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Provocativas e “Quem tem medo de Simone de Beauvoir?”

6 out

Provocativas 

por Gisèle Miranda

O texto Quem tem medo de Simone de Beauvoir?fez-se – em meio a provocativas; proposta de parceria do Tecituras que varia conforme a necessidade, ou seja,  questões do pensamento vertendo à escrita numa plasticidade gestada (na fabricação do próprio mel – palavras, signos, paisagens… com as folhas do campo e das ervas daninhas, reverbrando Le Goff). No exercício diário do experienciar, de encontro aos muros, de verter obras e pensamentos a uma própria e necessária escrita. Não numa linguagem verborrágica, maledicente, sob uma privilegiada, rara, (e cara) educação, que faz da escrita um discurso fatalista do incorreto/correto, a pouca valorização do pensamento. Afinal, mais do que desigualdades, a educação convulsiona no esfarelado do patrimônio a comercialização.

O verborrágico sem a temporalidade necessária incorre nas muitas impossibilidades merecedoras de criações e, no entanto, desviam no conglomerado de citações rumo ao vazio, o que não deixa de ser um caminho, por pior que seja. Ora contemporâneos e de difícil compreensão pela falta de distanciamento, ora pelo pegajoso da facilidade; ora ou outra, o personagem asséptico ecoando uma ordenada leitura num silêncio impermeável ao diálogo, logo, no conforto e na assepsia.

Talvez, a simplicidade das palavras esteja em falta, assim como o trabalho do pensamento – lento, que desvenda e desaponta, desestabiliza porque há uma consciência encarnada num corpo humano (Merleau-Ponty), mesmo hoje, em meio à desmaterialização do espaço (por Pierre Levy), ou que o sujeito neurótico seja substituído pela falta de identidade (o esquizo de Deleuze).

Afinal que tempo ou pensamente é esse? Tempo em que Sartre em sua irreversível velhice dizia que jamais se sentiu velho. Ele morreu em 1980, aos 74 anos assumindo posições e reiterando que o silêncio é reacionário.

Sartre criticou o comunismo assassino de Stalin, por um Humanismo que o vitimou em estado de utopia. Em tempo de domínio marxista propôs a anarquia dos jovens ao conceito. Pela utopia criticou com veemência o papel do intelectual clássico (e asséptico), que tem seus encantos na boa escrita; mas para criticar precisou dos longos e pacientes 16 anos para o ina(cabado) L´idiot de la famille, sobre o intelectual Flaubert pela dificuldade de falar de Bovary, pois tinha a seu lado, em carne e osso – Simone de Beauvoir.

Ao longo das vidas de Sartre e Beauvoir muitos nomes circularam, sob críticas, embates de egos aos infortúnios; e viver numa guerra é sem dúvida aterrorizador. Há os que não resistiram as guerras, como Marc Bloch, mas sua escrita subterrânea sobreviveu; assim como há os que escaparam, dificilmente sem danos por força das circunstâncias como Sartre; em função da trincheira ou do campo de concentração, não há como pensar menos ou mais sofrimento neste momento.

E se Sartre parecia mais sensível e popularizado – o que certamente seus críticos mais ferrenhos adoram diagnosticar como melindre burguês e populista – talvez devêssemos nos deter “a sensibilidade e a inteligência (que) não estão separadas… sensibilidade produz inteligência”. (Sartre, In: Beauvoir, 1981, p. 411)

Inteligência para discutir, atritar, conviver, enfim, trabalhar o pensamento em seus vários momentos, mas percebê-los necessários e maturados, assim com a vida de seus contemporâneos, Merleau-Ponty, Camus, Foucault, Althusser, Deleuze, entre tantos; e sensibilidade de partilhar seus dividendos para suprir necessidades de amigos, conhecidos, grupos e propostas utópicas.

Quando Sartre e Beauvoir estiveram no Brasil, em Araraquara, 1960, houve uma conhecida foto da platéia: Ruth Cardoso, Bento Prado Jr. e Fernando Henrique Cardoso.

Prato cheio para o olhar conservador (de hoje) falar do lado burguês de Sartre, o que ressoaria uma posição centro-esquerda a centro. Afinal, qual era o público de Sartre e Beauvoir? Como se não estivéssemos à beira de uma ditadura militar por longos vinte anos! Nessa mesma platéia estava também o jovem pintor autodidata Gontran Guanaes Netto, filho de um boia-fria, que logo se tornaria um militante de pseudônimo André, exilado político na França, humanista e colaborador do Tecituras.

Platéia da conferência de Jean-Paul Sartre, 1960, Araraquara/SP: Gontran Guanaes Netto é o terceiro na segunda fila; primeira fila Ruth, FHC, Bento Prado Jr.

“Uns gatos mijaram em mim”, relato de Simone de Beauvoir do humano Sartre sobre sua incontinência urinária. Simone vocifera na escrita: “É terrível assistir à agonia de uma esperança”. E para fechar essa parceria Sartre e Beauvoir – atual, e por que não dizer humana e utópica, cabe o destaque a pergunta de Beauvoir a Sartre: “Quando perdeu essa ideia estúpida de que moças que se deitam livremente são mais ou menos putas?” Sartre respondeu que aos dezoito anos caiu em si. (Beauvoir, 1981, p. 93; 406)

No mais, deixo aos leitores o exercício do pensamento de Beauvoiriana, com a licença de relembrar o seu I am not a woman writer “… sou uma pessoa que ocupa na sociedade uma posição qualquer, independente de meu gênero.”

Quem tem medo de Simone de Beauvoir? (*)    por Beauvoiriana

Recentemente, tenho lido e ouvido muitos julgamentos, de teor e tom questionáveis, a Simone de Beauvoir que suscitam uma pergunta: por que sua figura e seu pensamento incomodam tanto? Sua bissexualidade, amantes, a recusa do casamento e da maternidade, a liberdade e independência em um mundo cada vez mais conservador.

Simone de Beauvoir nasceu há 113 anos. Suas obras mais influentes foram escritas entre os anos 1940 e meados dos anos 1970. O Segundo Sexo, seu livro mais importante, foi publicado em 1949. Lá se vão mais de 60 anos. Ainda hoje, muitas pessoas se recusam a ler Simone de Beauvoir porque ela era “uma libertina”. E repetem-se afirmações forjadas para atribuir a ela tudo aquilo contra o que ela lutou no plano das ideias e no plano da ação. Acusam-na de submissão, de dependência, de pregar o feminismo para as outras mulheres e não praticá-lo.

Essa resistência a Simone de Beauvoir esbarra em questões mais profundas sobre nossa sociedade: a condição da mulher, especificamente a mulher intelectual; a relação entre a experiência vivida e a escrita da memória com a subjetividade; as expectativas que recaem sobre os intelectuais. Tentarei abordar brevemente, e de forma não sistemática, alguns desses temas tendo como referência a figura de Simone de Beauvoir.

Simone de Beauvoir em seu quarto no Hotel Louisiane, Paris, 1946. Foto: Fonds Photographique Denise Bellon.

Os intelectuais vivem, obviamente transformando-se. É pouco racional ignorar que esse trabalho exige esforço.

Há quem queira invalidar o pensamento libertário e antissexista de Simone de Beauvoir baseado em sua relação com Sartre.

Simone de Beauvoir e Sartre tinham 20 e poucos anos quando firmaram um pacto que previa  um relacionamento aberto. Quem propôs este pacto foi Sartre. E Simone de Beauvoir o aceitou. Logo depois, eles foram nomeados para lecionar em cidades diferentes da França. O que unia a ambos: o relacionamento sexual, amoroso, e uma afinidade intelectual que provavelmente nenhum de seus críticos ou seguidores jamais experimentou. Sartre propôs casamento a Simone. Ela recusou.

O amor necessário entre ambos sempre superou os amores contingentes. Com o escritor Nelson Algren, envolveu-se no amor romantizado e “tradicional” para sua época. Ele a pediu em casamento. Ela recusou.

Simone de Beauvoir escreveu milhares de páginas em romances, ensaios, memórias abordando esses e outros fatos. Considerada uma das maiores memorialistas do século 20.

Em cada página das memórias, a honestidade de Simone é invejável. Ela reconhece, por exemplo, as críticas mal-informadas que ela e Sartre fizeram a Freud, os enganos que cometeram em algumas avaliações a respeito de personagens e colegas durante a guerra, o fato de que, durante muito tempo, ela e Sartre, embora lutando contra os ideais burgueses, se submeteram totalmente e sem sequer perceber ao estilo de vida que abominavam.

Simone de Beauvoir acreditava que a matéria-prima do intelectual, além da capacidade de compreender e criticar as teorias – é a própria experiência. A partir daí, pensava construir nossa relação com o mundo, talhar subjetividades e, assim, produzir uma obra intelectual, nos anos 1930, época que, uma mulher desacompanhada nem sempre era aceita em um café; ela optava por estar só. A solidão era a chave de sua abertura para o mundo.

Outra crítica comum a Simone de Beauvoir é de que ela era feminista em seus livros, mas não era feminista em seu relacionamento com Sartre. Dizem que ela pregava o feminismo para outras mulheres e não o praticava.

Em suas memórias, Simone de Beauvoir afirma que jamais foi feminista e que O Segundo Sexo, publicado em 1949, nunca foi concebido como um livro feminista. Por isso, quem cobra dela uma postura feminista em todos os episódios de sua vida age de má-fé. Simone de Beauvoir só se alinha ao feminismo nos anos 1970.

Eles não podiam viver a juventude de acordo com algo que ela só reconheceu e valorizou na velhice. Sim, os intelectuais mudam e se transformam ao longo do tempo, e isso não invalida seu pensamento.

O julgamento que ataca Simone de Beauvoir não é apenas aquele forjado no sexismo. Há um outro substrato nas acusações levianas que enumerei aqui e em outras que não há espaço para detalhar. Esse substrato é a necessidade de fazer de intelectuais verdadeiros deuses, modelos de comportamento, pessoas infalíveis que têm soluções infalíveis e que não podem ser questionadas.

Simone e Sartre construíram um sistema de pensamento que enfatiza: todos somos livres e a liberdade nos confronta a cada segundo com a angústia de fazer escolhas e com o sofrimento de nos responsabilizarmos por elas. Viver na insegurança, na incerteza e em constante contato com sua própria falibilidade e a ambiguidade.

Há quem Busque desqualificar o pensamento libertário, radical, transformador que, por definição, se constrói com base na exploração de visões de mundo, atitudes e comportamentos fora dos padrões e na diversidade de ideias e de ação. Nesse sentido, criticar Simone de Beauvoir (e Sartre) é muito mais construir empecilhos para que os intelectuais de hoje se inspirem ou busquem referências em suas ideias e possam pensar algo novo e tão transformador como eles pensaram em suas épocas.

Quem resiste a pensadores como Simone de Beauvoir e Sartre teme que alguém possa continuar a trilhar os caminhos que eles abriram. Teme palavras como liberdade, ambiguidade, imperfeição, descoberta, independência e, principalmente, responsabilidade e consciência. Talvez possam encontrar algo assim em alguma religião. Jamais encontrarão isso em pensadores livres e, felizmente, imperfeitos.

Sartre e Beauvoir. Foto: Antanas Sutkus, 1965

Apontamentos e sugestões:

(*)  Quem tem medo de Simone de Beauvoir? publicado na íntegra no portal O Pensador Selvagem.

(**) Sobre Gontran Guanaes Netto . Dados biográficos de Gontran Guanaes Netto por Gisèle Miranda  https://tecituras.wordpress.com/2010/01/11/brava-luta/ Cabe destacar que Gontran Netto não aceitou a indenização concedida por Fernando Henrique Cardoso a presos políticos)

https://tecituras.wordpress.com/2010/10/25/a-atualidade-de-simone-de-beauvoir/

https://tecituras.wordpress.com/2010/10/18/i-am-not-a-woman-writer/

BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambigüidade. Rio de janeiro, Nova Fronteira, 2005.

BEAUVOIR, Simone de. A cerimônia do adeus. Seguido de entrevistas com Jean-Paul Sartre (ago/set 1974). Tradução de Rita Braga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

SARTRE, Jean-Paul. Sartre no Brasil: a conferencia de Araraquara. Filosofia marxista e ideologia existencialista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenologia. 3. ed. Petropolis: Vozes, 1997.

Série Falésias I: em seus tempos

1 dez

Por Gisèle Miranda


Na temporalidade plural dos percalços, na incisão necessária ou na falésia necessária? Na crise da história e suas infinitas histórias a ´des-historização´?

À beira da falésia – a história entre certezas e inquietude. De fato há um aparador (in-visivel) para quem atinge a falésia. No ápice, entre a queda, o vôo, o medo, a necessidade – podemos ouvir Chartier reverberando Foucault numa arqueologia das problematizações e de uma genealogia das práticas´.

Historiadores têm de manter um diálogo com os pensadores contemporâneos. Para quê, por quê? Para consolidar a consciência de sua inserção no mundo de hoje, bem disse Maria Odila Dias.

E o historiador em sua capacidade narrativa? Que amplie seus espaços de ação! Que seja além de seus pares, confirmaria Luiz Felipe de Alencastro.

E quanto aos riscos? Sempre há riscos na vaga ausência da obra. A obra resgatada dos sentidos ocultos, inimaginados, que escapam das camisas-de-força, retruca Jorge Coli. Pontos de estranhamentos em seus devires.

Rachel Korman, Marginal (para / to Oiticica), 2010 impressão sobre tecido / print on fabric 200 x 180cm

Ao compartilhar a fugacidade do tempo em falésias precisamos ter alguma relação com o  passado, complementaria, Hobsbawm (*). Ou, adaptar e testar modelos, teorias e conceitos e constituir a marca tanto do bom historiador como do bom teórico, perpetraria Peter Burke.

Jacques Le Goff desmistificou o próprio conceito de história, para então pensar a história como problema.  Surgiram: a história vivida, a história como ciência, história e memória, história social, entre tantas outras, além do próprio mito como recusa da história.

E por que não um ´rizoma temporal´ ? Entre a discussão do devir (outrora futuro) e a condena da linearidade. O que escapa não precisa antagonizar. Mas ser pensado e tecido para o campo da reflexão e da ação, Le Goff ratificaria.

Eric Hobsbawm (1917-2012) em sua lúcida e  quase centenária vivência apregoou a diferença de esquerda e direita – para lidarmos com o devir política. Ele inter-fere: a dúvida está procriando um núcleo de direita.

Mas ´por quê ´de sermos ignorantes de nosso passado, disse Marc Bloch? Indagação que se adéqua ao silêncio de um Estado que, num processo retro-ativo, foi legitimador da tortura. Silêncio. O tema silenciado; o tema que deseja ser esquecido; que carece de diálogo, ou o tema sem memória?

Se melhor devir que futuro – quiçá serei mais poeta; se o linear possa ser rizomático e intenso – estarei em companhia dos pensadores, à beira da falésia e na inquietude do pensamento.

 

 

Referências (agenciamentos):

(*) Eric Hobsbawm nasceu em Alexandria, no Egito sob o domínio britânico. Ele faleceu em 01 de Outubro de 2012  aos 95 anos em Londres, Reino Unido.

ALENCASTRO, L. F. et tal. Straumann (Org. ) Rio de Janeiro cidade mestiça. Ilustrações e comentários de Jean-Batiste DEBRET). São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

ALENCASTRO, L. F.  (Org. ) Coleção Dir. Fernado A. NOVAIS. História da vida privada no Brasil.  São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Vol. 2.

BLOCH, Marc L. B., 1886-1944. Apologia da história ou o ofício do historiador. Prefácio de Jacques Le Goff; apresentação à edição brasileira de Lilia Moritz Schwarcz. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

BURKE, Peter. (Org.) A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.

BURKE, Peter. Inevitáveis empréstimos culturais. Folha de S. Paulo, São Paulo, 27 de julho de 1997. Cad. Mais!

BURKE, Peter. História e teoria social. Tradução Klauss Brandini Gerhardt, Roneide Venâncio Majer. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

CARDOSO, Ciro F. & VAINFAS, Ronaldo. (org.) Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

CARDOSO JR, Hélio Rebello. Para que serve uma subjetividade? Foucault, tempo e corpo. Revista Psicol. Reflex. Crit. vol. 18, n. 3. Porto Alegre, set. /dez. 2005. (http://ht.ly/3ieDw)

CHARTIER, Roger. À beira da falésia: a história entre as incertezas e inquietude. Tradução Patríca Chittoni Ramos. Porto Alegre: Editora Universidade/UFRGS, 2002.

CHARTIER, Roger. Do palco à página: publicar teatro e ler romances na época moderna – séculos XVI-XVIII. Tradução Bruno Feitler. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.

CHARTIER, Roger. Cultura Escrita, literatura e história: conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre Anaya, Jésus Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. Tradução Ernani Rosa. Porto Alegre: ARTMED Editora, 2001.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade (Vol. II: O uso dos prazeres). Rio de Janeiro: Graal, 1984.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas: Uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1981.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) O novo século: entrevista a Antonio Polito. Tradução Claudio Marcondes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

HOBSBAWM, E.; Ranger T. (Org.) The Invention of Tradition. Cambridge, 1983.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

LE GOFF, J. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro: Record, 2001.

LE GOFF, J. São Luis: biografia. Rio de Janeiro: Record, 1999.

LE GOFF, J. Por amor às cidades: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: UNESP, 1998.

PELBART, Peter Pál. Bárbaros e Ameríndios em MundoBraz! nov. 2010. http://ht.ly/3j7G5

Globo News entrevista o historiador Eric Hobsbawm 2014.

Programa Roda Viva – TV Cultura: Roger Chartier, 2001; Conexões 2014 – Entrevista com o Roger Chartier – Completo

Sequências Parisienses de Luiz Felipe ALENCASTRO http://sequenciasparisienses.blogspot.com/

Rachel Korman no Tecituras


Série Paschoal Carlos Magno I: O Teatro de Paschoal Carlos Magno – O ofício em suas considerações (*)

11 jul

 

por Gisèle Miranda

 

 

Sergio Cardoso (Belém, Pará, 1925 – Rio de Janeiro, RJ, 1972), Paschoal Carlos Magno (Rio de Janeiro/RJ, 1906 – idem, 1980) e Procópio Ferreira (Rio de Janeiro/RJ, 1898 – idem, 1979) em visita ao ensaio de Hamlet no Teatro Duse. (Jornal Diário da Noite, 19/01/1948, arquivo Brício de Abreu – SNT/ FUNARTE/RJ)

 

A temporalidade da criação deste texto não deve ser medida sem a subjetividade do ofício. Sabê-lo atual faz lembrar as entranhas da pesquisa. Portanto essas entranhas são no vigor da escrita, louros à pesquisa histórica, ou seja, livros, memórias, fontes e tal, convergindo em devires da escrita – sobre palcos e palmas, em sonoridades ou vertigens e pleno de raízes híbridas que aliás, vos apresento.

Em tese, deixei registros de minha própria escrita, ora à revelia, ora em consonância às sugestões de outrem (entre áreas, conceitos).

A temática foi sendo esculpida e as imagens pulsaram. Os critérios de definição foram gestados no rigor do trabalho, mas deixando em liberdade à escrita, que por sua vez foi cria do indomável – em verso, prosa, posta em cena, na expressão do corpo, na fala, no ver e ouvir o que o multifacetado mundo artístico produz.

Por isso, dediquei uma temporalidade epitelial para compor a pesquisa sobre Paschoal Carlos Magno (Rio de Janeiro/RJ, 1906 – idem, 1980), a partir de questões morais, políticas, culturais e de deslanche do Teatro Moderno (PRADO, 1996, p.11: 39), que com tanta primazia foi estudado por Décio de Almeida Prado (São Paulo/SP, 1917 – idem, 2000), um dos raros autores a enfocar o nome de Paschoal Carlos Magno como um grande crítico de teatro, realizador e mentor do Teatro Amador no Brasil.

Ademais, sinto-me na audácia de expor alguns pontos que permearam a criação deste ensaio, e que de certa forma fazem ressonância na relação que muitas vezes estabelecemos com o mundo – a de espectadores -, que em si comportam olhares diferenciados – ricos de textualidades. (GUATTARI, 1992, p. 25)

Entre as preocupações surgidas encontrei o termo biografia, que em princípio pareceu-me cabível; a posteriori hesitei – optando por denominar a escrita como mosaica, embora ela carregue consigo a pesquisa biográfica.

Peço emprestado a Procópio Ferreira um fragmento de seu pensamento quando, evocando o labor do biógrafo propôs flanar sobre “retalhos catados aqui e ali, pacientemente, num mosaico de idéias e de episódios.” (BARCELLOS, 1999, p. 12) Diria que esses retalhos foram instrumentais de perenes leituras. Entre elas, uma discussão sobre biografia histórica, encabeçada por duas hagiografias – uma de São Francisco de Assis e outra de São Luís – do renomado historiador Jacques Le Goff (Toulon, França, 1924 – Paris, França, 2014).

O termo biografia, defendido por Le Goff não deixou de exprimir as dificuldades quanto à qualidade de publicações biográficas, “abundantes há alguns anos…”, contudo, sendo “a maioria dessas obras anacronicamente psicológicas” – pendendo aos valores do mercado oportuno. (LE GOFF, 1999, p. 20-21)

Independente do termo aplicado, compartilho com Le Goff, não apenas o afinco da pesquisa histórica, mas a carga particular da biografia “em meio a crise de mutação geral das sociedades ocidentais”; também levando a reflexão a questão do sujeito na biografia (o sujeito globalizante), dimensionado como uma procura utópica, por causa dos vácuos e “disjunções, que rompem a trama e a unidade aparente”.

Em meio a essas disjunções, o mosaico proposto tem seus feixes ficcionais, permitindo os encantos das utopias – à flâmula do desejo, da fantasia e da liberdade de criação como sugere o historiador Hilário Franco Jr. (São Paulo/SP, 1948 -), em Cocanha, prefaciado por Le Goff.

O corpus biográfico da tese foi um fato; contudo, plasticamente vislumbrado como um mosaico cortado incessantemente por experimentalismos e cenas clássicas.

Dadas essas premissas e para encerrar essas considerações proponho a abertura das cortinas desse palco imaginário.

Respeitáveis leitores, apresento-vos: Paschoal Carlos Magno em um mosaico cultural!

 

Lúcio ou Paschoal? É a partir do romance histórico: “Sol sôbre as palmeiras” marco autobiográfico, com espacialidade delineada e identificada pelo morro de Santa Teresa ou morro Paula Matos, na cidade do Rio de Janeiro, que o menino Lúcio personagem de Paschoal, frágil, enfermo torna-se o poeta e escritor/redator do jornal da família até chegar a ser o crítico e teatrólogo de larga importância no Brasil.

