Tag Archives: Obrist

Série Retorno I: “Matuiú”

29 ago

por Gisèle Miranda

 

O CD Teatro do descobrimento (KIEFFER, 1999) remete a um memorial musical brasileiro sobre os séculos 16 e 17 com incorporações dos séculos 13, 14 e 15 através de viajantes, marujos de todas as linguas, crenças, aventureiros, fugitivos, esfomeados vindos da tradição oral – dos relatos, cantos aos desenhos.

Através da faixa musical A Flauta de Matuiú, atribuída a Marten de Vos (1600) a estética germinou no Curupira de traços indígenas, de pele negra. Sua flauta é a representação e a transformação do território (colônia) na fusão de etnias e do marginalizado com pegadas para trás em busca da memória e da história.

aletheia silva, 2013

Aletheia Silva, a Flauta de Matuiú, 2013. Arte a partir da poética sonora.

As investidas à oralidade e seus encaminhamentos poéticos são também nossos Cordéis da região Nordeste do Brasil que ao se desenrolarem à escrita recriou olhares e escutas da tradição popular e de acessibilidade à educação – de Matuiús aos Curupiras.

A cultura material – de povos sem a escrita ou de relação mista (oralidade e escrita) com enfoque às diferenças sociais e educacionais – em tese vem trazer olhares a produção dita artesanal ou de material étnico, mas:

…com a tensão que vai e volta entre a antropologia, etnologia e história da arte, a respeito de como expor o trabalho de povos para quem a criação artística significa um monte de outras coisas, além da própria criação. (OBRIST, 2010, 211)

O questionamento não está problematizando sobre materiais perecíveis ou não perecíveis confeccionados à maneira de cada cultura, mas como apresentá-los sem a cultura de subjugação? Como valorizar os objetos diante daqueles que não querem ver, que não se sentem parte ou cores, traços, objetos, valores que incomodam a consciência?

Referências:

KIEFFER, Anna Maria (Org). Teatro do descobrimento (CD). São Paulo: Estúdio Cia. do Gato, 1999.

OBRIST, Hans Urich Obrist. Uma breve história da curadoria. Trad. Ana Resende. São Paulo: BEÏ Comunicação, 2010.

VIANA, Klévison. A botija encantada. Fortaleza: Tupynanquin Editora, 2001.

ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a literatura medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Cura-dores: “arte para quê?”

28 mar

Por Gisèle Miranda


A arte prolifera, mas não seria esse terreno feliz e arenoso a persuasão do vazio? O vazio revogado é o elemento que paira sobre as artes?

Leonilson, Cheio, Vazio: bordado e costura sobre voile e tecido de algodão, 1993

Hans Urich OBRIST ao reunir onze entrevistados, outrora curadores de êxitos deixou escapar que há de se ater com cuidado o tempo tranquilo da arte.

Singularidades técnicas, formações – o ´olhar´ – agregado de valores do tempo e prerrogativas morais, o ´olhar´ incisivo de Duchamp como fonte de ´olhares’, da geração do final dos anos de 1960 que ativou o ofício curador para triunfar em uma geração que viria abrir o leque da arte conceitual – por entre  ditaduras e democracias.

Walter Zanini está na teia dos onze curadores. Obrist o entrevistou em parceria com Ivo Mesquita e Adriano Pedrosa em 2003.

Zanini relembrou a crise do MAM/SP, instituição privada que foi o vetor da criação da Bienal de Artes de São Paulo, em 1951, ou seja, a flutuação dos anos de nacionalismo à internacionalização e industrialização da economia brasileira que antecederam aos longos vinte e um anos de ditadura militar no Brasil e, obviamente, os efeitos danosos deixados pela censura militar nas artes em geral. E como senão bastasse, não havia aproximação de países vizinhos como Argentina, Chile, Uruguai, Venezuela porque também esses países passaram a viver sob ditaduras militares.

Particularidades temporais – Entrelaces e rupturas da 27ª Bienal às expectativas da 30ª Bienal

27ª Bienal de Artes de São Paulo (2006),  curadoria de Lisette Lagnado com título de um curso de Roland Barthes indiciou um vetor em meio às diferenças: “Como viver junto” ?

Mas, o que vem ocorrendo nas artes visuais (por exemplo) para que possamos esboçar na pichação, uma crítica policiada a um estado feliz, arenoso e vazio? Ignorar?

Em desdobramentos (ou rupturas), a 28ª Bienal (2008) sob curadoria de Ivo Mesquita –  foi vítima  (?) de pichações; também uma galeria de arte e uma faculdade de arte, ambos na cidade de São Paulo, e mais, o encarceramento de jovens do “pixo” de Belo Horizonte.[1]

A 29ª Bienal (2010), sob curadoria de Agnaldo Farias defendeu a idéia de um espaço vazio para destacar a arquitetura interna de Oscar Niemeyer. Mas a indiscutível beleza arquitetônica acabou dando o tom pejorativo da Bienal do vazio, a partir da questão: o que deve ser importante – a arquitetura ou o conjunto de obras da Bienal? Além, evidentemente do poli (ciamento) ou politicamente correto  que preponderou ao ser desfeita a obra Bandeira Branca do artista Nuno Ramos.

A 30ª Bienal de Arte de São Paulo (2012) estave sob curadoria do venezuelano Luis Pérez-Oramas, que estabeleceu seu artista de destaque – Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), interno de um manicômio, enjeitado social que caiu nas graças da grande arte.

A “figura periférica” de Bispo do Rosário foi posta em cena na Bienal de Perez-Orama  através da “invenção da linguagem”. Sim, linguagem periférica, símbolos resgatados pela inventividade dos magníficos objetos renomeados e realocados; pelos mantos bordados  por linguagens de um artista pleno, em um mundo desconhecido e encarcerado por ser diferente.

Que venha Arthur Bispo do Rosário! Que Arthur Bispo do Rosário nos permita a arte da diferença, neste aparente momento feliz, politicamente correto de proliferação artística.

Arthur Bispo do Rosario Manto da Apresentação Tejido e hilo. 118. 5 x 141 x 20 cm, s/d

Referências e sugestões:

AMARAL, Aracy. Arte para que? São Paulo: Nobel/ Itaú Cultural, 2003

OBRIST, Hans Urich Obrist. Uma breve historia da curadoria. Trad. Ana Resende. São Paulo: BEÏ Comunicação, 2010.

GREENBERG, Clemente e o Debate público. (Org. Glória Ferreira e Cecília Cotrim; Trad. Maria Luiza Borges). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, Ed. 2001.

GRUPO de estudos sobre curadoria. São Paulo: MAM, curadoria de Tadeu Chiarelli, 1999.

Sobre artista Arthur Bispo do Rosário por Márcio Seligmann-Silva, clique aqui

Sobre o artista Leonilson, referências necessárias de Ivo Mesquita e Lisette Lagnado. Em exposição Sob o Peso do meus Amores sob curadorias de Bitu Cassundé e Ricardo Resende. V. Tb. Texto do Blog Tecituras sobre Leonilson, política e educação https://tecituras.wordpress.com/2011/06/19/%E2%80%9Ca-estranha-derrota%E2%80%9D/

 

Bienais de Arte de São Paulo, Salve Basquiat!

Arte Conceitual, ar e ar!

Documentário de João Wainer e Roberto Oliveira – PIXO http://www.youtube.com/watch?v=KHVwEq97ukg

Documentário de Vladmir Seixas  http://www.youtube.com/watch?v=UHJmUPeDYdg


[1] http://olhodecorvo.redezero.org/nova-cruzada-moral-e-caca-as-bruxas-o-pixo-em-belo-horizonte/“a grafia “pixo” no lugar de “picho’, conforme o uso que os ativistas fazem, diferenciando-se assim do termo oficial, que se tornou pejorativo” (Garrocho, L. C.) Sugestão Documentário de João Wainer e Roberto Oliveira – PIXO
http://www.youtube.com/watch?v=KHVwEq97ukg

Série Brasil I: Jean–Baptiste DEBRET

4 mar

Por Gisèle Miranda

(À cidade do ‘meu’ Rio de Janeiro)

“… cultura de minha arte sob um céu tão puro e onde a natureza exibe aos olhos do pintor filósofo a profusão de uma riqueza desconhecida…” (Debret, 1839)

No balanço delicioso da alma, Debret exaltou um Brasil do qual foi artífice junto a Lebreton, chefe da Missão Artística Francesa à criação da Academia Imperial de Belas-Artes (AIBA) no Rio de Janeiro[1].

