Tag Archives: Teatro

O grupo Arquitetura Nova e Lina Bo Bardi

19 jan

Gisèle Miranda 

 

O surgimento da arquitetura moderna no Brasil se configurou na prática revolucionária: A arquitetura, mais do que as artes visuais, vive do diálogo com o poder das classes dominantes e a despeito da intencionalidade ou não explicita pelo produtor, a obra de arte é frequentemente manipulada politicamente em seus estágios de circulação… e consumo. (AMARAL, 2003, 16)

O grupo Arquitetura Nova teve a militância de Rodrigo Lefèvre (São Paulo, SP, 1938-Guiné-Bissau, 1984), Flávio Império (São Paulo, SP, 1935- idem, 1985) e Sérgio Ferro (Curitiba, PR,1938-). Os três repensaram a arquitetura e as condições de produção no canteiro de obras, além dos estudos de pintura e de arquitetura cênica e de trajes.

 

O trio fez experimentos no canteiro para valorizar, respeitar e mostrar o trabalho do pedreiro: desfazendo do revestimento sobre a alvenaria, e deixando aparentes as instalações elétricas e hidráulicas. Os arquitetos do grupo adotaram uma diferenciada relação com os trabalhadores, cuja assinatura não é posta no edifício, mas suas passagens são testemunhos laborais mesmo que marginalizados do registro institucionalizado.

Lefèvre, Ferro e Império representaram a FAU/USP na VI Bienal de Artes de São Paulo,  em 1961, governo Jango, do fortalecimento das lutas populares, das Ligas Camponesas, e das reformas de base. O grupo primou pela socialização de conhecimentos e cooperação mútua entre arquiteto e operário.

O Cinema Novo, os Centros Populares de Cultura, o Teatro de Estudantes do Brasil (TEB) e do Teatro de Arena inspiraram os arquitetos Lefèvre, Ferro e Império. Eles conceberam para a arquitetura moderna brasileira, além de um programa de cunho popular, atuações no Teatro de Arena com rigor crítico, destacando-se na reformulação da cenografia brasileira, no diálogo direto com a matéria e com o processo de criação e de intercâmbio. Mas com o golpe militar de 1964 no Brasil, os ideais democráticos foram cerceados, diminuindo progressivamente as atividades do grupo. Em 1970, Lefrève foi preso e torturado pelo DOPS.

A arquiteta italiana Lina Bo Bardi (Roma, Itália, 1914- São Paulo, SP, 1992) se aproximou do grupo Arquitetura Nova e impulsionou a arquitetura cênica e de trajes. Ela defendeu a abertura de aspectos da contemporaneidade, e restabeleceu a relação entre a arte, a vida e o cotidiano moderno: Abaixo o amuo dos museus tradicionais, disse Lina (BARDI, Lina, 2008; 74)

Lina observou que o museu ainda era concebido como templo, na presença da enfática monumentalidade dos elementos clássicos. O museu deveria atender à demanda cultural de um país. Dessa forma, o Museu de Arte de São Paulo foi pensado com ações voltadas à valorização de obras artísticas antigas e modernas. Assim como o próprio projeto do MASP visava utilização do vão livre para as manifestações, apresentações de cinema, música, dança e feiras de antiguidades e artesanatos. 

Lina buscou o reconhecimento da cultura popular brasileira, acreditando na influencia que isso acarretaria no desenvolvimento do país. Ela deu sequência ao olhar de Mário de Andrade (década de 1930) sobre a qualidade dos artesanatos do Brasil.

Destaque também ao projeto que Lina idealizou para o SESC Pompéia – onde a arquiteta, em parte conservou as antigas instalações da Fábrica da Pompéia e buscou a integração entre o antigo e o novo. De 1977 a 1982, Lina tratou a fábrica segundo seu valor documental e histórico. Em 1984 Lina fez a restauração do Teatro Oficina.

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

Referências

AMARAL, Aracy. Arte para quê? A preocupação social na arte brasileira 1930-1970. 3. ed. Studio Nobel: 2003.

ARANTES, Pedro Fiori. Arquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2004.

FERRAZ, Marcelo (Coord). Lina Bo Bardi. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008.

MANGUEL, Alberto. Claude-Nicolas Ledoux: Imagem como filosofia; IN: MANGUEL, Alberto. Lendo imagens – uma história de amor e ódio. São Paulo: Ed. Companhia Das Letras, 2001.

Anúncios

Série Paschoal Carlos Magno X: Festivais de Estudantes – II Festival em Santos/SP

11 nov

Por Gisèle Miranda

 

O II Festival acorreu na cidade de Santos, em julho de 1959[1]. Foram doze dias com cerca de 800 estudantes dos Teatros de Estudantes de várias regiões do Brasil. Vindos do vigoroso I Festival no Recife de 1958, revertido em experiência bem sucedida e revitalizado nas normativas do II Festival.

10. Estamos em Santos para aprender, estudar, enriquecer nossos conhecimentos… servir à elevação cultural (…) 18. O I Festival em Recife foi um dos maiores acontecimentos do Brasil… em Santos manterá essa tradição.[2]

Envoltos a esses jovens, além de Paschoal Carlos Magno, estiveram Patrícia Galvão (Pagú), Décio de Almeida Prado, Anna Amélia Carneiro de Mendonça, Joracy Camargo, Alfredo Mesquita, Sábato Magaldi, Luiza Barreto Leite, entre outros.

O II Festival apresentou inúmeras peças, cursos, palestras e julgamentos fictícios por nobres juristas e magnas interpretações de Cacilda Becker e Henriette Morineau, respectivamente como Mary Stuart e Elizabeth I; Sergio Cardoso e Paulo Autran como Hamlet e Otelo.

Entre o I e II Festivais, Paschoal conheceu em meio às ruínas, uma fazenda colonial portuguesa, do séc. 18 que viria a ser em 1965, a Aldeia de Arcozelo, sede dos Festivais seguintes, albergue da juventude, cursos e seminários e por fim, a tão sonhada Universidade Livre de Artes, que infelizmente não alçou voo.

Paschoal Carlos Magno na Aldeia de Arcozelo (Teatro Itália Fausta ao ar livre), ca. 1975. Foto Ney Robson (Inacen/RJ)

O entorno fiscalizador do Estado proibiu a UNE, censurou espetáculos, os intelectuais foram obrigados a calar seus pensamentos que gritavam. Os militares queriam o silêncio da juventude, Paschoal queria as vozes da juventude.

Do V ao VII Festivais, Paschoal foi sendo abatido, período correspondente a 1968, 1971 e 1975. Os efeitos da ditadura militar que dizimou os Teatros de Estudantes, foram também minando as lutas de Paschoal – calejando-o, atormentando-o, mas obstinado foi galgando perspectivas paralelas e necessárias – primeiro, dispersando os jovens em Caravanas e Barcas em cidades distantes e em territórios disfarçados.

Modelo organizacional/alimentação Festival Nacional na Aldeia de Arcozelo

Segundo, reunindo-os e protegendo-os através de relatos em jornais sobre  suas atividades culturais. E para cada inspeção, um personagem paschoalino para compor os ares de inofensivo ou louco e, porque não, um amansador de ideologias ou dos ardis da juventude.

Afinal, a educação formal foi movida pela política de censura e pelo Estado repressor, mas as atividades culturais foram desprendidas da educação do Estado, mas não para Paschoal Carlos Magno, que via no teatro uma efetiva alternativa de educação.

 

Referênias:

ARGAN, G. C. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

BABHA, H. F. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo: FAPESP: Iluminuras, 1997.

MADEIRA, G. ou MIRANDA, G. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo, 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP.

KHOURY, S. Atrás da máscara. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, V. 2.

Periódicos:

A Tribuna, 11 jul. 1959.

Diário de Brasília. Brasília, 22 nov. 1974. Moços merecem mais respeito. Por Paschoal Carlos Magno.

Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 24 nov. 1974. O Outro Paschoal – triste, desgostoso, revoltado.

Jornal do Comércio. Rio de Janeiro, 27 nov. 1974. “Eu não existo mais”. Por P. Lara.

O Estado de S. Paulo. São Paulo, 2 set. 1976, p. 18. Sem apoio oficial, Aldeia de Arcozelo poderá desaparecer.

O Globo. Rio de Janeiro, maio 1969. Para salvar a Aldeia. Por G. M. Bittencourt.

O Globo. Rio de Janeiro, 21 nov. 1974. Paschoal depõe para o futuro pedindo que ajudem o teatro.

O Jornal. Rio de Janeiro, 19 dez. 1967. Paschoal fala de teatro no MIS e condena censura.

Revista Dionysos: Estudos Teatrais. José Arrabal (Org.) Teatro do Estudante de Brasil, Teatro Universitário, Teatro Duse. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura: DAC: FUNARTE: SNT, n. 23, set. 1978.

Última Hora. Rio de Janeiro, 12 mai. 1964. Paschoal acabou com o Duse e com a Casa. Por José Mauro.

Última Hora. Rio de Janeiro, 19 dez. 1967. Juventude é tudo.


[1] Demais Festivais: O I Festival no Recife (PE), 1958; III Festival em Brasília (DF), 1961; IV Festival em Porto Alegre (RS), 1962; V Festival na Guanabara (RJ), 1968; VI e VII Festivais na Aldeia de Arcozelo – Paty do Alferes (RJ), 1971 e 1975.

[2] Normas 10 e 18 – parte das dezoito normas estabelecidas por Paschoal aos estudantes de teatro para o Festival em Santos. Jornal A Tribuna , 11 jul. 1959. O Festival em Santos ocorreu de 12 a 24 de julho de 1959.

Série Paschoal Carlos Magno VIII: A Barraca e o Teatro Experimental do Negro

10 out

Por Gisèle Miranda


A Barraca de Federico Garcia Lorca foi resgatada pelo Teatro de Estudantes de Pernambuco (TEP) na apresentação de Cantam as harpas de Sião, reescrita pelo jovem talento Ariano Suassuna com o nome Desertor de Princesa. E à frente da Barraca, Paschoal Carlos Magno, em 1948.

TEP, Teatro de Bonecos ´Haja Pau´, de José de Morais Pinto, 1948.(Paschoal Carlos Magno sentado à direita)

Se apresenta, e se representa, como poder de participação e de integração, no momento em que a comunidade unânime subverte qualquer hierarquia e qualquer ordem estabelecida (Bellème, 1988: 140)

Ao criar uma linha da política divergente, a Barraca abriu uma discussão sobre oralidade, escrita, popular e erudito:  subverte-se a oralidade lendo Victor Hugo, quiçá os tantos Eus de Fernando Pessoa, os tantos ismos que a historicidade artística registrou.

Há também o caráter revolucionário no palco, que também pode realizar-se no estádio, no teatro, na rua, na festa. Retirando um pouco a carga do popular como provedor do discurso político – como síntese viva. (Belléme,1988, 143-144) 

Na oralidade a assinatura pessoal é progressivamente apagada ao longo de uma transmissão que não cessa de ser criadora. Molière deixou livre os seus textos às improvisações. Escrever não pode traduzir os jogos de cena.; eis porque basta a aprovação do público consagrá-las. (Bollème, 1988, p. 158 e 163)

Mas, somente nos idos de 1950, os medievalistas trabalharam com a poesia oral. Até então ela estava recalcada em nosso inconsciente cultural, tardiamente, pois, todos eram escravizados pelas técnicas escriturais e pela ideologia que elas secretam… perdida a faculdade de dissociar da idéia de poesia a de escritura. (Zumthor, 1993, p. 8)

Dai a dicotomia popular – erudito. A literatura delimitava o admissível ao inadmissível folclórico. Quando a oralidade assumiu sua importância foi classificada como ausência de escritura, mas:

A obra contém e realiza o texto; ela não o suprime em nada porque, desde que tenha poesia, tem, de uma maneira qualquer, textualidade. (Zumthor, 1993, p. 10)

 *

O Teatro Experimental do Negro liderado por Abdias do Nascimento foi oficializado em 13 de outubro de 1944, na cidade do Rio de Janeiro, não apenas com apresentações de espetáculos, mas viabilizou cursos de alfabetização e iniciativas culturais.

A questão era: como divulgar e ter um retorno financeiro para que as atividades ganhassem fôlego? Quando o Imperador Jones foi encenado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945, contou com o apoio de Paschoal, segundo reminiscências das atrizes Ruth de Souza e Léa Garcia[1]:

Foi uma correria. Paschoal Carlos Magno nos deu uma lista de embaixadores e cônsules para que eu lhes vendesse ingressos… fui recebida com enorme carinho… o dinheiro dos ingressos serviu para finalizar a montagem… foi um sucesso de crítica e público. (Ruth de Souza. In: Revista Dionysos, 1988, p. 123-124)

Paschoal contribuiu muito para a formação dos atores do TEN. (Léa Garcia. In: Revista Dionysos, 1988, p. 135-136)

Sua luta pelas artes no Brasil, em especial pelo teatro foi o mote de sua consagração e de seu definhamento pela falta de recursos e da oposição política. Mas fazia parte de seu sonho romper com o estereótipo negro de ´escravos a libertos´ e ineptos atores de meados do século 19. Assim como romper com o preconceito com o ponto (a subestimação do profissional de teatro), e com o sotaque lisboeta.

A Barraca de Garcia Lorca alçou um devir ´tempo´no Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), em 1948, e no Teatro Experimental do Negro, em 1949. (o TEN/RJ, sob direção de Abdias do Nascimento e, TEN/SP, sob direção de Geraldo Campos de Oliveira.)

Este slideshow necessita de JavaScript.

Vale lembrar também Abdias do Nascimento como Otelo contracenando com Cacilda Becker em 1946.

Cacilda Becker (Desdêmona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

Cacilda Becker (Desdemona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

Imagens:

(1) Otelo de Abdias do Nascimento/direção do próprio Abdias/ segunda montagem de 1949, contracenou com Ruth de Souza no papel de Desdemona. Vale destacar a importância do Festival Shakespeare de 1949, criado e organizado por Paschoal Carlos Magno, em 1947 a partir da Concentração dos Estudantes, e em 1948, o Seminário de Arte Dramática com participações do TEN e demais Teatros de Estudantes.

(2) Otelo de José Maria Monteiro/ direção Chiara de Garcia 1949-1950, contracenou com Fernanda Montenegro como Desdemona. Na antiga TV Tupi. (RJ)

(3) Otelo de Sebastião Vasconcelos/ Teatro do Estudante de Pernambuco, 1951, contracenou com Teresa Leal como Desdemona; Genialdo Wanderley como Iago. (Recife)

(4) Otelo de Paulo Autran/ direção Adolfo Celi, 1956, contracenou com Tônia Carrero como Desdemona. Teatro Dulcina. (RJ)

(5) Público infantil no parque 13 de maio (de 1888 à 1948) – Bonecos ´Haja Pau´, de José de Morais Pinto. Em seguida, Cantam as harpas de Sião (1° Ato) de Ariano Suassuna. Paschoal Carlos Magno sentado à nossa direita, em 1948.

Referências:

BOLLÈME, Geneviève. O povo por escrito. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

MARTINS, L. M. A cena em sobras. São Paulo: Perspectiva, 1995 (Debates, 267)

MENDES, M. G. O negro e o teatro brasileiro. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: IBAC; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 1993. (Teatro, 25)

MAGNO, P. C. O filho pródigo. In: Jornal Correio da Manhã, 9 dez. 1947.

MAGNO, P. C. Tudo valeu à pena. (manuscrito), 12 set. 1968.

PRADO, Décio de Almeida. In: O Estado de S. Paulo, 29 jun. 1952

ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a literatura medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, P. Tradição e esquecimento. São Paulo: Hucitec, 1997.

Ver tb.: Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème


[1] A atriz Ruth de Souza trabalhou na Casa do Estudante do Brasil, fundada por Paschol e d. Anna Nery, em 1929. Aperfeiçoou-se como atriz nos EUA, quando ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Cleveland, Ohio, através da Fundação Rockefeller, por indicação de Paschoal Carlos Magno. A atriz Léa Garcia foi casada com o fundador do TEN, Abdias do Nascimento.

Série Paschoal Carlos Magno VII: verdejantes moços pelas Barcas e Caravanas da Cultura

29 set

Por Gisèle Miranda


Moços era a denominação de jovens para Paschoal Carlos Magno. Assim como estudantes – deveria ser a situação desses moços. Ele bradava: Diga que eu acredito no teatro como elemento de educação! (Magno, PC, 197-)

Com sua trupe de moços, Paschoal desbravou tempos difíceis por uma linha de fuga em plena ditadura militar no Brasil. E como se não bastasse desbravou tempos longínquos.

Desde o período Carolíngio tem-se associado a cor verde para estabelecer a inquietude da juventude:

A pintura e a tintura medievais sempre tiveram dificuldade de dominar aos tons verdes. Estes são os mais instáveis…, uma relação possível entre a química e a ideologia. Como os tons verdes os jovens são volúveis, instáveis, às vezes perigosos. (Levi & Schmitt, 1996: 261)

Paschoal continuou clamando (em desvario) a dramaturgia dos moços-estudantes. As criações e sonhos o levaram ao estereótipo de louco quando realizou as Caravanas e Barcas da Cultura[1] com sua trupe, tangidos pela diversidade, numa inquietude nata, combativa e opositora a censura: matando a morte com a eternidade da arte. (Magno, PC. In: Jornal O Globo, 1974)

Caravana da cultura, 1964. Paschoal Carlos Magno,  Armando Maranhão (o primeiro do grupo à direita de Paschoal) e outros componentes do Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP)

A Barca da Cultura acreditou que o sertão viraria mar. Mas foi no mar da seca que a Barca tornou-se Caravana. Véspera do longo tempo, do silêncio, aviso na esquina, dando a impressão aos pobres de espírito que se tratava de propaganda comunista; eles confundiam as coisas. (Magno, PC. In: Jornal de Sergipe, 197-)

No cotidiano das Barcas/Caravanas, os espetáculos teatrais pelas manhãs, tardes e noites, sempre com distribuições de livros e discos, e reverberando uma proposta de erradicação do analfabetismo:

256 brasileiros chefiados pelo entusiasmo e sua fé. Oito ônibus, seis automóveis, dois caminhões carregados de livros e discos… 274 espetáculos, em praça pública, adros de igrejas, pátios de escolas, salas de orfanatos, asilos… (Magno, PC. In: O Jornal, 1967; Pasquim, 197-, p. 12)

Ou:

Descendo o Rio São Francisco, de Pirapora (MG) a Petrolina (PE) distribuindo livros e levando a população ribeirinha exibições nunca sonhadas de teatro, dança, cinema e artes plásticas.[2]

Essa empreitada não saiu ilesa para Paschoal. A Barca da Cultura também ficou conhecida como Barca pervertida, invertendo a ação cultural em campanhas infames, através de cartas anônimas aos jornais, prefeitos, cardeais e oficiais militares.

Paschoal Carlos Magno, Caravana da Cultura, s/d (foto família Carlos Magno)

Mas as Barcas e Caravanas existiram, independentes de estarem na contramão do período político e de suas condições financeiras. E, apesar de Paschoal ter declarado que houve quatrocentos Teatros de Estudantes no Brasil, e a ditadura militar matou-os um a um (Pasquim, 197-, p.13 e 14), formou-se uma matriz teórica para a descentralização do teatro (rompendo também com o preconceito contra o teatro):

A descentralização do teatro e o crescimento das atividades regionais – parece hoje mais próximo de se concretizar do que qualquer outro momento da história. No dia mesmo em que Paschoal era enterrado… eis uma confirmação consagradora de um apostolado que agora chega ao fim, mas cujos frutos continuarão alimentando de modo decisivo a atividade teatral brasileira. (Michalski, Yan. In: Jornal do Brasil, 27 mai. 1980, p. 2)

Referência:

LEVI, G. & SCHMITT, J. C. (Org.). História dos jovens: da antiguidade à era moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Vol. I.

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).


[1]A primeira Caravana se deu em 1963-1964 e a segunda, 1967-1968– atravessando os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas, e terminou na cidade de Maceió. Registros da Barca da Cultura 1973-1974. Porém, uma era o desdobramento da outra; quando necessária a Caravana transformava-se em Barca.

[2] Jornal do Brasil, 7 dez. 1973; Revista Veja, 27 fev. 1974; Diário de Pernambuco, 9 jul. 1980 (Stuttifera foi o segundo nome dado a Barca da Cultura por Antonio Callado)

Série Paschoal Carlos Magno VII: ingênuo ou comprometido?

11 ago

Por Gisèle Miranda

 

É realmente constrangedora, para um velho combatente como eu, a miopia daqueles que esbordoam moços, porque desejam pensar alto… inquietos carregados daquela flama da paixão que é privilégio dos moços e daqueles que, não sendo medíocres, envelhecem com o mesmo ardor e o mesmo entusiasmo… {Paschoal Carlos Magno, Diário de Notícias (196-): A miopia da repressão}

O teatro de Paschoal e suas derivações, ascendentes de laboriosas designações, tais como paschoalino, quixotesco, franciscano, entre outras, refletem pois, o paschoalhar, quase em tom de bufão.

Proposta imagética do quixotesco Paschoal Carlos Magno, por Jesualdo Gelain, dez. 1999

Há um despojamento de interesses pessoais por parte do criador e condutor das Barcas e Caravanas da Cultura (décadas de 1960 e 1970), assim como há contradições em suas vinculações políticas.

Paschoal se aproximou da política enquanto visionário das artes, e não como efetivo membro da direita ou esquerda. Sua trajetória política foi bizarra – não encontrando eco nem respeito partidário.

Ingênuo ou comprometido? Como pensar no profissional da diplomacia diante de um ou outro? Os tempos eram outros, de silêncios, de meias verdades, de cerceamento das liberdades.

Como pensar, por exemplo, a perspectiva do Cinema Novo desvinculado da União Nacional dos Estudantes (UNE) e do Centro Popular de Cultura (CPC), ou seja, de seus progenitores? – “A esquerda cobrava de Glauber Rocha uma coerência política que ele nunca teve. Glauber cobrava da esquerda…” [1] uma sensibilidade artística que ela não tinha?

Os votos trouxeram a Paschoal, a possibilidade do retorno ao Brasil. Os votos deram-lhe a dignidade e respeitabilidade por parte de seus seguidores. Os votos deram-lhe a possibilidade de criação do bufão diante das autoridades que dominaram por mais de vinte anos o Brasil.

Como louco inofensivo, Paschoal transitava por vias alternativas e de pouca vigília militar. Assim acolheu em tempo impróprio, a fome e a sede da juventude, que em agrupamentos, eram considerados de alta periculosidade.

Nem todos os jovens de esquerda, ou simpatizantes puderam fugir de seu país quando havia complicações. Muitos, em todas as ditaduras militares latino-americanas, morreram. Outros lutaram por suas convicções até o último momento, e depois foram exilados. Dolorosas histórias de perdas e danos. [2] Mas, e os que aqui ficaram?

Paschoal foi galgando questões morais que se tornaram intrínsecas às questões políticas. Travou uma larga luta por respeitabilidade aos profissionais das artes e princípios coletivizados em tempos que, o coletivo era pernicioso.

Também abriu um espaço cultural além dos limítrofes das grandes cidades burlando dificuldades quanto à ausência de investimentos, muito além do louco mecenato do qual, em parte bancou o teatro brasileiro. Foi andarilho de interlocuções; sobrepôs teorias e metodologias às mirabolantes performances.

Sua maior titulação não foi a de bacharel em direito, nem tampouco de embaixador, pois nunca assumiu uma embaixada, devido a sua aposentadoria forçada. Sua maior titulação foi a de Estudante Perpétuo do Brasil, dada pela União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1956.

 

Referências:

BARCELLOS, Jalusa. CPC da UNE: uma história de paixão e consciência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

GOMES, João Carlos Teixeira. Glauber Rocha, esse vulcão. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1997,

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).


[1] BEIRÃO, Nirlando: Glauber had sept cabezas. São Paulo: Revista Bravo! Março, 1999, ano 2, n. 18, p. 48.

[2]   O relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Acessado em 1 de fevereiro de 2017.

Série Paschoal Carlos Magno VI: os votos da juventude

7 ago

Por Gisèle Miranda


Enquanto Paschoal cumpria seu trabalho no Itamarati, acompanhava de onde estivesse o Teatro de Estudantes e seus desdobramentos através de suas irmãs – Orlanda e Rosa.

A idéia de uma vinculação a política partidária surgiu pela imensa vontade de retornar ao Brasil e dar continuidade às suas propostas culturais, instituir alternativas para concretizar projetos e investir em educação. Uma semana antes de Paschoal partir para Atenas, um amigo desabafou:

– pensei nisso quando fui à missa de sétimo dia de sua mãe (Ruminei: que tem a missa da minha mãe com a política) e durante mais de duas horas vi uma fila imensa diante de você dando-lhe pêsames. Ricos e pobres, brancos e pretos. – “Que grande eleitorado.” (Magno, 1969, p. 64)

Paschoal candidatou-se a vereador na cidade do Rio de Janeiro. Com a ajuda de suas irmãs, cinco mil cartas foram encaminhadas. A espontaneidade dos jovens articulou a projeção de Paschoal. Por diversos bairros os atores encenavam peças infantis, e por fim, estendiam as faixas com os dizeres: Se Paschoal não voltar acaba tudo. (Magno, 1969, p. 205)

Frente do panfleto da campanha de Paschoal Carlos Magno para vereador da cidade do Rio de Janeiro, 1950

Em 3 de outubro de 1950, Paschoal foi eleito vereador pela UDN[1], sem nenhuma participação em comícios ou reunião do partido. Empossado em 1 de abril de 1951, permaneceu no cargo até 31 de janeiro de 1955. E, como era esperado assumiu o seu cargo independente da política partidária. Atuou como membro da Comissão dos Problemas dos Favelados Cariocas (1951) e que lhe valeu ser chamado de simpatizante do credo comunista.[2]

Verso do panfleto da campanha de Paschoal Carlos Magno para vereador da cidade do Rio de Janeiro, 1950

Paschoal também lutou pela autonomia do Teatro Municipal, pois na época vinha sendo entregue às festinhas de família, reuniões políticas, banquetes aos donos da pátria. (Assembléia, p. 423; Ata 104, 3 set. 1951, p. 47), além de, em todo momento, proclamar o descaso com orfanatos, centros de tuberculosos, deficiências e artes em geral. A ponto de se levantar contra o seu próprio partido:

Em quatro anos de exercício político nunca me foi possível compreender porque nossos adversários eram classificados pelos meus correligionários, com raras exceções, como cornudos, castrados, ladrões, pederastas. E cometiam na sua maioria os mesmos erros daqueles de apadrinhar causas injustas, arranjar empregos para parentes e conhecidos. (Magno, Tudo valeu à pena, m.s., 28 de março de 1955)

E, mais:

Apresentei toda uma série de projetos ligados à educação, muitos dos quais não encontraram pernas para andar no chão de uma assembléia eminentemente eleitoreira. (Magno, Tudo valeu à pena, m.s., 4 de abril de 1955)

Durante seu mandado de vereador apenas um bom momento a ser registrado. Paschoal ficou surpreso com chamado de Getúlio Vargas, para participar sobre sua ida a Alemanha (Universidade de Erlargen), para ser prestigiado na Festival Internacional de Teatro – com 400 acadêmicos de Teatros Universitários do Mundo. O festival teve a avant première com o texto de Paschoal, Amanhã será diferente, pelo Teatro Universitário de Istambul.

Referências:

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

MAGNO, Paschoal Carlos. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

MAGNO, Paschoal Carlos Tudo valeu à pena.(manuscrito, 1940)


[1] A UDN – União Democrática Nacional foi criada em 1944, entre os seus correligionários estavam o brigadeiro Eduardo Gomes, que participou da sublevação tenentista (Dezoito do Forte de Copacabana, 1922), e o jornalista Carlos Lacerda, ferrenho e controvertido orador, pivô do caso da rua Toneleiros (agosto 1954), quando Getúlio Vargas foi acusado de ser o mandante do atentado, e que logo culminou na crise do populismo e no suicídio do presidente do Brasil.

[2] Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro: levantamento das atividades parlamentares de Paschoal Carlos Magno, 10 de maio de 1951, p. 415-417. E ainda, Paschoal deixou registrado: a delegacia política aproveitará a circunstância para fazer calar a voz dos pequeninos perseguindo-os.

Série Paschoal Carlos Magno III: O Teatro Duse – uma nau de trilhos e bondes

12 jul

Por Gisèle Miranda

… Rio de Janeiro, e vivi grande parte da minha vida lá no morro de Santa Tereza, onde vivo até hoje e onde espero morrer… (MAGNO, P. C., 1980)

Teatro Duse, hoje Casa Paschoal Carlos Magno, situada a (ladeira) Hermenegildo de Barros, 161, em Santa Teresa, na cidade do Rio de Janeiro. O Duse nasceu sob o jugo de luzes e aplausos em 2 de agosto de 1952:

 Instituindo a alusão topográfica – ele (Paschoal Carlos Magno) monta o seu teatrinho ´Duse´ na ladeira íngreme de um bairro caído em ostracismo. Há gente, muita gente subindo pelas escarpas com devoção de que sobe a Penha… cem pessoas dento do teatrinho Duse representam moralmente seis mil assinantes do Teatro Municipal… (Globo, 23 jun. 1953.)

 Poltronas confortáveis verdes-brancas… paredes verde-claro… cortina branca… iluminação indireta através dos olhos de vidro das máscaras gregas esculpidas por Stélio Alves de Souza…  (Tribuna da Imprensa, 5 ago. 1952)

Em 1938, Paschoal clamava: talvez num porão, num sótão como Little Theatre… na falta de outro local, na minha casa na boa companhia de meus livros, quadros e bronzes…(Jornal dos Theatros, 3 jun. 1938.)  O Teatro Duse de 1952 foi um desdobramento do Teatro do Estudante do Brasil de 1938, época em que os estudandes usavam uniformes – saias e calças pretas, camisas e blusas brancas com as iniciais TE.

 O Teatro Duse fechou suas portas em 1956; reabriu, fechou e reabriu. Em 1985 a casa foi “considerada bem cultural de Santa Tereza.” Desse pequeno teatro profissões antes sequer respeitadas foram definidas. Destaques à nossa literatura com textos de Ivan Pedro Martins, José Paulo Moreira da Fonseca, Hermilo Borba Filho, Raquel de Queiróz, Antonio Callado, Lúcio Fiúza.... entre muitos. Nossa língua valorizada e compreendida.

No térreo da casa o Teatro Duse. No andar de cima, a morada da família Carlos Magno, que também acolhia estudantes: … que nenhum dos estudantes fique sem jantar e tenha um leito, arrumado no palco, na biblioteca ou mesmo sobre a palha dos velhos sofás… . (Vicente, Jornal de Imprensa, 5 ago. 1952)

Paschoal morreu na cidade do Rio de Janeiro em 24 de maio de 1980. Pouco antes esbravejou, em tom de praga, a todos que alimentavam a ignorância. Afinal, ele era de uma família predestinada… que tem vocação suicida. Uma família que em vez de amealhar dinheiro, amealha livros, quadros, paixões… todos nós trabalhamos pela cultura. (Magno, O. C., 1993, 194)

Referências: MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

Série Paschoal Carlos Magno II: “Sol sôbre as palmeiras”

12 jul

Por Gisèle Miranda

 

Vou Paschoalando pelas ruas… Dom Quixote aparece sem auréolas, simplesmente como um ser humano, cuja justificação – é preciso dar-lhe alguma? – é de não ser unilateral, mas de alma que se renova com a fôrça universal de cada sonho. (MAGNO, P. C., 1969)

Paschoal ou Lúcio?

“Sol sôbre as palmeiras”(1962) foi o segundo livro de Paschoal Carlos Magno; é um romance histórico e autobiográfico com espacialidade delineada pelo morro de Santa Teresa ou morro Paula Matos, na época, bairro de ostracismo da cidade do Rio de Janeiro.

Lúcio – personagem central. Seu Chico, o pai, autodidata e criador do teatro da família Carlos Magno. Ele lia para os filhos e descrevia o que imaginava ter visto. Quando titubeava, no dia seguinte retornava ao assunto após pesquisas.

Dona Josefa, a mãe fervorosa em sua religiosidade que explicitava nos cômodos da casa imagens de santos católicos. No dia a dia, a compra fiado do pão, inadimplência dos alugueres, mas a cumplicidade junto ao marido à compra de muitos livros e, até: de Madona à Duse – sementes do Teatro Duse:

Seu pai é doido… substituir a Madona por um retrato de atriz… – Não o leve, mamãe… Veja: (Lúcio apontava à Duse) – tem um ar de Madona. E nessa noite Lúcio não se espantou de encontrar acesa a lamparina junto do retrato de Eleonora Duse-Checchi (1858-1924). Nessa noite e daí por diante. (MAGNO, 1922, p. 20-21)

Elenora Duse-Checchi, s/d

Em 1947, a atriz Henriette Morineau durante a famosa Concentração do Teatro do Estudante, sequenciou a crença do Teatro do Estudante celebrando e glorificando a madona Eleonora Duse: …com os olhos enevoados… abriu a bolsa e tirou uma nota que depositou no chão de veludo escuro do altar. (Jornal Correio da Manhã, 31 jul., 1947.)

Elenora Duse-Checchi, 1922

A atriz Eleonora Duse esteve no Brasil em 1885. A cidade do Rio de Janeiro foi a primeira de sua carreira internacional.  Mas o grande público da “prim´attrice assoluta” ainda não existia nos trópicos. Ressentida com poucas palmas, cadeiras vazias e, apesar das notas de jornais de alguns admiradores, deixou registrado:

um grande, grande teatro… murmúrios ininterruptos na platéia e nos camarotes, do princípio ao fim da peça… eles não conhecem de minha voz senão uma parte infinita e miserável, sem falar das dificuldades da língua (minha doce língua italiana, ao lado dêsse português tão rude, e do brasileiro ainda pior… (trecho da carta enviada por Duse à Mathilde Serao; carta publicada em A vida de Eleonora Duse, de Max Reinhardt)

Duse retornou ao Brasil em 1907. Desta vez, ovacionada pelo público, porém mais amargurada do que nunca. Sequer concedeu entrevistas, isolando-se até dos amigos, atitude que encolerizou Arthur de Azevedo:

Duse, a inacessível Duse, que fugindo a reportagem e aos Kodaks, torna-se quase um mito… neurastenia? aborrecimento?… vaidade? orgulho? ou desprêso de Deusa para com os míseros mortais?  (ABREU, 1958, p. 15)

Quem foi Eleonora Duse para Paschoal Carlos Magno? Não apenas a capacidade imensurável às interpretações, mas a figura imponente de mulher, sua trajetória de vida determinada pelo mambembe – em qualquer lugar e em qualquer hora. Princípio este que articulou as bases do Teatro do Estudante do Brasil, as Caravanas e Barcas da Cultura, Teatro Duse e Aldeia de Arcozelo.

Para Paschoal, as reações adversas de Duse no Brasil deveu-se a pressão de um momento pessoal desesperador – do falecimento do ator de sua companhia (e também seu amante esporádico) Arturo Giotte, acometido de febre amarela pouco depois de desembarcar no Brasil em sua primeira tournée. Além, é claro, da pouca receptividade do público brasileiro.

 

 

Referências

ABREU, Brício. Eleonora Duse no Rio de Janeiro (1885-1907). Rio de Janeiro: MEC, SNT, 1958.

MIRANDA (ou MADEIRA), G. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo: 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

MAGNO, Orlanda Carlos. Pequena história do Teatro Duse. Rio de Janeiro: SNT, 1973.

MAGNO, Paschoal Carlos. Tempo que passa. Rio de Janeiro: s/ed., 1922.

_____________________. Sol sôbre as palmeiras. Rio de Janeiro Letras e Artes, 1962.

_____________________. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

_____________________. Poemas do irremediável. Rio de Janeiro: Cátedra, 1972.

_____________________. Tudo valeu a pena. m.s, s.d.

REINHARDT, Max. A vida de Eleonora Duse. Rio de Janeiro Livraria José Olympio Editôra 1940.

Série Paschoal Carlos Magno I: O Teatro de Paschoal Carlos Magno – O ofício em suas considerações (*)

11 jul

 

por Gisèle Miranda

 

 

Sergio Cardoso, Paschoal Carlos Magno e Procópio Ferreira em visita ao ensaio de Hamlet no Teatro Duse. (Jornal Diário da Noite, 19/01/1948, arquivo Brício de Abreu – SNT/ FUNARTE/RJ)

 

A temporalidade da criação deste texto não deve ser medida sem a subjetividade do ofício. Sabê-lo atual faz lembrar as entranhas da pesquisa. Portanto essas entranhas são no vigor da escrita, louros à pesquisa histórica, ou seja, livros, memórias, fontes e tal, convergindo em devires da escrita – sobre palcos e palmas, em sonoridades ou vertigens e pleno de raízes híbridas que aliás, vos apresento.

