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30ª Bienal de São Paulo: Os fios tecidos de Arthur Bispo do Rosário

21 set

por Gisèle Miranda

 

A Bienal se reencontrou com as obras de Arthur Bispo do Rosário e desta vez sob curadoria de Luis Pérez-Oramas.

Pérez-Oramas foi incisivo em sua “iminência das poéticas” e nas vozes diferenciadas que ecoam. Esse é o elo, o fio de Bispo (outrora de Ariadne) que fia e desfia na arquitetura de Oscar Niemeyer. Se Babel, labirinto ou oceano, as vozes apresentam-se  em um “ensaio polifônico”.

Em meio a isto, Bispo surpreende. Foi alvo da limpeza social da época, escapou da lobotomia e conviveu sob preconceitos, mesmo que isso não tivesse claro para ele. Melhor assim, bastavam as vozes de sua esquizofrenia já que as vozes do Estado e da sociedade só o discriminavam.

Superação com sentidos variados incluso pela perspectiva-escrita de Rodrigo Naves quando relacionou a vida de Bispo (e de muitos outros artistas) às dificuldades gritantes de nossos atletas, visto pelo histórico e os recentes jogos Olímpicos e Paralímpicos. Disse ele:

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão. Se a injustiça social não encontrou entre nós – ao menos até os anos 80 – uma resposta política efetiva, parece fora de questão que artisticamente nosso meio cultural seria muito menos rico sem a contribuição daqueles que teriam tudo para permanecer silenciosamente à margem. [1]

De fato essa correlação é muito oportuna. Alguns superam “a margem” quase como um milagre. Para o descrente, a revolta e a certeza que muitos ficaram no caminho sem volta.

Arthur Bispo do Rosário

A 30ª Bienal foi tomada pelo fio e desfio de Bispo do Rosário – o des- A- fio de suas vestimentas, das palavras bordadas e alinhavadas aos pensamentos. Bispo é nosso Oceano Atlântico. Nele Bas Jan Ader continua vivo no encanto performático e mítico de seu desaparecimento. [3]

O oceano Atlântico que expurgou o marinheiro-artista Bispo do Rosário é o mesmo que sugou o artista-marinheiro Bas Jan Ader – se nos atermos sobre “a falha, a queda, o risco… e a finitude da vida”[2] – elementos intrínsecos a curadoria sem estrelismos de Pérez-Oramas; “clean” para a maioria crítica, mas com a consciência histórica das Bienais desde 1951 às oscilações da 29º Bienal em meio às controvérsias da”pichação e do vazio”. (*)

Neste oceano há fios, redes conectados à arte têxtil de Sheila Hicks, “rejeitando os limites tradicionais que separam a arte, artesanato e design”, seduzida pelos cantos inebriantes da “tecelagem das Américas do Sul e Central”[4].

Michel Aubry também içado pelos fios costurou “mobílias, instrumentos, tecidos…” como mantos históricos e com seus “sintomas políticos e sociais ”[5]. Em um dos mantos  – “sobretudo” – Aubry imprime traças à visão de tragédias e intolerâncias de um passado recente e numa taxidermia com linhas e agulhas.

Bispo alinhavou com outros artistas, cortou, fez e desfez no “risco” de Bas Jan Ader à preponderância das texturas, dos tecidos e tons, visibilidades geracionais em consonância a identidade e a coletividade através das fotografias de Hans Eijkelboon, na moda dos anos de 70 e 80 do Studio 3Z , de August Sander, entre os 111 artistas desta 30ª Bienal de São Paulo.

Muitos tecidos, muitas costuras, muitas experiências; muitas linhas e agulhas. Por quê? – Há uma amplitude e complexidade do tema. [6]

 

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Notas:

(*) V. Bienais de Arte de São Paulo: Salve, Basquiat

(1) Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014.

[2] Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo: A iminência das poéticas / curadores Luis Pérez-Oramas  {et al.}. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2012, p. 110

[3] Bas Jan Ader desapareceu “no oceano Atlântico ao tentar atravessá-lo com minúsculo veleiro enquanto realizava a segunda parte de um tríptico chamado In Search of the Miraculous”. In: Catálogo da 30ª Bienal, 2012, p. 110-111.

[4] In: Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo, 2012, p. 279.

[5]  In: Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo, 2012, p. 228-229.

[6] Walter Zanini em 10 de fevereiro de 2010 – na apresentação do Livro de: COSTA, Cacilda Teixeira da. Roupa de artista – o vestuário na obra de arte. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo: EDUSP, 2009.

Outras referências:

ARTHUR Bispo do Rosário. Emanuel Araújo {et. AL} Organizador e curador Wilson Lázaro. Rio de Janeiro: Réptil, 2012.

BOUCHER, François (1885-1966) História do vestuário no Ocidente: das origens aos nossos dias. São Paulo: Cosac & Naify, 2010.

Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo: A iminência das poéticas / curadores Luis Pérez-Oramas  {et al.}. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2012

DANTAS, Marta. Arthur Bispo do Rosário: a poética do delírio. São Paulo: UNESP, 2009.

HIDALGO, Luciana. Arthur Bispo do Rosário: o senhor do labirinto. Rio de Janeiro: ROCCO, 2011.

Imagem do soberano

4 dez

Por Gisèle Miranda

 

A exposição ´Imagem do Soberano` ocorreu  na Pinacoteca do Estado de São Paulo mas poderia estar em qualquer lugar do mundo e ser pensada a partir da dinastia Bourbon (1664) – marco dos retratos e esculturas apresentados. Dinastia esta que findou em 14 de julho de 1789, quando o povo tomou a Bastilha e, posteriormente decretou as mortes de Luís XVI, e sua mulher Maria Antonieta, guilhotinados em 1793 (1).

A pomposidade retratada também pode evocar a dinastia dos Capetos, os antecessores divinos que sete séculos antes promulgou a sucessão em sagração divina, que em termos práticos, é a unção entre o Estado e a Religião.

O final de Luís XVI e Maria Antonieta aconteceu justamente em decorrência de um reinado alienado e fútil ante questões demasiadamente sérias, o que culminou na Revolução Francesa, que por sua vez, fez compor uma outra temporalidade histórica na figura de Napoleão Bonaparte.

A exposição começou pelo rei Sol, Luís XIV – O Grande.  Aquele atento à sublevação do povo: fugiu (recuou) e depois retomou; sequenciou com a criação de uma fortaleza – estrategicamente distanciada do povo – o palácio de Versailles; assim fez perpetuar um estilo artístico, o Barroco, ora copiado, ora rejeitado.

Luis XIV em traje real. Ateliê de Hyacinthe Rigaud ou François Stiémart, 1702, óleo s/ tela Acervo do Museu do Palácio de Versailles

Arquitetonicamente bem planejado e com parcerias de projetos de interiores e paisagísticos agregados em um continuum ao projeto geral, Versailles nascia ali, o jardim como extensão da casa e não como ambiente à parte. As paredes que se transformavam em esculturas, as pinturas em retratos. Uma mescla do Barroco corporificados a cada soberano, numa dobra e desdobra, refratária.

Luís XIV foi um mecenas (2). Valorizou como nenhum outro o retrato em sua amplitude artística, alegórica, de registros heróicos, e pela manutenção da distinção de rei cristão, sua nobreza e seu povo. Neste reinado foram criadas as academias de estudos de música, arquitetura, pintura, entre outras.

Seu bisneto Luís XV – O Bem Amado, assumiu a grandiosidade de Versailles, como um bon vivant – apreciador da boa bebida, boa comida e boa cama. Desfrutou da sucessão divina, que nas mortes do pai e do avô, o fez rei. Seu neto, Luís XVI, O Guilhotinado, também pela morte do pai assumiu e governou rumo ao descontentamento do povo, do fim da dinastia e do fim da sucessão divina.

A rainha Maria Antonieta com vestido de anquinhas, depois de 1785, óleo s/ tela. Pintores do gabinete do Rei. Acervo do Museu do Palácio de Versailles

Os retratos pictóricos impõem-se nessa vertente histórica, político e religiosa no estilo Neoclássico. Estratégias, parentescos, posições às voltas da perspectiva arquitetônica  barroca de Versailles que adentra a produção artística do Brasil atrelada pelo parentesco de Dom João VI  com os Orleans.

Num salto particular da exposição as salas dos Retratos dos soberanos em um enfoque informativo sobre o projeto de Versailles e Brasília através da figura de Lúcio Costa como um estudioso do Barroco, de quem sabemos a parceria com o nosso Moderno Oscar Niemeyer (4). Contudo, a perspectiva arquitetônica de Versailles dos soberanos franceses é modificada pela perspectiva para o /e do Povo, dada por Lúcio Costa.

Vista do Palácio de Versailles do lado da praça de Armas, Jean-Marc Manai, 1722, óleo s/ tela Acervo do Museu de Palácio de Versailles.

Afora o ´mural informativo´ de interesse histórico e de aproximação da França com o Brasil, caberia o destaque do mecenato de Assis Chateaubriand sob o pulso de Pietro Maria Bardi para a criação do acervo do MASP, que abriga, entre tantas obras, as quatro pinturas que representam os elementos terra, fogo, ar e água que retratam as filhas de Luís XV, pintadas por Jean-Marc Nattier, emprestadas para essa exposição na Pinacoteca, e tantas outras pelas quais se insere a sagração divina da dinastia Bourbon.

 

 

Notas:

(1) Para quem puder ressoar o filme Maria Antonieta, dir. Sofia Coppola, 2007 e Encontros e Desencontros, 2003 (neste longa,além da direção, Sofia fez o roteiro que foi premiado pelo Oscar em”roteiro origina”, 2004) – perceberá que essa Coppola sabe brincar com astúcia e sutileza a respeito da presença feminina em tempos bastante distintos e fugazes.

(2) Caio MECENAS: o sobrenome Mecenas tornou-se um nome comum para designar patrocício/investimento/apoio às artes em geral. Caio Mecenas foi um patrono das letras, político e conselheiro do imperador César Otávio Augusto.

(3) D. Pedro I efetivou as boas-vindas  e fundou a Academia Imperial de Bellas Artes. Cabe lembrar também do Museu Paulista (Museu do Ipiranga /SP/Brasil), criado em 1895  – o jardim é modelo reduzido  e copia do jardim e Versailles.

(4) Caberia aqui a indicação do documentário Oscar Niemeyer – A vida é um sopro, com direção de Fabiano Maciel, 2006.

* Curadoria: Xavier Salmon : são 40 pinturas, 16 obras em papel, 3 esculturas, 1 tapeçaria, e as 4 pinturas do acervo do MASP.

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