Tag Archives: New Castle

Papos alcóolicos quase acuradamente históricos

26 fev

por Sta. Sbaile

“Eu moraria na Flórida tranquilamente!” – me dizia o turco que veio para a universidade da Flórida apresentar a tese de doutorado dele.

EU: Jura? A Flórida é um saco, cara.

TURCO: Ah, mas a Turquia é pior.

EU: Bom, não vou argumentar isso.

TURCO: Como assim?

EU: A Turquia me pareceria pior também.

TURCO: Por quê?

EU: Porque você é turco e está falando que é pior. Quem melhor que um turco pra falar da Turquia?

TURCO: É que eu sou gay.

EU: Eu sei.

TURCO: Então.

EU: Então o quê?

TURCO: Então, gays sofrem na Turquia.

EU: Então.

TURCO: Então o quê?

EU: O que você bebe?

TURCO: Não sei. Eu bebo cerveja turca. O que você bebe aqui?

EU: New Castle.

TURCO: Eu vou beber New Castle também.

Eloir Jr., a justiça das etnias, s/d,

Aí nós estávamos bebendo lá quando o grupo de estudantes que também estava apresentando teses de doutorado naquele dia chega no bar. Eles sentam do nosso lado. Papo vai, papo vem, eu pergunto: – E você, de onde é? (para uma menina) – “Da Polônia.”

TURCO: Eu sei falar polonês!

EU: Por que cargas d’água você sabe falar polonês, meu filho?

POLONESA: Porque os otomanos invadiram a Polônia. E ele é otomano.

EU: Faz sentido. Mas turco e polonês são tão parecidos assim? Eles soam tão diferentes pra mim…

TURCO: Vamos combinar, né? Quem não invadiu a Polônia? Querida, seu país foi a piriguete da Europa… Todo mundo passou a mão lá.

EU: Os húngaros invadiram…

TURCO: Os alemães invadiram.

ITALIANO: Os romanos também.

EU: Com o império romano de antes ou depois de Cristo?

CANADENSE: Só existiu um império romano.

EU: Não, existiram dois impérios. O de verdade, e o da igreja.

CANADENSE: O império sagrado romano?

EU: Isso.

CANADENSE: Aquilo não era sagrado, muito menos romano.

EU: Mas ele se chamava romano.

CANADENSE: Mas não era romano. Vá ler um livro de história.

EU: Que maldito filho da puta você é!

CANADENSE: Como?

EU: É, você! Me mandando ir ler história quando eu só estou em um diálogo bêbada num bar! Grosso!

CANADENSE: Eu sou canadense. Não posso ser grosso. Hehe. (risadinha idiota)

EU: E eu sou brasileira e estou de saco cheio de você, canadense ou não!

TURCO: Romano ou não romano, eles invadiram a Polônia, provando o meu ponto de que a Polônia é a puta da história da humanidade.

POLONESA: Puta da história? Pelo amor de Deus!

EU: De onde era o império romano que não era romano, então?

CANADENSE: Alemanha.

EU: Jura? Por que eles não se chamam “O império sagrado alemão”, então?

POLONESA: Eu acho o fim chamar anos de massacres de putaria! Como se a Polônia quisesse ter sido invadida…

TURCO: Mas os otomanos nem foram tão ruins assim, se comparados aos romanos, por exemplo…

EU: Quais romanos? Os de verdade ou os supostamente alemães?

CANADENSE: Já falei que só existiu um império romano.

EU: Canadense! Eu tô falando com você? Baixa a bola.

TURCO: Os romanos de antes de Cristo…

EU: Mas as colonizações romanas também não eram tão ruins assim…

ITALIANO: Verdade. Os romanos começavam com invasões bárbaras, mas depois tratavam os colonos como cidadãos.

CANADENSE: Ah, claro. O que eles fizeram com os celtas não foi massacre!

ITALIANO: As invasões eram sangrentas, a colonização não.

CANADENSE: Os romanos trucidaram os celtas!

EU: Nossa, os celtas… Estamos no lado B do mundo agora.

TURCO: Verdade. Os celtas também só se foderam. Todo mundo foi lá.

CANADENSE: Os celtas ainda existem!

EU: E os curdos também. A verdade é que todo mundo já se fodeu. Olha os próprios otomanos… tinham um império, agora gays não podem sair de mãos dadas na rua.

TURCO: E tinha gay de sobra naquele império, hein! E nem me fale dos curdos… Eles são um problema sério na Turquia.

POLONESA: Então a Polônia era a puta e a Turquia a biba?

TURCO: É…

EU: Porra! Além da Polônia ser puta, ela ainda foi abusada por um país bicha? Isso é que é falta de sorte!

Um velho se aproxima da nossa mesa.

VELHO: Posso me sentar aqui?

EU: Não senhor. Vá procurar outra mesa. (Eu tinha percebido que o velho era encrenca).

VELHO: Tá vendo aqueles taxistas Haitianos ali?

Nós olhamos. Havia um grupo de taxistas haitianos falando alto, em francês, na esquina.

VELHO: Bando de pretos! Racinha!

EU: Meu senhor, eu já falei que você vai ter que procurar outra mesa!

VELHO: Eu? Eu não. Eu sou da Flórida. Eu vou ficar aqui, no lugar que eu pertenço. Vocês, bando de estrangeiros parasitas, que procurem outro lugar!

Eloir Jr., Pisánki Czestochowska, acrílica s/ tela 50 x 40 cm, s/d (Nossa Senhora de Czestochowska, padroeira da Polônia)

EU: Meu senhor, este é um império em declínio. Se prepare para ser invadido por uma bicha muçulmana, uma polonesa puta, uma latina judia, um italiano que mal fala inglês, haitianos… E o pior: um canadense! Aposto que você nunca pensou que esse momento chegaria, eh?

* sobre o artista Eloir Jr. (http://eloirjr.blogspot.com/2010/09/blog-post_04.html)

Meu nome é VLADIMIR!

31 jul

Por Srta. Sbaile


 

Não faz muito tempo que a Gabriela me liga em busca de algum entretenimento casual. Chego no bar, ela não está lá. Latinas são foda, sempre atrasadas.

– Meu filho, me traz uma New Castle enquanto eu espero pela Gabi, por favor.

O bar está meio lotado, eu fico um pouco claustrofóbica. Um bando de europeus gritando, uns por cima dos outros, já bêbados. Argh! Que nojo eu tenho de pessoas amontoadas! O bartender me serve o pint. Eu me debruço no balcão para pegar a minha tão esperada New Castle quando…

– Mocinha! Essa cerveja é minha. (Um maldito inglês fala pra mim)

– Não, ela é minha.

– Não é, não. Eu pedi New Castle.

– Pois eu também pedi New Castle, Mr. Bean!

– Eu estava na sua frente.

– Tem seu nome escrito na cerveja?

– Você é um porre, menina.

– E você precisa de uma namorada.

Agarrei aquela New Castle como se ela fosse o Andrew Bird de cueca durante o meu período fértil. Fui andando em direção a uma mesa. O inglês grita:

– Qual é seu nome, princesa?

– Vladimir!

Não sei porque falei “Vladimir”. Acho que foi porque eu sempre me senti um russo, daqueles bêbados, barbudos e sem paciência. Um cara com seus quarenta e poucos anos. Sei lá, eu me sinto assim por dentro. Sabem? Esse é meu íntimo: o Vladimir. É, é isso.

 

Meu nome é Vladimir, mas pode me chamar de Vlad

 

No meio da confusão entre mim e o cara de fuinha britânico, o pobre do bartender se confundiu e me serviu um segundo pint.

– Queridão, você já me serviu.

– Já?

– Já. Olha aqui, bicho. Tô bebendo.

– Ah tá. Essa fica pela casa, então.

– Valeu!

Fiquei lá, com dois copos cheios me encarando. Até eu terminar a primeira cerveja, a segunda já ia estar quente. Foi aí que eu ouvi:

– Uma New Castle!

De uma mesa, sozinha, lá num cantinho do bar, uma menina magrinha grita para o bartender. Andei até a mesa dela com a minha cerveja extra e falei:

– Aqui. Sua New Castle. Essa é por minha conta.

Ela olhou meio sem entender e continuei: – Pode tomar, não tá envenenada.

– Ah, obrigada.

Ela começa a beber e eu não resisti: – Pronto. Agora você vai ter que transar comigo, gata. Ou acha que eu saio pagando cerveja de seis dólares sem segundas intenções?

“Puta que o pariu. Eu acabei de falar isso pra uma menina? Que bosta!” Eu pensei, claro, depois de falar. Não se faz esse tipo de brincadeira com meninas, elas levam tudo a sério. Eu deveria ter sido mais sensível e falado: “Ganhei uma extra por engano, pode beber essa”. Mas ela deu risada. Ufa! Sério mesmo: ufa!

– Meu nome é Heather. Qual é o seu?

– Vladimir.

– Vladimir?

– É, Vlad.

– Seu nome é mesmo Vladimir?

– Não, mas eu gosto desse nome. Acabei de inventar.

– Ah tá.

– Vladimir Chuvalo. Por causa do Chuvalo, sabe?

– Não, não sei. Quem é Chuvalo?

– Um boxeador.

– Latino?

– Não.

– Italiano?

– Não. Canadense.

– Um canadense chamado Chuvalo?

– Pois é, também pensei nisso quando ouvi o nome dele pela primeira vez.

Vejo a maldita da Gabriela entrando no bar. Já era hora.

– Gabriela, sua desgraça de peitos! ESTOU TE ESPERANDO FAZ MEIA HORA!

A Gabi faz uma cara de “não tenho desculpa para estar atrasada, é falta de respeito mesmo” e vem ao meu encontro.

– Heather, legal te conhecer. Agora eu vou lá ver qual é o drama da vez com a Gabriela.

– Valeu pela cerveja, Vlad.

– Ah, sem problemas. Alguns minutos se passam. Eu tô lá com a Gabi no bate-papo, nada muito interessante… só dramas de alguém que casou e está em crise com a moral ao pensar em trair. Conhecem o tipo?

Enfim, recebo um bilhete do garçom: “HEATHER (954) 766-7825” Eu me mato de rir. Penso em responder o bilhete assim: “JENNY 867 5309”. Mas ah, sou boazinha, não tive coragem.

– Sbaile! O que é esse papalzinho? Pára de rir!

– Gabriela, filhota…

– Que é? Me responde!

– Esquece. Eu pago sua próxima tequila. Aliás, esse seu sapato é legal, gostei dele. Quer sair para jantar, Gabi?

– Agora?

– É, por minha conta. Mas você vai ter que transar comigo depois. E… ah, me chama de Vladimir.

 

%d blogueiros gostam disto: