn (segmento Estados Unidos) , Danis Tanovic (segmento Bósnia-Herzegovina). Onze diretores e onze curtas sobre 11 de Setembro; o inglês Ken Loach assinou o curta sobre o 11 de setembro de 1973 do Chile.

Exposição: “Sala Escura da Tortura”. Coletivo sobre as torturas na América Latina. Museu do Ceará, Fortaleza, 2005. Curadoria Edna Prometheu. Exposta a primeira vez no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1973, seguindo para exposições na Itália, Suíça, Alemanha e Brasil.

Sobre Gontran Guanaes Netto, e imagens avulsas em outros textos do blog Tecituras.

Sobre obras brasileiras do Museu de Solidariedade Salvador Allende: Imprensa Oficial publica livro com obras brasileiras doadas para o Museu da Solidariedade Salvador Allende


[1] Paula Maturana, Coordinadora MSA – Museo de La Solidariedad Salvador Allende, em 26 de abril de 2006  – “Avaluo obra de Gontran Netto perteneciente al Museo de la Solidariedad Salvador Allende”

O encontro nas cores/luz: Gontran Guanaes Netto e Julio Le Parc

13 ago

Por Gisèle Miranda

Entre eles houve um pacto de arte e política. Em Cores da Esperança’, o poema cores/luz  escrito por Julio Le Parc (1928-) a Gontran Guanaes Netto (1933-2017) também foi assinado por Guanaes Netto a Le Parc: uma inversão na escrita como reafirmamento artístico e político. Entre eles há lutas geracionais.

O argentino nascido em Mendoza, Julio Le Parc, recusou-se a participar da Bienal de Arte de São Paulo em 1964, em protesto ao golpe militar no Brasil que perdurou por mais de vinte anos. Le Parc tornou-se cidadão de dupla nacionalidade franco argentino em função de suas atividades políticas; passou por prisões e desterrou-se para sobreviver. Sabemos o que aconteceu durante esse período: muitas mortes, torturas, sequestros de crianças que foram criadas por seus algozes. As mães, hoje, são as avós de Plaza de Mayo, são aquelas que procuram por seus filhos através de seus netos.

Gontran Guanaes Netto, filho de camponeses foi assistente de Portinari. Tornou-se um cidadão de dupla nacionalidade – franco brasileiro. Depois de algumas prisões conseguiu sobreviver e foi ao encontro da arte política. Em Paris conheceu seu companheiro de cores; na França ambos foram membros fundadores da Brigada Internacional anti-fascistas.

No Brasil, a documentação deste período foi (recentemente) discutida através da Comissão da Verdade.

Gontran Guanaes Netto (1933-2017), série Les Damnés de la Terre, 2000-2001.

Gontran Guanaes Netto e  Julio Le Parc fazem parte do coletivo que pintou Sala Escura da Tortura com relatos de frei Tito de Alencar, entre outros. Ambos são as cores do poema abaixo:

As cores (Luz) da Esperança

Quando o ser humano vem a ser cores,

Quando a cor vem a ser forma humana,

Quando o ser humano este ligado à terra,

Quando o camponês da terra faz brotar seus frutos,

Quando estes frutos são usurpados,

Quando esta usurpação gera a miséria,

Quando esta miséria gera revolta,

Quando esta revolta é reprimida,

Quando esta repressão obedece a uma ordem,

Quando esta ordem é a ordem dos outros,

Quando estes outros acrediam ser proprietários do mundo,

Quando este mundo se mundializa em detrimentos da maioria,

Quando esta maioria, eles os camponeses, vem a ser os  ‘Damnés de la Terre’.

Quando Netto (Le Parc) com sua caixa de cores está presente,

Quando eles ‘ Les Damnés de la Terre’, estes camponeses (desaparecidos) brasileiros (argentinos), mesmo na pior situação, carregam neles, extremamente e internamente suas cores,

Quando suas cores são aquelas da dignidade,

Quando suas cores são aquelas da luta,

Quando suas cores são aquelas da esperança,

Quando suas cores são aquelas da alegria que não se deve apagar,

Quando na caixa de cores de Netto (Le Parc) passa a ser ativa,

Quando suas cores passam a ser militantes, mas autônomos, elas fazem sua revolta,

Quando esta revolta em cores vai ao encontro da justa revolta ‘ Damnés’,

Quando a mesma não passa pelo miserabilismo, nem pela obscura e sombria derrota, nem pela prostração e aniquilamento, mas sim

Pelo desejo e o direito à vida – As cores estão presentes,

Quando estas cores estão presentes no olhar de Netto (Le Parc), no seu coração, na sua primeira sensibilidade, na sua cabeça

Que põem em ordem, as cores passam a ser forma e fé no homem,

Quando tudo que está ancorado no mais profundo de seus ‘ Domnés de la Terre’ e no Netto- Le Parc, Pintor – homem, é evidente que venha a ser figuração,

Quando estão pela intermediação de Netto-Le Parc, com esta forte presença – cor, nós não podemos nos esquivar e nós somos também fortemente envolvidos,

Quando esperança não desaparece, quando a esperança cresce os quadros de Netto-Le Parc permanecem.

