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Mulheres artistas (Parte II)

12 jan

por Gisèle Miranda

 

 

As transformações do século 20, principalmente a partir da década de 1960 ocorreram sob as vestimentas da revolução sexual, mas em meio aos destroços da Segunda Guerra Mundial, da Guerra Fria,  das guerrilhas, das ditaduras militares pela América Latina, do Apartheid, dos  “muros”, enfim uma série de acontecimentos históricos importantes.

Pensadoras começaram a deflagrar as ressacas de guerras às fugacidades do contemporâneo. O devir liberdade é incorporado por artistas pelos processos psicanalíticos, a exemplo de Louise de Bourgeios (1911-2010), Lygia Clark (1920-1988) ou de  Marina Abramovic (1946-) no próprio corpo, na geografia que imprime as catástrofes humanas e que acolhe os sujeitos.

É nesse momento que os Outros (sujeitos) são vistos na performance, muitas vezes de maneira cruel. O corpo apresenta marcas, vulnerabilidades e desgastes. De um devir-mulher a um devir-animal ou vegetal… até num devir-imperceptível. (Deleuze, 1993, 11)  Há um risco iminente, uma visualidade e sensações em um limite muito tênue entre o corpo e o que se pode suportar.

Há mulheres nas artes que nos remetem as questões de suas ausências na História da Arte; o número que pode ser representativo através de nomes da exposição ELLES: mulheres artistas na coleção do Centro Georges Pompidou, que em 2010 suscitou em Paris uma grande discussão sobre a importância dos museus, galerias e seus poderes de agregação ou de valorização de trabalhos ao gênero masculino por força de uma historicidade excludente a mulher.

A exposição  Elles, curadoria de Emma Lavigne e Cécile Debray saiu itinerante e chegou no Brasil em 2013; 115 obras expostas de 1907 a 2010. Entre “ELAS” estão as brasileiras Rosangela Rennó (1962-), Anna Maria Maiolino (1942-), Lygia Pape (1927-2004), Anna Bella Geiger (1933-), entre outros nomes internacionais como Suzanne Valadon (1865-1938), Frida Kahlo (1907-1954), Marina Abramovic, Louise de Bourgeois. Todas com obras de temporalidades e técnicas diferenciadas, contudo, sob perspectivas de debate sobre a inserção das mulheres ou a ausência das mulheres nas artes.

 

Lygia Pape, Divisor, 1968.

Lygia Pape, Divisor, 1968.

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Em paralelo a exposição ELLES, a Guerrilla Girls resolveu computar as participações de mulheres na história da arte pela Europa e EUA, constatando que: As mulheres precisam estar nuas para entrar no Metropolitan Museum? Menos de 5% dos artistas nas seções de arte moderna são mulheres, mas 85% dos nus são femininos.

 

 

Referências:

ABRAMOVIC, Marina: Transitory object for human use. (Exposição) São Paulo: Galeria Brito Cimino, jun. e jul. 2008.

ABRAMOVIC, Marina (performances e roteiro do filme): BALKAN Baroque. Direção Pierre Coulibeuf. Fotografia de Dominique Regoleur, França, 1998. 61 min.

ABRAMOVIC, Marina: a artista está presente. (filme) Direção Jeff & Druppe e Mathew Akers. EUA, 2012. 106 min.

ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e Persuasão: ensaios sobre o Barroco. Tradução Maurício Santana Dias. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

ARGAN, Giulio Carlo. Clássico Anticlássico: o Renascimento de Brunelleschi a Bruegel. Tradução Lorenzo Mammì. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambigüidade. Rio de janeiro, Nova Fronteira, 2005.

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

COHEN, Renato. Wok in progress na cena contemporânea: criação, encenação e recepção. São Paulo: Perspectiva, 1998.

COHEN, Renato. Performance como linguagem: criação de um tempo-espaço de experimentação. São Paulo: Perspectiva; Editora da Universidade de São Paulo, 1989.

DUBY, George & PERROT, Michelle. Imagens da mulher. Porto: Edições Afrontamento, 1992.

FREIRE, C. Poéticas do processo da arte conceitual no museu. São Paulo: Iluminuras, 1999.

GOMBRICH, Ernst H. História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

GULLAR, Ferreira. Relâmpagos:  dizer o ver. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

LOUISE BOURGEOIS: o retorno do desejo proibido & Escritos psicanalíticos. Org. Philip Larratt-Smith. São Paulo: Instituto Tomie Ohtake, 2011.

NAVES. Rodrigo. O vento e o moinho: ensaios sobre arte contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

ROLNIK, S. Pensamento, corpo e devir. São Paulo: Caderno de subjetividades, V.1, n. 2 PUC/SP, 1993.

RIVERA, Tania. O avesso do imaginário: arte contemporânea e psicanálise. Casc Naify, 2013.

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Série Ficcional H. Miller XX (Final II) – A morte da leitora

27 jun

Por Lia Mirror e Laila Lizmann

 

Preciso meditar na minha vergonha e no desespero em retiro… 
Que querem vocês de mim? Quando
tenho algo a dizer, ponho-o em letra de forma. Quando tenho algo a dar,
dou-o… Seus
cumprimentos humilham-me! Seu chá envenena-me! Nada devo a ninguém. 
Seria responsável somente perante Deus – se Ele existisse!

 (Henry Miller, Trópico de Câncer)

Após o cárcere de semanas, o Deus da Carnificina* abriu a pequena porta de aço; agachei e arrastei-me por uma luz enganadora. Ao subir o olhar deparei-me com a presença de Marina Abramovic sobre pedaços de carnes. Seu vestido branco em segundos foi sendo consumido pelo vermelho que jorrava das mutilações. O odor nauseabundo ascendia e mal conseguia respirar.

Marina Abramovic, Balkan Baroque, 1997 http://marinafilm.com/

Ainda rastejando tentei retornar ao meu habitat carcerário, mas um vento intempestivo fechou o pórtico de minha salvação. Arranhei o aço até sangrarem os dedos e tremi por rever aquela desfigurada pessoa a fitar-me: era o Deus da Carnificina. Num simples gesto ele arrancou de sua garganta aberta um envelope plástico e jogou-o à minha frente como um dono faz a seu cão.

Minha baba escorria tal qual o sã/insano professor de história que desembarcou do cargueiro “Kedma”**.  Apenas mexia o corpo sobre os joelhos e mãos que se encontravam no chão – de fato como um cão. Cheguei a alçar a baba sobre o envelope e receei a ira daquele Deus. Mas, não. Ele foi se afastando lentamente até desaparecer diante da segurança que o animal estava submisso.

O tempo que transcorreu a dúvida de abrir aquele envelope foi imenso e intenso. Marina continuava sobre a carnificina e parecia não me ver. Abri o envelope empurrando a baba do fecho. Havia uma carta e assim que toquei naquele papel percebi que se tratava de Henry Miller.

Era uma carta extensa expondo as razões de seu desaparecimento. À sua leitora mais fiel restara a submissão ao inevitável. Li e reli como Henry Miller ensinou-me em uma cartografia dos desejos. Assim ele percorreu a bel prazer todos os estados inimagináveis do meu corpo e da minha alma.

Ainda sob postura animal abocanhei o papel e fui engolindo em rasgos. Aos poucos fui voltando à minha humanidade.

Caminhei com dificuldade, mas alcancei a falésia. Pensei nas tantas cartas de despedidas de Virginia Woolf, até cair em mim e entender a essência da releitura; Miller fez a minha carta de despedida poupando-me do abismo da letra e eu a engoli, antes li e reli.

Rachel Korman, autorretrato enquanto morta, 2008, 170 x 80 cm.

Notas e Referências:

(*) Deus da Carnificina. Direção Roman Polanski.  Carnage, Polônia/Alemanha/França/Espanha, 2011, 80 min.

(**) KEDMA (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2002, 94 min.

BALKAN Baroque (filme/ performance de Marina Abravovic). Direção Pierre Coulibeuf. França/Holanda: Regards Production, 1998. 61 min.

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

Miller, H. Trópico de Câncer. Trad. Aydano Arruda. Rio de Janeiro: O Globo: São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.

Série Retecituras IV: Guerras (parte III)

31 mar

por Gisèle Miranda


Embora eu tenha a licença de trabalhar o contemporâneo via historiadores – e de maneira intrínseca o faço – também recorro às vertentes artísticas: experiências necessárias à reflexão e à escrita[1].

Dessa forma, o conceito anticlássico de Giulio Carlo ARGAN se adéqua as questões tratadas na Série ReteciturasGuerras: “o antigo como pluralidade de dados particulares que podem e devem ser revitalizados numa prática contemporânea que os recrie, acrescentando-lhe o sentido de distanciamento histórico”.

Esse sentido de distanciamento histórico cumpre um papel de subjetividades próprias. Do decorrer da Guerra Fria (1945-1991) as duas potências – EUA e a ex. URSS, atual Rússia, estiveram envoltas às guerras por questões étnicas, religiosas, cobiça de oleodutos, poderio de armamentos. Frente a isso, em 29 de março de 2010, duas mulheres bombas – ditas terroristas – acionaram suas bombas caseiras acopladas aos corpos nas estações do metrô em Moscou. E, quem não se lembra da morte de 184 crianças e 344 civis em uma escola na cidade de Beslan  (Ossétia do Norte), em 2004?

Marina Abramovic, The Family III, série LAOS, 2008

Os denominados terroristas da Tchetchênia, ou, os separatistas vêm em regulares lutas -de 1994 a 2003 – 150 mil mortes. E quem são os culpados? Em 1999, o premiê Vladimir Putin decretou uma ofensiva militar para controlar os estados que queriam independência. E o que há nesses estados? – além de oleodutos?

A Rússia havia garantido a autonomia da Geórgia (desde 1994), mas em 2008, o presidente georgiano – Mikhail Saakashvili[2]– guerreou com a Rússia, logo após o reconhecimento da independência da Ossétia do Sul –, pelos russos e em território georgiano.

A Geórgia deflagrou uma invasão aos ossetianos do Sul e Abkházia, culminando nessa ofensiva dos russos em território georgiano, em pleno Jogos Olímpicos de Pequim, na China em 2008, transmitidos concomitantemente: – quem não lembra?

Entre ex URSS, hoje Rússia, e ex Iuguslávia, hoje Sérvia  (de 2003 a  2006, Sérvia  e Montenegro) – há muito em comum, além da região do Cáucaso, entre tchetchenos, georgianos e ossetianos do Sul. As independências/nacionalizações de estados procriaram uma limpeza étnica.

No início da década de 1990, entre sérvios e croatas foram mais de 20 mil mortos. No final da década, Kosovo (minoria sérvia e maioria albanesa) aumentou esse número estimativo, quando em 2008 se declarou independente da Sérvia.

Vale relembrar, entre outros, o filme de Jazmin Dizdar (Bósnio que naturalizou-se britânico): Beautiful People, de 1999. No filme são focadas 4 famílias na Grã Bretanha e suas relações com refugiados de guerra da Bósnia, ou seja, sérvios e croatas, outrora vizinhos e amigos e no exílio, inimigos étnicos sob olhares dos ´civilizados´ britânicos que os acolheram – nasceu então, Caos, o filho do estupro – crime como armas de guerras[3].

Em 2000, Slobodan MILOSEVIC, ex presidente sérvio foi preso por crimes de guerra – limpeza étnica, proclamador do lema: ´você pode´. Ele morreu em 2006, sem nenhum sinal de arrependimento. Em 2008, Radovan Karadzic ou Dragan Dabic, outro líder sérvio, assassino em potencial foi encontrado na ativa da limpeza étnica. Estava seguro do funcionamento da limpeza: “Converta-se à minha nova fé, multidão/ Eu lhe ofereço o que nunca ninguém teve antes/Lhe ofereço inclemência e vinho…Povo, em minha fé nada é proibido/ Há amor e há bebida… E essa divindade não proíbe nada” KARADZIC.

A outra potência fruto da Guerra Fria, os EUA, vêm seguidamente sendo bombardeados pelos ditos terroristas, embora não tenha se dissipado territorialmente, mesmo porque ainda se faz reconhecer pela capacidade militar (vide as atuais guerras com o Afeganistão e com o Iraque).

Mas há vencedores inesperados, ainda diminutos, deslocados aqui e ali, via ´participação de populações por todo o mundo através de passeatas pela PAZ´. É pouco? É inesperado. Mas receio, tal como os historiadores  Eric Hobsbawm e Luiz Felipe Alencastro, entre outros, que as prerrogativas são aterrorizantes, visto que há uma elevação da direita política em alguns países, donde se imprime pouca ou irrisória participação no voto popular, e onde a participação popular tem se reduzido as lutas particulares, apesar da globalização. Oxalá o inesperado venha com sua potência surpreender-nos, mais que o CAOS e os filhos que não retornaram – ou seja, marcas de gerações da guerra e pós guerra.

(*) Referências: V. bibliografia completa da Série Retecituras IV, parte I https://tecituras.wordpress.com/2010/03/15/serie-retecituras-iv-guerras-parte-i/ ).

(**) Marina Abramovic é Sérvia radicada nos EUA.


[1]Variações conceituais moderno/pós moderno/ contemporâneo por autores ligados as artes. Exemplos: Giulio Carlo ARGAN Revitalização/recriação. Aracy AMARAL “modernidade é a crítica!”; Philadelpho MENEZES: moderno – presente transitório ou metamodernidade (auto crítica), pós moderno – eixo da tecnologia; Clement GREENBERG: modernidade – não há rompimento é transição; Arthur DANTO: 1400 (início)/ 1980 (fim) – moderno de 1880 até 1960, era dos manifestos; Hans ULRICH: moderno – nascimento da idéia de subjetividade, o novo mundo; Alberto TASSINARI: moderno – depuração (1955 ou 1960), contemporâneo é igual a pós moderno (uso acadêmico); Rodrigo NAVES: pós moderno é o olhar sobre a cidade.

[2] Mikhail Saakashvili – neo liberal e pró-norte americano, que companheiramente enviou ao Iraque 2.000 soldados para ajudar quem lhe apoiava como estado independente.

[3] V. Série Retecituras II: marcas – mãe e armas de guerras https://tecituras.wordpress.com/2010/03/08/marcas-mae-mulher-prostituta-e-armas-de-guerra/. V. Tb. sugestão fílmica Genghis Khan – filho, marido, pai via armas de guerras (estupros).

Série Retecituras IV: Guerras (Parte II)

18 mar

Por Gisèle Miranda

Há pouco o indestrutível sionismo dos EUA admitiu, através de Hillary Clinton, que a culpa ocidental pelo antissemitismo esteja cegando o discernimento no conflito entre israelenses e palestinos. Que outrora as vítimas tornaram-se algozes, ou seja, os palestinos são, como dizia o intelectual Edward Said  “vítimas das vítimas”.

Pena que o palestino Edward Said (falecido em 2003 aos 67 anos) defensor do papel público do intelectual  não tenha ouvido que as “gerações de americanos cresceram pela propaganda de que os árabes são terroristas”,  e ponto!

Portanto, a ‘segregação’ de expropriados palestinos em 1948 (aproximadamente 750 mil), em 1967  transformou-se de fato, em apartheid, e que vigora aos olhos do mundo em 2017.

Marina Abramovic, Balkan Baroque, 1997

O cineasta israelense Amos Gitaï em seus esforços vem se opondo a omissão. Com Kedma, Amos Gitai venceu o prêmio da crítica na 26ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2002. Kedma é o nome do cargueiro que transportou, em 1948, os sobreviventes do Holocausto até a Palestina (alguns dias antes da criação do Estado de Israel).

Cabe destaque do personagem sobrevivente judeu, professor de história que quando pensou ter chegado à terra prometida, se viu cercado por soldados ingleses; ele fugiu em grupo e encontrou outros pequenos grupos e se viu novamente lutando para sobreviver, desta vez contra os ciganos e depois de árabes.

Na estrada de terra sobreviventes cruzam com sobreviventes inimigos e fogem uns dos outros, não mais com a força bruta, mas com a força da palavra. É a trégua obrigatória. Trégua também quando um velho Palestino ‘escreve’ pela palavra gritada e levanta o seu cajado pelo futuro de seus descendentes: a certeza de que seus filhos, seus netos, seus bisnetos jamais deixariam aquela terra que lhes pertence.

Volta a cena o professor de história. Ele está na sujeira, no vazio da fome, fugido dos nazistas alemães, dos ingleses, dos árabes, e na incerteza, ele grita, espuma a baba dos insanos, de quem já não entende nada. Ou seja, Gitaï em ´seu ato de coragem´ e na ´voz dissonante contra o consenso da guerra´.[2]

De lá para cá, Israel tornou-se uma potência nuclear e os palestinos com pedras e cajados, com bombas caseiras acopladas em seus próprios corpos: homens, mulheres, adolescentes, crianças continuam lutando por sua identidade – seu Estado de Direito.

São gerações que compartilhamos hoje, em frequências virtuais. Gerações de famílias, lastros territoriais, culturais; um vínculo globalizado que não pode ser ignorado.

São gerações que rebelam às nossas gerações e que vigoram no exercício do presente e recorrem, rememoram, reescrevem.

Marina Abramovic – Self portrait with skeleton, 2003


[1] Por Leon Cakoff, Jornal da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo/SP, 17/05/2002, n° 93.

(*) Referências complementares (Sobre a bibliografia dessa Série, V. parte I) :

SAID, Edward W. Cultura e política. Tradução Luiz Bernardo Pericás. São Paulo: Boitempo, 2003.

V. Tb. http://ning.it/9J4dqJ, por Luiz Felipe Alencastro.

Filmografia:

BALKAN Baroque (filme/ performance de Marina Abravovic). Direção Pierre Coulibeuf. França/Holanda: Regards Production, 1998. 61 min., color., son., leg. Português. DVD.

DIA DO PERDÃO, O (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2001, min., color., son., leg. português, VHS.

KEDMA (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2002, 94 min., color., son., leg. português, VHS.

