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Série Movimentos de Vanguarda III: BAUHAUS, a Casa Construída (parte II)

25 jun

por Gisèle Miranda

A Bauhaus, “síntese casa-escola-oficina” ou “escola fábrica” teve o ícone-vértice da Arquitetura Moderna: Walter Gropius (1883-1969). Com ele, proliferaram as experiências artísticas em coletividade. Seu fazer arquitetura era essencialmente alimentado, exercido com todos os aportes da arte: explicando e sensibilizando em meio à intensa crise da sociedade.

Gropius formou-se em arquitetura em 1907. Foi assistente do arquiteto e designer Peter Behrens (1868-1940). De 1914 a 1918 foi um combatente na Primeira Guerra Mundial. Entre a guerra e a criação da Bauhaus, ele viveu uma história de amor com Alma Mahler (1879-1964), viúva do musicista Gustav Mahler (1860-1911). Alma e Gropius foram casados por cinco anos; em meio a essa relação, Alma teve uma paixão pelo pintor Oskar Kokoschka (1886-1980). O término dessas histórias de amor com Gropius e Kokoschka emendou com o casamento de Alma com o poeta Franz Werfel (1890-1945). Mais do que a arquitetura, Gropius viveu o amor com uma mulher intensa e de brilhantismo intelectual, além da guerra, do front, da perda e da dor às vésperas da criação da Bauhaus (1919).

Gropius está internado em algum hospital militar do front. (jan, 1915). Há mais de um ano estamos casados… não temos um ao outro, e às vezes tenho medo de que nos tornemos estranhos. Meu sentimento por ele deu lugar a um sentimento conjugal entediante…. Não se pode manter um casamento a distância.” (out. 1916) (In: Alma Mahler, Minha Vida, 1988, p.65; 76)

Walter Gropius posteriormente casou com Ise Frank, homenageada pelo Instituto Goethe de Brasília (2019), na primeira série sobre as Mulheres da Bauhaus.

De 1934 a 1937, o casal se refugou na Inglaterra. Em 1937 partiram para os EUA, onde Gropius trabalhou em Harvard até 1953; nesse mesmo ano recebeu o Grande Prêmio Internacional de Arquitetura, em São Paulo, Brasil.

Gropius regressou a Alemanha quase 30 anos depois de seu exílio para a realização de um projeto. Ele faleceu em Boston, EUA, em 5 de julho de 1969.

Gropius e a Bauhaus: algumas experiências artísticas

O vértice: o arquiteto Walter Gropuis ou a representação da arquitetura moderna da Bauhaus alinhavou diversas expressões artísticas, além da importância do Design e do próprio fazer arquitetura. O Teatro Total adentrou a Bauhaus como Centro de Educação Coletiva, onde:

A arquitetura transpôs o limite além do qual uma realidade e uma ilusão, uma matéria e um símbolo, não são separáveis… (…) arquitetura em movimento… que faz o espaço… (…) Do palco circular, nascido da arena agonística. In: Argan, 2005, p. 130; 131.

O Teatro Total nasceu na crise da consciência moderna. E com ela, a comicidade sobressaiu como uma incontrolável dificuldade de lidar com os dramas do pós-guerra e com a falta de diálogo com uma burguesia vertida ao fascismo. A dramaticidade foi a dificuldade de lidar com um mundo físico e moral em um processo irreversível pela desumanidade.

O Teatro da Bauhaus trabalhou conflitos com uma cenotécnica criada por Oskar Schlemmer (1888-1943) – a interação com os espectadores foi vital para desenvolver a luz, as cores, os sons, figurinos em bombardeios de sensações. (Argan, 2005:74) Schlemmer desenvolveu a Teoria do Compressionismo:

As pinturas murais em estuque… com superfícies capazes de compensar ou preencher o vazio… estabelecer identidade entre o cheio e o vazio, entre o espaço real e o espaço figurado” (Argan, 2005: 68)

As experiências dos movimentos de vanguardas da Europa e da Rússia foram referências para os mecanismos da arquitetura. As esculturas de Pevsner (1902-1983) e Gabo (1890-1977) transformaram o espaço da terceira para a quarta dimensão; O suprematismo de Malevich (1879-1935) interferiu para no princípio abstrato com a realidade concreta da ´coisa que se move´… a superação da forma geométrica como forma a priori…” (Argan, 2005: 138; 140).

Na tecelagem sob a orientação de Gunta Stöl (1889-1973) as pinturas sobrepunham ao tecido. No mobiliário, Marcel Breuer (1902-1981) priorizou o metal. Em 1925:

A cadeira de tubo metálico que substitui por um conjunto de linhas tensas e curvas elásticas, que visam a secundar os movimentos espontâneos do corpo humano. (Argan, 2005: 65)

Anni Albers (Berlim, Alemanha,1899- Orange, Connectcut, EUA, 1994), Foto de Nancy Newhall, 1947; Gertrud Arndt (Racibórz, Polônia, 1903- Darmstadt, Alemanha, 2000) foto Otti Berger c. 1930;  Gunta Stölzl, (Munique, Alemanha, 1897- Zurique, Suíça, 1983. Foto s/d.

1. Anni Albers (Berlim, Alemanha,1899- Orange, Connectcut, EUA, 1994), Foto de Nancy Newhall, 1947; 2. Gertrud Arndt (Racibórz, Polônia, 1903- Darmstadt, Alemanha, 2000) foto Otti Berger c. 1930 com uma construção da Bauhaus; 3. Gunta Stölzl, (Munique, Alemanha, 1897- Zurique, Suíça, 1983. Foto s/d. (*)

Paul Klee (1879-1940) procurou nas primeiras formas do Construtivismo, as reverberações infantis. As forças ativas e passivas das linhas ao remontar a origem das formas. Kandinsky (1866-1944) teorizou sobre as cores – atração e repulsão das linhas e das cores.

Josef Albers (1888-1976) e Moholy-Nagy (1895-1946) utilizaram os recursos de collage e do readymade surrealista para reconhecer a matéria original da arte nas coisas de uso corrente, além de Moholy-Nagy destacar o aço cromado, alumínio e níquel para objetos de iluminação. (Argan, 2005: 61; 66).

Referências:

Alma Mahler. Minha Vida. São Paulo: Martins Fontes, 1988. Coleção Uma Mulher. (publicado em 1960 a partir dos diários de Alma Mahler)

ARGAN, Giulio Carlo. Walter Groupius e a Bauhaus. Tradução Joana Angélica d´Avila Melo; posfácio de Bruno Contardi. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

STANGOS, Nikos (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

TASSINARI, Alberto. O Espaço Moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

Catálogo Bauhaus.foto.filme: ideias que se encontram. Sesc Pinheiros, 2013.

https://goethebrasilia.org.br/blog/ise-gropius-frau-bauhaus/ em 23/06/2019.

https://tecituras.wordpress.com/2016/06/02/as-experiencias-de-julio-le-parc-mendonza-1928/

Mulheres na Bauhaus – os mestres subestimados

Imagens de mulheres: Os artistas esquecidos na Bauhaus

(*) Notas:

  1. Anni Albers: Foi aluna e professora da Bauhaus em Tecelagem e Design; exilada nos EUA com o marido Josef Albers, também professor da Bauhaus.
  2. Gertrud Arndt: foi aluna da Bauhaus em Fotografia.
  3. Gunta Stölzl: professora da Bauhaus em Tecelagem/ oficina têxtil.

Série Movimentos de Vanguarda III: BAUHAUS, a Casa Construída (parte I)

18 jun

por Gisèle Miranda

 

Na Bauhaus encontramos vestígios do Cubismo (sem veleidades gnosiológicas), do Futurismo (sem nacionalismos), do Suprematismo (sem niilismo), do Surrealismo (sem complexos sexuais), do Stijl e Neoplasticismo (sem o limite do formalismo). In: Argan 2005, p. 84.

 

Em 2019, a Bauhaus completou um século como um dos alicerces históricos da Arte. A Arquitetura, a Pintura, o Design, a Fotografia, o Teatro, a Música e a Teoria exercidos na Casa Construída  por homens e mulheres e dirigida pelo artista, arquiteto e teórico Walter Gropius (1883-1969).

Gropius partilhou o processo artístico e didático com os professores-artistas residentes, tais como Josef Albers (1888-1976), Hinnerk Scheper (1877-1957), Georg Muche (1895-1987), László Moholy-Nagy (1895-1946), Herbert Bayer (1900-1985), Joost Schmidt (1893-1948), Marcel Breuer (1902-1981), Wassily Kandinsky (1866-1944), Paul Klee (1879-1940), Lyonel Feininger (1871-1956), Gunta Stölzl (1897-1983), Oskar Schlemmer (1888-1943). Johannes Itten (1888-1967), Theo van Doesburg (1883–1931), entre outros.

No telhado da Bauhaus Dessau.Da esquerda para a direita: Josef Albers, Hinnerk Scheper, Georg Muche, László Moholy-Nagy, Herbert Bayer, Joost Schmidt, Walter Gropius, Marcel Breuer, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Lyonel Feininger, Gunta Stölzl e Oskar Schlemmer. 1925.

No telhado da Bauhaus Dessau. Da esquerda para a direita: Josef Albers, Hinnerk Scheper, Georg Muche, László Moholy-Nagy, Herbert Bayer, Joost Schmidt, Walter Gropius, Marcel Breuer, Wassily Kandinsky, Paul Klee, Lyonel Feininger, Gunta Stölzl e Oskar Schlemmer. 1925.

 

A proposta da Bauhaus ressurgiu nos EUA, quando Gropius e outros partiram para o exílio entre 1930 e 1940. Também reinventada na década de 1950, pelo arquiteto e artista Max Bill (1908-1994), que foi aluno da Bauhaus em Dessau e posteriormente, docente na Escola de Arquitetura em Ulm (Alemanha) com o método da Bauhaus. Max Bill foi o destaque da 1ª Bienal de Arte de São Paulo em 1951 com a escultura Tripartida.

 

MAX BILL (Berna, Suíça, 1908- Berlim, Alemanha, 1994). Unidade Tripartida, 1948/49. Aço inoxidável, 114,0 x 88,3 x 98,2. Prêmio Bienal de Arte de São Paulo, 1951.

MAX BILL (Berna, Suíça, 1908- Berlim, Alemanha, 1994). Unidade Tripartida, 1948/49. Aço inoxidável, 114,0 x 88,3 x 98,2. Prêmio Bienal de Arte de São Paulo, 1951.

 

O Modernismo no Brasil a partir de 1922 também deve muito a Bauhaus e aos Movimentos da Vanguarda europeia. Foi a virada de valores culturais brasileiros em um vetor nacional (antropofágico) e internacional vanguardista, encabeçados por pintores, arquitetos, poetas numa profusão de novos olhares, contrapondo ao academicismo.

 

 

Em 2013, o SESC Pinheiros[2] apresentou Bauhaus.foto.filme: ideias que se encontram. As fotografias e os filmes apresentados trouxeram desafios para pensar o século 21. Para repensar o Modernismo, a prática e a reflexão sobre a experimentação com Walter Groupius, Lázló Moholy-Nagy, Kandinsky, entre outros convidados interagindo com alunos em um magnífico túnel do tempo à atualidade. Vozes, imagens de uma geração com intervalo entre das duas Grandes Guerras Mundiais.

 

A Bauhaus, um típico exemplo de escola democrática, baseada no princípio da colaboração entre professores e alunos… (…) a colaboração entre eles prosseguia inclusive nas horas de lazer dedicadas a audições musicais, conferências, leituras, discussões, assim como a organização de mostras… Procurava-se, assim, remover da criação artística qualquer caráter de excepcionalidade e de sublimidade, para resolvê-la num ciclo normal de atividades e produtividades… In: ARGAN, 2005, p. 46.

 

Em 2019, o arquiteto russo naturalizado brasileiro Gregori Warchavchik (1896-1972) foi homenageado na 44ª Ocupação Itaú Cultural, no Museu Lasar Segall e na primeira Casa Modernista do Brasil projetada por ele em 1927 e construída em 1928. Essa homenagem remonta 97 anos da Semana de Arte Moderna de 1922 e os 123 anos de nascimento de Wharchavchik. [3] Ademais, reverbera a grandeza do Modernismo vivido entre guerras com desterrados e refugiados que contribuíram sobremaneira na arte e arquitetura cultural brasileira e que semearam para a formação dos nossos modernos Oscar Niemeyer (1907-2012),  Paulo Mendes da Rocha (Vitória, Espírito Santo, 1928-), entre outros.

 

Notas:

[1] Walter Gropius dirigiu a Bauhaus em Weimar (1919 a 1925) e a Bauhaus de Dessau  de 1925 a 1928. Hannes Meyer dirigiu Dessau de 1928 a 1930. Em 1932 a Bauhaus foi para Berlim sob a direção de Van der Roeh por mais um ano até fechar.

[2] Sesc Pinheiros  de 17 maio a 4 de agosto de 2013, sob curadoria de Anja Guttenberger (Bauhaus – Arquivo Berlin), Christian Hiller Oswalt e Thomas Tode (Bauhaus Dessau)

[3] Curadoria de Silvia Prado Segall com assessorias do historiador Jayme Vargas Agente, Silvia Maglioto e da artista e produtora Bel Kook. Ocupação Itaú Cultural, Casa Modernista, Museu Lasar Segall.

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. Walter Groupius e a Bauhaus. Tradução Joana Angélica d´Avila Melo; posfácio de Bruno Contardi. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Tradução Denise Bottmann & Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

GOMBRICH, Ernst H. J. História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

SCHAPIRO, Meyer: A Arte Moderna séculos XIX e XX. Tradução Luiz R. M Gonçalves. São Paulo: Edusp, 1996.

STANGOS, Nikos (Org.) Conceitos da Arte Moderna. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.

TASSINARI, Alberto. O Espaço Moderno. São Paulo: Cosac & Naify, 2001.

Catálogo Bauhaus.foto.filme: ideias que se encontram. Sesc Pinheiros, 2013.

https://tecituras.wordpress.com/2014/01/19/territorio-social-na-arquitetura-do-brasil-i/

https://tecituras.wordpress.com/2011/03/28/cura-dores-arte-para-que/

https://tecituras.wordpress.com/2016/01/14/da-31a-bienal-de-sao-paulo-como-coisas-que-nao-existem-a-29-de-abril-de-2015-2/

https://tecituras.wordpress.com/2009/03/02/bienais-de-arte-de-sao-paulo-salve-basquiat/

 

 

 

 

O grupo Arquitetura Nova e Lina Bo Bardi

19 jan

Gisèle Miranda 

 

O surgimento da arquitetura moderna no Brasil se configurou na prática revolucionária: A arquitetura, mais do que as artes visuais, vive do diálogo com o poder das classes dominantes e a despeito da intencionalidade ou não explicita pelo produtor, a obra de arte é frequentemente manipulada politicamente em seus estágios de circulação… e consumo. (AMARAL, 2003, 16)

O grupo Arquitetura Nova teve a militância de Rodrigo Lefèvre (São Paulo, SP, 1938-Guiné-Bissau, 1984), Flávio Império (São Paulo, SP, 1935- idem, 1985) e Sérgio Ferro (Curitiba, PR,1938-). Os três repensaram a arquitetura e as condições de produção no canteiro de obras, além dos estudos de pintura e de arquitetura cênica e de trajes.

 

O trio fez experimentos no canteiro para valorizar, respeitar e mostrar o trabalho do pedreiro: desfazendo do revestimento sobre a alvenaria, e deixando aparentes as instalações elétricas e hidráulicas. Os arquitetos do grupo adotaram uma diferenciada relação com os trabalhadores, cuja assinatura não é posta no edifício, mas suas passagens são testemunhos laborais mesmo que marginalizados do registro institucionalizado.

Lefèvre, Ferro e Império representaram a FAU/USP na VI Bienal de Artes de São Paulo,  em 1961, governo Jango, do fortalecimento das lutas populares, das Ligas Camponesas, e das reformas de base. O grupo primou pela socialização de conhecimentos e cooperação mútua entre arquiteto e operário.

O Cinema Novo, os Centros Populares de Cultura, o Teatro de Estudantes do Brasil (TEB) e do Teatro de Arena inspiraram os arquitetos Lefèvre, Ferro e Império. Eles conceberam para a arquitetura moderna brasileira, além de um programa de cunho popular, atuações no Teatro de Arena com rigor crítico, destacando-se na reformulação da cenografia brasileira, no diálogo direto com a matéria e com o processo de criação e de intercâmbio. Mas com o golpe militar de 1964 no Brasil, os ideais democráticos foram cerceados, diminuindo progressivamente as atividades do grupo. Em 1970, Lefrève foi preso e torturado pelo DOPS.

A arquiteta italiana Lina Bo Bardi (Roma, Itália, 1914- São Paulo, SP, 1992) se aproximou do grupo Arquitetura Nova e impulsionou a arquitetura cênica e de trajes. Ela defendeu a abertura de aspectos da contemporaneidade, e restabeleceu a relação entre a arte, a vida e o cotidiano moderno: Abaixo o amuo dos museus tradicionais, disse Lina (BARDI, Lina, 2008; 74)

Lina observou que o museu ainda era concebido como templo, na presença da enfática monumentalidade dos elementos clássicos. O museu deveria atender à demanda cultural de um país. Dessa forma, o Museu de Arte de São Paulo foi pensado com ações voltadas à valorização de obras artísticas antigas e modernas. Assim como o próprio projeto do MASP visava utilização do vão livre para as manifestações, apresentações de cinema, música, dança e feiras de antiguidades e artesanatos. 

Lina buscou o reconhecimento da cultura popular brasileira, acreditando na influencia que isso acarretaria no desenvolvimento do país. Ela deu sequência ao olhar de Mário de Andrade (década de 1930) sobre a qualidade dos artesanatos do Brasil.

Destaque também ao projeto que Lina idealizou para o SESC Pompéia – onde a arquiteta, em parte conservou as antigas instalações da Fábrica da Pompéia e buscou a integração entre o antigo e o novo. De 1977 a 1982, Lina tratou a fábrica segundo seu valor documental e histórico. Em 1984 Lina fez a restauração do Teatro Oficina.

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Referências

AMARAL, Aracy. Arte para quê? A preocupação social na arte brasileira 1930-1970. 3. ed. Studio Nobel: 2003.

ARANTES, Pedro Fiori. Arquitetura Nova: Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre, de Artigas aos mutirões. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2004.

FERRAZ, Marcelo (Coord). Lina Bo Bardi. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008.

MANGUEL, Alberto. Claude-Nicolas Ledoux: Imagem como filosofia; IN: MANGUEL, Alberto. Lendo imagens – uma história de amor e ódio. São Paulo: Ed. Companhia Das Letras, 2001.

Série Paschoal Carlos Magno X: Festivais de Estudantes – II Festival em Santos/SP

11 nov

Por Gisèle Miranda

 

O II Festival acorreu na cidade de Santos, em julho de 1959[1]. Foram doze dias com cerca de 800 estudantes dos Teatros de Estudantes de várias regiões do Brasil. Vindos do vigoroso I Festival no Recife de 1958, revertido em experiência bem sucedida e revitalizado nas normativas do II Festival.