Debret em seus paradoxos sociedade/individuo, público/privado compôs sua Viagem Pitoresca de 149 litografias à mestiçagem da tradição monárquica européia com a prática escravista colonial marcadamente religiosa- uma aula de história e arte do Brasil, pré e pós independência. (1)

Do escambo – compra/escravização de índios e negros por aguardente, fumo, pólvora, entre outros – o tráfico humano compõe uma amarga parte da mestiçagem brasileira, que adiante se desdobrou no conceito exercido por Darcy Ribeiro e Michel Serres.

Debret, escravas negras de diferentes nações, 1816-1831

O tráfico – estigma oficial de último país a abolir a escravidão (1888), um século depois da Revolução Industrial Inglesa e  Revolução Francesa. Além do estigma aniquilador de culturas indígenas.

Oportuno ressaltar que as litografias de Debret do início do século 19 compostas por índios, negros, europeus e os paradoxos acima ressaltados, marcaram a arte figurativa histórica em suas diferentes facetas à história da arte.

Com relação ao material étnico ainda existe a tensão que vai e volta entre antropologia/etnologia e história da arte, a respeito de como expor o trabalho de povos para quem a criação artística significa um monte de outras coisas, além da própria criação. (Obrist, 2010, p. 211)

Este slideshow necessita de JavaScript.

No entanto, as litografias de Debret sobre as diferentes culturas africanas, afro-brasileiras e descendentes garantiram resgates inestimáveis à história e à arte. Da mesma forma, as diferentes culturas da Europa (da época), tais como espanhóis e holandeses, franceses e ingleses, poloneses e ucranianos, batavos e bávaros, árabes e judeus, além dos portugueses, preponderantemente.

A cidade do Rio de Janeiro completou em 1 de março de 2014: 449 anos.  Os cariocas descendem de algumas tantas tribos indígenas extintas, de alguns tantos povos europeus e do reino do Congo – os dois Congos atuais, mais Angola (Monénembo, 2001, p.108 e 110), tradições que nos trouxeram o carnaval, a capoeira e o sincretismo.

Unido a isto, o experienciar artístico de Debret por dezesseis anos no Brasil repercutiu a seus discípulos, agregados ao que um dia também fora, um aluno/discípulo de Jacques-Louis David.

Ademais, a formação de Debret deu-se também como partícipe da Corte imperial de Napoleão I – embora tenha sido secundária, se comparado a importância de sua arte à época da monarquia portuguesa no Brasil (1808-1821) e sua derivação brasileira do Primeiro Reinado (1822-1831). In: Alencastro, 2001, 143.

Referências:

DEBRET, Jean-Baptiste (1768-1848). Viagem Pitoresca e a História ao Brasil. Tradução e Notas Sérgio Milliet; apresentação de Lygia da Fonseca F. da Cunha. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1989. (Coleção Reconquista do Brasil) Tomos I, II e II.

OBRIST, Han Ulrich. Uma breve história da curadoria. Tradução Ana Resende. São Paulo: BEI comunicação, 2010.

RIBEIRO, Darcy. O povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995

(1) RIO DE JANEIRO, cidade mestiça: nascimento da imagem de uma nação/ ilustrações e comentários Jean-Baptiste Debret; textos Luiz Felipe Alencastro, Serge Gruzinski e Tierno Monénembo; reunidos e apresentados por Patrick Straumann; tradução de Rosa Freire d´Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

SERRES, Michel. A Lenda dos Anjos. São Paulo: Aleph, 1995.

SERRES, Michel. Filosofia Mestiça. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1993

Sobre Debret: http://ht.ly/489Jshttp://ht.ly/489MK

Sobre Darcy Ribeiro: http://ht.ly/48a3Ihttp://ht.ly/48a52http://ht.ly/48a74

Sobre Michel Serres: http://ht.ly/48adbhttp://ht.ly/48aoP

Sobre Lebreton: http://ht.ly/48ajuhttp://ht.ly/48att

Sobre David, Jacques-Louis http://ht.ly/48Aey

Sobre Humboldt: http://ht.ly/48aEF http://ht.ly/48aBP


[1] Debret, aconselhado por Humboldt chegou 26 de março de 1816, quando o Rio de Janeiro era capital do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves – investimento de d. João VI, que em 1808 promulgou o Rio de Janeiro sede da corte portuguesa.

%d blogueiros gostam disto: