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Série Falésias IV: A alegria sem a fala – ou os desaparecidos e re-aparecidos da escrita

16 mar

Por Lia Mirror & Gisèle Miranda


A Alegria de Emma[1] – uma personagem fictícia – tem um intrínseco elo com o Futuro (que) dura muito tempo de  Louis Althusser. Ele, personagem construído de um memorial, dia a dia até morrer em 1990; deixou registrado que suas alucinações foram fatos do futuro longo demais. Não há sonoridade de dor, seja no ato vívido de Althusser ou na ficcionalidade de Emma.

Os porcos degolados por Emma foram cuidados, amados até os oito segundos à morte. Da mesma forma, ela fez com o seu amado, um doente terminal em suas delongas – a degola, para que não sofresse mais; apenas oito segundos. Nenhum som; nenhuma fala. Emma e Althusser agiram com as mãos, da faca à caneta; do silencio à escrita ou a morte.

Será que o desaparecido de Foucault reapareceu na escrita necessária de Althusser e de alguma maneira impronunciado?


Gontran Guanaes Netto (1933-2017), escrita/desenho s/ papel: “Para Gisele neste inicio de trabalho”, dez. 2002.

Há um condenado ao desaparecimento; da pena à ficcionalidade dos tropeços da memória. Impronunciável? Então, a escrita.  Dos relatos aos lapsos do escritor Lima Barreto em seu Diário do hospício e o cemitério dos vivos; o enredo de um tempo que também parece durar muito, precisamente porque fora imposto por uma limpeza social (policial e higienizadora) marcadamente pelas primeiras décadas do século 20 no Brasil. Lima Barreto não matou; mas viveu personagens em meio aos desaparecidos por assassinatos, esquizofrenia, alcoolismo, vadiagem, entre outros. Sua escuta era intensa; sua escrita verteu-se ao ensejo do necessário.

Althusser era um filósofo marxista de carreira universitária. Emma era uma versão feminina e alemã de “O garoto selvagem” de Truffaut com condimentos do dinamarquês Lars Von Trier em os “Idiotas“. E, para compor essa escrita, Foucault com seu parricida (degolador): Pierre Rivière.

Os papéis foram sendo esculpidos, as imagens sobrepostas ou simples palavras. Althusser clamou a solidão de seu isolamento teórico e o risco solitário diante do mundo, além de percorrer de Rousseau a Derrida – a intervir como filósofo na política e, como político na filosofia. O futuro dura muito tempo foi escrito alguns anos depois do estrangulamento de Helène,  em 1980 e, publicado em 1992.

Para compor o cenário Pierre Rivière reapareceu vindo das primeiras três décadas do século 19, marcadamente por Foucault, abrindo discussões à medicina psiquiátrica e os conceitos da justiça em perspectivas políticas de meados do século 20.

Rivière degolou ou amputou a fala da mãe e dos irmãos? E sem a sua própria fala, construiu um memorial justaposto à escrita, por uma memória também minuciosa, dadas às diferenças da época e de aleitamento intelectual.

Rachel Korman, big pig, 2008, digital photograph 50 x 70 cm.

Não me assustavam os criminosos; escreveu Lima Barreto, mas a candura, a inocência e a naturalidade; a punho e em pedaços de papéis registrou seu cemitério dos vivos ou sua analítica versão de as Recordações da casa dos mortos de Dostoiévski. E foi assim, em tal estado de espírito, penetrado de um profundo niilismo intelectual. (p. 186-189)

Em silêncio, Lima Barreto saltou de sua ficcionalidade (prefaciado por Alfredo Bosi) e sentou-se a mesa do seu Alberto[2]; logo, chegaram Henry Miller, Pierre Rivière, Louis Althusser e Michel Foucault com seus escritos.


[1] O Filme Emmas Glück (A alegria de Emma) de 2006 http://www.tvcultura.com.br/mostrainternacional/blog/33772 do diretor alemão Sven Taddicken baseado no romance de Claudia Schreiber.

Referências:

ALTHUSSER, Louis (1918-1990) O futuro dura muito tempo; seguido de Os fatos. Org. e Apres. Olivier Copet, Yann Moulier Butang; Trad. Rosa Freire d´aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BARRETO, Lima (1881-1922). Diário do hospício e o Cemitério dos vivos. Prefácio Alfredo Bosi. Org. e Notas Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

FOUCAULT, Michel (Coord.) Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão. Trad. Denise Lezan de Almeida. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1977.

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Charlotte Gainsbourg e Lars von Trier

3 jul

Por Gisèle Miranda

Cannes de 2009 premiou a atriz Charlotte Gainsbourg – sem nenhum favoritismo. Beleza peculiar aos  40 e poucos anos com cara, corpo e jeito de 18 anos. Mãe de um rapaz de 16 e uma menina de 10 anos com seu companheiro israelense Yvan Attal, ator e diretor.

Charlotte Gainsbourg, In: Folha de S. Paulo, 2009

´Moça de família´ polêmica. Filha da atriz inglesa Jane Birkin com o multifacetado ´artista, cantor, poeta e etc.´- o francês Serge Gainsbourg (1928-1991), que foi homenageado em uma exposição em São Paulo. [1] Serge ficou conhecido na França como artista ´maldito´.

Charlotte sob palmas foi eleita a melhor atriz do vaiado Antichrist do diretor dinamarquês Lars von Trier, dedicado ao diretor russo Andrei Tarkovski. O par de Charlotte é o ator norte americano Willem Dafoe, que não hesitou nas cenas fortes do infernal filme – de culpa e sexo. Sexo que foi tema nas críticas especializadas como horror trash beirando o pornô. (*)

Charlotte Gainsbourg e Willem Dafoe em cena de Antichris, In: Folha de S. Paulo, 2009

Desde Os idiotas, filme que comporta a trilogia da grande estréia de von Trier como diretor consagrado, maldito e sem pudores para as cenas de escárnio e sexo – vale a lembrança de sua experiência à efetiva e consolidada postura de ir com os atores até o impensável – ao explícito.

Se pornô ou um novo Império dos Sentidos, são imperdíveis Lars von Trier, Charlotte Gainsbourg e de Willem Dafoe com seus sexos, medos e dores como uma furadeira em alguns conceitos a partir de seus personagens – psicanalista/marido – paciente/esposa viveram na direção desse Antichrist dinamarquês.


(*) O filho de Charlotte (na época com 12 anos) viu o filme e reclamou de uma das cenas de sexo explícito. Pedindo inclusive para a mãe abolir a cena. Contudo, após Charlotte ser escolhida como melhor atriz do Festival de Cannes, ele se desculpou e a parabenizou.

V. Tb.:

Jornal da Mostra (Cannes 2009), n. 636 por Leon Cakoff: “Com Lars von Trier e Ken Loach, do inferno à redenção.

Serafina (Revista do Jornal Folha de S. Paulo, maio 2009, por Fernando Eichenberg: “Moça de família”, p. 8 e 9.

* Sobre a polêmica de Lars von Trier e o ´nazismo´(2011) – momento `Idiota`, infeliz e criminoso que lhe custou ser ´persona non grata´ em Cannes sugiro a reflexão  Slavoj Zizek http://www.luciamotta.com/2011/06/slavoj-zizek-liberdade-da-internet-e.html /

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