10. Estamos em Santos para aprender, estudar, enriquecer nossos conhecimentos… servir à elevação cultural (…) 18. O I Festival em Recife foi um dos maiores acontecimentos do Brasil… em Santos manterá essa tradição.[2]

Envoltos a esses jovens, além de Paschoal Carlos Magno, estiveram Patrícia Galvão (Pagú), Décio de Almeida Prado, Anna Amélia Carneiro de Mendonça, Joracy Camargo, Alfredo Mesquita, Sábato Magaldi, Luiza Barreto Leite, entre outros.

O II Festival apresentou inúmeras peças, cursos, palestras e julgamentos fictícios por nobres juristas e magnas interpretações de Cacilda Becker e Henriette Morineau, respectivamente como Mary Stuart e Elizabeth I; Sergio Cardoso e Paulo Autran como Hamlet e Otelo.

Entre o I e II Festivais, Paschoal conheceu em meio às ruínas, uma fazenda colonial portuguesa, do séc. 18 que viria a ser em 1965, a Aldeia de Arcozelo, sede dos Festivais seguintes, albergue da juventude, cursos e seminários e por fim, a tão sonhada Universidade Livre de Artes, que infelizmente não alçou voo.

Paschoal Carlos Magno na Aldeia de Arcozelo (Teatro Itália Fausta ao ar livre), ca. 1975. Foto Ney Robson (Inacen/RJ)

O entorno fiscalizador do Estado proibiu a UNE, censurou espetáculos, os intelectuais foram obrigados a calar seus pensamentos que gritavam. Os militares queriam o silêncio da juventude, Paschoal queria as vozes da juventude.

Do V ao VII Festivais, Paschoal foi sendo abatido, período correspondente a 1968, 1971 e 1975. Os efeitos da ditadura militar que dizimou os Teatros de Estudantes, foram também minando as lutas de Paschoal – calejando-o, atormentando-o, mas obstinado foi galgando perspectivas paralelas e necessárias – primeiro, dispersando os jovens em Caravanas e Barcas em cidades distantes e em territórios disfarçados.

Modelo organizacional/alimentação Festival Nacional na Aldeia de Arcozelo

Segundo, reunindo-os e protegendo-os através de relatos em jornais sobre  suas atividades culturais. E para cada inspeção, um personagem paschoalino para compor os ares de inofensivo ou louco e, porque não, um amansador de ideologias ou dos ardis da juventude.

Afinal, a educação formal foi movida pela política de censura e pelo Estado repressor, mas as atividades culturais foram desprendidas da educação do Estado, mas não para Paschoal Carlos Magno, que via no teatro uma efetiva alternativa de educação.

 

Referênias:

ARGAN, G. C. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

BABHA, H. F. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural: cultura e imaginário. São Paulo: FAPESP: Iluminuras, 1997.

MADEIRA, G. ou MIRANDA, G. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo, 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica – PUC/SP.

KHOURY, S. Atrás da máscara. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, V. 2.

Periódicos:

A Tribuna, 11 jul. 1959.

Diário de Brasília. Brasília, 22 nov. 1974. Moços merecem mais respeito. Por Paschoal Carlos Magno.

Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 24 nov. 1974. O Outro Paschoal – triste, desgostoso, revoltado.

Jornal do Comércio. Rio de Janeiro, 27 nov. 1974. “Eu não existo mais”. Por P. Lara.

O Estado de S. Paulo. São Paulo, 2 set. 1976, p. 18. Sem apoio oficial, Aldeia de Arcozelo poderá desaparecer.

O Globo. Rio de Janeiro, maio 1969. Para salvar a Aldeia. Por G. M. Bittencourt.

O Globo. Rio de Janeiro, 21 nov. 1974. Paschoal depõe para o futuro pedindo que ajudem o teatro.

O Jornal. Rio de Janeiro, 19 dez. 1967. Paschoal fala de teatro no MIS e condena censura.

Revista Dionysos: Estudos Teatrais. José Arrabal (Org.) Teatro do Estudante de Brasil, Teatro Universitário, Teatro Duse. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura: DAC: FUNARTE: SNT, n. 23, set. 1978.

Última Hora. Rio de Janeiro, 12 mai. 1964. Paschoal acabou com o Duse e com a Casa. Por José Mauro.

Última Hora. Rio de Janeiro, 19 dez. 1967. Juventude é tudo.


[1] Demais Festivais: O I Festival no Recife (PE), 1958; III Festival em Brasília (DF), 1961; IV Festival em Porto Alegre (RS), 1962; V Festival na Guanabara (RJ), 1968; VI e VII Festivais na Aldeia de Arcozelo – Paty do Alferes (RJ), 1971 e 1975.

[2] Normas 10 e 18 – parte das dezoito normas estabelecidas por Paschoal aos estudantes de teatro para o Festival em Santos. Jornal A Tribuna , 11 jul. 1959. O Festival em Santos ocorreu de 12 a 24 de julho de 1959.

Série Paschoal Carlos Magno VIII: A Barraca e o Teatro Experimental do Negro

10 out

Por Gisèle Miranda


A Barraca de Federico Garcia Lorca foi resgatada pelo Teatro de Estudantes de Pernambuco (TEP) na apresentação de Cantam as harpas de Sião, reescrita pelo jovem talento Ariano Suassuna com o nome Desertor de Princesa. E à frente da Barraca, Paschoal Carlos Magno, em 1948.

TEP, Teatro de Bonecos ´Haja Pau´, de José de Morais Pinto, 1948.(Paschoal Carlos Magno sentado à direita)

Se apresenta, e se representa, como poder de participação e de integração, no momento em que a comunidade unânime subverte qualquer hierarquia e qualquer ordem estabelecida (Bellème, 1988: 140)

Ao criar uma linha da política divergente, a Barraca abriu uma discussão sobre oralidade, escrita, popular e erudito:  subverte-se a oralidade lendo Victor Hugo, quiçá os tantos Eus de Fernando Pessoa, os tantos ismos que a historicidade artística registrou.

Há também o caráter revolucionário no palco, que também pode realizar-se no estádio, no teatro, na rua, na festa. Retirando um pouco a carga do popular como provedor do discurso político – como síntese viva. (Belléme,1988, 143-144) 

Na oralidade a assinatura pessoal é progressivamente apagada ao longo de uma transmissão que não cessa de ser criadora. Molière deixou livre os seus textos às improvisações. Escrever não pode traduzir os jogos de cena.; eis porque basta a aprovação do público consagrá-las. (Bollème, 1988, p. 158 e 163)

Mas, somente nos idos de 1950, os medievalistas trabalharam com a poesia oral. Até então ela estava recalcada em nosso inconsciente cultural, tardiamente, pois, todos eram escravizados pelas técnicas escriturais e pela ideologia que elas secretam… perdida a faculdade de dissociar da idéia de poesia a de escritura. (Zumthor, 1993, p. 8)

Dai a dicotomia popular – erudito. A literatura delimitava o admissível ao inadmissível folclórico. Quando a oralidade assumiu sua importância foi classificada como ausência de escritura, mas:

A obra contém e realiza o texto; ela não o suprime em nada porque, desde que tenha poesia, tem, de uma maneira qualquer, textualidade. (Zumthor, 1993, p. 10)

 *

O Teatro Experimental do Negro liderado por Abdias do Nascimento foi oficializado em 13 de outubro de 1944, na cidade do Rio de Janeiro, não apenas com apresentações de espetáculos, mas viabilizou cursos de alfabetização e iniciativas culturais.

A questão era: como divulgar e ter um retorno financeiro para que as atividades ganhassem fôlego? Quando o Imperador Jones foi encenado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945, contou com o apoio de Paschoal, segundo reminiscências das atrizes Ruth de Souza e Léa Garcia[1]:

Foi uma correria. Paschoal Carlos Magno nos deu uma lista de embaixadores e cônsules para que eu lhes vendesse ingressos… fui recebida com enorme carinho… o dinheiro dos ingressos serviu para finalizar a montagem… foi um sucesso de crítica e público. (Ruth de Souza. In: Revista Dionysos, 1988, p. 123-124)

Paschoal contribuiu muito para a formação dos atores do TEN. (Léa Garcia. In: Revista Dionysos, 1988, p. 135-136)

Sua luta pelas artes no Brasil, em especial pelo teatro foi o mote de sua consagração e de seu definhamento pela falta de recursos e da oposição política. Mas fazia parte de seu sonho romper com o estereótipo negro de ´escravos a libertos´ e ineptos atores de meados do século 19. Assim como romper com o preconceito com o ponto (a subestimação do profissional de teatro), e com o sotaque lisboeta.

A Barraca de Garcia Lorca alçou um devir ´tempo´no Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), em 1948, e no Teatro Experimental do Negro, em 1949. (o TEN/RJ, sob direção de Abdias do Nascimento e, TEN/SP, sob direção de Geraldo Campos de Oliveira.)

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Vale lembrar também Abdias do Nascimento como Otelo contracenando com Cacilda Becker em 1946.

Cacilda Becker (Desdêmona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

Cacilda Becker (Desdemona) e Abdias do Nascimento (Otelo). Rio de Janeiro, Teatro Regina, 1946. Ref.: Arquivo Funarte- RJ.

Imagens:

(1) Otelo de Abdias do Nascimento/direção do próprio Abdias/ segunda montagem de 1949, contracenou com Ruth de Souza no papel de Desdemona. Vale destacar a importância do Festival Shakespeare de 1949, criado e organizado por Paschoal Carlos Magno, em 1947 a partir da Concentração dos Estudantes, e em 1948, o Seminário de Arte Dramática com participações do TEN e demais Teatros de Estudantes.

(2) Otelo de José Maria Monteiro/ direção Chiara de Garcia 1949-1950, contracenou com Fernanda Montenegro como Desdemona. Na antiga TV Tupi. (RJ)

(3) Otelo de Sebastião Vasconcelos/ Teatro do Estudante de Pernambuco, 1951, contracenou com Teresa Leal como Desdemona; Genialdo Wanderley como Iago. (Recife)

(4) Otelo de Paulo Autran/ direção Adolfo Celi, 1956, contracenou com Tônia Carrero como Desdemona. Teatro Dulcina. (RJ)

(5) Público infantil no parque 13 de maio (de 1888 à 1948) – Bonecos ´Haja Pau´, de José de Morais Pinto. Em seguida, Cantam as harpas de Sião (1° Ato) de Ariano Suassuna. Paschoal Carlos Magno sentado à nossa direita, em 1948.

Referências:

BOLLÈME, Geneviève. O povo por escrito. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

MARTINS, L. M. A cena em sobras. São Paulo: Perspectiva, 1995 (Debates, 267)

MENDES, M. G. O negro e o teatro brasileiro. São Paulo: Hucitec; Rio de Janeiro: IBAC; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 1993. (Teatro, 25)

MAGNO, P. C. O filho pródigo. In: Jornal Correio da Manhã, 9 dez. 1947.

MAGNO, P. C. Tudo valeu à pena. (manuscrito), 12 set. 1968.

PRADO, Décio de Almeida. In: O Estado de S. Paulo, 29 jun. 1952

ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a literatura medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

ZUMTHOR, P. Tradição e esquecimento. São Paulo: Hucitec, 1997.

Ver tb.: Série Releituras & Breves Comentários VI: Paul Zumthor e as vertentes de Geneviève Bollème


[1] A atriz Ruth de Souza trabalhou na Casa do Estudante do Brasil, fundada por Paschol e d. Anna Nery, em 1929. Aperfeiçoou-se como atriz nos EUA, quando ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Cleveland, Ohio, através da Fundação Rockefeller, por indicação de Paschoal Carlos Magno. A atriz Léa Garcia foi casada com o fundador do TEN, Abdias do Nascimento.

Série Paschoal Carlos Magno VII: verdejantes moços pelas Barcas e Caravanas da Cultura

29 set

Por Gisèle Miranda


Moços era a denominação de jovens para Paschoal Carlos Magno. Assim como estudantes – deveria ser a situação desses moços. Ele bradava: Diga que eu acredito no teatro como elemento de educação! (Magno, PC, 197-)

Com sua trupe de moços, Paschoal desbravou tempos difíceis por uma linha de fuga em plena ditadura militar no Brasil. E como se não bastasse desbravou tempos longínquos.

Desde o período Carolíngio tem-se associado a cor verde para estabelecer a inquietude da juventude:

A pintura e a tintura medievais sempre tiveram dificuldade de dominar aos tons verdes. Estes são os mais instáveis…, uma relação possível entre a química e a ideologia. Como os tons verdes os jovens são volúveis, instáveis, às vezes perigosos. (Levi & Schmitt, 1996: 261)

Paschoal continuou clamando (em desvario) a dramaturgia dos moços-estudantes. As criações e sonhos o levaram ao estereótipo de louco quando realizou as Caravanas e Barcas da Cultura[1] com sua trupe, tangidos pela diversidade, numa inquietude nata, combativa e opositora a censura: matando a morte com a eternidade da arte. (Magno, PC. In: Jornal O Globo, 1974)

Caravana da cultura, 1964. Paschoal Carlos Magno,  Armando Maranhão (o primeiro do grupo à direita de Paschoal) e outros componentes do Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP)

A Barca da Cultura acreditou que o sertão viraria mar. Mas foi no mar da seca que a Barca tornou-se Caravana. Véspera do longo tempo, do silêncio, aviso na esquina, dando a impressão aos pobres de espírito que se tratava de propaganda comunista; eles confundiam as coisas. (Magno, PC. In: Jornal de Sergipe, 197-)

No cotidiano das Barcas/Caravanas, os espetáculos teatrais pelas manhãs, tardes e noites, sempre com distribuições de livros e discos, e reverberando uma proposta de erradicação do analfabetismo:

256 brasileiros chefiados pelo entusiasmo e sua fé. Oito ônibus, seis automóveis, dois caminhões carregados de livros e discos… 274 espetáculos, em praça pública, adros de igrejas, pátios de escolas, salas de orfanatos, asilos… (Magno, PC. In: O Jornal, 1967; Pasquim, 197-, p. 12)

Ou:

Descendo o Rio São Francisco, de Pirapora (MG) a Petrolina (PE) distribuindo livros e levando a população ribeirinha exibições nunca sonhadas de teatro, dança, cinema e artes plásticas.[2]

Essa empreitada não saiu ilesa para Paschoal. A Barca da Cultura também ficou conhecida como Barca pervertida, invertendo a ação cultural em campanhas infames, através de cartas anônimas aos jornais, prefeitos, cardeais e oficiais militares.

Paschoal Carlos Magno, Caravana da Cultura, s/d (foto família Carlos Magno)

Mas as Barcas e Caravanas existiram, independentes de estarem na contramão do período político e de suas condições financeiras. E, apesar de Paschoal ter declarado que houve quatrocentos Teatros de Estudantes no Brasil, e a ditadura militar matou-os um a um (Pasquim, 197-, p.13 e 14), formou-se uma matriz teórica para a descentralização do teatro (rompendo também com o preconceito contra o teatro):

A descentralização do teatro e o crescimento das atividades regionais – parece hoje mais próximo de se concretizar do que qualquer outro momento da história. No dia mesmo em que Paschoal era enterrado… eis uma confirmação consagradora de um apostolado que agora chega ao fim, mas cujos frutos continuarão alimentando de modo decisivo a atividade teatral brasileira. (Michalski, Yan. In: Jornal do Brasil, 27 mai. 1980, p. 2)

Referência:

LEVI, G. & SCHMITT, J. C. (Org.). História dos jovens: da antiguidade à era moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Vol. I.

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).


[1]A primeira Caravana se deu em 1963-1964 e a segunda, 1967-1968– atravessando os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas, e terminou na cidade de Maceió. Registros da Barca da Cultura 1973-1974. Porém, uma era o desdobramento da outra; quando necessária a Caravana transformava-se em Barca.

[2] Jornal do Brasil, 7 dez. 1973; Revista Veja, 27 fev. 1974; Diário de Pernambuco, 9 jul. 1980 (Stuttifera foi o segundo nome dado a Barca da Cultura por Antonio Callado)

Série Paschoal Carlos Magno VII: ingênuo ou comprometido?

11 ago

Por Gisèle Miranda

 

É realmente constrangedora, para um velho combatente como eu, a miopia daqueles que esbordoam moços, porque desejam pensar alto… inquietos carregados daquela flama da paixão que é privilégio dos moços e daqueles que, não sendo medíocres, envelhecem com o mesmo ardor e o mesmo entusiasmo… {Paschoal Carlos Magno, Diário de Notícias (196-): A miopia da repressão}

O teatro de Paschoal e suas derivações, ascendentes de laboriosas designações, tais como paschoalino, quixotesco, franciscano, entre outras, refletem pois, o paschoalhar, quase em tom de bufão.

Proposta imagética do quixotesco Paschoal Carlos Magno, por Jesualdo Gelain, dez. 1999

Há um despojamento de interesses pessoais por parte do criador e condutor das Barcas e Caravanas da Cultura (décadas de 1960 e 1970), assim como há contradições em suas vinculações políticas.

Paschoal se aproximou da política enquanto visionário das artes, e não como efetivo membro da direita ou esquerda. Sua trajetória política foi bizarra – não encontrando eco nem respeito partidário.

Ingênuo ou comprometido? Como pensar no profissional da diplomacia diante de um ou outro? Os tempos eram outros, de silêncios, de meias verdades, de cerceamento das liberdades.

Como pensar, por exemplo, a perspectiva do Cinema Novo desvinculado da União Nacional dos Estudantes (UNE) e do Centro Popular de Cultura (CPC), ou seja, de seus progenitores? – “A esquerda cobrava de Glauber Rocha uma coerência política que ele nunca teve. Glauber cobrava da esquerda…” [1] uma sensibilidade artística que ela não tinha?

Os votos trouxeram a Paschoal, a possibilidade do retorno ao Brasil. Os votos deram-lhe a dignidade e respeitabilidade por parte de seus seguidores. Os votos deram-lhe a possibilidade de criação do bufão diante das autoridades que dominaram por mais de vinte anos o Brasil.

Como louco inofensivo, Paschoal transitava por vias alternativas e de pouca vigília militar. Assim acolheu em tempo impróprio, a fome e a sede da juventude, que em agrupamentos, eram considerados de alta periculosidade.

Nem todos os jovens de esquerda, ou simpatizantes puderam fugir de seu país quando havia complicações. Muitos, em todas as ditaduras militares latino-americanas, morreram. Outros lutaram por suas convicções até o último momento, e depois foram exilados. Dolorosas histórias de perdas e danos. [2] Mas, e os que aqui ficaram?

Paschoal foi galgando questões morais que se tornaram intrínsecas às questões políticas. Travou uma larga luta por respeitabilidade aos profissionais das artes e princípios coletivizados em tempos que, o coletivo era pernicioso.

Também abriu um espaço cultural além dos limítrofes das grandes cidades burlando dificuldades quanto à ausência de investimentos, muito além do louco mecenato do qual, em parte bancou o teatro brasileiro. Foi andarilho de interlocuções; sobrepôs teorias e metodologias às mirabolantes performances.

Sua maior titulação não foi a de bacharel em direito, nem tampouco de embaixador, pois nunca assumiu uma embaixada, devido a sua aposentadoria forçada. Sua maior titulação foi a de Estudante Perpétuo do Brasil, dada pela União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1956.

 

Referências:

BARCELLOS, Jalusa. CPC da UNE: uma história de paixão e consciência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

GOMES, João Carlos Teixeira. Glauber Rocha, esse vulcão. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 1997,

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).


[1] BEIRÃO, Nirlando: Glauber had sept cabezas. São Paulo: Revista Bravo! Março, 1999, ano 2, n. 18, p. 48.

[2]   O relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Acessado em 1 de fevereiro de 2017.

Série Paschoal Carlos Magno VI: os votos da juventude

7 ago

Por Gisèle Miranda


Enquanto Paschoal cumpria seu trabalho no Itamarati, acompanhava de onde estivesse o Teatro de Estudantes e seus desdobramentos através de suas irmãs – Orlanda e Rosa.

A idéia de uma vinculação a política partidária surgiu pela imensa vontade de retornar ao Brasil e dar continuidade às suas propostas culturais, instituir alternativas para concretizar projetos e investir em educação. Uma semana antes de Paschoal partir para Atenas, um amigo desabafou:

– pensei nisso quando fui à missa de sétimo dia de sua mãe (Ruminei: que tem a missa da minha mãe com a política) e durante mais de duas horas vi uma fila imensa diante de você dando-lhe pêsames. Ricos e pobres, brancos e pretos. – “Que grande eleitorado.” (Magno, 1969, p. 64)

Paschoal candidatou-se a vereador na cidade do Rio de Janeiro. Com a ajuda de suas irmãs, cinco mil cartas foram encaminhadas. A espontaneidade dos jovens articulou a projeção de Paschoal. Por diversos bairros os atores encenavam peças infantis, e por fim, estendiam as faixas com os dizeres: Se Paschoal não voltar acaba tudo. (Magno, 1969, p. 205)

Frente do panfleto da campanha de Paschoal Carlos Magno para vereador da cidade do Rio de Janeiro, 1950

Em 3 de outubro de 1950, Paschoal foi eleito vereador pela UDN[1], sem nenhuma participação em comícios ou reunião do partido. Empossado em 1 de abril de 1951, permaneceu no cargo até 31 de janeiro de 1955. E, como era esperado assumiu o seu cargo independente da política partidária. Atuou como membro da Comissão dos Problemas dos Favelados Cariocas (1951) e que lhe valeu ser chamado de simpatizante do credo comunista.[2]

Verso do panfleto da campanha de Paschoal Carlos Magno para vereador da cidade do Rio de Janeiro, 1950

Paschoal também lutou pela autonomia do Teatro Municipal, pois na época vinha sendo entregue às festinhas de família, reuniões políticas, banquetes aos donos da pátria. (Assembléia, p. 423; Ata 104, 3 set. 1951, p. 47), além de, em todo momento, proclamar o descaso com orfanatos, centros de tuberculosos, deficiências e artes em geral. A ponto de se levantar contra o seu próprio partido:

Em quatro anos de exercício político nunca me foi possível compreender porque nossos adversários eram classificados pelos meus correligionários, com raras exceções, como cornudos, castrados, ladrões, pederastas. E cometiam na sua maioria os mesmos erros daqueles de apadrinhar causas injustas, arranjar empregos para parentes e conhecidos. (Magno, Tudo valeu à pena, m.s., 28 de março de 1955)

E, mais:

Apresentei toda uma série de projetos ligados à educação, muitos dos quais não encontraram pernas para andar no chão de uma assembléia eminentemente eleitoreira. (Magno, Tudo valeu à pena, m.s., 4 de abril de 1955)

Durante seu mandado de vereador apenas um bom momento a ser registrado. Paschoal ficou surpreso com chamado de Getúlio Vargas, para participar sobre sua ida a Alemanha (Universidade de Erlargen), para ser prestigiado na Festival Internacional de Teatro – com 400 acadêmicos de Teatros Universitários do Mundo. O festival teve a avant première com o texto de Paschoal, Amanhã será diferente, pelo Teatro Universitário de Istambul.

Referências:

MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

MAGNO, Paschoal Carlos. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

MAGNO, Paschoal Carlos Tudo valeu à pena.(manuscrito, 1940)


[1] A UDN – União Democrática Nacional foi criada em 1944, entre os seus correligionários estavam o brigadeiro Eduardo Gomes, que participou da sublevação tenentista (Dezoito do Forte de Copacabana, 1922), e o jornalista Carlos Lacerda, ferrenho e controvertido orador, pivô do caso da rua Toneleiros (agosto 1954), quando Getúlio Vargas foi acusado de ser o mandante do atentado, e que logo culminou na crise do populismo e no suicídio do presidente do Brasil.

[2] Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro: levantamento das atividades parlamentares de Paschoal Carlos Magno, 10 de maio de 1951, p. 415-417. E ainda, Paschoal deixou registrado: a delegacia política aproveitará a circunstância para fazer calar a voz dos pequeninos perseguindo-os.

Série Paschoal Carlos Magno III: O Teatro Duse – uma nau de trilhos e bondes

12 jul

Por Gisèle Miranda

… Rio de Janeiro, e vivi grande parte da minha vida lá no morro de Santa Tereza, onde vivo até hoje e onde espero morrer… (MAGNO, P. C., 1980)

Teatro Duse, hoje Casa Paschoal Carlos Magno, situada a (ladeira) Hermenegildo de Barros, 161, em Santa Teresa, na cidade do Rio de Janeiro. O Duse nasceu sob o jugo de luzes e aplausos em 2 de agosto de 1952:

 Instituindo a alusão topográfica – ele (Paschoal Carlos Magno) monta o seu teatrinho ´Duse´ na ladeira íngreme de um bairro caído em ostracismo. Há gente, muita gente subindo pelas escarpas com devoção de que sobe a Penha… cem pessoas dento do teatrinho Duse representam moralmente seis mil assinantes do Teatro Municipal… (Globo, 23 jun. 1953.)

 Poltronas confortáveis verdes-brancas… paredes verde-claro… cortina branca… iluminação indireta através dos olhos de vidro das máscaras gregas esculpidas por Stélio Alves de Souza…  (Tribuna da Imprensa, 5 ago. 1952)

Em 1938, Paschoal clamava: talvez num porão, num sótão como Little Theatre… na falta de outro local, na minha casa na boa companhia de meus livros, quadros e bronzes…(Jornal dos Theatros, 3 jun. 1938.)  O Teatro Duse de 1952 foi um desdobramento do Teatro do Estudante do Brasil de 1938, época em que os estudandes usavam uniformes – saias e calças pretas, camisas e blusas brancas com as iniciais TE.

 O Teatro Duse fechou suas portas em 1956; reabriu, fechou e reabriu. Em 1985 a casa foi “considerada bem cultural de Santa Tereza.” Desse pequeno teatro profissões antes sequer respeitadas foram definidas. Destaques à nossa literatura com textos de Ivan Pedro Martins, José Paulo Moreira da Fonseca, Hermilo Borba Filho, Raquel de Queiróz, Antonio Callado, Lúcio Fiúza.... entre muitos. Nossa língua valorizada e compreendida.

No térreo da casa o Teatro Duse. No andar de cima, a morada da família Carlos Magno, que também acolhia estudantes: … que nenhum dos estudantes fique sem jantar e tenha um leito, arrumado no palco, na biblioteca ou mesmo sobre a palha dos velhos sofás… . (Vicente, Jornal de Imprensa, 5 ago. 1952)

Paschoal morreu na cidade do Rio de Janeiro em 24 de maio de 1980. Pouco antes esbravejou, em tom de praga, a todos que alimentavam a ignorância. Afinal, ele era de uma família predestinada… que tem vocação suicida. Uma família que em vez de amealhar dinheiro, amealha livros, quadros, paixões… todos nós trabalhamos pela cultura. (Magno, O. C., 1993, 194)

Referências: MADEIRA, Gisele Ou MIRANDA, Gisele. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um Culturalista (tese de doutorado/PUC-SP, 2000).

Série Paschoal Carlos Magno II: “Sol sôbre as palmeiras”

12 jul

Por Gisèle Miranda

 

Vou Paschoalando pelas ruas… Dom Quixote aparece sem auréolas, simplesmente como um ser humano, cuja justificação – é preciso dar-lhe alguma? – é de não ser unilateral, mas de alma que se renova com a fôrça universal de cada sonho. (MAGNO, P. C., 1969)

Paschoal ou Lúcio?

“Sol sôbre as palmeiras”(1962) foi o segundo livro de Paschoal Carlos Magno; é um romance histórico e autobiográfico com espacialidade delineada pelo morro de Santa Teresa ou morro Paula Matos, na época, bairro de ostracismo da cidade do Rio de Janeiro.

Lúcio – personagem central. Seu Chico, o pai, autodidata e criador do teatro da família Carlos Magno. Ele lia para os filhos e descrevia o que imaginava ter visto. Quando titubeava, no dia seguinte retornava ao assunto após pesquisas.

Dona Josefa, a mãe fervorosa em sua religiosidade que explicitava nos cômodos da casa imagens de santos católicos. No dia a dia, a compra fiado do pão, inadimplência dos alugueres, mas a cumplicidade junto ao marido à compra de muitos livros e, até: de Madona à Duse – sementes do Teatro Duse:

Seu pai é doido… substituir a Madona por um retrato de atriz… – Não o leve, mamãe… Veja: (Lúcio apontava à Duse) – tem um ar de Madona. E nessa noite Lúcio não se espantou de encontrar acesa a lamparina junto do retrato de Eleonora Duse-Checchi (1858-1924). Nessa noite e daí por diante. (MAGNO, 1922, p. 20-21)

Elenora Duse-Checchi, s/d

Em 1947, a atriz Henriette Morineau durante a famosa Concentração do Teatro do Estudante, sequenciou a crença do Teatro do Estudante celebrando e glorificando a madona Eleonora Duse: …com os olhos enevoados… abriu a bolsa e tirou uma nota que depositou no chão de veludo escuro do altar. (Jornal Correio da Manhã, 31 jul., 1947.)

Elenora Duse-Checchi, 1922

A atriz Eleonora Duse esteve no Brasil em 1885. A cidade do Rio de Janeiro foi a primeira de sua carreira internacional.  Mas o grande público da “prim´attrice assoluta” ainda não existia nos trópicos. Ressentida com poucas palmas, cadeiras vazias e, apesar das notas de jornais de alguns admiradores, deixou registrado:

um grande, grande teatro… murmúrios ininterruptos na platéia e nos camarotes, do princípio ao fim da peça… eles não conhecem de minha voz senão uma parte infinita e miserável, sem falar das dificuldades da língua (minha doce língua italiana, ao lado dêsse português tão rude, e do brasileiro ainda pior… (trecho da carta enviada por Duse à Mathilde Serao; carta publicada em A vida de Eleonora Duse, de Max Reinhardt)

Duse retornou ao Brasil em 1907. Desta vez, ovacionada pelo público, porém mais amargurada do que nunca. Sequer concedeu entrevistas, isolando-se até dos amigos, atitude que encolerizou Arthur de Azevedo:

Duse, a inacessível Duse, que fugindo a reportagem e aos Kodaks, torna-se quase um mito… neurastenia? aborrecimento?… vaidade? orgulho? ou desprêso de Deusa para com os míseros mortais?  (ABREU, 1958, p. 15)

Quem foi Eleonora Duse para Paschoal Carlos Magno? Não apenas a capacidade imensurável às interpretações, mas a figura imponente de mulher, sua trajetória de vida determinada pelo mambembe – em qualquer lugar e em qualquer hora. Princípio este que articulou as bases do Teatro do Estudante do Brasil, as Caravanas e Barcas da Cultura, Teatro Duse e Aldeia de Arcozelo.

Para Paschoal, as reações adversas de Duse no Brasil deveu-se a pressão de um momento pessoal desesperador – do falecimento do ator de sua companhia (e também seu amante esporádico) Arturo Giotte, acometido de febre amarela pouco depois de desembarcar no Brasil em sua primeira tournée. Além, é claro, da pouca receptividade do público brasileiro.

 

 

Referências

ABREU, Brício. Eleonora Duse no Rio de Janeiro (1885-1907). Rio de Janeiro: MEC, SNT, 1958.

MIRANDA (ou MADEIRA), G. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo: 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

MAGNO, Orlanda Carlos. Pequena história do Teatro Duse. Rio de Janeiro: SNT, 1973.

MAGNO, Paschoal Carlos. Tempo que passa. Rio de Janeiro: s/ed., 1922.

_____________________. Sol sôbre as palmeiras. Rio de Janeiro Letras e Artes, 1962.

_____________________. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

_____________________. Poemas do irremediável. Rio de Janeiro: Cátedra, 1972.

_____________________. Tudo valeu a pena. m.s, s.d.

REINHARDT, Max. A vida de Eleonora Duse. Rio de Janeiro Livraria José Olympio Editôra 1940.

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