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Cura-dores: “arte para quê?”

28 mar

Por Gisèle Miranda


A arte prolifera, mas não seria esse terreno feliz e arenoso a persuasão do vazio? O vazio revogado é o elemento que paira sobre as artes?

Leonilson, Cheio, Vazio: bordado e costura sobre voile e tecido de algodão, 1993

Hans Urich OBRIST ao reunir onze entrevistados, outrora curadores de êxitos deixou escapar que há de se ater com cuidado o tempo tranquilo da arte.

Singularidades técnicas, formações – o ´olhar´ – agregado de valores do tempo e prerrogativas morais, o ´olhar´ incisivo de Duchamp como fonte de ´olhares’, da geração do final dos anos de 1960 que ativou o ofício curador para triunfar em uma geração que viria abrir o leque da arte conceitual – por entre  ditaduras e democracias.

Walter Zanini está na teia dos onze curadores. Obrist o entrevistou em parceria com Ivo Mesquita e Adriano Pedrosa em 2003.

Zanini relembrou a crise do MAM/SP, instituição privada que foi o vetor da criação da Bienal de Artes de São Paulo, em 1951, ou seja, a flutuação dos anos de nacionalismo à internacionalização e industrialização da economia brasileira que antecederam aos longos vinte e um anos de ditadura militar no Brasil e, obviamente, os efeitos danosos deixados pela censura militar nas artes em geral. E como senão bastasse, não havia aproximação de países vizinhos como Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela porque também esses países passaram a viver sob ditaduras militares.

Particularidades temporais – Entrelaces e rupturas da 27ª Bienal às expectativas da 30ª Bienal

27ª Bienal de Artes de São Paulo (2006),  curadoria de Lisette Lagnado com título de um curso de Roland Barthes indiciou um vetor em meio às diferenças: “Como viver junto” ?

Mas, o que vem ocorrendo nas artes visuais (por exemplo) para que possamos esboçar na pichação, uma crítica policiada a um estado feliz, arenoso e vazio? Ignorar?

Em desdobramentos (ou rupturas), a 28ª Bienal (2008) sob curadoria de Ivo Mesquita –  foi vítima  (?) de pichações; também uma galeria de arte e uma faculdade de arte, ambos na cidade de São Paulo, e mais, o encarceramento de jovens do “pixo” de Belo Horizonte.[1]

A 29ª Bienal (2010), sob curadoria de Agnaldo Farias defendeu a idéia de um espaço vazio para destacar a arquitetura interna de Oscar Niemeyer. Mas a indiscutível beleza arquitetônica acabou dando o tom pejorativo da Bienal do vazio, a partir da questão: o que deve ser importante – a arquitetura ou o conjunto de obras da Bienal? Além, evidentemente do poli (ciamento) ou politicamente correto  que preponderou ao ser desfeita a obra Bandeira Branca do artista Nuno Ramos.

A 30ª Bienal de Arte de São Paulo (2012) estave sob curadoria do venezuelano Luis Pérez-Oramas, que estabeleceu seu artista de destaque – Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), interno de um manicômio, enjeitado social que caiu nas graças da grande arte.

A “figura periférica” de Bispo do Rosário foi posta em cena na Bienal de Perez-Orama  através da “invenção da linguagem”. Sim, linguagem periférica, símbolos resgatados pela inventividade dos magníficos objetos renomeados e realocados; pelos mantos bordados  por linguagens de um artista pleno, em um mundo desconhecido e encarcerado por ser diferente.

Que venha Arthur Bispo do Rosário! Que Arthur Bispo do Rosário nos permita a arte da diferença, neste aparente momento feliz, politicamente correto de proliferação artística.

Arthur Bispo do Rosario Manto da Apresentação Tejido e hilo. 118. 5 x 141 x 20 cm, s/d

Referências e sugestões:

AMARAL, Aracy. Arte para que? São Paulo: Nobel/ Itaú Cultural, 2003

OBRIST, Hans Urich Obrist. Uma breve historia da curadoria. Trad. Ana Resende. São Paulo: BEÏ Comunicação, 2010.

GREENBERG, Clemente e o Debate público. (Org. Glória Ferreira e Cecília Cotrim; Trad. Maria Luiza Borges). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed. 2001.

GRUPO de estudos sobre curadoria. São Paulo: MAM, curadoria de Tadeu Chiarelli, 1999.

Sobre artista Arthur Bispo do Rosário por Márcio Seligmann-Silva, clique aqui

Sobre o artista Leonilson, referências necessárias de Ivo Mesquita e Lisette Lagnado. Em exposição Sob o Peso do meus Amores sob curadorias de Bitu Cassundé e Ricardo Resende. V. Tb. Texto do Blog Tecituras sobre Leonilson, política e educação https://tecituras.wordpress.com/2011/06/19/%E2%80%9Ca-estranha-derrota%E2%80%9D/

 

Bienais de Arte de São Paulo, Salve Basquiat!

Arte Conceitual, ar e ar!

Documentário de João Wainer e Roberto Oliveira – PIXO http://www.youtube.com/watch?v=KHVwEq97ukg

Documentário de Vladmir Seixas  http://www.youtube.com/watch?v=UHJmUPeDYdg


[1] http://olhodecorvo.redezero.org/nova-cruzada-moral-e-caca-as-bruxas-o-pixo-em-belo-horizonte/“a grafia “pixo” no lugar de “picho’, conforme o uso que os ativistas fazem, diferenciando-se assim do termo oficial, que se tornou pejorativo” (Garrocho, L. C.) Sugestão Documentário de João Wainer e Roberto Oliveira – PIXO
http://www.youtube.com/watch?v=KHVwEq97ukg

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BIENAIS DE ARTE DE SÃO PAULO (salve, Basquiat)

2 mar

Por Gisèle Miranda

 

Minha intenção com este texto é problematizar alguns acontecimentos da 28ª Bienal de Arte de São Paulo. Tais como: a abertura oficial da Bienal; o fato de um dos andares do prédio da Bienal sem obras, o que gerou a frase ‘Bienal do vazio’ e a pichação ocorrida dentro do prédio durante a Bienal.

Porém, o percurso que farei remete a 1ª Bienal de Arte de 1951, na época local adaptado. Ano em que foi pela segunda vez empossado o presidente Getúlio Vargas (1882-1954), pelas mãos de seu antecessor presidente Gaspar Dutra (1883-1974).

Vargas historicamente ficou conhecido como um ‘nacionalista’ de práticas ‘populares’ e ‘populistas’ (criação da carteira de trabalho, o aumento de 100% do salário mínimo, ‘o petróleo é nosso’, entre outros). Mas por outro lado, cometeu o inesquecível e inequívoco apoio ao Fürer, através do ato de deportação a Alemanha de Olga Benário Prestes (1908-1942), grávida do então, ‘cavaleiro da esperança’ Carlos Prestes (1898-1990). Olga quando entregue ao nazismo foi assassinada, sendo uma dos seis milhões de judeus assassinados na história do holocausto.

Não perdi o fio Ariadne, apenas faço um leve apanhado histórico do entorno da 1ª Bienal. E o destaque do ‘nacionalismo’ que aludia o governo ia na contra mão dos questionamentos levantados para a Bienal pelo organizador da mesa redonda, a figura de Flávio de Carvalho (1899-1973), arquiteto, pintor e performer que participou do ‘modernismo’ da década de 1922.

Performance de Flávio de Carvalho: traje tropical, 1956.

As discussões tomaram corpo via questões:

a) por que sob auspícios dos ‘autoritários’ e já ultrapassados ‘modernistas’?

b) Arte de grã-fino?

c) Qual o significado da Bienal?

d) Será que obra realizada por um louco é arte?

e) Arte figurativa ou abstrata?

As questões acima geraram muitas polêmicas e até mesmo ‘tapas’.  Os antigos ‘modernistas’ foram massacrados. E, sobre a questão – arte de ‘louco’ ou pessoas com problemas psíquicos poderiam ser artistas – chamo a discussão o trabalho pioneiro no Brasil da psiquiatra junguiana Nise da Silveira (1905-1999), que respondeu com resultados indiscutíveis, fechando assim, não uma questão, mas discutindo o preconceito. Vieram Emygdio de Barros (1895-1986), Raphael Domingues (1912  – 1979 ) entre outros; e se não bastar, o divino Arthur Bispo do Rosário (1909-1989).

Arthur Bispo do Rosário com seu manto bordado s/d

Sobre figurativo ou abstrato houve reverberação na nova geração de artistas de 1951, que ficou dividida em dois grupos manifestos: o ‘Ruptura’ encabeçado por Waldemar Cordeiro (1925-1973), Abstracionista, Concretista e, em 1959, Neoconcretista. Versus o ‘manifesto contra o manisfesto’ ou o segundo grupo – ‘Consequência’ -, cuja participação de Gontran Guanaes Netto (1933-), figurativo, e de comprometimento político permanece nos dias de hoje. Embora hoje essa divisão não seja polêmica como outrora.

A segunda Bienal, já no prédio projetado por Oscar Niemeyer (1907-2012) e Burle Marx (1909-1994) no Parque do Ibirapuera continuou rançosa, pois perdurava o questionamento sobre o significado da Bienal. Problemática que ficou em segundo plano já que o importante foi associar a Bienal aos festejos do IV Centenário de São Paulo, ou seja, em 1954, ano do suicídio do então presidente Getúlio Vargas.

As Bienais percorreram tempos em que seu significado ficou abafado. Tempos adversos, tempos de ditadura militar em que o artista Cinético e alquímico Julio Le Parc (1928-) protestou com sua ausência na Bienal de 1964. Tempos de reabertura democrática, ‘diretas já’, ‘impeachment’, enfim, tempos em que a arte tomou a dianteira e assumiu sua potência.

Nada de bola de cristal, mas a natureza própria de sua indomável ou insubmissa coragem de compor os tempos sendo sua própria vanguarda. E, ao mesmo tempo, cobrindo um necessário olhar ao passado para justificar sua existência e seu indiscutível fascínio de estarrecer, criar,  fazer, tocar as feridas e as consciências. De criar um possível -um devir.

Após a experiência da Bienal, reporto-me em memória na cobertura  da 27ª Bienal de Arte, sob curadoria de Lisette Lagnado e sua proposta de ‘como viver junto’. Matéria que em 2006/2007  foi ao ar no canal São Paulo.  Algumas obras foram para as ruas, em bairros de baixa renda e centro expandido.

Ainda como eco, o significado da Bienal foi discutido como prévia a abertura oficial através de psicanalistas, historiadores, filósofos, artistas, entre outros. Nos eventos que participei deparei com uma boa quantidade de pessoas interessadas em ouvir, discutir, debater sobre as obras e sua configuração à ideia de como viver junto, seja ela abstrata, figurativa, conceitual.

Neste mesmo período, o Memorial da América Latina expôs um ‘novo muralismo latino-americano’, via trabalho de grafiteiros,  em diapasão nominal dos pichadores. A curadoria dessa exposição foi do grupo comando da Galeria Choque Cultural (B. Ribeiro/ M. Martins/ E. Saretta).

Vejamos o que diz a galeria sobre o tema:

“Numa visão simplista, costuma-se associar a pichação ao vandalismo inconseqüente… enquanto os graffiti seriam obras de arte, realizadas com autorização e competência… Mas, na verdade, não existe uma linha clara que separe o graffiti da pichação.
A pichação é uma forma de comunicação marginal, cultuada por estudantes do mundo inteiro, durante os anos ‘60 e ’70… ‘Abaixo a repressão’… Quanto aos museus, melhor do que tentar colocar a cidade dentro deles, seria abri-los para a arte que acontece a sua volta.”

Em 2008, a Galeria Choque Cultural foi pichada e algumas obras danificadas. A Galeria foi vítima de um ‘protesto contra a comercialização de obras das ruas’. Pouco tempo antes, o Centro Universitário Belas Artes foi pichado por um aluno que imprimiu na sua atitude ou vandalismo (como foi divulgado pela mídia), a proposta de seu trabalho de conclusão de curso.

Entrada da Galeria Choque Cultural, 2008.

Ainda em 2008, na 28º Bienal de Arte sob curadoria de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen – ‘em vivo contato’,  a Bienal foi pichada, justamente no segundo piso que ficou propositalmente vazio, dando o apelido de ‘Bienal do vazio’, que segundo a proposta da curadoria – visava promover ‘uma reflexão sobre o sistema das Bienais’ enfatizando a ‘arquitetura e romper com o tradicional’.

Pichação no prédio da Bienal, 2008

Antes da abertura oficial da 28 Bienal – de praxe as discussões bem pontuadas: para quê a Bienal? Para quem? E ao mesmo tempo, através dos convidados palestrantes fazer um apanhado sobre todas as Bienais desde 1951.

Destaco por escolha muito oportuna, o encontro que se deu em 18 de setembro de 2008 com a presença do crítico de arte Alberto Tassinari e o artista José Resende que em lugar de sua fala preferiu o silêncio e um pedido ao cinegrafista – pedido um tanto esquisito no primeiro instante – mas muito sagaz em um segundo momento: – filme a platéia! E, apesar de serem oradores de renome e essas atividades divulgadas em jornais de grande porte, a platéia estava vazia. No máximo 15 pessoas contando com os curadores e o quadro de pertencimento organizacional.

A ‘Bienal do vazio’ se deu anterior ao vazio oficial, e independente da arquitetura magnífica de Oscar Niemeyer.

A pichação na tênue linha de ser arte ou não – não foi tênue e muito menos novidade.

Salve, Basquiat! E que venha Bispo do Rosário!

J. M. Basquiat, (1968- 1988).

Referências:

AMARAL, A.  Arte para quê? A preocupação social na arte brasileira 1930-1970. São Paulo: Studio Nobel, 2003.

BASQUIAT (filme). Dir. Julian Schnabel, EUA, 1996, 106 min., color., son., leg. português (http://www.miramax.com/basquiat) (imperdível David Bowie como Andy Warhol)

GULLAR, F. Etapas da Arte Contemporânea: do cubismo à arte neoconcreta. Rio de Janeiro: Revan, 1999.

Filme Nise da Silveira Nise, o coração da loucura.

Documentário de João Wainer e Roberto Oliveira – PIXO http://www.youtube.com/watch?v=KHVwEq97ukg

Documentário de Vladmir Seixas http://www.youtube.com/watch?v=UHJmUPeDYdg

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