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Série Paschoal Carlos Magno XI: Aldeia Culturalista – Memorial do Arcozelo

9 fev

Por Gisèle Miranda

 

Se um criador não é agarrado pelo pescoço por um conjunto de impossibilidades, não é um criador. Um criador é alguém que cria suas próprias impossibilidades, e ao mesmo tempo cria um possível… (DELEUZE, 1992, p. 167)

Ao terminar o Primeiro Festival de Teatro de Estudantes no Recife (1958), Paschoal Carlos Magno acolheu as possibilidades no meio das impossibilidades; um desdobramento denominado de  Aldeia de Arcozelo.

Paschoal foi ao deleite nas ruínas da fazenda colonial portuguesa de 1792. Da terra estendida de Vassouras, hoje, parte do município de Paty do Alferes, que no século 18 era adjacente de Petrópolis à terra de fazendeiro próximo a família real portuguesa. De uma pequena parte dessa extensão de terras, vivia a família Arcozelo; posteriormente  a terra foi passada às mãos de outro fazendeiro dado ao vício do jogo de cartas, que a perdeu para João Pinheiro em 1945.

A fazenda-hotel feneceu e logrou ao ostracismo até a chegada de Paschoal Carlos Magno. Ele criou um possível, inaugurado em 19 de dezembro de 1965. Foram sete anos de angariação de fundos para a aquisição e restauro do estilo arquitetônico e os acréscimos para a sua inauguração.

Paschoal Carlos Magno. Arquivo família Carlos Magno, 1980.

Paschoal arguiu em favor da criação de um albergue – palavra cunhada do século 13 que designa refúgio ou hospedaria, vindo dos góticos Haribairco. No Brasil, somente em 1971 o albergue foi oficializado, mas antes disso, Paschoal exercia em sua casa, revertida no Teatro Duse (1952), ou antes, em 1929 quando atuou como um dos criadores da Casa do Estudante do Brasil, na cidade do Rio de Janeiro. Mas extra oficialmente, o primeiro albergue se deu na Aldeia de Arcozelo, em 1965.

Em plena ditadura militar, cabe lembrar que Paschoal expôs sua tônica crítica aos moldes dos já destacados textos dessa Série, atrelados as dificuldades, os boicotes, os cerceamentos, assim como sua magnífica atuação como efetivo louco inofensivo – personagem criada para estar junto aos jovens da UNE na época de sua proibição, pela luta contra a censura de espetáculos, perseguição aos intelectuais, cassação de mandatos políticos.

Na Aldeia de Arcozelo foram criados, além do albergue: museu,  biblioteca, salas para oficinas/aulas – de dança, teatro, música, pintura, refeitório, anfiteatro, enfim, a tão sonhada Universidade Livre de Artes, que em memória revertida, fez de cada espaço criado homenagens a Renato Vianna, Nicolau Carlos Magno, Patrícia Galvão, Pancetti, Itália Fausta, Yuco Lindenberg, entre outros.

Em parte, a Aldeia de Arcozelo tomou o rumo à Universidade, mas não se concretizou. No entanto, os frutos foram muitos. Aos trancos com os militares, personagens foram criadas, mas, as forças Paschoalinas foram minadas. Do auge dos Festivais de Estudantes, os dois últimos ocorridos na Aldeia de Arcozelo (VI e VII), também cursos, seminários, espetáculos sob batutas de José Celso Martinez Corrêa, B. de Paiva, Amir Haddad, Antonio Abujamra,  Ziembinski, Gianni Ratto, entre os tantos já mencionados na Série Paschoal Carlos Magno.

Paschoal berrou aos quatro ventos a falta de apoio a Aldeia de Arcozelo, e as demais atividades desenvolvidas em sua trajetória de Animador Cultural. O louco inofensivo declinou. Deixou de ser uma personagem e assumiu o solitário Paschoal Carlos Magno, próximos de seus 80 anos – endividado até a alma e às vésperas de sua morte proclamou atear fogo a Aldeia de Arcozelo.

O fogo não foi aceso pelo intempestivo momento de Paschoal; o fogo foi aceso pelo descaso e à falta de memória visualizada em pesquisa pelo tempo das traças, do atrofiamento, da deteriorização – momentos estes do qual me fiz salvaguarda de parte dessa história.

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Referências:

a) imagens & entrevistas.

1. Paschoal Carlos Magno. Arquivo família Carlos Magno s/d; registrei como 1980. 2. Desenho Aldeia de Arcozelo, Guilherme Madeira, 1999; 3. Teatro Renato Vianna (Aldeia de Arcozelo) – Foto Gisèle Miranda, 1997; 4. Teatro ao ar-livre Itália Fausta (Aldeia de Arcozelo) – Foto Maria do Socorro Nepomuceno, 1997; 5. Refeitório (Aldeia de Arcozelo) – Foto Maria do Socorro Nepomuceno, 1997;  6. Corredor do ´alojamento dos rapazes´ e ao fundo, a pintura de Heitor Ricco – Foto Maria do Socorro Nepomuceno, 1997; 7. Sr. José Luciano, administrador da Aldeia de Arcozelo entrevistado por Gisèle Miranda – Foto Maria do Socorro Nepomuceno, 1997.

Entrevista Conceição da Silva Soares em 10 de jan. de 1997, funcionária da Aldeia de Arcozelo – serviços gerais – particular de Paschoal – nos últimos anos de vida. Paty do Alferes, Aldeia de Arcozelo/ RJ, à Gisèle Miranda. (obs: local por ela escolhido para falar do “seu Paschoal” – no palco do teatro Renato Vianna, sob risos).

Entrevista  José Luciano em 11 de jan. de 1997. Antigo administrador da Aldeia de Arcozelo, e antigo administrador do hotel fazenda de Pinheiro Filho, desde 1947. Luciano faleceu pouco depois dessa entrevista. Paty do Alferes, Aldeia de Arcozelo/ RJ. (local escolhido por ele para falar do “seu Paschoal” – biblioteca Nicolau Carlos Magno, sob lágrimas).

b) livros & periódicos

DELEUZE, G. Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992.

MAGNO, P. C. Não acuso nem me perdôo. Diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

FRANCIS, Paulo. In: Dionysos, 1978, n. 28.

FRANCIS, Paulo. Folha de S. Paulo, 29 mai. 1980.

MARCOS, Plínio. Mestre Pascoal e nossa amiga Pagu. Folha de S. Paulo, 6 jan. 1977.

DEL RIOS, J. Paschoal e o poder. Folhetim, 1970.

DEL RIOS, J. Paschoal Carlos Magno, o criador. Folha de S. Paulo, 29 jan. 1971.

DEL RIOS, J. Folha de S. Paulo, 11 abril 1980.

Diário de Pernambuco, 15 nov. 1967

Diário de Notícias, 25 nov.1974

MAGALDI, S.  Folha da Tarde, 27 mai. 1980.

MICHALSKI, Y. Jornal do Brasil, 27 mai. 1980.

ROCHA, J. Não pense nem deixe que pensem que o teatro Duse morreu…Rio de Janeiro: O Globo, 7 de abril 1977.

Revista Aconteceu. A Brasília de Paschoal. , abril de 1960.

SILVA, H. P. da. O incendiário Paschoal. Rio de Janeiro: Jornal do Commercio, 17 mai. 1979.

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Série Paschoal Carlos Magno X: Festivais de Estudantes – II Festival em Santos/SP

11 nov

Por Gisèle Miranda

 

O II Festival acorreu na cidade de Santos, em julho de 1959[1]. Foram doze dias com cerca de 800 estudantes dos Teatros de Estudantes de várias regiões do Brasil. Vindos do vigoroso I Festival no Recife de 1958, revertido em experiência bem sucedida e revitalizado nas normativas do II Festival.

10. Estamos em Santos para aprender, estudar, enriquecer nossos conhecimentos… servir à elevação cultural (…) 18. O I Festival em Recife foi um dos maiores acontecimentos do Brasil… em Santos manterá essa tradição.[2]

Envoltos a esses jovens, além de Paschoal Carlos Magno, estiveram Patrícia Galvão (Pagú), Décio de Almeida Prado, Anna Amélia Carneiro de Mendonça, Joracy Camargo, Alfredo Mesquita, Sábato Magaldi, Luiza Barreto Leite, entre outros.

O II Festival apresentou inúmeras peças, cursos, palestras e julgamentos fictícios por nobres juristas e magnas interpretações de Cacilda Becker e Henriette Morineau, respectivamente como Mary Stuart e Elizabeth I; Sergio Cardoso e Paulo Autran como Hamlet e Otelo.

Entre o I e II Festivais, Paschoal conheceu em meio às ruínas, uma fazenda colonial portuguesa, do séc. 18 que viria a ser em 1965, a Aldeia de Arcozelo, sede dos Festivais seguintes, albergue da juventude, cursos e seminários e por fim, a tão sonhada Universidade Livre de Artes, que infelizmente não alçou voo.

Paschoal Carlos Magno na Aldeia de Arcozelo (Teatro Itália Fausta ao ar livre), ca. 1975. Foto Ney Robson (Inacen/RJ)

O entorno fiscalizador do Estado proibiu a UNE, censurou espetáculos, os intelectuais foram obrigados a calar seus pensamentos que gritavam. Os militares queriam o silêncio da juventude, Paschoal queria as vozes da juventude.

Do V ao VII Festivais, Paschoal foi sendo abatido, período correspondente a 1968, 1971 e 1975. Os efeitos da ditadura militar que dizimou os Teatros de Estudantes, foram também minando as lutas de Paschoal – calejando-o, atormentando-o, mas obstinado foi galgando perspectivas paralelas e necessárias – primeiro, dispersando os jovens em Caravanas e Barcas em cidades distantes e em territórios disfarçados.

Modelo organizacional/alimentação Festival Nacional na Aldeia de Arcozelo

Segundo, reunindo-os e protegendo-os através de relatos em jornais sobre  suas atividades culturais. E para cada inspeção, um personagem paschoalino para compor os ares de inofensivo ou louco e, porque não, um amansador de ideologias ou dos ardis da juventude.

Afinal, a educação formal foi movida pela política de censura e pelo Estado repressor, mas as atividades culturais foram desprendidas da educação do Estado, mas não para Paschoal Carlos Magno, que via no teatro uma efetiva alternativa de educação.

 

Referênias:

ARGAN, G. C. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

BABHA, H. F. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo: FAPESP: Iluminuras, 1997.

MADEIRA, G. ou MIRANDA, G. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo, 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP.

KHOURY, S. Atrás da máscara. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, V. 2.

Periódicos:

A Tribuna, 11 jul. 1959.

Diário de Brasília. Brasília, 22 nov. 1974. Moços merecem mais respeito. Por Paschoal Carlos Magno.

Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 24 nov. 1974. O Outro Paschoal – triste, desgostoso, revoltado.

Jornal do Comércio. Rio de Janeiro, 27 nov. 1974. “Eu não existo mais”. Por P. Lara.

O Estado de S. Paulo. São Paulo, 2 set. 1976, p. 18. Sem apoio oficial, Aldeia de Arcozelo poderá desaparecer.

O Globo. Rio de Janeiro, maio 1969. Para salvar a Aldeia. Por G. M. Bittencourt.

O Globo. Rio de Janeiro, 21 nov. 1974. Paschoal depõe para o futuro pedindo que ajudem o teatro.

O Jornal. Rio de Janeiro, 19 dez. 1967. Paschoal fala de teatro no MIS e condena censura.

Revista Dionysos: Estudos Teatrais. José Arrabal (Org.) Teatro do Estudante de Brasil, Teatro Universitário, Teatro Duse. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura: DAC: FUNARTE: SNT, n. 23, set. 1978.

Última Hora. Rio de Janeiro, 12 mai. 1964. Paschoal acabou com o Duse e com a Casa. Por José Mauro.

Última Hora. Rio de Janeiro, 19 dez. 1967. Juventude é tudo.


[1] Demais Festivais: O I Festival no Recife (PE), 1958; III Festival em Brasília (DF), 1961; IV Festival em Porto Alegre (RS), 1962; V Festival na Guanabara (RJ), 1968; VI e VII Festivais na Aldeia de Arcozelo – Paty do Alferes (RJ), 1971 e 1975.

[2] Normas 10 e 18 – parte das dezoito normas estabelecidas por Paschoal aos estudantes de teatro para o Festival em Santos. Jornal A Tribuna , 11 jul. 1959. O Festival em Santos ocorreu de 12 a 24 de julho de 1959.

Série Paschoal Carlos Magno I: O Teatro de Paschoal Carlos Magno – O ofício em suas considerações (*)

11 jul

 

por Gisèle Miranda

 

 

Sergio Cardoso, Paschoal Carlos Magno e Procópio Ferreira em visita ao ensaio de Hamlet no Teatro Duse. (Jornal Diário da Noite, 19/01/1948, arquivo Brício de Abreu – SNT/ FUNARTE/RJ)

 

A temporalidade da criação deste texto não deve ser medida sem a subjetividade do ofício. Sabê-lo atual faz lembrar as entranhas da pesquisa. Portanto essas entranhas são no vigor da escrita, louros à pesquisa histórica, ou seja, livros, memórias, fontes e tal, convergindo em devires da escrita – sobre palcos e palmas, em sonoridades ou vertigens e pleno de raízes híbridas que aliás, vos apresento.

Em tese, deixei registros de minha própria escrita, ora à revelia, ora em consonância às sugestões de outrem (entre áreas, conceitos).

A temática foi sendo esculpida e as imagens pulsaram. Os critérios de definição foram gestados no rigor do trabalho, mas deixando em liberdade à escrita, que por sua vez foi cria do indomável – em verso, prosa, posta em cena, na expressão do corpo, na fala, no ver e ouvir o que o multifacetado mundo artístico produz.

Por isso, dediquei uma temporalidade epitelial para compor a pesquisa sobre Paschoal Carlos Magno a partir de questões morais, políticas, culturais e de deslanche do Teatro Moderno (PRADO, 1996, p.11: 39), que com tanta primazia foi estudado por Décio de Almeida Prado, um dos raros autores a enfocar o nome de Paschoal Carlos Magno como um grande crítico de teatro, realizador e mentor do Teatro Amador no Brasil.

Ademais, sinto-me na audácia de expor alguns pontos que permearam a criação deste ensaio, e que de certa forma fazem ressonância na relação que muitas vezes estabelecemos com o mundo – a de espectadores -, que em si comportam olhares diferenciados – ricos de textualidades. (GUATTARI, 1992, p. 25)

Entre as preocupações surgidas encontrei o termo biografia, que em princípio pareceu-me cabível; a posteriori hesitei – optando por denominar a escrita como mosaica, embora ela carregue consigo a pesquisa biográfica.

Peço emprestado a Procópio Ferreira um fragmento de seu pensamento quando, evocando o labor do biógrafo propôs flanar sobre “retalhos catados aqui e ali, pacientemente, num mosaico de idéias e de episódios.” (BARCELLOS, 1999, p. 12) Diria que esses retalhos foram instrumentais de perenes leituras. Entre elas, uma discussão sobre biografia histórica, encabeçada por duas hagiografias – uma de São Francisco de Assis e outra de São Luís – do renomado historiador Jacques Le Goff.

O termo biografia, defendido por Le Goff não deixou de exprimir as dificuldades quanto à qualidade de publicações biográficas, “abundantes há alguns anos…”, contudo, sendo “a maioria dessas obras anacronicamente psicológicas” – pendendo aos valores do mercado oportuno. (LE GOFF, 1999, p. 20-21)

Independente do termo aplicado, compartilho com Le Goff, não apenas o afinco da pesquisa histórica, mas a carga particular da biografia “em meio a crise de mutação geral das sociedades ocidentais”; também levando a reflexão a questão do sujeito na biografia (o sujeito globalizante), dimensionado como uma procura utópica, por causa dos vácuos e “disjunções, que rompem a trama e a unidade aparente”.

Em meio a essas disjunções, o mosaico proposto tem seus feixes ficcionais, permitindo os encantos das utopias – à flâmula do desejo, da fantasia e da liberdade de criação como sugere o historiador Hilário Franco Jr, em Cocanha, prefaciado por Le Goff.

O corpus biográfico da tese foi um fato; contudo, plasticamente vislumbrado como um mosaico cortado incessantemente por experimentalismos e cenas clássicas.

Dadas essas premissas e para encerrar essas considerações proponho a abertura das cortinas desse palco imaginário.

Respeitáveis leitores, apresento-vos: Paschoal Carlos Magno em um mosaico cultural!

 

Lúcio ou Paschoal? É a partir do romance histórico: “Sol sôbre as palmeiras” marco autobiográfico, com espacialidade delineada e identificada pelo morro de Santa Teresa ou morro Paula Matos, na cidade do Rio de Janeiro, que o menino Lúcio personagem de Paschoal, frágil, enfermo torna-se o poeta e escritor/redator do jornal da família até chegar a ser o crítico e teatrólogo de larga importância no Brasil.

O percurso da diplomacia (1933-1968) foi para Paschoal o caminho de formação intelectual e cultural. Mas seu ensejo por retornar ao Brasil foi se dando através da poesia e dos diários escritos em Atenas, Milão, entre outros lugares.

As idas e vindas do andarilho consular não fraquejou os importantes momentos de sua afirmação como animador e incentivador cultural, e até mesmo como mecenas assalariado. Mas foi na política que viu uma possibilidade de estabelecer-se no Rio de Janeiro. E, de certa forma criando um personagem pitoresco, comumente estigmatizado de “louco” e muito pertinente em tempos de ditadura militar.

Como louco foi passando por funis e estabelecendo as bases de seu teatro. Paschoal foi pouco cerceado pelo duro período, muito embora tenha declarado que “houve quatrocentos Teatros de Estudantes no Brasil, mas 1964, matou-os um a um.” (PASQUIM {197-}, p. 13-14. )

Muitas das pessoas que ficaram durante esse período, só conseguiram manter-se vivas através dos comboios culturais, em tese pouco vigiados, e em geral sob os auspícios do “louco e inofensivo” – como era chamado Paschoal pelos militares. Esse estigma foi oportuno para lançar as bases de resistência. Pois, era incomum imaginar uma grande quantidade de jovens aglomerados em trajetos pouco ou nada controlados, ditados pelas Barcas e Caravanas da Cultura (1963/1964/1968/1974/1975).

As Barcas foram projetadas por Paschoal para trafegar pelo Rio São Francisco; as Caravanas eram desdobramentos das Barcas, ou seja, trajetos realizados por terra, em regiões do Norte e Nordeste do Brasil: “…256 brasileiros… oito ônibus, dois caminhões carregando toneladas de livros e discos… 274 espetáculos…” (O Jornal, 1967).

As bases do teatro “paschoalino” eram polivalentes e improvisadas, além de buscar respeitabilidade para profissionais do teatro e princípios coletivizados em diferentes momentos, burlando as dificuldades quanto à ausência de investimentos.

Sua trupe era formada por moços que povoaram várias das construções de Paschoal, como o Teatro do Estudante do Brasil (1938), Teatro Duse (1952) e Aldeia de Arcozelo (1965). Tais empreendimentos elevaram Paschoal ao título de “Estudante Perpétuo do Brasil”, dado pela UNE (1956). Também acolheu e apoiou o Teatro Experimental do Negro, em 1944.

 

Paschoal Carlos Magno, Ester Leão, Jorge Kossonsky cercados pelos estudantes de Teatro, década 1940. (Acervo da família Carlos Magno)

 

Assim, os primeiros Festivais de Teatro foram se dando de maneira minuciosa quanto à formação. O grande exemplo fora a “Concentração dos Estudantes” à realização do Festival Shakespeare. Aulas de canto, esgrima, danças, línguas, palestras e leituras de textos.

 

Paschoal Carlos Magno, Rosa Carlos Magno e os 17 dos 18 estudantes de teatro que receberam bolsas de estudos na Europa – atividade criada e coordenada por Paschoal. Na foto: Otavinho Arantes, Alberto Carlos Magno, Isaac Bardavid, Ubiratan Teixeira, Oton Bastos, Valter Ponti, Armando Maranhão, Paulo Salgados dos Santos,  Maria Carimen Romcy, Orlando Macedo, Elida Gonçalves, Eduardo Garcez, Miriam Carmem, Tereza Raquel, Celme Silva – faltando no grupo Fernando Amaral. (Acervo da família Carlos Magno)

 

Como rebate das más línguas quanto aos grupos mistos, um diário de atividades publicados no jornal Correio da Manhã, oferecendo à aproximação do público, uma série de atividades monitoradas por profissionais que balizaram a seriedade da proposta.

Muito antes do primeiro albergue da juventude no Brasil (1973), Paschoal já lotava sua antiga residência – o Teatro Duse – acolhendo artistas e estudantes de passagem. Mas a sua primeira e grande postura se deu em 1929 com a criação da Casa do Estudante – parceria de Paschoal com d. Anna Nery.

Os primeiros Festivais de Teatros criados por Paschoal foram: I Festival (Recife, 1958), II Festival (Santos, 1959), III Festival (Brasília, 1961), IV Festival (Porto Alegre, 1962), V Festival (Rio de Janeiro, 1968), VI e VII Festivais (Aldeia de Arcozelo, 1971 e 1976); nomes como João Cabral de Mello Neto, B. de Paiva, Plínio Marcos, Sergio Cardoso, Ariano Suassuna, entre muitos outros nomes surgiram sob a égide de Paschoal.

 

Ariano Suassuna, Miroel Silveira, Hermilo Borba Filho e Paschoal Carlos Magno, 1959 (?). (Folha de São Paulo, 26 maio 1980)

 

A Aldeia de Arcozelo foi criada para ser uma Universidade Livre de Artes, mas pereceu pela falta de recursos e até como local último do desatino de Paschoal – ao ver-se endividado proclamou aos quatro ventos que iria atear fogo ao local.

Também foi na Aldeia de Arcozelo, sob controle da FUNARTE, que me deleitei em pesquisas (1999).  Na época, o local estava ermo, os documentos estavam jogados entre traças e destruição. Cheguei a propor à FUNARTE uma organização em mutirão com uma equipe de pesquisadores. Nunca tive um retorno de aceitação, nem mesmo dos meus préstimos pessoais em ato isolado. Alguns ofícios, cá e lá, entradas e saídas de seus representantes, e palavras de prioridades que rolaram ao vento.

 

A historiadora em seu ofício na Aldeira de Arcozelo/Paty do Alferes. (Foto de Maria do S. Nepomuceno, 1999)

 

O que eu pude registrar em documentos e fotos foram capitaneados para a construção da tese, além de vários outros textos que foram surgindo ao longo de uma temporalidade que permeou cerca de nove anos desde o término da tese. E, incansável, referendo este novo texto, e um projeto de refazer os trajetos das Caravanas e Barcas da Cultura.

 

Desenho livre do arquiteto Guilherme Madeira. Aldeia de Arcozelo, 1999

(*) Texto criado para a Revista Contexto (Revista Semestral do Programa de Pós-Graduação em Letras – Universidade Federal do Espírito Santo): Dossiê o Teatro e suas arenas, n. 17 – 2010-1, p. 43 a 53.

Referências:

BARCELLOS, J. O Mágico da expressão. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1999.

BARCELLOS, J. CPC da UNE: uma história de paixão e consciência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

BHABHA, H. K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

CHARTIER, R. Do palco à página: publicar teatro e ler romances na época moderna (séculos XVI-XVIII) Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.

COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo: FAPESP: Iluminuras, 1997.

FALCON, F. História Cultural: uma nova visão sobre a sociedade e a cultura. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

FRANCO JR., H. Cocanha: a história de um país imaginário. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1992.

LE GOFF, J. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro: Record, 2001.

LE GOFF, J. São Luis: biografia. Rio de Janeiro: Record, 1999.

MAGNO, Orlanda Carlos. Pequena história do Teatro Duse. Rio de Janeiro: SNT, 1973.

MAGNO, Paschoal Carlos. Poemas do irremediável. Rio de Janeiro: Cátedra, 1972.

MAGNO, P. C. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

MAGNO, P. C. Sol sobre as palmeiras. Rio de Janeiro: Letras e Artes, 1962.

MAGNO, P. C. Tudo valeu a pena. m.s., s.d.

MAGNO, P. C. Tempo que passa. Rio de Janeiro: s/ed., 1922.

IGGNACIO, G. M. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo: 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

MIRANDA, G. Os estudantes e o emergir da ribalta. Revista da APG/PUC-SP, ano VII, n. 13, 201-215, 1998.

MIRANDA, G. Da concentração dos estudantes ao festival Shakespeare. Revista da APG/PUC-SP, ano VIII, n. 16, 101-114, 1998.

MIRANDA, G. Uma nau de trilhos e bondes: o Teatro Duse. Revista da APG/PUC-SP, ano VI, n. 11, 142-154, 1997.

PRADO, D. A. Seres, coisas, lugares: do teatro ao futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

PRADO, D. A. O teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 1996.

SEVCENKO, N. Pindorama Revisitada: cultura e sociedade em tempos de virada. São Paulo: Peirópolis, 2000.

Desenho livre do arquiteto Guilherme Madeira. Aldeia de Arcozelo, 1999
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