O percurso da diplomacia (1933-1968) foi para Paschoal, o caminho de formação intelectual e cultural. Mas seu ensejo por retornar ao Brasil foi se dando através da poesia e dos diários escritos em Atenas, Milão, entre outros lugares.

As idas e vindas do andarilho consular não fraquejou os importantes momentos de sua afirmação como animador e incentivador cultural, e até mesmo como mecenas assalariado. Mas foi na política que viu uma possibilidade de estabelecer-se no Rio de Janeiro. E, de certa forma criando um personagem pitoresco, comumente estigmatizado de “louco” e muito pertinente em tempos de ditadura militar.

Como louco foi passando por funis e estabelecendo as bases de seu teatro. Paschoal foi pouco cerceado pelo duro período, muito embora tenha declarado que “houve quatrocentos Teatros de Estudantes no Brasil, mas 1964, matou-os um a um.” (PASQUIM {197-}, p. 13-14. )

Muitas das pessoas que ficaram durante esse período, só conseguiram manter-se vivas através dos comboios culturais, em tese pouco vigiados, e em geral sob os auspícios do “louco e inofensivo” – como era chamado Paschoal pelos militares. Esse estigma foi oportuno para lançar as bases de resistência. Pois, era incomum imaginar uma grande quantidade de jovens aglomerados em trajetos pouco ou nada controlados, ditados pelas Barcas e Caravanas da Cultura (1963/1964/1968/1974/1975).

As Barcas foram projetadas por Paschoal para trafegar pelo Rio São Francisco; as Caravanas eram desdobramentos das Barcas, ou seja, trajetos realizados por terra, em regiões do Norte e Nordeste do Brasil: “…256 brasileiros… oito ônibus, dois caminhões carregando toneladas de livros e discos… 274 espetáculos…” (O Jornal, 1967).

As bases do teatro “paschoalino” eram polivalentes e improvisadas, além de buscar respeitabilidade para profissionais do teatro e princípios coletivizados em diferentes momentos, burlando as dificuldades quanto à ausência de investimentos.

Sua trupe era formada por moços que povoaram várias das construções de Paschoal, como o Teatro do Estudante do Brasil (1938), Teatro Duse (1952) e Aldeia de Arcozelo (1965). Tais empreendimentos elevaram Paschoal ao título de “Estudante Perpétuo do Brasil”, dado pela UNE (1956). Também acolheu e apoiou o Teatro Experimental do Negro, em 1944.

 

Paschoal Carlos Magno (Rio de Janeiro/RJ, 1906 – idem, 1980), Esther Leão  (Lisboa, Portugal, 1892 – Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1971), Jorge Kossonsky cercados pelos estudantes de Teatro, década 1940. (Acervo da família Carlos Magno)

 

Assim, os primeiros Festivais de Teatro foram se dando de maneira minuciosa quanto à formação. O grande exemplo fora a “Concentração dos Estudantes” à realização do Festival Shakespeare. Aulas de canto, esgrima, danças, línguas, palestras e leituras de textos.

 

Paschoal Carlos Magno, Rosa Carlos Magno e os 17 dos 18 estudantes de teatro que receberam bolsas de estudos na Europa – atividade criada e coordenada por Paschoal. Na foto: Otavinho Arantes, Alberto Carlos Magno, Isaac Bardavid, Ubiratan Teixeira, Oton Bastos, Valter Ponti, Armando Maranhão, Paulo Salgados dos Santos,  Maria Carimen Romcy, Orlando Macedo, Elida Gonçalves, Eduardo Garcez, Miriam Carmem, Tereza Raquel, Celme Silva – faltando no grupo Fernando Amaral. (Acervo da família Carlos Magno)

 

Como rebate das más línguas quanto aos grupos mistos, um diário de atividades publicados no jornal Correio da Manhã, oferecendo à aproximação do público, uma série de atividades monitoradas por profissionais que balizaram a seriedade da proposta.

Muito antes do primeiro albergue da juventude no Brasil (1973), Paschoal já lotava sua antiga residência – o Teatro Duse – acolhendo artistas e estudantes de passagem. Mas a sua primeira e grande postura se deu em 1929 com a criação da Casa do Estudante – parceria de Paschoal com d. Anna Nery.

Os primeiros Festivais de Teatros criados por Paschoal foram: I Festival (Recife, 1958), II Festival (Santos, 1959), III Festival (Brasília, 1961), IV Festival (Porto Alegre, 1962), V Festival (Rio de Janeiro, 1968), VI e VII Festivais (Aldeia de Arcozelo, 1971 e 1976); nomes como João Cabral de Mello Neto (Recife, Pernambuco, 1920 – Rio de Janeiro, RJ,1999), B. de Paiva (Fortaleza, Ceará, 1932 -), Plínio Marcos (Santos, SP, 1935 – São Paulo, SP, 1999), Sergio Cardoso (Belém, Pará, 1925 – Rio de Janeiro, RJ, 1972), Ariano Suassuna (João Pessoa, Paraíba, 1927 – Recife, Pernambuco, 2014), entre muitos outros nomes surgiram sob a égide de Paschoal.

 

Ariano Suassuna (João Pessoa, Paraíba, 1927 – Recife, Pernambuco, 2014), Miroel Silveira (Santos, SP, 1914 –  São Paulo, SP, 1988), Hermilo Borba Filho (Palmares, Pernambuco, 1917 – Recife, Pernambuco, 1976), e Paschoal Carlos Magno (Rio de Janeiro/RJ, 1906 – idem, 1980), 1959 (?). (Folha de São Paulo, 26 maio 1980)

 

A Aldeia de Arcozelo foi criada para ser uma Universidade Livre de Artes, mas pereceu pela falta de recursos e até como local último do desatino de Paschoal – ao ver-se endividado proclamou aos quatro ventos que iria atear fogo ao local.