Em tese, deixei registros de minha própria escrita, ora à revelia, ora em consonância às sugestões de outrem (entre áreas, conceitos).

A temática foi sendo esculpida e as imagens pulsaram. Os critérios de definição foram gestados no rigor do trabalho, mas deixando em liberdade à escrita, que por sua vez foi cria do indomável – em verso, prosa, posta em cena, na expressão do corpo, na fala, no ver e ouvir o que o multifacetado mundo artístico produz.

Por isso, dediquei uma temporalidade epitelial para compor a pesquisa sobre Paschoal Carlos Magno a partir de questões morais, políticas, culturais e de deslanche do Teatro Moderno (PRADO, 1996, p.11: 39), que com tanta primazia foi estudado por Décio de Almeida Prado, um dos raros autores a enfocar o nome de Paschoal Carlos Magno como um grande crítico de teatro, realizador e mentor do Teatro Amador no Brasil.

Ademais, sinto-me na audácia de expor alguns pontos que permearam a criação deste ensaio, e que de certa forma fazem ressonância na relação que muitas vezes estabelecemos com o mundo – a de espectadores -, que em si comportam olhares diferenciados – ricos de textualidades. (GUATTARI, 1992, p. 25)

Entre as preocupações surgidas encontrei o termo biografia, que em princípio pareceu-me cabível; a posteriori hesitei – optando por denominar a escrita como mosaica, embora ela carregue consigo a pesquisa biográfica.

Peço emprestado a Procópio Ferreira um fragmento de seu pensamento quando, evocando o labor do biógrafo propôs flanar sobre “retalhos catados aqui e ali, pacientemente, num mosaico de idéias e de episódios.” (BARCELLOS, 1999, p. 12) Diria que esses retalhos foram instrumentais de perenes leituras. Entre elas, uma discussão sobre biografia histórica, encabeçada por duas hagiografias – uma de São Francisco de Assis e outra de São Luís – do renomado historiador Jacques Le Goff.

O termo biografia, defendido por Le Goff não deixou de exprimir as dificuldades quanto à qualidade de publicações biográficas, “abundantes há alguns anos…”, contudo, sendo “a maioria dessas obras anacronicamente psicológicas” – pendendo aos valores do mercado oportuno. (LE GOFF, 1999, p. 20-21)

Independente do termo aplicado, compartilho com Le Goff, não apenas o afinco da pesquisa histórica, mas a carga particular da biografia “em meio a crise de mutação geral das sociedades ocidentais”; também levando a reflexão a questão do sujeito na biografia (o sujeito globalizante), dimensionado como uma procura utópica, por causa dos vácuos e “disjunções, que rompem a trama e a unidade aparente”.

Em meio a essas disjunções, o mosaico proposto tem seus feixes ficcionais, permitindo os encantos das utopias – à flâmula do desejo, da fantasia e da liberdade de criação como sugere o historiador Hilário Franco Jr, em Cocanha, prefaciado por Le Goff.

O corpus biográfico da tese foi um fato; contudo, plasticamente vislumbrado como um mosaico cortado incessantemente por experimentalismos e cenas clássicas.

Dadas essas premissas e para encerrar essas considerações proponho a abertura das cortinas desse palco imaginário.

Respeitáveis leitores, apresento-vos: Paschoal Carlos Magno em um mosaico cultural!

 

Lúcio ou Paschoal? É a partir do romance histórico: “Sol sôbre as palmeiras” marco autobiográfico, com espacialidade delineada e identificada pelo morro de Santa Teresa ou morro Paula Matos, na cidade do Rio de Janeiro, que o menino Lúcio personagem de Paschoal, frágil, enfermo torna-se o poeta e escritor/redator do jornal da família até chegar a ser o crítico e teatrólogo de larga importância no Brasil.

O percurso da diplomacia (1933-1968) foi para Paschoal o caminho de formação intelectual e cultural. Mas seu ensejo por retornar ao Brasil foi se dando através da poesia e dos diários escritos em Atenas, Milão, entre outros lugares.

As idas e vindas do andarilho consular não fraquejou os importantes momentos de sua afirmação como animador e incentivador cultural, e até mesmo como mecenas assalariado. Mas foi na política que viu uma possibilidade de estabelecer-se no Rio de Janeiro. E, de certa forma criando um personagem pitoresco, comumente estigmatizado de “louco” e muito pertinente em tempos de ditadura militar.

Como louco foi passando por funis e estabelecendo as bases de seu teatro. Paschoal foi pouco cerceado pelo duro período, muito embora tenha declarado que “houve quatrocentos Teatros de Estudantes no Brasil, mas 1964, matou-os um a um.” (PASQUIM {197-}, p. 13-14. )

Muitas das pessoas que ficaram durante esse período, só conseguiram manter-se vivas através dos comboios culturais, em tese pouco vigiados, e em geral sob os auspícios do “louco e inofensivo” – como era chamado Paschoal pelos militares. Esse estigma foi oportuno para lançar as bases de resistência. Pois, era incomum imaginar uma grande quantidade de jovens aglomerados em trajetos pouco ou nada controlados, ditados pelas Barcas e Caravanas da Cultura (1963/1964/1968/1974/1975).

As Barcas foram projetadas por Paschoal para trafegar pelo Rio São Francisco; as Caravanas eram desdobramentos das Barcas, ou seja, trajetos realizados por terra, em regiões do Norte e Nordeste do Brasil: “…256 brasileiros… oito ônibus, dois caminhões carregando toneladas de livros e discos… 274 espetáculos…” (O Jornal, 1967).

As bases do teatro “paschoalino” eram polivalentes e improvisadas, além de buscar respeitabilidade para profissionais do teatro e princípios coletivizados em diferentes momentos, burlando as dificuldades quanto à ausência de investimentos.

Sua trupe era formada por moços que povoaram várias das construções de Paschoal, como o Teatro do Estudante do Brasil (1938), Teatro Duse (1952) e Aldeia de Arcozelo (1965). Tais empreendimentos elevaram Paschoal ao título de “Estudante Perpétuo do Brasil”, dado pela UNE (1956). Também acolheu e apoiou o Teatro Experimental do Negro, em 1944.

 

Paschoal Carlos Magno, Ester Leão, Jorge Kossonsky cercados pelos estudantes de Teatro, década 1940. (Acervo da família Carlos Magno)

 

Assim, os primeiros Festivais de Teatro foram se dando de maneira minuciosa quanto à formação. O grande exemplo fora a “Concentração dos Estudantes” à realização do Festival Shakespeare. Aulas de canto, esgrima, danças, línguas, palestras e leituras de textos.

 

Paschoal Carlos Magno, Rosa Carlos Magno e os 17 dos 18 estudantes de teatro que receberam bolsas de estudos na Europa – atividade criada e coordenada por Paschoal. Na foto: Otavinho Arantes, Alberto Carlos Magno, Isaac Bardavid, Ubiratan Teixeira, Oton Bastos, Valter Ponti, Armando Maranhão, Paulo Salgados dos Santos,  Maria Carimen Romcy, Orlando Macedo, Elida Gonçalves, Eduardo Garcez, Miriam Carmem, Tereza Raquel, Celme Silva – faltando no grupo Fernando Amaral. (Acervo da família Carlos Magno)

 

Como rebate das más línguas quanto aos grupos mistos, um diário de atividades publicados no jornal Correio da Manhã, oferecendo à aproximação do público, uma série de atividades monitoradas por profissionais que balizaram a seriedade da proposta.

Muito antes do primeiro albergue da juventude no Brasil (1973), Paschoal já lotava sua antiga residência – o Teatro Duse – acolhendo artistas e estudantes de passagem. Mas a sua primeira e grande postura se deu em 1929 com a criação da Casa do Estudante – parceria de Paschoal com d. Anna Nery.

Os primeiros Festivais de Teatros criados por Paschoal foram: I Festival (Recife, 1958), II Festival (Santos, 1959), III Festival (Brasília, 1961), IV Festival (Porto Alegre, 1962), V Festival (Rio de Janeiro, 1968), VI e VII Festivais (Aldeia de Arcozelo, 1971 e 1976); nomes como João Cabral de Mello Neto, B. de Paiva, Plínio Marcos, Sergio Cardoso, Ariano Suassuna, entre muitos outros nomes surgiram sob a égide de Paschoal.

 

Ariano Suassuna, Miroel Silveira, Hermilo Borba Filho e Paschoal Carlos Magno, 1959 (?). (Folha de São Paulo, 26 maio 1980)

 

A Aldeia de Arcozelo foi criada para ser uma Universidade Livre de Artes, mas pereceu pela falta de recursos e até como local último do desatino de Paschoal – ao ver-se endividado proclamou aos quatro ventos que iria atear fogo ao local.

Também foi na Aldeia de Arcozelo, sob controle da FUNARTE, que me deleitei em pesquisas (1999).  Na época, o local estava ermo, os documentos estavam jogados entre traças e destruição. Cheguei a propor à FUNARTE uma organização em mutirão com uma equipe de pesquisadores. Nunca tive um retorno de aceitação, nem mesmo dos meus préstimos pessoais em ato isolado. Alguns ofícios, cá e lá, entradas e saídas de seus representantes, e palavras de prioridades que rolaram ao vento.

 

A historiadora em seu ofício na Aldeira de Arcozelo/Paty do Alferes. (Foto de Maria do S. Nepomuceno, 1999)

 

O que eu pude registrar em documentos e fotos foram capitaneados para a construção da tese, além de vários outros textos que foram surgindo ao longo de uma temporalidade que permeou cerca de nove anos desde o término da tese. E, incansável, referendo este novo texto, e um projeto de refazer os trajetos das Caravanas e Barcas da Cultura.

 

Desenho livre do arquiteto Guilherme Madeira. Aldeia de Arcozelo, 1999

(*) Texto criado para a Revista Contexto (Revista Semestral do Programa de Pós-Graduação em Letras – Universidade Federal do Espírito Santo): Dossiê o Teatro e suas arenas, n. 17 – 2010-1, p. 43 a 53.

Referências:

BARCELLOS, J. O Mágico da expressão. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1999.

BARCELLOS, J. CPC da UNE: uma história de paixão e consciência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

BHABHA, H. K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

CHARTIER, R. Do palco à página: publicar teatro e ler romances na época moderna (séculos XVI-XVIII) Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2002.

COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo: FAPESP: Iluminuras, 1997.

FALCON, F. História Cultural: uma nova visão sobre a sociedade e a cultura. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

FRANCO JR., H. Cocanha: a história de um país imaginário. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. Rio de Janeiro, Ed. 34, 1992.

LE GOFF, J. São Francisco de Assis. Rio de Janeiro: Record, 2001.

LE GOFF, J. São Luis: biografia. Rio de Janeiro: Record, 1999.

MAGNO, Orlanda Carlos. Pequena história do Teatro Duse. Rio de Janeiro: SNT, 1973.

MAGNO, Paschoal Carlos. Poemas do irremediável. Rio de Janeiro: Cátedra, 1972.

MAGNO, P. C. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

MAGNO, P. C. Sol sobre as palmeiras. Rio de Janeiro: Letras e Artes, 1962.

MAGNO, P. C. Tudo valeu a pena. m.s., s.d.

MAGNO, P. C. Tempo que passa. Rio de Janeiro: s/ed., 1922.

IGGNACIO, G. M. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo: 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

MIRANDA, G. Os estudantes e o emergir da ribalta. Revista da APG/PUC-SP, ano VII, n. 13, 201-215, 1998.

MIRANDA, G. Da concentração dos estudantes ao festival Shakespeare. Revista da APG/PUC-SP, ano VIII, n. 16, 101-114, 1998.

MIRANDA, G. Uma nau de trilhos e bondes: o Teatro Duse. Revista da APG/PUC-SP, ano VI, n. 11, 142-154, 1997.

PRADO, D. A. Seres, coisas, lugares: do teatro ao futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

PRADO, D. A. O teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 1996.

SEVCENKO, N. Pindorama Revisitada: cultura e sociedade em tempos de virada. São Paulo: Peirópolis, 2000.

Desenho livre do arquiteto Guilherme Madeira. Aldeia de Arcozelo, 1999
%d blogueiros gostam disto: