Tag Archives: mar

Série Ficcional H. Miller XXVIII: Coração

12 jun

por Lia Mirror

 

“… o espírito é como um rio que procura o mar. ” (Henry Miller)

 

“- Pode entrar, Dr. Fausto lhe aguarda. ”

Apreensiva adentrei novamente o consultório. De imediato avistei Dr. Fausto e o elogiei pela bela aparência ´jovem´; a minha corria o tempo dos mortais.  E mesmo com a alma comprometida (1) fui agraciada pelas belas palavras do doutor ao referir a mim, como uma ´jovem liberta´ devido a constância nos estudos. Disse enfaticamente: “estudar nos torna jovens! (2) Mas, o que a trouxe dessa vez? Ainda há um coração? Ou devoraste o teu como Rimbaud? ”

Coração coeur-de-louise bourgeois, 2004

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), HEART, 2004.

Meu coração pesa muito; é como o coração de um beija flor, tem 180 batimentos por segundo quando sofro. Pode chegar a 190 batimentos quando sinto ciúmes. Diminui para 50 quando vislumbro um escape. Mas no escape são todos urubus disfarçados de cordeiros. Entre o assado e a carniça há um coração e um Dürer.

– “Desculpe doutor, o sr. Thomas Mann pede urgência! ”

– “Fausto, meu caro.  Venho interceder por esse coração… se a alma não foi vendida pela juventude, o coração não deve ser leiloado.  Uma alma pelo Dürer foi a abdicação do ego, do valor ao outro. Dürer será preservado! O coração de um beija flor também merece ser inscrito nessa história, aquém da juventude e da riqueza. Deixe-a ir. Interfiro nessa escrita por conhecer o que sustenta esse Ser. “

corações louise 2006

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), Untitled (Hearts), 2006.

Mais uma vez, Dr. Fausto riu como Mr. Ryde, mas logo respondeu como Dr. Jakyll e por conseguinte como H. Miller.

Robert Louis Stevenson invadiu o consultório. Mann e Stevenson chegaram a esboçar um confronto, mas gritei a efusão literária até falhar a voz. O coração era meu, a dor era minha. Peguei minha bolsa e saí sem olhar para trás, cantarolando as seguintes palavras: “Diga que eu só vou voltar depois que eu me encontrar. ” (3)

A transformação foi imediata: “pele por escamas, pernas por cauda, guelras e música” (4)… ao MAR.  ‎

 

 

Referências:

(1) Minha Alma Imortal

(2) MANN, Thomas. Doutor Fausto. Tradução Herbert Caro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1952. Volume II, p. 417.

(3) Preciso me encontrar

(4) A(…)MAR ou “vivendo com saudades”

A (…)MAR ou “vivendo com saudades”

13 abr

Por Caio Madeira

 

Ela vivia num tempo diferente do meu. A vida dela passava com mais rapidez, e meus pensamentos sobre ela eram como ela se comportava, e como ela agia, e como ela rompia os relacionamentos dela com tamanha facilidade.

Ela é uma mulher que entregou seu corpo ao mar sem medo da solidão do oceano, e que, em retorno, recebeu a dádiva de ser parte das águas. Pele por escamas, pernas por cauda, guelras e música. Uma mulher que tinha sua beleza refletida sobre as águas cristalinas, com o cabelo salgado e o corpo nu molhado, sem o medo narcisista de se matar ao entregar-se ao próprio reflexo na água. Ela nadava com todos os peixes, em conversas intimas com as criaturas sob a maré calma, e quando sentia que sua humanidade à chamava, respirava o oxigênio com orgulho de ser a mulher que era.

Acima da água, ela alegrava-se pensando no que lhe trazia alegria e sentia saudades do que lhe trazia lembranças. E no meio de sua vida tão completa, marinheiros apareciam aqui e ali, seduzidos pela sua beleza. Eles saudavam-na, desejavam-na, atiçavam-na e queriam a bela sereia de qualquer jeito, e, ela ali no seu mar apenas olhava eles se fazerem de bobos.

Seu canto deixavam os idiotas em seus barcos gritando qualquer poesia barata, elogiando e se decompondo nas ideias que eles nem entendiam só pela esperança de conquista-la. E a sereia, tão bondosa, aceitava os desesperos dos homens que achavam que o mar era um trilho para seu automóvel, tão egoisticamente.

Os homens iam e vinham, se jogando no mar e nadando sem futuro para matar a fome dos peixes; as sereias alimentavam o mar antigamente, sabia? Pelo mar todo boiavam e afundavam corpos de homens estúpidos, que alimentavam os peixes enquanto caiam e caiam até o fundo do oceano, não sobrando nada na escuridão mais funda…

E. Nery, A mulher dos quadros do museu, 1988.

Emmanuel Nery (Rio de Janeiro, RJ, 1931- Rio de Janeiro, RJ, 2003) A mulher dos quadros do museu, 1988.

 

 

– E como eu nasci então?

– Você nasceu das linhas de um poema de amor – dela com o mar.

%d blogueiros gostam disto: