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Série Emmanuel Nery I: Ismael Nery (1) “em três tempos”

24 abr

Por Gisèle Miranda

 

Emmanuel Nery nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 3 de julho de 1931 e faleceu na mesma cidade em 3 de julho de 2003. Artista visual e poeta foi aluno de Cândido Portinari, Alberto Guignard, De Chirico, Salvador Dali, Diego Rivera, Frida Kahlo, Norman Rochwell e, filho caçula do Surrealista brasileiro Ismael Nery e da poetisa Adalgisa Nery.

Em 1988, no MASP, sob escolha a dedo de Pietro Maria Bardi, quarenta telas foram expostas. Foi durante essa exposição que tive o prazer de conhecer Emmanuel Nery.

Seu trabalho figurativo crítico referendava alguns de seus mestres – dos pincéis às longas conversas sobre o multifacetado mundo das artes. Houve ênfase de imagens surreais, elo vertiginoso de três de seus mestres De Chirico, Salvador Dali e Frida Kahlo. Mas, e Ismael Nery?

Com seu pai o vínculo afetivo foi de ausência, marcado pelo pouco tempo de convivência, já que Ismael morreu quando Emmanuel tinha apenas 3 anos de vida. Mas seus desenhos e pinturas efetivamente têm algo em comum – de pai para filho? Melhor dizer, o filho resgatando o pai em gestos e expressões exteriores com segredos de atitudes interiores. (VOVELLE, 1991:31)

Caso explícito da obra “Ismael em três tempos”, donde questões de autoria, canonicidade e interpretação tecem três momentos conhecidos de Ismael Nery, ou seja: vida, morte e consagração póstuma[1]. A obra “Ismael em três tempos” de Emmanuel Nery teve um ar de acerto de contas à memória de seu pai.

Emmanuel Nery (RJ, 1931-RJ, 2003), Ismael em três tempos, acrílico s/ tela 95 x 85 cm, 1986.

Os três momentos distintos foram alicerçados pelo fundo azul conhecidamente uma cor profunda, circular e concêntrica; tonalidade quase para o roxo; fruto dos grandes mestres? Fruto de reminiscências da infância – um vidro de biscoitos que sua avó levou quando foi visitá-lo no internato Frei Fabiano. Momento este revigorado na realização da obra.

E, para aquém da obra visual, o poeta Emmanuel Nery declamou à morte e consagração póstuma de seu pai, elementos interativos:

 

“… Pai, nunca tive.

Mas foi sobre-humano

Assim eu o fiz:

Moldado no perfeito.

Cheio do bom.”[2]



Ou,



“Viver meus filhos

Justifica viver.

Conhecer meu pai

Justifica morrer.”[3]

 

Ismael Nery – o pai – às vésperas de sua morte, também registrou em forma de testamento a necessidade de ser poeta:

 


“Todo homem recita um poema nas vésperas da sua morte – a humanidade recitará também o seu nas vésperas da sua, pela boca de todos os homens que nesse tempo serão poetas.” [4]






[1] Nery, Ismael. Parte do Testamento Espiritual, novembro de 1933; Catálogo da Dan Galeria, 1991.

Ismael Nery nasceu em Belém (PA) em 1 de julho de 1900; mudou com seus pais para a cidade do Rio de Janeiro quando tinha 2 anos.  Ismael sempre gostou de desenhar, desde muito cedo; logo fez Escola de Belas Artes e aperfeiçoou-se na Europa.  Trabalhou como arquiteto-desenhista e desenvolveu um sistema filosófico denominado Essencialismo, baseado na abstração do tempo e do espaço na seleção e cultivo dos elementos essenciais à existência, na redução do tempo à unidade… (Catálogo Dan Galeria, 1991).

Suas influências na pintura foram Marc Chagall, Picasso, Max Ernst e Klimt. Ismael Nery não vendeu nenhum de seus trabalhos em vida. Faleceu em 6 de abril de 1934, na cidade do Rio de Janeiro. É conhecida a sua visionária história de querer morrer aos 33 anos, como Cristo e como seu pai, o médico Ismael Nery. O Surrealista Ismael Nery morreu aos 34 anos com ares de 33.

 

[2] Parte do poema inédito `Órfão de mãe´, de Emmanuel Nery, s/d.

[3] NeryEmmanuel. Forças Contrastantes. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. Poema Antídotos, p. 80.

[4] NeryIsmael. Parte do Testamento Espiritual, novembro de 1933; Catálogo da Dan Galeria, 1991.

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