Julio Le Parc (1928-), Série 14-5E Acrylico sobre lienzo 171 x 171 Cm 1970

 

(*) datado: “Cachan 14 de haneiro de 2002  Julio Le Parc”

Dados biográficos de Gontran Guanaes Netto

10 jan

Por Gisèle Miranda

Em 1 de janeiro de 1933 nasceu Gontran Guanaes Netto na cidade de Vera Cruz / SP, Brasil, mas somente registrado em 17 de fevereiro 1933.

bruna-zanqueta-e-seu-melhor-amigo-ggn-2016

Bruna Zanqueta Cavalheri, Retrato do melhor amigo que já tive, 2016. (*)

Em 1955 nasceu na cidade de São Paulo sua primeira filha, Lucia (fotógrafa residente na França http://www.luciaguanaes.com/). Em 1958, sua segunda filha, Cristina (terapeuta corporal residente nos EUA) – do casamento com a bailarina Helena Villar.

Em 1959 fez o retrato de Fidel Castro, por solicitação dos Alunos da Politécnica/USP para festejar a Revolução Cubana. O Retrato de Fidel Castro foi levado ao palanque montando na Praça da Sé (região central da cidade de SP) por estudantes simpatizantes e, logo em seguida queimado pela polícia – segundo Gontran: “foi queimado pelo DOPS” – criado em em 1924, e que perdurou durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985). Portanto, o DOPS desde sua a criação foi tido como ferramenta de controle e repressão as manifestações populares e deveras atuante em torturas e assassinatos.

Em 1960, Gontran foi ouvinte da conferência de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em Araraquara/SP. Tornou-se um pintor de questionamentos humanistas sob os auspícios de uma juventude que viria a ser clandestina em 1964 no Brasil.  Assumiu o pseudônimo de André para assinar as ilustrações das publicações ‘proibidas’; ele fez das mãos rudes, as mãos de um pintor Realista.

O sobrevivente Gontran ‘assimilou o conhecimento de forma enviesada’ (como ele próprio diz); assim, confrontou a repressão política e foi um dos fundadores da FAAP, mesmo sem formação universitária, na 2 fase/1967: criação das faculdades de Artes Plásticas e Comunicação e a de Engenharia.

Paralelamente, as discussões socialistas vertiam-lhe em segredos aos encontros de coletivos ilegais; suas mãos foram além da terra seca, da falta de informação e formação.

Netto ou André na versão de Gontran Guanaes Netto, década de 1980

Em 1969 exilou-se na França pois  estava ‘sob a ameaça’ de outra prisão; seu pseudônimo André já não lhe garantia a vida. Resistiu durante 5 anos sob pressão da ditadura militar.

Nas décadas de 1970-80 foi um dos doze fundadores do Espaço Cultural Latino Americano em Paris. Lá conheceu Julio Le Parc; em 1995 numa contemporaneidade partilhada, Le Parc (pintor franco-argentino, Arte Cinética)  declarou a Gontran Netto, pintor brasileiro, Arte Realista, uma admiração e cumplicidade por sua ‘postura’, sua pintura e suas cores. Seus trabalhos são diferentes; suas cores se encontram na performance do passado coletivo; ainda com Le Parc fez parte da Brigada Internacional Antifascistas (1972-1987).

Em 1973, ´Sala Escura da Tortura’, trabalho coletivo: Gontran Netto, Le Parc, Alejandro Marco, Jose Gamarra.  A exposição seguiu para o Museu de Arte Moderna de Paris, depois para a Itália, Suíça, Alemanha e Brasil.

Em 1976, Cueco disse sobre o trabalho coletivo com Gontran: “Notre travail consiste a suivre le pointillé des differenciacions, descontinuidade de ruptura”.

Em 1979 nasceu o seu filho Pedro Pierre de seu casamento com a professora francesa Annie Dansky.

De 1979/1980 Gontran Netto pintou para os 20 anos de Revolução Cubana comemorados numa exposição coletiva em NY/EUA.

Nos anos de 1980 engajou contra o racismo com a exposição coletiva “100 artistes contra le racismo’. Em 1983 pintou ‘Apartheid 1’ (200 x 200); para outra coletiva “Art contre/against Apartheid” e nesta tela, Gontran impressionou pelo vazio: apenas uma criança. É o fim ou a esperança? Por outro lado, as cores fortes povoam o vazio da fome e do esquecimento. Para esse encontro, além dos pintores/artistas houve também um ensaio do filósofo do franco-argelino Jacques Derrida.

Gontran teve um ateliê na ‘vila da neblina’ – cité d’sartes. Todo o espaço conquistado em seu exílio na França foi de um ‘homem’ comprometido com questões demasiadamente sérias, mas (in) visíveis. Gontran trouxe a visibilidade desse mundo.

Nos anos de 1983/1984 com as diretrizes da abertura aos exilados ele retornou ao Brasil após o desterro de 14 anos. Gontran conquistou respeito fora de seu país, mas voltou ao Brasil por necessidade da carnalidade brasileira e pela luta – marca de sua pintura.

Quando expressou o desejo de retornar ao Brasil foi ‘visto pela crítica oficial’ como um pintor ‘demagógico’ de uma pintura ‘piegas e mal feita’. Seu retorno tinha como propósito fixar um ateliê em Goiatins (Tocantins), ou seja estar ligado à terra e efetivamente, aos boias-frias. O ateliê não conseguiu esse endereço (pressão do ‘coronéis’ donos de terras), mas a luta continuou com seu vínculo natural às causas do Movimento Sem Terra, às resistências coletivas, contra o neocolonialismo.

Em 1987 , o reencontro: coletiva de pintores antifascistas. Reencontro repetido em 1993. Também em 1987, período de cartas recebidas, encaminhadas por membros do Movimento Sem Terra. Fez telas e doações; pelas mãos rudes pintou o manifesto dos Sem Terra, com o ‘Leilão de Cabeças de Gados’. (ironizado pelas cabeças de trabalhadores rurais)

De 1989 a 1991, para a comemoração dos 200 anos da Revolução Francesa  fez das estações do metrô da cidade de São Paulo, Marechal Deodoro e Corinthians-Itaquera, o atelier do povo e do trabalhador; os painéis foram pintados por Gontran nas estações durante meses. Os transeuntes são os rostos que povoam estes painéis. Pintou a escrita dos Direitos Humanos em lingua original. Marianne, a mulher do povo francês foi reinventada como a mulher do povo brasileiro erguendo uma bandeira do Brasil.

Gontran pintou muitas aulas de História. Lá estão Sandino, Allende, Fidel, Mandela, Lamarca, Marighela, Prestes, Frei Tito e tantos outros.

Gontran Guanaes Netto (1933-2017), Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão – painel 4, 1989 (metrô Mal. Deodoro, SP), Óleo sobre madeira, 2,0 x 16,0

Durante o trabalho na estação Marechal Deodoro ele conheceu a bióloga Adriana Madeira, mãe de seu quarto filho Gabriel; pouco antes, também pais da falecida ainda bebê, Luiza (primeira filha do casal).

Em 1993: discussão da ‘reconstituição’ de uma obra de Portinari. O convite foi formalizado, mas não se concretizou. Ele sabia que podia e não seria restauro, e sim, reconstituição. Um lamento histórico: Gontran como Portinari – “sueña y fulgura, um hombre de mano dura, hecho de sangre y pintura, grita en la tela”, como ‘um son para Portinari’ (letra/ música: Nicolás Guillén e Horacio salinas/voz Mercedes Sosa).

Em 1994 expôs pela PAZ. 50 anos da Fundação das Nações Unidas e 50 anos de dor por Hiroshima e Nagasaki.

Em 1995, o coletivo em protesto a chacina da Candelária (RJ) – assassinatos de crianças por ‘matadores profissionais’, conhecidos com ‘esquadrão da morte’ ocorrido em 1993.

Em 2003, a exposição: ´Sala Escura da Tortura´ no Fórum Social em Porto Alegre (RS), Exposição ´Sala Escura da Tortura´ Museu do Ceará, Fortaleza (CE), sob curadoria de Edna Prometheu. Em 2015-2016 circulou pelo Brasil acompanhando a Comissão Nacional da Verdade.

Gontran foi leitor de clássicos da literatura francesa, pensadores, psicanalistas, filósofos, das cartas que chegavam de qualquer lugar; estudioso dos tratados das artes e de preocupações que o tempo ainda não sanou: a fome, as guerras, as doenças, os preconceitos, a multidão (in) visível.

Em 25 de novembro de 2017, aos 84 anos, Gontran Guanaes Netto faleceu em Paris. Ele proclamou como nenhum outro artista a problemática da exclusão, e com eco próprio pela “consciência que sobrevive a qualquer circunstância” e “antigo combatente, jamais!”

Sugestão de leitura para compor esses dados biográficos Brava Luta

Outras sugestões para leitura sobre Gontran Guanaes Netto

(*) A artista Bruna Zanqueta Cavalheri foi residente na Casa da Memória criada por Gontran Guanaes Netto.

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