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Série Retecituras I: José De Quadros

6 mar

Por Gisèle Miranda

 

Kreuzottern (víboras), 54 x 45 cm Jornal: Völkischer Beobachter, 25 de agosto de 1938. Manchete: ´O almirante von Horthy em Berlim´ (esse almirante foi o grande líder do fascismo húngaro)

Tem eco! Dor insuportável! Seis milhões de pessoas abatidas. Os pestilentos eram os algozes, pragas dizimadoras; nada perecíveis às pestes do medievo e, mais ávidos de terror no Terceiro Reich.

Jogos de Armar é um herdeiro documental do pré-nazismo do auge e decadência da Segunda Guerra Mundial. (1939-1945 – na Alemanha)

Os jornais de 1932 a 1944, eram ditados e manipulados a cultuação da suástica na comunicação e em técnicas aprimoradas  e de valores atuais.

José de Quadros ou Jogos de Armar tira o leitor de agora de sua confortável passagem. Há um convite à “uma mesa de dissecação, um gabinete de taxidermia ou uma aula de ontomologia do Führer” (catálogo); mexe com as estruturas, instiga a reflexão, remete um tempo que precisa sempre ser tocado numa plasticidade necessária.

Os jornais sobreviveram também ao incêndio criminoso no ateliê do artista José de Quadros, em Kassel, na Alemanha. Por isso, vai sempre ser um tema recorrente e retecido para partimos do conceito de humanidade.

Além dos jornais, sobreviveram algumas traças. Sobreviventes e alastrantes, as traças foram minuciosamente incorporadas por José de Quadros `a uma consciência das tragédias causadas pela intolerância’.

Jogos de Armar de José de Quadros nos jogam às arm(a)ções de mortes, intervindo artística e politicamente sobre os documentos históricos. As pragas existem, subliminar e criminosamente em pleno século 21.

Tema que recorre. Tema que corrói. Tema pertinente. Tema de Le Chagrin e La pieté, de Marcel Olphüs, de 1969. Um documentário que resgatou a década de 1940, o período da ocupação alemã na França.

Em Shoah, de Claude Lanzmann, de 1985, a morte é anunciada na estação de Treblinka, parada rápida antes do pouco tempo de vida no campo de extermínio. O gesto pontuado do maquinista é a ‘degola’ seguido do sorriso insano.

 

Goldläuferkäfer (escaravelhos dourados), 54 x 45 cm Jornal: Völkischer Beobachter, 28 de setembro de 1937. Manchete: ´Berlim presta homenagem ao Duce e ao Führer – o desfile triunfal na capital do reich em festa.´

Em contrapartida ao sorriso antissemita, o destaque do tempo interrompido violado no horror, na barbárie.

A voz do menino que cantava, historicizado e  poupado da morte anunciada, serviu de deleite aos nazistas e nas lembranças dos que o ouviam do outro lado do rio, na Polônia, entre vida e morte.  Já adulto, a voz refez o caminho cantando; face infantilizada, sorriso ruborizado – ele – independente da temporalidade gritante, ainda era o mesmo menino.

O trabalho de José de Quadros  – com seus vermes, pragas, ou seja, um bestiário e seu acervo documental – transformou-se em marca artística contra os crimes da humanidade.

 

Hirschkäfer, 54 x 89,8 cm Jornal: Jornal: Völkischer Beobachter, 29 de setembro de 1937. Manchete: ´O Duce no Karinhall. O Duce e o Führer falam ao mundo. ´

 

 

 

* Os jornais de época foram ‘tratados’ pelo artista com resina acrílica e os desenhos foram feitos de sépia e sangüínea.

 

Referências:

Exposição José de Quadros – ‘Jogos de Armar’ esteve no Museu Lasar Segall, Curadoria de Jorge Schwartz e Marcelo Monzani de 23 ago. a 23 nov. 2008, e de 28 nov. 2008 a 18 fev. 2009, no Museu de Arte de Ribeirão Preto.

Sobre o artista José de Quadros: http://www.josedequadros.com

Curso de cinema ministrado pelo prof. Dr. Eduardo Victorio Morettin (ECA/USP) na Cinemateca Brasileira (nov./dez. 2008): Marcel Olphüs, Na era das catástrofes – do nazismo e Shoah (documentário), 1969 e 1985.

No Brasil, o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP (2012) vem discutindo sobre os estupros seguidos de morte durante a Segunda Guerra Mundial – “no sofrimento das mulheres durante o Holocausto” (cerca de dois milhões), até então tema ocultado no genocídio de judeus.

Ficção humana

4 ago

Por Gisèle Miranda

 

O monstruoso da ação humana quando moralmente banido do circulo  do ´bem´ muitas vezes acaba recebendo uma tarja ficcional como se não fizesse parte da humanidade. A ´crueldade com os indefesos´ estão a olhos vistos, para quem quer ver. São muitos os caminhos que por vezes tropeçamos e nos fazemos de rogados até que a moral reivindique um lado. Se céu ou inferno, bem ou mal ou, se o dantesco espaço nos oferece o purgatório para o confronto com o ´conforto canalha´; mesmo assim, o melhor é fingir desumanidade – como se fosse viável.

 

Raquel Korman, autorretrato enquanto morta, 2008, 170 x 80 cm. http://www.rachelkorman.com

 

Fingir, tapar os ouvidos, fechar os olhos, ou garantir a sobrevivência têm preços, pesos, medidas e, obviamente, uma humanidade latente. O monstro pode ter uma bela aparência e circular pelos mesmos espaços que o comum. Que tal trocar o canal ou designar uma nova moral?

Essas fugidias linhas têm, em princípio, dois ensaios como mote: Pequena sociologia do fungo, de Pondé (Folha de S. Paulo, 27/7/2009) e Em defesa de Berlusconi, de Calligaris (Folha de S. Paulo, 30/7/2009).

Pondé resolveu discutir a moral, ou melhor, desnudar a ética de um determinado círculo tendo como mote os monstruosos nazistas que assassinaram 6 milhões de judeus. Fui imediatamente jogada em um documentário da década de 1960. Treblinka, na Polônia (a parada da morte). O maquinista da carga humana sabia o que fazia, ou seja, apenas cumpria com seu ofício (típico da ‘banalidade do mal’ de  Hannah Arendt). Mas ele tinha como hábito fazer o gesto de degola – assim que o trem parava na estação, para mostrar à sua carga que ali seria o fim.

O maquinista do documentário fez questão de dizer que não concordava com o que  os nazistas faziam com àquelas pessoas que transportavam. O olhar deste maquinista tinha um quê irônico e infantilizado, principalmente quando gesticulava a degola.

A partir desse olhar passei a perceber os demais olhares dos ´humanos´ desse documentário. Havia um sobrevivente do campo de concentração em Treblinka, que aliás, sobreviveu porque os nazistas gostavam de ouvi-lo cantar. Ele era um menino de 10 anos. No trajeto de barco, ele era obrigado a cantar sem párar todos os dias – durante anos! O menino – já adulto – sorria com os olhos ao contar sobre sua habilidade musical de outrora. Não apenas sorria, como também estagnou o olhar indefeso do menino que foi. Ao retornar ao local de sua infância, ele foi reconhecido pela população da cidade do outro lado do rio, assim que começou a cantar, coisa que nunca mais fez desde que conseguiu sair de Treblinka.

Todos riram ao rememorar as canções ouvidas, a voz singular da criança de anos atrás. Ao sabê-lo portador da famosa voz, todos o abraçaram. E todos não admitiram saber o que acontecia do outro lado da margem do rio.

Em uma outra vertente, Calligaris deve ter chocado muitos pensadores de militância humanitária com o forte título de seu ensaio. Até o próprio Calligaris disse: ” nunca pensei que escreveria um dia em defesa de Berlusconi”. Defender Berlusconi, a moral fascista, e ainda o new look dos neofascistas ? Claro que não! A questão é outra: “Berlusconi faz festinhas com prostitutas, e eu com isso?” Mas o mundo de notícias estacionou por ali, e até a virilidade chegou ao Ibope surpreendente, tornando-se a “virilidade de todos nós”.

Mas, ´se Ahmadinejad´, ex presidente do Irã fosse destaque “em uma boate gay” (e anseio por isso – como Calligaris) não seria o mesmo caso de Berllusconi? Não. Neste caso afetaria diretamente as leis desse país. Então como perceber o hipócrita, o ´conforto canalha´, ou ainda a conivência silenciosa?

Creio que Amos Gitaï, cineasta israelense pode dar sinais sobre essa discussão – via reminiscências em seu Yom Kippur, ou a moral que humaniza o velho palestino em seu filme Kedma (cargueiro de sobreviventes do Holocausto). O pobre e velho palestino levantou seu cajado e perpetuou um território – nunca reconhecido, mas hereditário de homens e mulheres bombas.

Para fechar o filme: a moral, o texto, a imagem insana no grito e na baba humana do historiador, no riso infantilizado à beira do caos: a  tênue linha dos algozes, dos sobreviventes e do ´conforto canalha´.

Meu personagem é o louco de o Trem da Vida (direção Radu Mihaileanu) . As risadas que dei no decorrer do filme foram, no final, murros nos estômagos de todos nós. Rimos como idiotas das tradições, dos ciganos, dos judeus, dos patéticos nazistas e, de nós mesmos. Somos o louco de o Trem da Vida, atrás das cercas de arame farpado em um campo de concentração, rindo na insanidade incorporada.

 

(*) Sobre Ahmadinejad – Ver neste blog o texto ´Faca de dois gumes´

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