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Série Retorno III: O medievo ocultado

30 ago

por Gisèle Miranda

 

Os historiadores Georges Duby (1919-1996) e Jacques Le Goff  (1924-2014) chegaram a aproximar imagens do medievo a temáticas atuais, a exemplo – peste e Aids. Hilário Franco Jr. (1948-) nos trouxe o país imaginário de Cocanha associado aos desejos, aos confrontos. O amor cortês, os trovadores aos amores impossíveis.

O cavalo como simbiose do cavaleiro; perseguições a judeus, ciganos e demais práticas religiosas que não fossem do papado faziam parte do poder do Estado; a unção vinculada a divindade hereditária para compor a harmonia entre poderes da Religião e do Estado. Os códigos masculino e feminino inseridos esteticamente, tais como a barba para dar maturidade, cabelos presos às casadas, e se soltos com detalhes de tranças para não serem comparados ao pecaminoso.

A juventude que passou a ser bem vista somente com a prática dos cruzados pela fé, antes era temida pelos mitos da inconstância, da vulnerabilidade, da falta de maturidade. Os jovens foram retratados em pinturas e iluminuras à margem e em tamanhos menores. A cor associativa do jovem era verde – pela dificuldade que se tinha em dominar essa tonalidade.

Os tamanhos das figuras nas imagens são hierárquicos. As mulheres só se destacavam quando faziam parte da boa casta como rainha ou filha. Porém a imagem feminina não podia ser maior que a imagem masculina ou da igreja. As imagens marcaram estilos na vestimenta, além de trazerem uma historicidade estética dos comportamentos, da moral, dos valores importantes para a história da arte.

Outrora como discutir a imagem feita para contar, explicar, avisar, alertar sem o culto do belo? Sem a tônica da perspectiva? Sem a oficialidade do artista, pois eram meros artesãos ou religiosos com habilidades. As imagens tornaram-se linguagens de toda essa atmosfera. O teatro teve especial atenção, pois era uma válvula propulsora de todas as intenções do poder religioso e reverberações das castas postas em cena no riso e no deboche.

O teatro parecia comandado pelo discurso oficial, mas se transformava em comicidade própria e irreverente. Essa comicidade marcou o medievo vívido da oralidade; despontou como atributo nato popular em meios as proibições da leitura e da escrita. Por mais encaminhamentos que fossem dados aos incitamentos populares e artísticos sempre pendiam ao riso nato do improviso, do incerto, do intempestivo ao convulsionado.

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Mesmo assim, a imagética medieval foi longamente ignorada pelo seu tom popular, sua imprecisão da forma aliada ao artesanato, sem nenhum refinamento dos considerados gênios do Renascimento ou dos valores clássicos.

O desdém às culturas orais foi contra atacado pelos medievalistas principalmente nos anos de 1960. No Brasil as atividades tomaram fôlego nos anos de 1980 e focaram as diversas culturas indígenas.

A Oralidade eclodiu dos trovadores ao Cordel, a arte de populares que encantou a arquiteta italiana Lina Bo Bardi (1914-1992) quando se deparou com o nosso artesanato e sua premissa artística no final dos anos 1950 a idos de 1960 no Brasil.

Ariano Suassuna (1927-2014) é uma das referências literárias desse devir “sertão medieval”. Ele capturou para a erudição, a riqueza dos saberes populares em cantorias, nas gravuras, no teatro, na desproporcionalidade do volume, do primitivismo anônimo, da forma improvisada.

Antes de Suassuna, Mário de Andrade (1893-1945), partícipe do grupo Modernista da década de 1920 focou sua atuação na criação da Secretaria de Cultura de São Paulo na década de 1930 com uma relação de parceria a Antropologia para valorizar os objetos de estudos históricos, culturais e artísticos.

Aos solavancos o culturalista Paschoal Carlos Magno (1906-1980) em um período político complicado a aglomerações de jovens nos anos de 1960/70/80, recriou as Barcas de Lorca em suas Barcas e Caravanas da Cultura.

Que medievo brasileiro é esse que encantou Paul Zumthor e o fez aplaudir a “Cavalaria em Cordel”, a sua teatralização à poética oral?!

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Referências

BOLLÈME, Geneviève. O povo por escrito. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

BURKE, Peter. O Renascimento Italiano. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Nova Alexandria, 2010.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Tradução Eugênio Michel da Silva & Maria Regina Lucena Borges-Osório. São Paulo: UNESP, 1998.

FERREIRA, Jerusa P. Cavalaria em Cordel: o passo das águas mortas. São Paulo: Hucitec, 1993.

FRANCO JR. COCANHA – a história de um país imaginário. Prefácio Jacques Le Goff. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

LARIOUX, Bruno. A Idade Média à mesa.Lisboa: Francisco Lyon de Castro, 1989.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2ª ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (Coleção Repertórios)

LE GOFF, J. Por amor às cidades: conversações com Jean Lebrun. São Paulo: UNESP, 1998.

LINA BO BARDI. (Coord. Marcelo Carvalho Ferraz). São Paulo: Instituto Lina Bo e Pietro Maria Bardi, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008.

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

VASSALO, Ligia. O sertão medieval: origens europeias do teatro de Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1993

ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a literatura medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. São Paulo: Hucitec, 1997.

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Série Releituras & Breves Comentários VII: vestígios (e vertigens) à beira de uma falésia – Roger Chartier

19 jul

por Gisèle Miranda

 

Roger Chartier é um velho amigo do Brasil.1]. Ele é a quarta geração d´ École des Annales, da história econômica e social dos anos de 1930 à antropologia histórica dos anos de 1970. Diz-se: École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, em verdade, École des Annales. É sempre uma tentação para a Ego-história! E por que não?[2] 

Vestígios  (e suas vertigens) à beira da falésia: vontade de se jogar ou medo de morrer? Sim, é a constatação de crise, e de incertezas. Mas há o incentivo ao retorno dos arquivos. Assim construí parte da obra do culturalista Paschoal Carlos Magno  e arranquei o silêncio dos amontoados[3]. As notas tornaram-se textos da diferença, da singularidade do discurso histórico ou a projeção no passado de desejos do tempo presente (Hobsbawm, In: À Beira da falésia, p. 15)

Chartier encontrou inspiração nos pensamentos da ruptura e da diferença (hermenêutica e fenomenologia de Paul Ricoeur) e exerce seu ofício sustentando três noções: discurso, prática e representação – através das obras de Michel Foucault, Michel de Certeau e de Louis Marin, além de Ricouer: a tradição historiográfica à qual pertenço – a da história sócio-cultural à maneira dos Annales.( Chartier, 2002, p. 21)

Chartier também dialogou com Hobsbawm no campo de interesse. Chartier pela vertente da polivalente leitura eletrônica, e obviamente da obra como obra e sua relação com o objeto escrito[4]. A obra como obra prevalece: o livro ou a forma livresca.

Hobsbawm relacionou o campo de interesse ao paradigma de esquerda e direita na política. A geração eletrônica e a fragmentação que geram temáticas. E para um bom entendedor cabe manter à vista essa diferença porque não são apenas riscos de hegemonia de línguas, como apontou Chartier. Mas um sutil triunfo na comunicação eletrônica (do inglês).

Sempre há riscos, quando há os meios que sob o poder que os mantêm, antecipam algo que como pensadores, historiadores, não vemos, ou seja: a morte dos livros, da indiferença sobre a direita e a esquerda, a destruição de outras linguas, ou ausência da obra. Umberto Eco interpôs sobre nossas preocupações e sobre a morte anunciada da obra, do livro, da forma livresca e da direita e esquerda.

Na Antiguidade quando surgiram os livros eles eram vistos como um sucedâneo da palavra oral (Borges, El Libro, 1978). Do palco à página Chartier (2002) resgatou a intrínseca relação da escrita e a oralidade através do teatro, da transmissão oral[5] dos textos e a criação literária – obra. A Modernidade e mesmo antes dela, a leitura silenciosa como um sucedâneo do livro. (Chartier, 2001)

Jorge Luis Borges por Eduardo Comeña, s/d: “Cego, Jorge Luis Borges aperta os olhos para melhor escutar as palavras de um leitor que não se vê” (In: Manguel, 1997, p. 17)

E hoje? Caos textual? Digamos, confusão: ´à beira da falésia – a história entre certezas e inquietude.’ E, para todos que se aproximam à beira da falésia, há um amparador: o trabalho de um pensamento que se situou ´no ponto de cruzamento de uma arqueologia das problematizações e de uma genealogia das práticas.´ (Foucault, 1984 p. 19. In: Chartier, 2002, p. 150)

E por fim, `O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?’ – O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, diz ECO:  http://bit.ly/csWpWG


Referências:

BARROS, José D’Assunção. A História Cultura e a Contribuição de Roger Chartier. Diálogos, UEM, v. 9. n°1, 2005

CHARTIER, Roger. À beira da falésia:a história entre as incertezas e inquietude. Tradução Patríca Chittoni Ramos. Porto Alegre: Editora Universidade/UFRGS, 2002.

CHARTIER, Roger. Do palco à página: publicar teatro e ler romances na época moderna – séculos XVI-XVIII. Tradução Bruno Feitler. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.

CHARTIER, Roger. Cultura Escrita, literatura e história: conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre Anaya, Jésus Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. Tradução Ernani Rosa. Porto Alegre: ARTMED Editora, 2001.

FOUCAULT, Michel. Histoire de la Sexualité t. II, L´Usage des plaisirs, Paris, Gallimard, 1984, p. 19.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) O novo século: entrevista a Antonio Polito. Tradução Claudio Marcondes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

HOBSBAWM, E.; Ranger T. (Org.) The Invention of Tradition. Cambridge, 1983.

MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997

Programa Roda Viva – TV Cultura: Roger Chartier. Setembro, 2001

VAINFAS, Ronaldo. Os protagonistas anônimos da história: micro-história. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

ZUMTHOR, Paul. A Letra e voz: a “literatura” medieval. Tradução Amálio Pinheiro & Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Tradução Jerusa Pires Ferreira; Maria Lúcia Diniz Pochat; Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.


[1]São Paulo: USP, departamento de História e Bienal do Livro, Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil. Maio, 2001.

[2] Sobre Ego-História Série Releituras & Breves Comentários IV – ‘Conversas com historiadores brasileiros’ e ‘Usos & abusos da história oral’

[3] MIRANDA, Gisele Ou MADEIRA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000). Versão para o blog Tecituras (http://bit.ly/b5mkJ1)

[4] Entrevista com o historiador Roger Chartier no programa Roda Viva, da TV Cultura em 3/9/2001.

[5] Sobre transmissão oral:   Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème

Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème

7 abr

Por Gisèle Miranda

Toda natureza produz seus monstros… esquece-se que uma anomalia é o fato em busca de  interpretação. Paul Zumthor, 1993, p. 17.

Paul Zumthor em A Letra e a Voz [1]

Conheci o trabalho de Zumthor via departamento de Comunicação e Semiótica da PUC/SP, pouco antes de seu falecimento, em 1995.[2].

Zumthor era poeta e medievalista; esteve no Brasil pela primeira vez em 1977, e ficou fascinado pela Literatura de Cordel como exemplo de que as tradições garantem continuidades;  sua memória vocal é corpórea e emocional, primordial para compreender a tradição oral.

O autor absorveu a história da música, teatro e pintura tendo como base a instauração dos princípios da literatura medieval através da voz e da performance.

Zumthor foi contra a discriminação dicotômica do popular/erudito, por isso foi extremamente cauteloso ao uso dos termos. Por exemplo: “popular” utilizado entre aspas e deveras atento às suas diferentes aplicações, principalmente exaltando a pontuação poética da voz.

Com Bakhtin, Zumthor se aproximou via alegoria do Realismo Grotesco[3]presente nos trabalhos artísticos de Bosch, Goya, entre outros.

