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Série Ficcional H. Miller XX (Final II) – A morte da leitora

27 jun

Por Lia Mirror e Laila Lizmann

 

Preciso meditar na minha vergonha e no desespero em retiro… 
Que querem vocês de mim? Quando
tenho algo a dizer, ponho-o em letra de forma. Quando tenho algo a dar,
dou-o… Seus
cumprimentos humilham-me! Seu chá envenena-me! Nada devo a ninguém. 
Seria responsável somente perante Deus – se Ele existisse!

 (Henry Miller, Trópico de Câncer)

Após o cárcere de semanas, o Deus da Carnificina* abriu a pequena porta de aço; agachei e arrastei-me por uma luz enganadora. Ao subir o olhar deparei-me com a presença de Marina Abramovic sobre pedaços de carnes. Seu vestido branco em segundos foi sendo consumido pelo vermelho que jorrava das mutilações. O odor nauseabundo ascendia e mal conseguia respirar.

Marina Abramovic, Balkan Baroque, 1997 http://marinafilm.com/

Ainda rastejando tentei retornar ao meu habitat carcerário, mas um vento intempestivo fechou o pórtico de minha salvação. Arranhei o aço até sangrarem os dedos e tremi por rever aquela desfigurada pessoa a fitar-me: era o Deus da Carnificina. Num simples gesto ele arrancou de sua garganta aberta um envelope plástico e jogou-o à minha frente como um dono faz a seu cão.

Minha baba escorria tal qual o sã/insano professor de história que desembarcou do cargueiro “Kedma”**.  Apenas mexia o corpo sobre os joelhos e mãos que se encontravam no chão – de fato como um cão. Cheguei a alçar a baba sobre o envelope e receei a ira daquele Deus. Mas, não. Ele foi se afastando lentamente até desaparecer diante da segurança que o animal estava submisso.

O tempo que transcorreu a dúvida de abrir aquele envelope foi imenso e intenso. Marina continuava sobre a carnificina e parecia não me ver. Abri o envelope empurrando a baba do fecho. Havia uma carta e assim que toquei naquele papel percebi que se tratava de Henry Miller.

Era uma carta extensa expondo as razões de seu desaparecimento. À sua leitora mais fiel restara a submissão ao inevitável. Li e reli como Henry Miller ensinou-me em uma cartografia dos desejos. Assim ele percorreu a bel prazer todos os estados inimagináveis do meu corpo e da minha alma.

Ainda sob postura animal abocanhei o papel e fui engolindo em rasgos. Aos poucos fui voltando à minha humanidade.

Caminhei com dificuldade, mas alcancei a falésia. Pensei nas tantas cartas de despedidas de Virginia Woolf, até cair em mim e entender a essência da releitura; Miller fez a minha carta de despedida poupando-me do abismo da letra e eu a engoli, antes li e reli.

Rachel Korman, autorretrato enquanto morta, 2008, 170 x 80 cm.

Notas e Referências:

(*) Deus da Carnificina. Direção Roman Polanski.  Carnage, Polônia/Alemanha/França/Espanha, 2011, 80 min.

(**) KEDMA (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2002, 94 min.

BALKAN Baroque (filme/ performance de Marina Abravovic). Direção Pierre Coulibeuf. França/Holanda: Regards Production, 1998. 61 min.

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

Miller, H. Trópico de Câncer. Trad. Aydano Arruda. Rio de Janeiro: O Globo: São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.

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Ficção humana

4 ago

Por Gisèle Miranda

 

O monstruoso da ação humana quando moralmente banido do circulo  do ´bem´ muitas vezes acaba recebendo uma tarja ficcional como se não fizesse parte da humanidade. A ´crueldade com os indefesos´ estão a olhos vistos, para quem quer ver. São muitos os caminhos que por vezes tropeçamos e nos fazemos de rogados até que a moral reivindique um lado. Se céu ou inferno, bem ou mal ou, se o dantesco espaço nos oferece o purgatório para o confronto com o ´conforto canalha´; mesmo assim, o melhor é fingir desumanidade – como se fosse viável.

 

Raquel Korman, autorretrato enquanto morta, 2008, 170 x 80 cm. http://www.rachelkorman.com

 

Fingir, tapar os ouvidos, fechar os olhos, ou garantir a sobrevivência têm preços, pesos, medidas e, obviamente, uma humanidade latente. O monstro pode ter uma bela aparência e circular pelos mesmos espaços que o comum. Que tal trocar o canal ou designar uma nova moral?

Essas fugidias linhas têm, em princípio, dois ensaios como mote: Pequena sociologia do fungo, de Pondé (Folha de S. Paulo, 27/7/2009) e Em defesa de Berlusconi, de Calligaris (Folha de S. Paulo, 30/7/2009).

Pondé resolveu discutir a moral, ou melhor, desnudar a ética de um determinado círculo tendo como mote os monstruosos nazistas que assassinaram 6 milhões de judeus. Fui imediatamente jogada em um documentário da década de 1960. Treblinka, na Polônia (a parada da morte). O maquinista da carga humana sabia o que fazia, ou seja, apenas cumpria com seu ofício (típico da ‘banalidade do mal’ de  Hannah Arendt). Mas ele tinha como hábito fazer o gesto de degola – assim que o trem parava na estação, para mostrar à sua carga que ali seria o fim.

O maquinista do documentário fez questão de dizer que não concordava com o que  os nazistas faziam com àquelas pessoas que transportavam. O olhar deste maquinista tinha um quê irônico e infantilizado, principalmente quando gesticulava a degola.

A partir desse olhar passei a perceber os demais olhares dos ´humanos´ desse documentário. Havia um sobrevivente do campo de concentração em Treblinka, que aliás, sobreviveu porque os nazistas gostavam de ouvi-lo cantar. Ele era um menino de 10 anos. No trajeto de barco, ele era obrigado a cantar sem párar todos os dias – durante anos! O menino – já adulto – sorria com os olhos ao contar sobre sua habilidade musical de outrora. Não apenas sorria, como também estagnou o olhar indefeso do menino que foi. Ao retornar ao local de sua infância, ele foi reconhecido pela população da cidade do outro lado do rio, assim que começou a cantar, coisa que nunca mais fez desde que conseguiu sair de Treblinka.

Todos riram ao rememorar as canções ouvidas, a voz singular da criança de anos atrás. Ao sabê-lo portador da famosa voz, todos o abraçaram. E todos não admitiram saber o que acontecia do outro lado da margem do rio.

Em uma outra vertente, Calligaris deve ter chocado muitos pensadores de militância humanitária com o forte título de seu ensaio. Até o próprio Calligaris disse: ” nunca pensei que escreveria um dia em defesa de Berlusconi”. Defender Berlusconi, a moral fascista, e ainda o new look dos neofascistas ? Claro que não! A questão é outra: “Berlusconi faz festinhas com prostitutas, e eu com isso?” Mas o mundo de notícias estacionou por ali, e até a virilidade chegou ao Ibope surpreendente, tornando-se a “virilidade de todos nós”.

Mas, ´se Ahmadinejad´, ex presidente do Irã fosse destaque “em uma boate gay” (e anseio por isso – como Calligaris) não seria o mesmo caso de Berllusconi? Não. Neste caso afetaria diretamente as leis desse país. Então como perceber o hipócrita, o ´conforto canalha´, ou ainda a conivência silenciosa?

Creio que Amos Gitaï, cineasta israelense pode dar sinais sobre essa discussão – via reminiscências em seu Yom Kippur, ou a moral que humaniza o velho palestino em seu filme Kedma (cargueiro de sobreviventes do Holocausto). O pobre e velho palestino levantou seu cajado e perpetuou um território – nunca reconhecido, mas hereditário de homens e mulheres bombas.

Para fechar o filme: a moral, o texto, a imagem insana no grito e na baba humana do historiador, no riso infantilizado à beira do caos: a  tênue linha dos algozes, dos sobreviventes e do ´conforto canalha´.

Meu personagem é o louco de o Trem da Vida (direção Radu Mihaileanu) . As risadas que dei no decorrer do filme foram, no final, murros nos estômagos de todos nós. Rimos como idiotas das tradições, dos ciganos, dos judeus, dos patéticos nazistas e, de nós mesmos. Somos o louco de o Trem da Vida, atrás das cercas de arame farpado em um campo de concentração, rindo na insanidade incorporada.

 

(*) Sobre Ahmadinejad – Ver neste blog o texto ´Faca de dois gumes´

GITAÏ diz: “Mais tarde, você vai entender…”(*)

23 jun

Por Gisèle Miranda

Amos Gitaï

Vindo de duas Seleções oficiais – Berlim e Toronto, 2008 Amos Gitaï trouxe mais um intrigante filme. Não deixou de incomodar, mesmo se tratando de um incômodo pessoal. Ao terminar de assistir o filme fiquei procurando a assinatura de Gitaï – pois não encontrava. Até mesmo em ambiente propício para estar e incomodar (Centro de Cultura Judaica), adaptado à apresentação do israelense de repercussão histórica e política – o filme parecia ser francês demais. Co-produção França/Israel.

Fui com uma blusa branca com manchas pretas, que no caminho vislumbrei como marca da Palestina. Recordei de Kedma na cena em que o velho palestino levantou o seu cajado e gritou que a luta pela terra continuaria com os seus netos, bisnetos. E a cena de O dia do perdão: Yon Kippur – o amor entre as cores das tintas e a morte entre as cores da bandeira.

Ouvi, pós filme comentários imediatistas desde ‘não gostei’ ao ”muito bom filme’. Eu não sabia o que dizer, pois não encontrava  nem mesmo Gitaï em sua direção.

O que eu estava procurando? O pragmático? O politicamente correto? Então insurgiu a cena do olhar feminino, que ouvia, via, sentia e sofria pela dor do protagonista. É Emmanuelle Devos como Françoise, nora de Rivka, a eterna Jeanne Moreau de Truffaut.

O tempo feminino é a assinatura de Gitaï; é a direção impecável. Vale lembrar também da bela Natalie Portman em Free Zone, outro importante filme de Gitaï sobre o olhar feminino.

Emmanuele Devos com Hippolyte Girardot em cena do filme “Mais tarde, você vai entender”

(*) Título do filme de Amos Gitai. França/ Israel, 2008. Drama (89 min.) Com Jeanne Moreau, Hippolyte Girardot, Dominique Blanc, Emmanuelle Devos. A pré estréia nacional foi no Centro de Cultura Judaica (em 23/08 – 20:00) na 2ª Mostra Audiovisual Israelense, 23 a 28 de junho, 2009. www.culturajudaica.org.br (programação gratuita)

V. tb.  Ficção ou Realidade?  –  sobre Amos Gitaï e Fernando Meirelles.

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