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Crônica: cervejas, viagens e The Pogues

27 set

Por Sta. Sbaile

Em meados de 2005, eu era uma estudante de comunicação que não sabia o que fazer da vida. Por isso, eu peguei tudo que tinha e comprei uma passagem para a Irlanda. Dois meses depois eu estava em Dublin.

Andei pelas ruas de Dublin, entrei em um bar, depois saí e entrei em outro, depois em outro, e em outro. Não eram nem cinco da tarde quando eu me encontrei bêbada, no centro da cidade, pedindo abrigo a uma irlandesa de meia idade. E como se fosse uma destas coisas que só acontecem em livros ou filmes, a mulher me acolheu.

Eu pedi para usar o computador, queria ver o que estava acontecendo em Dublin, talvez algum evento no qual eu pudesse me divertir com irlandeses barbudos que tocam bandolim e distribuem cerveja. Acabei descobrindo um show do The Pogues.

O show era em Londres, mas a passagem de Dublin a Londres só me custaria 27 libras, na época isso dava aproximadamente 110 reais. Eu ainda tinha 90 reais. “Não tenho essa grana. E agora?”

The Pogues, Brixton Academy, Londres, 2005. Foto: Sta. Sbaile

Não sei se foi a embriaguês ou a inconseqüência da idade que me levou a escrever um e-mail ao guitarrista do Pogues, o Phillip Chevron:

Phillip, é o seguinte: eu sou uma jornalista brasileira e gostaria de cobrir o show de vocês em Londres no dia 23 de Dezembro. Você me concederia uma entrada como imprensa?”

Cliquei em enviar e fiquei olhando para a tela, chapada, por uns cinco minutos, como se ele fosse me responder imediatamente.

PLING! – o computador fez um barulhinho.

“Você tem uma nova mensagem de Phillip Chevron.”

– Nossa! O Phillip Chevron me mandou uma mensagem! – gritei.

“Passa seu nome completo e você estará na minha lista de convidados pessoais. Phil.”

Liguei para minha amiga Malu, uma brasileira que estaria em Londres naquela mesma data.

– Malu, se liga nisso…

– Você está bêbada?

– Estou, mas consigo falar sério. Escuta essa: eu estou com o nome na lista de convidados para o show do Pogues, em Londres. Quer ir?

– O Pogues do Shane MacGowan?

– Esse aí mesmo! No Brixton Academy.

– Como você foi convidada para isso?

– Mágica, Malu… Mágica.

Cheguei em Londres. Eu e a Malu andávamos pelas ruas de Brixton, periferia de Londres marcada pela fama de violência e de imigrantes, mas só o que vimos foram punks típicos ingleses: cabelos pintados de loiro claríssimo, coturnos, moicanos e um bando de cabeças raspadas fãs de oye, que provavelmente estavam lá para ver a banda de abertura: Dropkick Murphys.

– Putz, o ingresso custa 40 libras. (A Malu comentou)

– Calma, Malu. Não é para comprar esse ingresso. Faz uma cara de metida.

– Quê?

– Faz uma cara de alguém importante.

– Como é cara de alguém importante?

– Nojenta e tosca.

Andei até a bilheteria como se eu fosse grande coisa:

– Boa noite. Meu nome é Sbaile, estou na lista VIP do Pogues.

– Sbaile…. Sbaile… Hmmm. Ah, achei! (o bilheteiro riscou meu nome da lista)

– Está presente aqui comigo, minha fotógrafa de confiança e correspondente internacional, Srta. Maria Luiza Teodoro. Seria possível que ela tivesse um passe para a área de fotografia?

– Certamente, Srta. Sbaile.

– Muito obrigada! (E lá fomos nós)

O Dropkick Murphys entrou no palco. Os ingressos estavam esgotados, mas a Brixton Academy não me pareceu lotada. Foi quando Shane MacGowan, James Fearnley, Spider Stacy, Andrew Ranken, Phil Chevron, Terry Woods e Darryl Hunt apareceram com seus instrumentos, que a coisa saiu do controle: não cabia nem uma pulga na Brixton Academy.

Shane, como de costume entrou bebendo gim. A banda formada em 1982, no auge do movimento punk londrino, parecia não ter perdido o espírito da época em que começaram: a energia estava lá, a cerveja, o uísque e os cigarros também. A platéia, de repente, ficou diversificada: eram punks, hipsters, skinheads, idosos, tatuados e mauricinhos, todos cantando juntos às letras de Streams of Whiskey, Fairytale of New York, If I should fall from Grace of God, Boys from County Hell, Sally MacLennane, Fiesta (que contou com um trio de sopros), Dirty Old Town, entre outras faixas  clássicas.

The Pogues - Phil (de chapéu) e Shane. Londres, 2005. Foto: Malu Teodoro

Os meninos do The Pogues já não são mais tão meninos. Shane, um alcoólatra assumido, caiu no palco ao tentar uma dança durante Fairytale of New York, mas logo se levantou dizendo: “Acontece”.

Em 2007, Chevron enfrentou uma batalha contra o câncer. Quando eu soube disso, enviei uma mensagem a ele:

Phillip, não me vá morrer agora. Eu ainda quero ver você de novo, desta vez com o Radiators. Melhoras.”

PLING! “Você recebeu uma mensagem de Phillip Chevron”.

“Obrigado pelas palavras de incentivo. Phil.” – ele respondeu, aproximadamente dez minutos depois de eu ter enviado a mensagem.

Em 2009, os meninos do Pogues vieram aos Estados Unidos, país onde eu moro atualmente, para executar a mesma turnê de Natal que eu vi em Londres. Todos os integrantes continuam na ativa. Philip Chevron, por sua vez, não só toca guitarra para o Pogues, como ainda escreve e lança álbuns com sua primeira banda (uma das mais influentes na história do rock irlandês), The Radiatorsconhecidos também como The Radiators from Space.

Série Paschoal Carlos Magno V: diário de Atenas, diário de Milão e diário de Liverpool

5 ago

Por Gisèle Miranda


O percurso da diplomacia de Paschoal nos anos de 1933 a 1968 primou pela formação cultural e intelectual, muito embora em 1950, ano de sua chegada a Atenas, ele escreveu:

Fui permanecendo no estrangeiro e continuo até hoje no Itamarati por covardia. Imensa Covardia. (Atenas, 9 de maio de 1950)

Críticas ao Itamarati que possibilitou a criação de um mecenas assalariado que manteve a mãe, os irmãos, os sobrinhos, o Teatro Brasileiro e a culturalidade que proclamava? Mecenas assalariado?!

Paschoal Carlos Magno em Liverpool, 1940, arquivo Brício de Abreu – SNT, foto Zevallos

Paschoal era crítico ao tráfico de influências, exibicionismos de poder, em proporção desigual aos poucos diplomatas da grande pátria sem fronteiras, sem diferenças de idiomas ou raças: aquêles que são escritores, poetas, compositores, ensaístas, músicos, pintores… (Atenas, 18 de maio de 1950)

Ele dizia:

solidão… inscrita no lema de cada escritor, jovem, velho… como um meio de preservar os criadores contra o canibalismo das chamadas relações sociais. (Atenas, 19 de maio de 1950)

Mas não era a solidão necessária do bom leitor, e sim, a solidão involuntária, a do repúdio destacado por Paulo Francis[1] como punição do Itamarati por sua aposentadoria antecipada:

Paschoal foi punido pelo Itamarati pelo amor que não ousava declarar seu nome (Oscar Wilde, 1876). E que importância tem isso? A Cia e a KGB aceitam.

Veremos ao longo da Série Paschoal Carlos Magno que sua voz coletiva marcou definitivamente a história do teatro brasileiro, mas calou em seu corpo consular, privando ensejos cravados de preconceitos que criaram feridas, que em parte tratou com sua ação poética em combate até o fim de seus dias:

Criticado, injustiçado e até despojado de seus próprios bens, ele, no entanto, conseguiu sobreviver às frustrações da vida de uma maneira um tanto quanto heróica e valente em função dos seus ideais, entre os quais o teatro e a juventude. (MORRE no Rio Paschoal Carlos Magno. s.n., Recife, 25 maio 1980)

No início da década de 1950 até final de 1960, Paschoal começou a escrever Tudo valeu à pena, a partir do diário de Milão, diário de Manchester, diário de Liverpool e diário de Londres – reminiscências desde o inicio dos de 1940. Os protagonistas foram os mortos. Como um paludes ou a terceira pessoa, da obra de André Gide –  Paschoal sobrepôs a morte com a memória.

O manuscrito Tudo Valeu à pena foi passado a limpo por sua irmã Orlanda Carlos Magno, donde se lê sobre a memória do chamado de Jorge Amado a respeito da morte do ´velho Graça´; o momento em que Graciliano Ramos lamentava a morte de seu filho; a morte de Assis Valente, entre tantos, além dos tempos conturbados da Segunda Guerra Mundial.

 

Referências:

MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

MAGNO, Paschoal Carlos. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

MAGNO, Paschoal Carlos. Diário de Atenas. (manuscrito, 1950)

MAGNO, Paschoal Carlos Tudo valeu à pena.(manuscrito, 1940)


[1] Jornalista Franz Paulo Trannin da Matta Heiborn , 1930 (RJ)- 1997 (NY) ou Paulo Francis como ficou conhecido – nome artístico dado por Paschoal Carlos Magno, desde os tempos áureos do Teatro do Estudante, onde Francis encenou algumas peças de teatro. Leitor inveterado, debochado e lembrado por subverter o Teatro do Estudante, e entrar no teatro brasileiro demolindo , como crítico, várias gerações de embusteiros. In: Revista Dionysos, 1978, n. 28, p. 187.

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