GOYA, Two old people eating soup, 1820-21

Embora o estudo da oralidade tenha se dado tardiamente (década de 1950) – a oralidade estava ocultada e recalcada em nosso inconsciente cultural e escravizados pelas técnicas escriturais e pela ideologia que elas secretam[4]. É justamente nesse momento que surge a ideia de oposição do “popular” e “erudito”, pois a literatura erudita marca o liame do que é admissível deixando de lado o inadmissível e o conjecturado como folclore ou como ausência de escritura.

O livro A Letra e a Voz fala da teatralidade do discurso, da poesia existente na textualidade. Distinguindo as diferenças da tradição oral (duração) e da transmissão oral (movimento performático), assim como suas constituições temporais.

A performance, segundo Zumthor equilibra a comunicação com a recepção. Dessa forma, o autor se organizou através de marcos cronológicos para a realização da poética da voz exemplificado o período correspondente de seus estudos como medievalista. Ele elaborou seu livro de maneira descontínua valsando por várias áreas.

Vertentes de Geneviève Bollème

É interessante compor O Povo por escrito de Bollème a discussão de Zumthor. Bollème enfoca o julgamento do termo “popular”. Essa investigação se deu através dos estudos de linguas e absorções do termo – de Platão, Sartre, Foucault… concentrando em Michelet, Luxan e Simone Weil. Segundo Le Goff, que prefaciou O Povo por Escrito, Bollème conseguiu tecer sua investigação no campo da reflexão e da ação.

O uso do termo “popular” remete a apropriação política que, em geral é utilizada de modo indireto para falar do povo sem nomeá-lo. Tal é o prisma de Michelet, ou seja, o povo como memória onde coabita a consciência política, ou como Luxan que situa sua escrita como prática política (arma).

Pela via de Simone Weil – através da infelicidade da condição operária –, a filósofa colocou-se em laboratório no vivenciar de uma operária até esbarrar na solidão e em um monólogo que amarga nos seus limites.

Do real e do imaginário; da prática e da teoria; da vida e da obra. E, compreende que o povo não se define, nem se pensa, nem se fala, e indaga: pode-se apreendê-lo em sua ação ou haverá pelo menos uma representação dele? Então, diz: o povo é a própria revolução, pois ele se apresenta como poder de participação e de integração, no momento em que a comunidade unânime subverte qualquer hierarquia e qualquer ordem estabelecida. [5]

GOYA, O sono da razão produz monstros, 1797-8

(*) Sobre a imagem: Goya: “O sono da razão produz monstros”, por Sergio Paulo Rouanet:  “A coruja tirânica que quer impor sua vontade ao artista é a razão narcísica do hiper-racionalismo. Os morcegos são as larvas e os fantasmas do irracionalismo. Dois animais deficitários, truncados. O morcego tem uma audição aguda, mas é cego. A coruja enxerga de noite, mas não de dia. Falta um terceiro animal na zoologia de Goya, mais completo. Não, não falta. Ele está no canto direito, enorme, olhando fixamente o espectador. É um gato. O gato ouve tudo e tem uma visão diurna e noturna. Sabe dormir e sabe estar acordado. E sabe relacionar-se com o Outro, sem arrogância, ao contrário do seu primo selvagem, o tigre, e sem servilismo, ao contrário do seu inimigo domestico, o cão. É a perfeita alegoria da razão dialógica, da razão que despertou do seu sonho, é atenta a todos os sons e todas as imagens, tanto do mundo de vigília como do mundo onírico, e conversa democraticamente com todas as figuras do Outro, sem insolência e sem humildade”. V. Tb. http://bit.ly/bXZ9Qa

Referências:

BAKHTINE, Mickhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, Editora da Universidade de Brasília, 1993

BOLLÈME, Geneviève. O povo por escrito. Tradução Antonio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

FERREIRA, Jerusa Pires. Cavalaria em Cordel: o passo das águas mortas. São Paulo: Hucitec, 1993.

ROUANET, Sergio Paulo. A Deusa Razão. In: NOVAES, Adauto (Org.) A Crise da Razão. São Paulo: Companhia das Letras; Brasília, DF: Ministério da Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Nacional de Arte, 1996, pp. 298-299)

ZUMTHOR, Paul. A Letra e voz: a “literatura” medieval. Tradução Amálio Pinheiro & Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, Paul. Introdução à poesia oral. Tradução Jerusa Pires Ferreira; Maria Lúcia Diniz Pochat; Maria Inês de Almeida. São Paulo: Hucitec, 1997.


[1] Zumthor nasceu em Genebra, 1915 e faleceu em  Montreal, 1995.  O livro A Letra e a Voz foi escrito entre 1982 e 1985. Três situações de cultura  na Oralidade: primária e imediata (sem contato com escritura); oral mista (coexiste com a escritura – defasada –dos séculos V ao XV, a oralidade estava mais para a mista, conforme época, regiões, classes sociais e indivíduos); oral segundo (com base na escritura – valores da voz no uso do imaginário – ou seja, cultura letrada.

[2] Através das traduções de Jerusa Pires Ferreira, pesquisadora da Novela de Cavalaria, temas medievais e de estudos orais e relações escrita/oral. Professora da ECA/USP e do Programa de Comunicação e Semiótica da PUC/SP.

[3] Realismo Grotesco: “… sistema de imagens da cultura popular cômica … o cósmico, o social e o corporal… numa totalidade viva. IN: A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, 1993, p. 17.

[4] Zumthor, 1993, p. 8.

[5] Bollème, 1988, p. 131; 139; 140 e 152.

Série Releituras & Breves Comentários IV – ‘Conversas com historiadores brasileiros’ e ‘Usos & abusos da história oral’

8 jan

Por Gisèle Miranda


Em 1997, a historiadora Márcia Mansur D´Alessio [1] publicou Reflexões sobre o saber histórico e trouxe à historiografia brasileira sua bagagem de Ego-História através das entrevistas com os historiadores franceses Pierre Vilar (1903-2003), Michel Vovelle (1933-) e Madelaine Rebérioux (1920-2005).

Antes, o historiador Pierre Nora (1931-) publicou a coletânea Ensaios de Ego-História com entrevistas de consagrados historiadores franceses.

Creio que os resultados obtidos de uma década entre Nora e D´Alessio foram de extrema importância para a elaboração teórica. Dentre as variantes e problemáticas estão: narrativas, entrevistas, memoriais, registros do ofício do historiador e biografias.

Georges Duby (1919-1996) foi um dos entrevistados de Pierre Nora e o mais cético quanto aos bons resultados e do preparo do historiador para tal proeza. Ou seja, ser o investigado, o coletado, o sujeito histórico numa perspectiva autobiográfica e no vínculo com as práticas culturais, políticas, numa memória em devir, circunstancial, seleta e fugidia.

Quanto ao resgate biográfico da historiografia brasileira, francesa, inglesa ou de qualquer nacionalidade, chamo à escrita quinze historiadores brasileiros (poucos), trazidos pelos entrevistadores José Geraldo Vinci de Moraes (historiador) e de José Marcio Rego (economista), através do livro Conversas com historiadores brasileiros, de 2002.

E, para compor a discussão, o livro Uso & Abusos da História Oral, de 1996, organizado pelas historiadoras Marieta de Morais Ferreira & Janaína Amado.

“Conversas com historiadores brasileiros”

Para a proposta de breves comentários seria impossível ater aos quinze historiadores entrevistados do livro. Por isso fiz a dolorosa escolha de dois, fracionando tal e qual, os entrevistadores da seleção dos quinze. Mas, nem por isso deixarei de registrar nesse texto, os quinze historiadores brasileiros. São eles: Maria Yedda Linhares, Edgar Carone, Emília Viotti da Costa, Boris Fausto, Fernando Novais, Evaldo Cabral de Mello, José Murilo de Carvalho, Maria Odila da Silva Dias, Ciro Flamarion Cardoso, Luiz Felipe de Alencastro, Edgar De Decca (1946-2016), Angela de Castro Gomes, João José Reis, Nicolau Sevcenko (1952-2014) e Laura de Mello e Souza.

Diferentemente de Pierre Nora na organização das narrativas coletadas para a publicação Ensaios de Ego-História, – Morais & Rego  interferem em suas entrevistas. Fonte oral como um desafio a subjetividade de intelectuais de ambos os lados, num devir inacabado, e até num devir imperceptível, como diria o filósofo Gilles Deleuze. (1997, p. 11)

Intelectual incipiente ou intelectual coletivo, perguntaria Pierre Bourdieu (1930-2002) e, posteriormente Edward Said (1935-2003)?  Ou, biografia e as dificuldades de qualidade e publicações abundantes há anos e a maioria anacronicamente psicológicas pendendo ao mercado oportuno? (LE GOFF, 1999, p. 20) [2)

Diante dessas questões chamo à escrita a historiadora Maria Odila da Silva Dias, uma dos grandes nomes da historiografia brasileira (fui sua aluna em 1996/ PUC/SP).

Maria Odila teve uma larga trajetória na USP como aluna e pioneira do mestrado em história; aluna de Sergio Buarque de Holanda (1902-1982), Caio Prado Jr.(1907-1990), entre outros; foi titular da cadeira de História do Brasil até sua aposentadoria, e logo em seguida, atuante no quadro profissional da Pós-Graduação da PUC/SP.

Maria Odila da Silva Dias – foto publicada em Conversas com historiadores brasileiros, 2002.

Com toda a bagagem que lhe confere, Maria Odila sempre esteve aberta às novas discussões e autores. Traço este que me faz lembrar com admiração quando ainda sua aluna apresentei um seminário sobre Paul Zumthor (1915-1995), na época, autor muito respeitado no Departamento de Comunicação e Semiótica, porém pouco presente no Departamento de História, mas deveras importante para minha tese de doutorado (orientada por Maria Izilda Matos, orientadora também do mestrado) e, em discussões no curso de  Maria Odila;  Zumthor  pôde ascender à importância justificada, ampliada e, inesquecivelmente trabalhada com outros colegas.

Além do mais, Maria Odila é atenta aos pensadores da desconstrução como Foucault (1926-1984), Deleuze (1915-1995), Guattari (1930-1992), Derrida (1930-2006), Antonio Negri (1933-), entre outros. Por que? Porque os historiadores têm de manter um diálogo com os pensadores contemporâneos, para consolidar a consciência de sua inserção no mundo de hoje. (DIAS, 2002, p. 207. In: Conversas com historiadores brasileiros)

Também chamo a essa escrita outro grande nome: Luiz Felipe de Alencastro. (Infelizmente não fui sua aluna regular, mas estive presente em algumas de suas palestras).

O historiador Luiz Felipe de Alencastro (1946-) nas dependências da Sorbonne, em Paris, onde leciona. http://www.sequenciasparisienses.blogspot.com – Foto de Alcino Leite Neto, 2003. (Folha de S. Paulo)

Alencastro é professor titular da Universidade de Paris-Sorbonne na cadeira de História do Brasil. Como historiador e pensador escreve em periódicos sempre que solicitado à crítica. Ele foi aluno de ‘ Michel Vovelle, Paul Veyne (1930-) e amigo de Georges Duby’ . E como tal faz jus ao trabalho do historiador e seu difícil elo com a mídia – ainda parco entre os historiadores. Ou seja, o trabalho do historiador tem uma especificidade narrativa que deve ser assumida e refletida, não só entre os seus, mas além, interrogar e se fazer visível em outros espaços de ação. (Alencastro, 2002, p. 260. In: Conversas com historiadores brasileiros)

Hoje temos um bom termômetro intelectual dentro e fora do país. Rompemos com o gueto acadêmico da escrita. Todos gostam de boas histórias não há por que não gostarmos também de boa História. (CARVALHO, 2002, p. 175. In Conversas com historiadores brasileiros)

Usos & Abusos da história oral

Sob organização de Janaína Amado e Marieta Ferreira, a publicação está repleta de grandes pensadores, de muitas questões desde a fecundidade da história oral, práticas e estilos, balanço dos métodos ao longo dos anos, as potencialidades da oralidade junto à história e à memória; também sobre gerações, a escrita e a ausência dela, acervos de depoimentos ou a oralidade documentada.

No entanto, desde a publicação de Usos & Abusos muito se tem discutido a respeito da biografia, incluso como um retorno ao vazio ou mesmo sob a ilusão biográfica. O ´eu´ou o conceito? O juízo de valor ou a isenção?

Quanto ao labor do historiador-biógrafo compartilho a frase do saudoso teatrólogo Procópio Ferreira (1898-1979), que sugere flanar sobre retalhos catados aqui e ali, pacientemente, num mosaico de idéias e de episódios com comprometimento e propriedade. (BARCELOS, 1999, p. 12)

Armadilhas são percalços para qualquer área. Vácuos e disjunções têm que ser preenchidos à luz de pesquisas, reflexões, críticas, e mesmo, se necessário num mosaico de feixes ficcionais permitindo os encantos das utopias.

Como método, há também técnicas e suas utilizações podem provocar e povoar um arquivo ou acervo.  Evidentemente, a oralidade é um campo de forças que precisa ser administrado com a cautela necessária para que não fulgure como intervalo ou vácuo, e sim requerer sua gama como força existente e diferente – tal o exemplo da curta temporalidade das gerações e suas importantes contribuições.

Como crítica à história convencional, a história oral tem seu próprio corpo de embate. Mas se utilizada indiscriminadamente, pode romper ou fragilizar estruturas intelectuais, ou desconstruir, sendo alvo de pouco veracidade ou quiçá remeter a complexa ideia de uma dupla dimensão do real: a do mundo concreto e a do mundo dos textos. (AMADO& FERREIRA, 1996, p. XXI)

Entre usos & abusos cabe ao pensador, historiador, antropólogo, poeta… traçar potencialidades, seja via métodos, técnicas e o que mais puder acrescentar; e se exceder, saber aparar as arestas.

Referências:

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. (Org.) História da vida privada no Brasil 2 – Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

BARCELLOS, Jalusa. O Mágico da expressão. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1999.

D´ALESSIO, Márcia Mansur. Reflexões sobre o saber histórico: entrevistas com Pierre Vilar, Michel Vovelle e Madeleine Rebérioux. São Paulo: Editora da UNESP, 1998.

DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Ed. 34,1997.

DIAS, Maria Odila da SilvaA interiorização da metrópole e outros estudos. São Paulo: Alameda, 2006.

DUBY, Georges. Ano 1000, ano 2000: na pista de nossos medos. Tradução Eugênio Michel da Silva & Maria Regina Lucena Borges-Osório. São Paulo: UNESP, 1998.

FERREIRA, Marieta de Moraes & AMADO, Janaína (Coord.) Usos & abusos da história oral. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1996.

MORAES, José Geraldo Vinci de & REGO, José Marcio (Entrevistadores). Conversas com historiadores brasileiros. São Paulo: Ed. 34, 2002.

LE GOFF, Jacques. São Luis (biografia). Tradução Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Record, 1999.

LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis (biografia). Tradução Marcos de Castro. Rio de Janeiro: Record, 2001.

MADEIRA, Gisele ou IGGNÁCIO, Gisele de Miranda. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo, 2000. 250 p. Tese (doutorado em história) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

SAID, Edward W. Cultura e Política. Prefácio de Emir Sader; Tradução de Luiz B. Pericás. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003

THOMPSON, Paul. A voz do passado: história oral. Tradução Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.


[1] Fui sua aluna no mestrado em História da PUC/SP, 1993.

[2] Compraz com Le Goff sobre a carga particular da biografia: ´em meio à crise de mutação geral das sociedades ocidentais´ e refletindo sobre o sujeito na biografia – ´o sujeito globalizante – em uma procura utópica, por causa dos vácuos e disjunções que rompem a trama e a unidade aparente’, LE GOFF, 1999, p. 20-21.

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