Série Retecituras IV: Guerras (Parte I)

15 mar

Por Gisèle Miranda

Marina Abramovic, The Family I (from the series of works the quiet in the Land), Laos, 2008

A temática adentra séculos e civilizações, remonta histórias de combatentes, libertadores, despóticos ou comuns; por motivos religiosos, políticos, econômicos, familiares ou banais; entre passado, presente e até de perspectivas futuras.

Esse múltiplo midiático e tecnológico que às vezes abunda em lixo (incluso trabalhos de pesquisa ‘fast’), também germina em possibilidades contemporâneas para lidar com o passado.

Nós podemos filtrar (não é censurar);  filtrar no melhor das textualidades do historiador Peter Burke,  sobre ‘empréstimos culturais’ e os ‘inevitáveis empréstimos culturais’, ou seja, diz respeito a utilização e a reutilização: reciclagem e lixo.

É por esse elo que chamo à escrita : Guerras (via periódicos e links). Obviamente contempladas às críticas e, por conseguinte, a busca da reflexão do leitor sobre as guerras atuais (pois há fases, incluso do pós conflito armado ou adjacente núcleos rebeldes vigorando).

Que tal pensarmos nos EUA, Afeganistão e Iraque, Israel e Palestinos?  O continente Africano em guerrilhas de diversas naturezas, enfim, toda essa constante que vem ´esbofetear´ a História Contemporânea com questões de difícil entendimento pela proximidade e fugacidade das informações. No entanto, reconheço nas artes uma boa temperatura para pensarmos a respeito – dado seu caráter experimental e de subjetividades inerentes.

Então, quais as razões para a guerra? [1]Ou, como viver junto? Claro que cada área há de se interrogar e pensar na melhor resposta dentro dos limítrofes informacionais e de tempo a reflexão.

A resposta dada a segunda questão foi vertida na 27ª Bienal de Artes de São Paulo, sob curadoria de Lisette Lagnado[2].

Foram artistas de várias partes do mundo com problemáticas diversas que se encontraram numa experimentação e numa tentativa de responder a indagação de ambas as perguntas e tantas outras insurgentes.

EUA, Afeganistão e Iraque

Em 2001 reuni três crianças entre 7 e 8 anos que montaram um roteiro para um vídeo caseiro, sob minha supervisão, para refletirmos sobre as guerras através de alguns entrevistados, pessoas que de alguma forma, viveram a guerra ou a sofreram indiretamente.

A ideia surgiu por conta da confusão informacional acerca da guerra entre EUA e Afeganistão. As imagens de TVs, o nome Osama Bin Laden, religiões, americanos, explosões, pareciam parte de jogos eletrônicos. Seria, então, um filme de ficção da indústria cinematográfica norte americana ? O que era tudo aquilo? Fatos ou jogos?

Com disse registrei de forma amadora, um interessante bate-papo entre as crianças com um jornalista (correspondente internacional) e cientista político (*).

-“Por que jogam bombas e comidas?”; “Por que matam crianças e pessoas que não querem a guerra?” ( encarte da Folha de S. Paulo – Folhinha, sobre o episódio de 11 de Setembro 2001, Afeganistão, e muitos outros pontos obscuros repensados) As crianças tudo vêm e tudo ouvem.  As manifestações pela Paz tiveram uma grande participação das crianças e companhia de seus pais e de muitos de seus professores. Esse aporte geracional compôs reações às crianças com relação à temática guerras.

‘Que mundo é esse?’ Era o título de capa em 2004. É um mundo que reage cada vez mais jovem. Que venham essas inquietações! E que elas sejam cada vez mais, para contrapor a falta de ‘reação’ dos mais velhos, sobre  os lugares em guerras, com fome, sede, miséria e doenças.

Marina Abramovic, The Family X (from the series of works the quiet in the Land), Laos, 2008

Uma das três crianças entrevistadoras é meu filho, hoje com 22 anos. A guerra no Afeganistão continua pelo trauma pós retirada de tropas vencedoras. Em paralelo, a guerra no Iraque estourou. E o mantenedor dessas duas guerras ganhou o Prêmio Nobel da Paz.

– “Por quê?” (1)

(*) Nome que prefiro deixar in off por conta da rigidez que há entre empresa e liberdade da palavra em outros ambientes.

[1] Questionamento que o geógrafo Wagner Costa Ribeiro (USP) coloca quando perguntado pelos alunos. No caso específico sobre EUA e Iraque, o geógrafo termina seu texto optando por reconhecer que o objetivo desta guerra é mostrar a capacidade militar dos EUA. No entanto, há nesse texto vencedores inesperados In: AGB Nacional, 7/4/2003: Entre a barbárie e a civilização.

[2] Bienal pioneira: pela primeira vez eletiva e eleita uma mulher; A 27 Bienal extrapolou o usual espaço projetado por Oscar Niemayer, deslocando algumas obras para espaços públicos (ruas, praças), facilitando o acesso para pessoas que jamais puderam comparecer em uma Bienal de artes, independente de ser gratuita, pois há vácuos históricos sobre cultura, educação.

Referências/Periódicos:

Folha de S. Paulo, 15 mar. 2003. Em dias decisivos para a solução do conflito entre Iraque e Estados Unidos, crianças que vivem e viveram em áreas de combate questionam a guerra e pedem paz. Folhinha, F1-6.

Folha de S. Paulo, 30 mar. 2003. Crianças no fogo cruzado: conflito do Iraque invade o mundo de meninos de até 4 anos e provoca dúvida, angústia e o temor de ver uma bomba cair no quarto. Cad. Mundo, A23.

Folha de S. Paulo, 20 jan. 2003. Arte do diálogo: exposição pela paz reúne palestinos e israelenses. Cad. Ilustrada, E8.

Folha de S. Paulo, 16 fev. 2003. Milhões vão às ruas contra a guerra/ Maior protesto da história pede paz. Cad. Mundo, A-15 a A21.

Folha de S. Paulo, 25 mar. 2003. Batalha por Bagdá. Cad. Especial: Ataque do Império, A13 a A22.

Folha de S. Paulo, 27 mar. 2003. Massacre em Bagdá. Cad. Especial: Ataque do Império, A13 a A24.

Folha de S. Paulo, 31 mar. 2003. Iraque anuncia que tem 4.000 mártires. Cad. Especial: Ataque do Império, A11 a A20.

Folha de S. Paulo, 31 mar. 2003. Homens na mira: jovens em Bagdá contam como é viver em uma cidade sob bombardeio. Folhateen.

Folha de S. Paulo, 25 mai. 2003. ‘Nós, o povo’, somos o verdadeiro inimigo (por Gore Vidal). Cad. Mundo: A24.

Folha de S. Paulo, 14 set. 2003. Arquiteturas da destruição: Em amém de Costa-Gravas mistura ficção e história para culpar, conscientizar e entreter (por Inácio Araújo). Cad. Ilustrada: E12.

Folha de S. Paulo, 4 set. 2004. Seqüestro na Rússia acaba em massacre de mais de 2000. Cad. Mundo, A13-16.

Folha de S. Paulo, 4 set. 2004. Traços da tristeza: Mostra em SP exibe desenhos de crianças prisioneiras durante a Segunda Guerra Mundial. Folhinha, F-3.

Folha de S. Paulo,11 set. 2004. Que mundo é este? Crianças de várias partes do planeta opinam sobre o terror, no terceiro aniversário dos ataques de 11 de setembro. Folhinha, F4-7.

Folha de S. Paulo, 28 ago. 2004. Futebol com as mãos: o pebolim foi inventado durante a Guerra Civil Espanhola para que as crianças feridas se divertissem. Folhinha, F4.

Folha de S. Paulo, 20 jan. 2006. Chega de exotismo no Oriente Médio, diz Gitaï. Cad. Ilustrada: E-8.

Folha de S. Paulo, 16 out. 2006. Ser moderno no século 21 é olhar para o passado: crítico e curador francês Nicolas Bourriaud fala à Folha sobre o conceito de “como viver junto”, tema da Bienal de SP. Cad. Ilustrada, E8.

Folha de S. Paulo, 22 fev. 2008. Sérvios queimam a Embaixada dos EUA: grupo de radicais tentam destruir edifício em resposta ao reconhecimento de Washington à independência de Kosovo. Cad. Mundo: A12.

O Estado de S. Paulo, 19 mar. 2008. Preciosidades que chegam do Chile: Mostra reúne parte do acervo do Museu da Solidariedade Salvador Allende, formado por doações de artistas do mundo todo. Cad. 2 – D3.

Folha de S. Paulo, 27 jul. 2008. O Mutante (por Slavoj Zizek). Cad. Mais! p.10.

Folha de S. Paulo, 17 ago. 2008. Por trás da miniguerra no Cáucaso, o xadrez geopolítico (por Immanuel Wallerstein). Cad. Mundo, A22.

Folha de S. Paulo, 24 ago. 2008.Um mundo desregrado: conflito entre Rússia e Geórgia marca a ascensão de relações multipolares perigosas, em que as potências testam umas as outras (por Slavoj zizek). Cad. Mais! p. 12.

Folha de S. Paulo, 17 set. 2008. Fundação Bienal diz apoiar curador. Cad. Ilustrada, E5.

Folha de S. Paulo, 27 set. 2008. Artista descobre relações de sua obra com favela. Cad. Ilustrada, E3.

Folha de S. Paulo, 28 set. 2008. Quase sem memória (por Peter Burke). Cad. Mais! p. 3.

Revista BRAVO! A arte à sombra do mal: Leni Riefenstahl. São Paulo: Editora Abril, 2001. Ano 4, n. 44, p. 26-37. (maio)

Revista BRAVO! GOYA. São Paulo: Editora Abril, 2007. Ano 10, n. 116, p. 26-37 (abril

Exposições:

“Arte e Sociedade: uma relação polêmica. São Paulo: Instituto Itaú Cultural, abr. a jun. 2003.

“Israel e Palestina: dois estados para dois povos”. São Paulo: SESC Pompéia – galpão, jul. e ago. 2003.

“Napoleão”. São Paulo: Museu de Arte Brasileira e Salão Cultural (MAB): Fundação Armando Alvares Penteado, ago. a nov. 2003.

“O desenho das crianças de Terezin”. São Paulo: Centro de Cultura Judaica, ago. a out. 2004.

“Sala Escura da Tortura”. Coletivo sobre as torturas na América Latina. Museu do Ceará, Fortaleza, 2005. Curadoria Edna Prometeu. Exposto a primeira vez no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1973, com o nome “Sala Negra da Tortura”, seguindo para exposições na Itália, Suíça, Alemanha e Brasil. Veja neste Blog https://tecituras.wordpress.com/2010/09/19/historia-e-memoria-sob-tortura-%E2%80%9Csala-escura-da-tortura%E2%80%9D/

“Estéticas, sonhos e utopias dos artistas do mundo pela liberdade”. Parte do acervo do Museu da Solidariedade Salvador Allende”. São Paulo: Galeria de Arte do SESI (FIESP), mar. a jun. 2007. Curadoria de Emanuel Araújo. V. Tb. Neste blog: Manifesto de Gontran Guanaes Netto em virtude da participação de seu quadro ´La Prière’ https://tecituras.wordpress.com/2010/08/17/serie-retecituras-v-gontran-guanaes-netto-e-o-seu-manifesto-pelo-chile/

“Marina Abramovic: Transitory object for human use”. São Paulo: Galeria Brito Cimino, jun. e jul. 2008. (Sobre Marina Abramovic: Considerada a melhor performer em atividade, ela nasceu em Belgrado (Sérvia), ex-Iugoslávia, em 1946. Seu trabalho “explora a relação entre artista e público, os limites do corpo, as possibilidades da mente” – questões latentes da política internacional.)

“José de Quadros: Jogos de armar”. São Paulo: Museu Lasar Segall, ago. a nov. 2008. V.: https://tecituras.wordpress.com/2010/03/06/jose-de-quadros/

V. Tb. http://bit.ly/9xGzmU, por Luiz Felipe Alencastro.

ARTE CONCEITUAL, AR e AR!

2 jun

Por Gisèle Miranda

 

 

As artes contemporâneas têm causado estranhamentos não só para os espectadores ou partícipes das obras. Além da prevenção do gosto ou não gosto, o estranhamento precisa ser pensado.

Se a arte está hoje além do pincel ou da argila, significa que ela está na memória e no pensamento, assim proclamou Giulio Carlo Argan.

Por conta disso, creio ser importante expor uma escrita que discuta um pouco sobre a Arte Conceitual. E, podermos pensar como a arte contemporânea pode ser histórica ou como expor num museu o espírito pós moderno.

É necessário ter claro que a Arte Conceitual vive para questionar os conceitos artísticos. Por isso, em determinado momento houve a discussão dos paradigmas da inclusão-exclusão / lugar-não lugar. E, também, a transitoriedade e vulnerabilidade dos materiais.

Museu como um templo ou o museu como um fórum de discussões? Desmaterialização do objeto, circulação via reprodutividade, enfim há inúmeras perguntas e reticências quanto a formulação de questões. Mas uma coisa é certa, há indiscutivelmente possibilidades de poéticas conceituais.

É pouco deixarmos de ser em algumas exposições, materialistas passivos? Ao exibir as obras não há agregação? E a questão político-social-cultural? Como pensarmos nas obras dos Dadaístas, Surrealistas e suas temporalidades? Há significados e permiti-los é parte da inteligibilidade.

Há nesse bojo conceitual, várias alternativas: performance, fotografia, instalação, vídeo-arte, body-arte, entre outros. Na performace nos damos conta do tempo e a necessidade do artista ao repetir. A instalação é a junção com o espaço (entorno). A body-arte e seu suporte criativo no corpo pode exprimir uma barreira mercadológica, mas que também pode ser transformada em coisa via fotografia ou vídeo. A fotografia por sua vez, pode destruir a concepção artística como pode sobrepor a produção inicial; pode minuciar e ampliar; pode democratizar.

 

Marina Abramovic, Relation spaces, 1977

 

Compactuo com Foucault quando disse que é próprio do saber – interpretar –, muito mais do que mostrar ou apenas ver. Mas para isso é necessário estarmos abertos às oportunidades, aos acontecimentos e não predispostos ao escracho, ao deboche, que muitas vezes é auto-idiotização. E quando sustentado pelos meios de comunicação, o prejuízo é ainda maior.

 

Sugestões:

FREIRE, C. Poéticas do processo da arte conceitual no museu. São Paulo: Iluminuras, 1999.

ROLNIK, S. Pensamento, corpo e devir. São Paulo: Caderno de subjetividades, V.1, n. 2 PUC/SP, 1993.

site MOMA: www.moma.org/

http://adaime.wordpress.com/

http://faleconsigo.wordpress.com/

V. Tb. neste blog texto: Bienais de Arte de São Paulo (Salve, Basquiat!) Uma discussão sobre a última Bienal de Artes de São Paulo e o resvalo do olhar vanguardista contra si mesmo via pichação http://ht.ly/3vDDJ

“Faca de dois gumes”

1 maio

Por Gisèle Miranda

 

Em 2009, o Brasil recebeu a visita comercial do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Em princípio, uma visita indesejável de um líder que vinha ampliando seus domínios no Oriente Médio com seus discursos anti-semitista, homofóbico, e de aprisionamento e retrocesso da condição feminina relegada à coisa e modelo de apedrejamento em caso de adultério, mesmo tendo sido por estupro – o que é muito mais comum do que imaginamos (*).

Destaquei apenas alguns exemplos da política instituída por esse líder em pleno século 21, diante das atrocidades históricas incontestáveis, e hoje, sujeito a encarceramento pela ONU, e pelos tribunais de Direitos Humanos de muitos países que em tese se colocam humanitários.

As mídias do mundo noticiaram o discurso de Ahmadinejad ratificando um posicionamento já sabido. Em repúdio, muitos dos representantes mundiais levantaram-se horrorizados e deixaram o nobre salão de reuniões em Genebra. Os representantes do Brasil permaneceram e foram, obviamente, rechaçados pela falta de atitude.

Vários pensadores brasileiros se colocaram a partir de inúmeros textos sobre a chegada ao Brasil do líder iraniano. Entre eles, o psicanalista Contardo Calligaris em matéria no jornal Folha de S. Paulo, de 7 de maio de 2009.

Destacaria alguns pontos como: sua crítica ao argumento neoliberal de que o dinheiro não tem cheiro; o dinheiro tem cheiro, sim, sobretudo quando vem numa mala de carniças, disse Calligaris.

Marina Abramovic – Instalação ‘objeto para uso não humano’, 2008

E, por outro lado, destaco o Brasil como referência de ´diferenças étnicas, religiosas e infelizmente econômicas´ que poderia se colocar como ´mediador de conflitos´, relembrando os escritos do filósofo-historiador Michel Foucault e chegando aos ditames de Rousseau com a questão da ´vontade geral´ e ´renunciando as nossas responsabilidades individuais´.

Mas, como pensarmos em ´vontade geral´ diante de atrocidades e genocídios? Ou, como pensarmos nos avanços da condição feminina, e digo, como pensadora e como mulher, diante dos estupros e apedrejamentos?

Calligaris  reconhece que as relações comerciais estão calcadas em vários fatores; e no Brasil, na época, houve um comando consular de porte e um ministro das relações exteriores, Celso Amorim que é um pensador, mas que defendeu o diálogo com Ahmadinejad como também defendeu o diálogo com Fidel Castro e contra o boicote econômico dos EUA em relação a Cuba. Também defendeu o diálogo amistoso com Hugo Chavez e Evo Morales por uma América Latina forte. Além de se colocar como mediador de diálogos entre Israelenses e Palestinos.

Amorim reafirmou a importância do diálogo, mas destacou em matéria[1], que o Itamaraty, através de seu presidente da República fez restrições e se colocou descontente com os posicionamentos do líder iraniano, quando este estiver no Brasil. Acrescentaria a este cenário uma grande manifestação em repúdio a Mahmoud Ahmadinejad.

 

[1] Plantão (on line), 30/04/2009: Celso Amorim defende visita do presidente do Irã no Brasil. Matéria assinada por Eliane Oliveira.

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