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Série ficcional H. Miller XIX: o desvio na história

15 maio

Por Lia Mirror, Laila Lizmann e Gisèle Miranda

 

“Baudelaire simplesmente desnudou o coração; Rimbaud arranca o seu e o devora lentamente…” (Miller, 2003, p. 121)

Estava ilhada sob uma chuva torrencial. O vento uivava. Abracei a parede daquele abrigo em pé sobre o banco. Chorei e maldisse Henry Miller pelo silêncio secular, nem mesmo as poucas palavras inscritas.

A tempestade ou o intempestivo? Prendi a respiração e desejei morrer pelo impulso de salvação da liberdade. Não devo ter ficado muito tempo sem respirar, mas quando voltei, a chuva havia parado. Respirei como um orgasmo abraçando a parede que me consolou.

– Moça! Aqui passa o ônibus 455?

Não quis acreditar que alguém estivesse falando comigo. De onde ele surgiu? Cadê a chuva? Ele fitou-me sem esboçar estranhamento do quase ato sexual com a parede. Tirou do bolso um papel dobrado e colocou sobre o banco próximo aos meus pés e se foi. Agachei e desdobrei aquele papel que dizia: “Estaremos na mesa do seu Alberto. E eu, doce Lia… à espreita. H. Miller”. (*)

– Maldito seja! Sempre à espreita da carne e do sangue! Você é bendito entre os libertos, ditos e malditos do escárnio.

Fui ao encontro deles no restaurante sem nome na José Livres, número 455. Estava ansiosa por tê-los novamente, nada me satisfaria tanto. Quando adentrei o recinto vi a mesa do seu Alberto vazia. Busquei-os e nada.

Sentei e logo chegou o Antonio que não era Conselheiro, nem casamenteiro; beijo-me a mão e perpetrou um olhar profundo. Nesse olhar eu vi Rubens, Goya e seus Saturnos. Vi Arthur Bispo do Rosário com seu estandarte vindo em minha direção com as seguintes palavras: O impossível só pode ser atingido por investidas e o nome para isso é loucura[1]; vi José Leonilson bordando sua bagagem de mão “O Mentiroso”; vi montanhas de livros abertos gritando palavras. Mas não vi o seu Alberto – foi o que pensei, antes de desfalecer nos braços de Antonio.

Quando acordei não era Antonio que me acolhia; estava nos braços de Henry Miller;  ele sussurrou fitando-me: Eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro… um mundo inexplorado.[2]

 

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

MILLER, Henry. A hora dos assassinos (um estudo sobre Rimbaud). Trad. Nilton Persson. Porto Alegre: L & M, 2003.

MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963.

Sobre José Leonilson

MESQUITA, Ivo. Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. São Paulo: Projeto Leonilson/ Cosac & Naify, 1997.

(*)  “a mesa do seu Alberto” Batucada, Miller e a mesa do seu Alberto


[1] Miller, 2003, p. 118.

[2] Miller, 1963 a, p. 177.

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“A Estranha Derrota” (*)

19 jun

por Gisèle Miranda

  

“Leo não consegue mudar o mundo. O nome do artista ausente pulsa vida na memória como um legado. Que memória é essa? Que geração é essa?

Como pensar uma exposição de Leonilson sem o sarcasmo ou a subjetividade de falar politicamente?

 

Leonilson (1957-1993), Leo Não Consegue Mudar o Mundo, 1989

Sim, politicamente sobre: “Leo (que) não consegue (iu) mudar o mundo”, sobre a AIDS, avassaladora nas décadas de 1980-90[1]. Um corpo marcado pela homofobia e pelos danosos anos de ditadura militar no Brasil. Um politicamente incorreto[2] sobre o poder macho, sobre a violência e o silêncio do Estado

Há um Leonilson associado ao inconsciente linguístico. Palavras exacerbadas, tecidas, bordadas, escritas: Mentiroso, Ninguém, Vazio, o espelho, o tombo, a bibliotecaJosé  (Leonilson Bezerra Dias ).  Um interno de um Estado como outrora foi Arthur Bispo do Rosário.

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Como já dito há os que se fortalecem diante da falta de memória; o que nos faz um povo de cidadania ainda em construção pela herança cultural, que sobrevive sob vários aspectos, e preponderantemente na violência.[3]

O legado de Leonilson nos aponta isso. E o que foi delegado à família, aos amigos está na culturalidade brasileira, que nos remete a um povo de encontros históricos, miscigenado, sofrido e carente. Isso reflete diretamente na educação que  como governar e analisar estão no rol das impossibilidades. Ou, seriam: nos possíveis a partir das impossibilidades?

Penso que o momento da educação brasileira é de INFELICIDADE, de VAZIO e de patrulhamento que fortalece um paradoxo de ervas daninhas, para acobertar sua falência múltipla de órgãos. Do berço à cafetinagem das ditas empresas educacionais de ensino superior.