Também foi na Aldeia de Arcozelo, sob controle da FUNARTE, que me deleitei em pesquisas (1999).  Na época, o local estava ermo, os documentos estavam jogados entre traças e destruição. Cheguei a propor à FUNARTE uma organização em mutirão com uma equipe de pesquisadores. Nunca tive um retorno de aceitação, nem mesmo dos meus préstimos pessoais em ato isolado. Alguns ofícios, cá e lá, entradas e saídas de seus representantes, e palavras de prioridades que rolaram ao vento.

 

A historiadora em seu ofício na Aldeira de Arcozelo/Paty do Alferes. (Foto de Maria do S. Nepomuceno, 1999)

 

O que eu pude registrar em documentos e fotos foram capitaneados para a construção da tese, além de vários outros textos que foram surgindo ao longo de uma temporalidade que permeou cerca de nove anos desde o término da tese. E, incansável, referendo este novo texto, e um projeto de refazer os trajetos das Caravanas e Barcas da Cultura.

 

Desenho livre do arquiteto Guilherme Madeira. Aldeia de Arcozelo, 1999

(*) Texto criado para a Revista Contexto (Revista Semestral do Programa de Pós-Graduação em Letras – Universidade Federal do Espírito Santo): Dossiê o Teatro e suas arenas, n. 17 – 2010-1, p. 43 a 53.

Referências:

BARCELLOS, J. O Mágico da expressão. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1999.

BARCELLOS, J. CPC da UNE: uma história de paixão e consciência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

BHABHA, H. K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

CHARTIER, R. Do palco à página: publicar teatro e ler romances na época moderna (séculos XVI-XVIII) Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.

COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo: FAPESP: Iluminuras, 1997.

FALCON, F. História Cultural: uma nova visão sobre a sociedade e a cultura. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

FRANCO JR., H. Cocanha: a história de um país imaginário. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1992.

LE GOFF, J. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro: Record, 2001.

LE GOFF, J. São Luis: biografia. Rio de Janeiro: Record, 1999.

MAGNO, Orlanda Carlos. Pequena história do Teatro Duse. Rio de Janeiro: SNT, 1973.

MAGNO, Paschoal Carlos. Poemas do irremediável. Rio de Janeiro: Cátedra, 1972.

MAGNO, P. C. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

MAGNO, P. C. Sol sobre as palmeiras. Rio de Janeiro: Letras e Artes, 1962.

MAGNO, P. C. Tudo valeu a pena. m.s., s.d.

MAGNO, P. C. Tempo que passa. Rio de Janeiro: s/ed., 1922.

IGGNACIO, G. M. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo: 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

MIRANDA, G. Os estudantes e o emergir da ribalta. Revista da APG/PUC-SP, ano VII, n. 13, 201-215, 1998.

MIRANDA, G. Da concentração dos estudantes ao festival Shakespeare. Revista da APG/PUC-SP, ano VIII, n. 16, 101-114, 1998.

MIRANDA, G. Uma nau de trilhos e bondes: o Teatro Duse. Revista da APG/PUC-SP, ano VI, n. 11, 142-154, 1997.

PRADO, D. A. Seres, coisas, lugares: do teatro ao futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

PRADO, D. A. O teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 1996.

SEVCENKO, N. Pindorama Revisitada: cultura e sociedade em tempos de virada. São Paulo: Peirópolis, 2000.

Desenho livre do arquiteto Guilherme Madeira. Aldeia de Arcozelo, 1999

Série Antonio PETICOV IV: Cérebro Full Circle

3 jun

Por Gisèle Miranda

 

 

Na imagem Full Circle é perceptível a realização de uma secção para que fosse possível ver o lobo da ínsula (a ilha). Embora, sem a representação dos lobos parietal e frontal  vê-se parte do lobo occiptal – lobo responsável pela absorção dos impulsos advindos da retina.

 

Antonio Peticov (Assis, SP, 1946-), Full Circle, 1996.

 

A secção também foi realizada na cavidade da aparente forma de vulcão, para aguçar a percepção visual. A primeira redoma que abraça a imagem central (o vulcão) mostra a perspectiva apenas de um lado.

O córtex cerebral se apresenta como uma lâmina que recobre todo o cérebro (o entorno), e se diferencia na sua arquitetura, assim como em suas funções. Sua estrutura é fundamental, pois capta os estímulos internos e externos, onde todos os sentidos estão presentes. Pela medição do córtex cerebral, o indivíduo passa a ter conhecimento da temperatura, da dor.

Peticov privilegia, mesmo que em parte, o lobo occiptal (visão). Portanto, a dimensão procurada na imagem do córtex cerebral é da totalidade de absorção e interpretação dos sentidos, direcionando-os a sua plena capacitação.

A circunferência concentra o poderio revolucionário das sensações. Unidos a esses sentidos, o amarelamento do tempo e do experienciar adquiridos. A profundidade que a coloração amarela se propõe vai de encontro à secção da imagem central, em um tom que, segundo Kandinsky: reflete a beleza interior e uma potencialidade moderadora. (In: Do Espiritual na Arte, 1990, p. 92)

Caso as sensações não fossem canalizadas e interpretadas teríamos apenas sinais vazios. O prazer e o desprazer são reconhecidos, e assim, injetados em todo o nosso corpo através de atrações e repulsas.

 

Considerações finais

Através da série Cérebros de Antonio Peticov foi possível absorver uma trama histórica que percorreu trajetos pouco utilizados pelas artes – a busca do arcabouço científico; e, da mesma forma, a necessidade da pluralidade para a dureza científica.

Na série foram encontrados significados coletivos, de leituras diversas que convergiram na complexidade humana e artística. O armazenamento plástico de Peticov possibilitou a saída dos limites físicos de nosso corpo para estar interposta como uma extensão da memória à maquina e à vida. (Le Goff, História e Memória, 1992, p. 425-426)

A memória é o centro de armazenamento das histórias e que ascende em temporalidades passado/presente/futuro – tendo em seu bojo a liberdade para que a servidão não impere pelo esquecimento. Pelo mesmo ângulo, Peticov propôs, através da reflexão plástica, o uso da maquinaria provendo-a com sabedoria e evitando a servil estagnação.

Série Antonio PETICOV III: Cérebro O Sonho de Xamã

2 jun

Por Gisèle Miranda

 

O Sonho de Xamã é fruto da trajetória de Peticov. Vozes, olhares e odores de quem cria. É um conjunto maquinal excitado para produzir respostas. Há o rigor de mostrar-se condizente no aspecto científico, porém tem seu peso direcionado a plasticidade criativa.

 

Antonio Peticov (Assis, SP, 1946-), O Sonho de Xamã, 1996

 

Na representação de Peticov, a imagem de uma árvore (em seu corte ao meio exato) que corresponde ao tálamo, situado na base do cérebro e tendo por designação o acasalamento de funções; posteriormente, a função é delegar atividades a locais específicos.

No tálamo há ramificações de retransmissões cooptadas pelos núcleos[1] em suas funções de motricidade, memória, vigília. Cabe ressaltar que a densidade de uma lesão depende muito da região, ou seja, ter uma grande lesão e nada ocasionar ou ter uma minúscula lesão e ser fatal.

Sobre o título dado a imagem – o sonho de Xamã – Peticov reverencia as práticas diferenciadas; vale dizer: ritualística primitiva de evocações e exorcismos através de Xamãs (feiticeiros originários dos povos da Mongólia e Sibéria Oriental). Embora conhecido como prática ritualística, o Xamanismo é tido como religião para esses povos. A complexidade da memória primitiva está no peso de um passado a ser controlado por eleitos, ou seja, homens-memórias (genealogistas).

A imagem nos remete à terras distantes, assim como práticas cotidianas e posturas históricas. A peculiaridade mítica também remete a questão disjuntiva e conjuntiva em relação ao presente. Graças ao ritual, o passado disjunto do mito articula-se, por um lado, a periodicidade biológica e sazonal, e por outro, com o passado conjunto que, ao longo das gerações, une os mortos e vivos. (Le Goff, 1992, p. 210)

A cor branca que insufla como uma aura ao redor das fibras do tálamo pode ser identificada como Xamata (manto sagrado). Partindo desse prisma, torna-se possível inferir sobre a intencionalidade do artista em constatar diferenciações de condutas, práticas culturais elaborados pela maquinaria humana.

 

 


[1] Núcleos: agrupamento de neurônios localizados dentro do Sistema Nervoso Central. Fora desse Sistema, chama-se Gânglio.

Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème

7 abr

Por Gisèle Miranda

Toda natureza produz seus monstros… esquece-se que uma anomalia é o fato em busca de  interpretação. Paul Zumthor, 1993, p. 17.

Paul Zumthor em A Letra e a Voz [1]

Conheci o trabalho de Zumthor via departamento de Comunicação e Semiótica da PUC/SP, pouco antes de seu falecimento, em 1995.[2].

Zumthor era poeta e medievalista; esteve no Brasil pela primeira vez em 1977, e ficou fascinado pela Literatura de Cordel como exemplo de que as tradições garantem continuidades;  sua memória vocal é corpórea e emocional, primordial para compreender a tradição oral.

O autor absorveu a história da música, teatro e pintura tendo como base a instauração dos princípios da literatura medieval através da voz e da performance.

Zumthor foi contra a discriminação dicotômica do popular/erudito, por isso foi extremamente cauteloso ao uso dos termos. Por exemplo: “popular” utilizado entre aspas e deveras atento às suas diferentes aplicações, principalmente exaltando a pontuação poética da voz.

Com Bakhtin, Zumthor se aproximou via alegoria do Realismo Grotesco[3]presente nos trabalhos artísticos de Bosch, Goya, entre outros.

GOYA, Two old people eating soup, 1820-21

Embora o estudo da oralidade tenha se dado tardiamente (década de 1950) – a oralidade estava ocultada e recalcada em nosso inconsciente cultural e escravizados pelas técnicas escriturais e pela ideologia que elas secretam[4]. É justamente nesse momento que surge a ideia de oposição do “popular” e “erudito”, pois a literatura erudita marca o liame do que é admissível deixando de lado o inadmissível e o conjecturado como folclore ou como ausência de escritura.

O livro A Letra e a Voz fala da teatralidade do discurso, da poesia existente na textualidade. Distinguindo as diferenças da tradição oral (duração) e da transmissão oral (movimento performático), assim como suas constituições temporais.

A performance, segundo Zumthor equilibra a comunicação com a recepção. Dessa forma, o autor se organizou através de marcos cronológicos para a realização da poética da voz exemplificado o período correspondente de seus estudos como medievalista. Ele elaborou seu livro de maneira descontínua valsando por várias áreas.

Vertentes de Geneviève Bollème

É interessante compor O Povo por escrito de Bollème a discussão de Zumthor. Bollème enfoca o julgamento do termo “popular”. Essa investigação se deu através dos estudos de linguas e absorções do termo – de Platão, Sartre, Foucault… concentrando em Michelet, Luxan e Simone Weil. Segundo Le Goff, que prefaciou O Povo por Escrito, Bollème conseguiu tecer sua investigação no campo da reflexão e da ação.

O uso do termo “popular” remete a apropriação política que, em geral é utilizada de modo indireto para falar do povo sem nomeá-lo. Tal é o prisma de Michelet, ou seja, o povo como memória onde coabita a consciência política, ou como Luxan que situa sua escrita como prática política (arma).

Pela via de Simone Weil – através da infelicidade da condição operária –, a filósofa colocou-se em laboratório no vivenciar de uma operária até esbarrar na solidão e em um monólogo que amarga nos seus limites.

Do real e do imaginário; da prática e da teoria; da vida e da obra. E, compreende que o povo não se define, nem se pensa, nem se fala, e indaga: pode-se apreendê-lo em sua ação ou haverá pelo menos uma representação dele? Então, diz: o povo é a própria revolução, pois ele se apresenta como poder de participação e de integração, no momento em que a comunidade unânime subverte qualquer hierarquia e qualquer ordem estabelecida. [5]

GOYA, O sono da razão produz monstros, 1797-8

(*) Sobre a imagem: Goya: “O sono da razão produz monstros”, por Sergio Paulo Rouanet:  “A coruja tirânica que quer impor sua vontade ao artista é a razão narcísica do hiper-racionalismo. Os morcegos são as larvas e os fantasmas do irracionalismo. Dois animais deficitários, truncados. O morcego tem uma audição aguda, mas é cego. A coruja enxerga de noite, mas não de dia. Falta um terceiro animal na zoologia de Goya, mais completo. Não, não falta. Ele está no canto direito, enorme, olhando fixamente o espectador. É um gato. O gato ouve tudo e tem uma visão diurna e noturna. Sabe dormir e sabe estar acordado. E sabe relacionar-se com o Outro, sem arrogância, ao contrário do seu primo selvagem, o tigre, e sem servilismo, ao contrário do seu inimigo domestico, o cão. É a perfeita alegoria da razão dialógica, da razão que despertou do seu sonho, é atenta a todos os sons e todas as imagens, tanto do mundo de vigília como do mundo onírico, e conversa democraticamente com todas as figuras do Outro, sem insolência e sem humildade”. V. Tb. http://bit.ly/bXZ9Qa

Referências:

BAKHTINE, Mickhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, Editora da Universidade de Brasília, 1993

BOLLÈME, Geneviève. O povo por escrito. Tradução Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

FERREIRA, Jerusa Pires. Cavalaria em Cordel: o passo das águas mortas. São Paulo: Hucitec, 1993.

ROUANET, Sergio Paulo. A Deusa Razão. In: NOVAES, Adauto (Org.) A Crise da Razão. São Paulo: Companhia das Letras; Brasília, DF: Ministério da Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Arte, 1996, pp. 298-299)

ZUMTHOR, Paul. A Letra e voz: a “literatura” medieval. Tradução Amálio Pinheiro & Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Tradução Jerusa Pires Ferreira; Maria Lúcia Diniz Pochat; Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.


[1] Zumthor nasceu em Genebra, 1915 e faleceu em  Montreal, 1995.  O livro A Letra e a Voz foi escrito entre 1982 e 1985. Três situações de cultura  na Oralidade: primária e imediata (sem contato com escritura); oral mista (coexiste com a escritura – defasada –dos séculos V ao XV, a oralidade estava mais para a mista, conforme época, regiões, classes sociais e indivíduos); oral segundo (com base na escritura – valores da voz no uso do imaginário – ou seja, cultura letrada.

[2] Através das traduções de Jerusa Pires Ferreira, pesquisadora da Novela de Cavalaria, temas medievais e de estudos orais e relações escrita/oral. Professora da ECA/USP e do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC/SP.

[3] Realismo Grotesco: “… sistema de imagens da cultura popular cômica … o cósmico, o social e o corporal… numa totalidade viva. IN: A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, 1993, p. 17.

[4] Zumthor, 1993, p. 8.

[5] Bollème, 1988, p. 131; 139; 140 e 152.

Série ficcional H. Miller – XIII: À Procura

24 mar

Por Lia Mirror e Gisèle Miranda


Minha alma continua liberta das amarras do comum.

Minhas palavras presas às inconstâncias.

(Lia Mirror, Paredes, 2008)


Estava à procura de palavras para sorver os instantes que se alastraram em horas. Foi então que ouvi em doces letras: ´fazer-se´ na fabricação do meu próprio mel – palavras, signos, paisagens com as folhas do campo e das ervas daninhas. (*) Nessa fabricação vejo Miller envolto a neblina, e em passos largos direcionados ao meu chamado.

Miller! Clio é imperdoável com você! Você aguça o meu animal. No meu presente você interpõe uma temporalidade dispare. Comigo dou-te a liberdade para o futuro. Sou Mnemosynes, a tua consciência. Ou seja, Hyde e Jack, ou ainda, remédio e cura.

– Minha cara Lia, desta forma vou Ler-te mais! Insaciavelmente!

Rachel Korman (instalação), 2009

– Sua leitura é muito carnal apesar dessa nua alma que te envaidece. Você deixa rastros libidinosos. Diga-me: existe amizade entre um homem e uma mulher sem os desejos que os aproximam?

– Se há desejos como ignorá-los? Podes entreter; impor verdades em mentiras pela educação machista; devo admitir uma moral que propicia as deixas como gueixas. Ao estender as palavras diria que tenho a vantagem da foda masculina. Estamos falando da educação e de suas inserções no tempo. Cá estamos minha doce e sedutora (e arredia).

– Suas palavras são mãos. Suas palavras têm bocas e línguas. Você é irresistível, Miller… pernicioso. Com o slogan ´amigos´ você se aproxima e aguarda o tempo necessário. Faz o tempo ser selvagem e une vida e morte.

Miller acendeu seu cigarro e cobriu meu corpo nu com a nossa produção de folhas do campo e ervas daninhas. Com ares de promessa: prometeu e meteu os pés e as mãos. Mentiu e meteu o seu sexo.


(*) LE GOFF, J. História e Memória – em um momento Annales – reverberando o pulsar do historiador.

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