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Série Paschoal Carlos Magno X: Festivais de Estudantes – II Festival em Santos/SP

11 nov

Por Gisèle Miranda

 

O II Festival acorreu na cidade de Santos, em julho de 1959[1]. Foram doze dias com cerca de 800 estudantes dos Teatros de Estudantes de várias regiões do Brasil. Vindos do vigoroso I Festival no Recife de 1958, revertido em experiência bem sucedida e revitalizado nas normativas do II Festival.

10. Estamos em Santos para aprender, estudar, enriquecer nossos conhecimentos… servir à elevação cultural (…) 18. O I Festival em Recife foi um dos maiores acontecimentos do Brasil… em Santos manterá essa tradição.[2]

Envoltos a esses jovens, além de Paschoal Carlos Magno, estiveram Patrícia Galvão (Pagú), Décio de Almeida Prado, Anna Amélia Carneiro de Mendonça, Joracy Camargo, Alfredo Mesquita, Sábato Magaldi, Luiza Barreto Leite, entre outros.

O II Festival apresentou inúmeras peças, cursos, palestras e julgamentos fictícios por nobres juristas e magnas interpretações de Cacilda Becker e Henriette Morineau, respectivamente como Mary Stuart e Elizabeth I; Sergio Cardoso e Paulo Autran como Hamlet e Otelo.

Entre o I e II Festivais, Paschoal conheceu em meio às ruínas, uma fazenda colonial portuguesa, do séc. 18 que viria a ser em 1965, a Aldeia de Arcozelo, sede dos Festivais seguintes, albergue da juventude, cursos e seminários e por fim, a tão sonhada Universidade Livre de Artes, que infelizmente não alçou voo.

Paschoal Carlos Magno na Aldeia de Arcozelo (Teatro Itália Fausta ao ar livre), ca. 1975. Foto Ney Robson (Inacen/RJ)

O entorno fiscalizador do Estado proibiu a UNE, censurou espetáculos, os intelectuais foram obrigados a calar seus pensamentos que gritavam. Os militares queriam o silêncio da juventude, Paschoal queria as vozes da juventude.

Do V ao VII Festivais, Paschoal foi sendo abatido, período correspondente a 1968, 1971 e 1975. Os efeitos da ditadura militar que dizimou os Teatros de Estudantes, foram também minando as lutas de Paschoal – calejando-o, atormentando-o, mas obstinado foi galgando perspectivas paralelas e necessárias – primeiro, dispersando os jovens em Caravanas e Barcas em cidades distantes e em territórios disfarçados.

Modelo organizacional/alimentação Festival Nacional na Aldeia de Arcozelo

Segundo, reunindo-os e protegendo-os através de relatos em jornais sobre  suas atividades culturais. E para cada inspeção, um personagem paschoalino para compor os ares de inofensivo ou louco e, porque não, um amansador de ideologias ou dos ardis da juventude.

Afinal, a educação formal foi movida pela política de censura e pelo Estado repressor, mas as atividades culturais foram desprendidas da educação do Estado, mas não para Paschoal Carlos Magno, que via no teatro uma efetiva alternativa de educação.

 

Referênias:

ARGAN, G. C. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

BABHA, H. F. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo: FAPESP: Iluminuras, 1997.

MADEIRA, G. ou MIRANDA, G. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo, 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP.

KHOURY, S. Atrás da máscara. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, V. 2.

Periódicos:

A Tribuna, 11 jul. 1959.

Diário de Brasília. Brasília, 22 nov. 1974. Moços merecem mais respeito. Por Paschoal Carlos Magno.

Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 24 nov. 1974. O Outro Paschoal – triste, desgostoso, revoltado.

Jornal do Comércio. Rio de Janeiro, 27 nov. 1974. “Eu não existo mais”. Por P. Lara.

O Estado de S. Paulo. São Paulo, 2 set. 1976, p. 18. Sem apoio oficial, Aldeia de Arcozelo poderá desaparecer.

O Globo. Rio de Janeiro, maio 1969. Para salvar a Aldeia. Por G. M. Bittencourt.

O Globo. Rio de Janeiro, 21 nov. 1974. Paschoal depõe para o futuro pedindo que ajudem o teatro.

O Jornal. Rio de Janeiro, 19 dez. 1967. Paschoal fala de teatro no MIS e condena censura.

Revista Dionysos: Estudos Teatrais. José Arrabal (Org.) Teatro do Estudante de Brasil, Teatro Universitário, Teatro Duse. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura: DAC: FUNARTE: SNT, n. 23, set. 1978.

Última Hora. Rio de Janeiro, 12 mai. 1964. Paschoal acabou com o Duse e com a Casa. Por José Mauro.

Última Hora. Rio de Janeiro, 19 dez. 1967. Juventude é tudo.


[1] Demais Festivais: O I Festival no Recife (PE), 1958; III Festival em Brasília (DF), 1961; IV Festival em Porto Alegre (RS), 1962; V Festival na Guanabara (RJ), 1968; VI e VII Festivais na Aldeia de Arcozelo – Paty do Alferes (RJ), 1971 e 1975.

[2] Normas 10 e 18 – parte das dezoito normas estabelecidas por Paschoal aos estudantes de teatro para o Festival em Santos. Jornal A Tribuna , 11 jul. 1959. O Festival em Santos ocorreu de 12 a 24 de julho de 1959.

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Série Paschoal Carlos Magno VIII: A Barraca e o Teatro Experimental do Negro

10 out

Por Gisèle Miranda


A Barraca de Federico Garcia Lorca foi resgatada pelo Teatro de Estudantes de Pernambuco (TEP) na apresentação de Cantam as harpas de Sião, reescrita pelo jovem talento Ariano Suassuna com o nome Desertor de Princesa. E à frente da Barraca, Paschoal Carlos Magno, em 1948.

TEP, Teatro de Bonecos ´Haja Pau´, de José de Morais Pinto, 1948.(Paschoal Carlos Magno sentado à direita)

Se apresenta, e se representa, como poder de participação e de integração, no momento em que a comunidade unânime subverte qualquer hierarquia e qualquer ordem estabelecida (Bellème, 1988: 140)

Ao criar uma linha da política divergente, a Barraca abriu uma discussão sobre oralidade, escrita, popular e erudito:  subverte-se a oralidade lendo Victor Hugo, quiçá os tantos Eus de Fernando Pessoa, os tantos ismos que a historicidade artística registrou.

Há também o caráter revolucionário no palco, que também pode realizar-se no estádio, no teatro, na rua, na festa. Retirando um pouco a carga do popular como provedor do discurso político – como síntese viva. (Belléme,1988, 143-144) 

Na oralidade a assinatura pessoal é progressivamente apagada ao longo de uma transmissão que não cessa de ser criadora. Molière deixou livre os seus textos às improvisações. Escrever não pode traduzir os jogos de cena.; eis porque basta a aprovação do público consagrá-las. (Bollème, 1988, p. 158 e 163)

Mas, somente nos idos de 1950, os medievalistas trabalharam com a poesia oral. Até então ela estava recalcada em nosso inconsciente cultural, tardiamente, pois, todos eram escravizados pelas técnicas escriturais e pela ideologia que elas secretam… perdida a faculdade de dissociar da idéia de poesia a de escritura. (Zumthor, 1993, p. 8)

Dai a dicotomia popular – erudito. A literatura delimitava o admissível ao inadmissível folclórico. Quando a oralidade assumiu sua importância foi classificada como ausência de escritura, mas:

A obra contém e realiza o texto; ela não o suprime em nada porque, desde que tenha poesia, tem, de uma maneira qualquer, textualidade. (Zumthor, 1993, p. 10)

 *

O Teatro Experimental do Negro liderado por Abdias do Nascimento foi oficializado em 13 de outubro de 1944, na cidade do Rio de Janeiro, não apenas com apresentações de espetáculos, mas viabilizou cursos de alfabetização e iniciativas culturais.

A questão era: como divulgar e ter um retorno financeiro para que as atividades ganhassem fôlego? Quando o Imperador Jones foi encenado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945, contou com o apoio de Paschoal, segundo reminiscências das atrizes Ruth de Souza e Léa Garcia[1]:

Foi uma correria. Paschoal Carlos Magno nos deu uma lista de embaixadores e cônsules para que eu lhes vendesse ingressos… fui recebida com enorme carinho… o dinheiro dos ingressos serviu para finalizar a montagem… foi um sucesso de crítica e público. (Ruth de Souza. In: Revista Dionysos, 1988, p. 123-124)

Paschoal contribuiu muito para a formação dos atores do TEN. (Léa Garcia. In: Revista Dionysos, 1988, p. 135-136)

Sua luta pelas artes no Brasil, em especial pelo teatro foi o mote de sua consagração e de seu definhamento pela falta de recursos e da oposição política. Mas fazia parte de seu sonho romper com o estereótipo negro de ´escravos a libertos´ e ineptos atores de meados do século 19. Assim como romper com o preconceito com o ponto (a subestimação do profissional de teatro), e com o sotaque lisboeta.

A Barraca de Garcia Lorca alçou um devir ´tempo´no Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), em 1948, e no Teatro Experimental do Negro, em 1949. (o TEN/RJ, sob direção de Abdias do Nascimento e, TEN/SP, sob direção de Geraldo Campos de Oliveira.)

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Vale lembrar também Abdias do Nascimento como Otelo contracenando com Cacilda Becker em 1946.

Cacilda Becker (Desdêmona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

Cacilda Becker (Desdemona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

Imagens:

(1) Otelo de Abdias do Nascimento/direção do próprio Abdias/ segunda montagem de 1949, contracenou com Ruth de Souza no papel de Desdemona. Vale destacar a importância do Festival Shakespeare de 1949, criado e organizado por Paschoal Carlos Magno, em 1947 a partir da Concentração dos Estudantes, e em 1948, o Seminário de Arte Dramática com participações do TEN e demais Teatros de Estudantes.

(2) Otelo de José Maria Monteiro/ direção Chiara de Garcia 1949-1950, contracenou com Fernanda Montenegro como Desdemona. Na antiga TV Tupi. (RJ)

(3) Otelo de Sebastião Vasconcelos/ Teatro do Estudante de Pernambuco, 1951, contracenou com Teresa Leal como Desdemona; Genialdo Wanderley como Iago. (Recife)

(4) Otelo de Paulo Autran/ direção Adolfo Celi, 1956, contracenou com Tônia Carrero como Desdemona. Teatro Dulcina. (RJ)

(5) Público infantil no parque 13 de maio (de 1888 à 1948) – Bonecos ´Haja Pau´, de José de Morais Pinto. Em seguida, Cantam as harpas de Sião (1° Ato) de Ariano Suassuna. Paschoal Carlos Magno sentado à nossa direita, em 1948.

Referências:

BOLLÈME, Geneviève. O povo por escrito. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

MARTINS, L. M. A cena em sobras. São Paulo: Perspectiva, 1995 (Debates, 267)

MENDES, M. G. O negro e o teatro brasileiro. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: IBAC; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 1993. (Teatro, 25)

MAGNO, P. C. O filho pródigo. In: Jornal Correio da Manhã, 9 dez. 1947.

MAGNO, P. C. Tudo valeu à pena. (manuscrito), 12 set. 1968.

PRADO, Décio de Almeida. In: O Estado de S. Paulo, 29 jun. 1952

ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a literatura medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, P. Tradição e esquecimento. São Paulo: Hucitec, 1997.

Ver tb.: Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème


[1] A atriz Ruth de Souza trabalhou na Casa do Estudante do Brasil, fundada por Paschol e d. Anna Nery, em 1929. Aperfeiçoou-se como atriz nos EUA, quando ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Cleveland, Ohio, através da Fundação Rockefeller, por indicação de Paschoal Carlos Magno. A atriz Léa Garcia foi casada com o fundador do TEN, Abdias do Nascimento.

A Peculiar Madri

28 ago
Por Sta. Sbaile

 

A chegada a um outro país é sempre motivo de excitação. Excitação nem sempre é uma coisa boa, mas, geralmente é. No entanto, naquele dia, me dava um pouco de medo; medo sim, porque eu havia programado uma viagem de dois meses e acabava de chegar a um lugar muito longe de casa: Madri.

Eu finalmente podia acender um cigarro. O funcionário da imigração olhou para a minha cara de latino-americana fumante e me viu tirar o maço do bolso. Eu perguntei para ele se precisava passar por alguma entrevista, ou algo do tipo, ele sorriu com aquela cara de latino-europeu fumante e disse: “Você está livre agora”. Nada poderia me causar mais alívio. Saí do aeroporto. Cigarro!

Sentei com a mala em um banquinho (não estava tão frio). Naquele momento eu só precisava fumar oito cigarros, encontrar o papel amassado com o endereço do albergue, pegar o metrô e chegar lá. Aquela filha da puta daquela mochila estava muito pesada. Cacete! Era um peso desgraçado e eu sentia meus ombros rasgando.

Check in: “- Brasileira, huh?” – disse o recepcionista.

– Espanhol, huh? – eu respondi.

– Aonde eu posso comer alguma coisa?
– Fala com o Adrián, ele cuida da cozinha.

– Você é o Adrián?
– Sou eu.

Eles dispararam a falar em Francês. Caralho. Comida, porra!

– Ô Adrianzão, meu chapa..

– Oh pardon!

– Je ne parle pas Français… ‘ Cê é’  francês?

– Não, basco.

Óbvio, ele não podia ser Francês. O Adrián era careca, lembrava um pouco o Barthez, mas tinha olhos azuis e olheiras bem demarcadas. Não tinha sobrancelhas ou barba. Uma mistura de Barthez com Collina, talvez, mais novo que ambos, suponho eu. Aquela mistura de bola de boliche com cabeça de lâmpada, porque ele era assim. Um tanto lustroso, magro, no entanto, também bem narigudo e antipático, além de um pouco grosseiro. Não. Talvez nem grosseiro, nem antipático, só esnobe.

E, aonde os bascos nascem? Eles precisam nascer nos países bascos para serem bascos? Ou basco é como judeu – você encontra em qualquer lugar mesmo uns sendo morenos e outros loiros? Eu, na verdade, não sei bem o que é um basco, só sei que eles existem, como os curdos. Mas o Manu Chao é basco, e ele não parece nem com o Barthez, nem com o Collina, nem com o Adrián. Tipo, um “citizen of the world”?

– Basco? Ah, eu conheço um basco!
– Sério? De onde?
– Ah, de CDs. O Manu Chao*. Ele é basco, não é?
(Sorriso)

– Sim! Você gosta dele?

– Claro, adoro os bascos!

– Que ótimo!… Hey, espera um minuto!

(Putz, fome! Muita fome!)

 

Capa do disco Clandestino – Manu Chao,1998.

O Adrián vinha meio pulando, meio andando e até meio cantarolando e, impressionantemente, simpático.

Yeah! Desbanquei a francesa na difícil saga pela comida no albergue. Comi. Ufa! Depois do papo sobre o Manu Chao, o Adrián virou brother. Obviamente eu fiquei pensando sobre o que é ser um basco, mas não podia perguntar isso a ele, então peguei um mapa no albergue e tentei achar os países bascos, mas eles não estavam lá. Os países bascos são vários países ou é um país só chamado “Países Bascos”? Antes de entrar em crise existencial por me achar ignorante e prepotente, fui ao wikipedia e lá encontrei informações sobre os bascos. Alívio.

Não dormi, ainda eram seis da tarde. Eu e minha companheira de viagem, a Malu, resolvemos sair para ver o que é que o Madrilenho tem, e fomos em busca das cervejas. Não sei se o mais adequado é beber cerveja na Espanha, mas é de cerveja que eu gosto. Talvez seja algo hereditário.

Meu bisavô cresceu na Alemanha, mas era Iugoslavo (o que significa que hoje, não sei dizer exatamente de onde ele era, já que a Iugoslávia não existe há algum tempo). Lembro dele sentado em uma cadeira de balanço, bebendo, quase o dia todo, aí ele ficava bêbado e dormia. E ele só bebia cerveja. Por isso, em casa, todo mundo bebe cerveja. Não bebemos vinho.

Esse bisavô tinha um problema nas bolas, as bolas dele eram enormes e minha avó queria que ele operasse de qualquer maneira, mas ele nunca quis deixar ninguém mexer nas bolas dele. Morreu disso, das bolas, e não do fígado – como imaginávamos que ele morreria, mas morreu bêbado, em casa, e as bolas dele estavam tão inchadas quanto intocadas. Não conseguiram achar uma calça que se adequasse ao velho defunto. E, obviamente, os homens da minha família morrem de orgulho disso – gente esquisita.

Ah, voltando à cerveja. Saímos. Bebemos. Tomando o caminho de volta eu já não estava nos meus melhores dias. Vi um Mustang fundido em uma parede, na verdade, só a frente de um Mustang. A Malu me perguntou como eu sabia que aquele carro era um Mustang. Não soube responder porque apesar de eu ainda não entender o que é um basco ou um iugoslavo, eu sabia o que era um Mustang. E era um Mustang azul calcinha. Era a frente de um bar e tinha uma plaquinha piscando escrito “Karaokê”.

– Vamos aí?
– Vamos!

Fumaça. Não dava para ver os rostos das pessoas, e não só porque eu já estava meio bêbada. Era escuro e tinha muita fumaça. Um balcão, uma bartender com mais cara de latino-americana fumante que eu, usava decote, peitudíssima. Meu pai acharia que ela é gostosa, mas eu achei um pouco gorda.

Banquinhos de oncinha, zebrinha e tigrinho. Reduto dos quarentões espanhóis. Um dia na vida você aprende que por mais que você ache que já tenha visto o brega, ainda existe a música pop espanhola – e lá estava ela, no meio da fumaça, dos quarentões, dos banquinhos de oncinha, da bartender peituda e do Pepe.

O Pepe era espanhol, quarentão, estava no bar e veio falar comigo. O Pepe era um pouco gordo, camisa xadrez e cantava música pop espanhola.

– Pepe! É idiota? Você é idiota, Pepe?
– Mas o que foi agora, Juan?
– Pô, Pepe! Você sabe que tem que ficar de olho! Eles estão por toda a parte! Não pode ficar bebendo a noite toda, tem que estar sóbrio para vigiar!

– Tudo bem Juan, você vigia a porta e eu continuo aqui, sem beber.

– Vou confiar em você! (E o Juan foi vigiar a porta)

Cinco minutos depois, ele volta com o José.

– Não tem condições! Vocês dois me deixam doido! Não posso fazer todo o serviço sozinho e… E você, quem é?

– Eu? Ah, eu não sou daqui não, sou brasileira.

– Brasileira? Eu sou Juan, de Sevilla. Da polícia secreta de Sevilla, mas agora estou aqui em Madri.

– Ah, sim, sim, claro!

– Conhece os mouros?

Calma! Pára tudo! Os bascos já eram complicados o bastante, e ele me vem com os mouros? Um cara, naquele bar, com um amigo chamado Pepe no meio daquele terrível pop espanhol, da polícia secreta, falando dos mouros?

– Malu, esse cara existe ou eu preciso ir vomitar?

– Não precisa, ele existe, mas se quiser uma desculpa para ir ao banheiro…

Otelo era mouro e ele era moreno, acho que os mouros são morenos, mas não negros. Agora não sei se existe mouro negro, porque existe judeu negro, mas não existe basco negro… No entanto, é possível que existam mouros judeus. Puta merda! Wikipediaaa!!! **

 

Cacilda Becker (Desdêmona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

Cacilda Becker (Desdemona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

.

 

– Mouros?
– Sim, os mouros! E os bascos…
– Ah, os bascos! Eu sei quem são os bascos. Oba!
– Sabe? Hmmm… Eles explodiram Atocha, e vão explodir de novo! Por isso fui enviado com Pepe e com Jose, estamos vigiando…

– Vigiando…Os mouros?”
– É! E os bascos! Que vão explodir Madri!
– Entendo, entendo… Olha, eu conheço um basco.
– Não me diga!
– Sim, sim. O Manu Chao. E, pelo que sei, ele vai explodir a Atocha, é um líder basco, mas você provavelmente já sabe disso.

– É claro que eu não ia entregar o paradeiro do Adrián, mesmo porque, sem o Adrián não tinha cafezinho de graça, e nem Manu Chao no saguão do albergue. Além do mais, o paradeiro do Adrián era exatamente o mesmo que o meu, se o Pepe, o José ou o Juan me torturassem, eu ia ter que contar. Já o paradeiro do Manu Chao, ele poderia encontrar na parte de “cultura” do jornal. Entretanto, me arrependi depois. Ai meu Deus!

Juan permaneceu calado por aproximadamente dez segundos, fiquei com um pouco de medo sobre o que ele poderia fazer comigo, mas ele sorriu, abaixou a cabeça e sorriu de novo. Finalmente, ele olhou bem para mim e indagou:

– Eu já saquei! Eu saquei tudo. Você também foi enviada para cá, para me dar essa grande pista!

Antes de eu realmente acreditar que era Mata Hari em uma missão secreta e entrar na onda do Juan, perguntei ao Pepe:

– Ele já trabalhou para a polícia? Enlouqueceu na guerra ou alguma coisa do tipo?

– Ele é amigo de infância, se mudou para Madri há algum tempo, e é carteiro há uns dois anos, antes disso morava com os pais em Toledo.

– Ah sim, entendo…

Fiquei feliz com a resposta de Pepe, porque na linha tênue entre a sanidade e a embriaguês da minha cabeça de bagre, eu esperava uma resposta como: “Sim, somos parceiros, agora pare de beber e vamos vigiar, porque eles vão explodir Atocha!”

 

 

(*) Manu Chao (Paris, 21 de junho de 1961), cujo nome completo é Jose-Manuel Thomas Arthur Chao é um músico francês. Sua identidade com o povo Basco surgiu quando Manu montou o Mano Negra, uma banda eclética com influências de música francesa, espanhola, além da forte presença do punk via The Clash. O nome é uma homenagem a uma organização anarquista que operava na Espanha na época.

(**) Otelo, o Mouro de Veneza é uma obra de William Shakespeare escrita por volta do ano 1603.  Otelo é um general mouro que serve ao reino de Veneza, sua esposa é Desdemona. A trama gira em torno do “racismo, amor, ciúme e traição”.

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