Que fique claro que – de Leonilson, Bispo do Rosário, a Nuno Ramos; de Cartola, Adoniran Barbosa a Sabotagem; Mario Quintana, Leminski, a Cora Coralina; e por aí vai. Não ignoro as diferentes linguas de nossa lingua; é irrefutável! Anterior as minúcias da oralidade resgatada na década de 1950.[4] As manifestações do inconsciente linguístico estão por aí! Não compartilho a discriminação dicotômica do popular/erudito, pois se cria um modo infeliz para falar do povo.

Tampouco visto a carapuça de ´xerife da língua´ – um espelho refletido de patrulhamento ideológico utilizando noções históricas, e paradoxos do poder,  fazendo-se de politicamente incorreto, num momento INFELIZ, num poder sem precedentes da comunicação, que passa agora claramente por um renascimento da barbárie, como bem lembrado por Edward Said sobre as perspectivas do historiador Eric Hobsbawm. [5]

Será que terei a liberdade de falar sobre esse assunto sem que eu seja a força da Ordem em seu espelho? Ordem pela desordem.

Não compactuei com o MEC – seja na tentativa de abolir Monteiro Lobato à retirada do Kit anti-homofobia[6]. Acho uma INFELICIDADE.

Um VAZIO, que peço emprestado a LEONILSON, em seu sarcasmo divino, a partir de uma belíssima curadoria – Sob o peso dos meus amores.[7] Nesse modo subjetivo e não dicotômico de falar de política.

Leonilson (1957-1993), Sob o Peso dos Meus Amores, 1990.

Notas:

(*) Reverberando BLOCH, Marc. A Estranha Derrota. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

[1] 1º de Dezembro: Dia Mundial de Combate à AIDS e sua História

[2] O politicamente incorreto com o seguinte parâmetro: de Leonilson a Nuno Ramos – com sua obra Bandeira Branca, desfeita na 29ª Bienal de Arte de São Paulo sob o artífice do correto. (Cura-dores: “arte para quê?”/

No entanto, para exemplificar uma mascarada vestidura perigosa e criminosa, do politicamente incorreto, a recente fala do aclamado diretor dinamarquês Lars Von Trier, quando em uma entrevista coletiva em Cannes falou sobre o nazista. Interessante perceber que alguns de seus fãs incorreram  pelo mesmo caminho ao defenderem Lars Von Trier nesse momento, como politicamente incorreto.  Já me identifiquei como ‘leitora’ dos filmes de Lars neste blog, mas deixo claro que Lars e fãs foram partícipes de uma história de horror. “Vale à pena ler o filósofo Islavoj Zizek, em entrevista a Revista Época, em 30 mai. 2011:No caso de Lars tem outra questão: o artista deve ser julgado pelo que ele faz. O que eles sabem está no que eles produzem. Muitos deles são idiotas.” (…).

[4] ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a literatura medieval. Trad. Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.ZUMTHOR, P. Tradição e esquecimento. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich São Paulo: Hucitec, 1997.

[5] SAID, Edward. Reflexões sobre o Exílio e outros enssaios. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 234.

[6] Vazios que refletem bullying, neonazistas, homofóbicos, queima de índios, agressões a nordestinos, e patrocínios de diversas guerras que superam os números de mortos das duas últimas guerras mundiais.  V. Tb. STF nega pedido para suspender livro de Monteiro Lobato em escolas públicas

[7] Sob o Peso dos Meus Amores, 2011: elogios à curadoria de Bitu Cassundé e Ricardo Resende, assim como as participações no seminário de: Ana Lenice Dias, Lisette Lagnado, Paulo Herkenhoff, Ricardo Resende, Maria Esther Maciel e Carlos Eduardo Riccioppo.

 

(**) Sugestão:

MESQUITA, Ivo. Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. São Paulo: Projeto Leonilson/ Cosac & Naify, 1997.

 

Cura-dores: “arte para quê?”

28 mar

Por Gisèle Miranda


A arte prolifera, mas não seria esse terreno feliz e arenoso a persuasão do vazio? O vazio revogado é o elemento que paira sobre as artes?

Leonilson, Cheio, Vazio: bordado e costura sobre voile e tecido de algodão, 1993

Hans Urich OBRIST ao reunir onze entrevistados, outrora curadores de êxitos deixou escapar que há de se ater com cuidado o tempo tranquilo da arte.

Singularidades técnicas, formações – o ´olhar´ – agregado de valores do tempo e prerrogativas morais, o ´olhar´ incisivo de Duchamp como fonte de ´olhares’, da geração do final dos anos de 1960 que ativou o ofício curador para triunfar em uma geração que viria abrir o leque da arte conceitual – por entre  ditaduras e democracias.

Walter Zanini está na teia dos onze curadores. Obrist o entrevistou em parceria com Ivo Mesquita e Adriano Pedrosa em 2003.

Zanini relembrou a crise do MAM/SP, instituição privada que foi o vetor da criação da Bienal de Artes de São Paulo, em 1951, ou seja, a flutuação dos anos de nacionalismo à internacionalização e industrialização da economia brasileira que antecederam aos longos vinte e um anos de ditadura militar no Brasil e, obviamente, os efeitos danosos deixados pela censura militar nas artes em geral. E como senão bastasse, não havia aproximação de países vizinhos como Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela porque também esses países passaram a viver sob ditaduras militares.

Particularidades temporais – Entrelaces e rupturas da 27ª Bienal às expectativas da 30ª Bienal

27ª Bienal de Artes de São Paulo (2006),  curadoria de Lisette Lagnado com título de um curso de Roland Barthes indiciou um vetor em meio às diferenças: “Como viver junto” ?

Mas, o que vem ocorrendo nas artes visuais (por exemplo) para que possamos esboçar na pichação, uma crítica policiada a um estado feliz, arenoso e vazio? Ignorar?

Em desdobramentos (ou rupturas), a 28ª Bienal (2008) sob curadoria de Ivo Mesquita –  foi vítima  (?) de pichações; também uma galeria de arte e uma faculdade de arte, ambos na cidade de São Paulo, e mais, o encarceramento de jovens do “pixo” de Belo Horizonte.[1]

A 29ª Bienal (2010), sob curadoria de Agnaldo Farias defendeu a idéia de um espaço vazio para destacar a arquitetura interna de Oscar Niemeyer. Mas a indiscutível beleza arquitetônica acabou dando o tom pejorativo da Bienal do vazio, a partir da questão: o que deve ser importante – a arquitetura ou o conjunto de obras da Bienal? Além, evidentemente do poli (ciamento) ou politicamente correto  que preponderou ao ser desfeita a obra Bandeira Branca do artista Nuno Ramos.

A 30ª Bienal de Arte de São Paulo (2012) estave sob curadoria do venezuelano Luis Pérez-Oramas, que estabeleceu seu artista de destaque – Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), interno de um manicômio, enjeitado social que caiu nas graças da grande arte.

A “figura periférica” de Bispo do Rosário foi posta em cena na Bienal de Perez-Orama  através da “invenção da linguagem”. Sim, linguagem periférica, símbolos resgatados pela inventividade dos magníficos objetos renomeados e realocados; pelos mantos bordados  por linguagens de um artista pleno, em um mundo desconhecido e encarcerado por ser diferente.

Que venha Arthur Bispo do Rosário! Que Arthur Bispo do Rosário nos permita a arte da diferença, neste aparente momento feliz, politicamente correto de proliferação artística.

Arthur Bispo do Rosario Manto da Apresentação Tejido e hilo. 118. 5 x 141 x 20 cm, s/d

Referências e sugestões:

AMARAL, Aracy. Arte para que? São Paulo: Nobel/ Itaú Cultural, 2003

OBRIST, Hans Urich Obrist. Uma breve historia da curadoria. Trad. Ana Resende. São Paulo: BEÏ Comunicação, 2010.

GREENBERG, Clemente e o Debate público. (Org. Glória Ferreira e Cecília Cotrim; Trad. Maria Luiza Borges). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed. 2001.

GRUPO de estudos sobre curadoria. São Paulo: MAM, curadoria de Tadeu Chiarelli, 1999.

Sobre artista Arthur Bispo do Rosário por Márcio Seligmann-Silva, clique aqui

Sobre o artista Leonilson, referências necessárias de Ivo Mesquita e Lisette Lagnado. Em exposição Sob o Peso do meus Amores sob curadorias de Bitu Cassundé e Ricardo Resende. V. Tb. Texto do Blog Tecituras sobre Leonilson, política e educação https://tecituras.wordpress.com/2011/06/19/%E2%80%9Ca-estranha-derrota%E2%80%9D/

 

Bienais de Arte de São Paulo, Salve Basquiat!

Arte Conceitual, ar e ar!

Documentário de João Wainer e Roberto Oliveira – PIXO http://www.youtube.com/watch?v=KHVwEq97ukg

Documentário de Vladmir Seixas  http://www.youtube.com/watch?v=UHJmUPeDYdg


[1] http://olhodecorvo.redezero.org/nova-cruzada-moral-e-caca-as-bruxas-o-pixo-em-belo-horizonte/“a grafia “pixo” no lugar de “picho’, conforme o uso que os ativistas fazem, diferenciando-se assim do termo oficial, que se tornou pejorativo” (Garrocho, L. C.) Sugestão Documentário de João Wainer e Roberto Oliveira – PIXO
http://www.youtube.com/watch?v=KHVwEq97ukg

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