Tag Archives: Truffaut

Série MANTOS II: Cultura Artística & Histórica – Cinema.

13 maio

por Gisèle Miranda

É importante dizer que não é a quantidade de bilhetes que sustenta esse texto. Mas como a memória exercita seu papel diante da vida. Fiz a costura do Manto II com alguns tantos filmes (bilhetes) guardados, que por sua vez, instigaram outros tantos na memória. Poucos não lembrei de imediato.

Os vinte e um anos costurados pelo conteúdo, línguas, temporalidades, religiosidades, crenças, dores, políticas, vestimentas, odores, guerras, cores, sabores, amores, valores…, assistidos em salas de cinemas, revividos em locais que hoje não existem mais, tal como o Cine Clube Bixiga – que foi o meu refúgio nos fins de semana, durante meus estudos em História e o trabalho com os movimentos sociais da cidade de São Paulo.  No cineclube nasceu minha paixão por Truffaut (Paris, França, 1932- idem, 1984) ou por todos da Nouvelle Vague. Lá também vi Betty Blue 37º 2, de Jean-Jacques Beineix (paris, França, 1946-) com a bela e intempestiva Béatrice Dalle (Brest, França, 1964-), inúmeras vezes.

Todo mês de Outubro esperava pela Mostra Internacional de Cinema. Por isso, dedico o Manto II, a Leon Cakoff (Alepo, Síria, 1948 – São Paulo, SP, 2011) e à Renata de Almeida (São Paulo, SP, 1965-). Nem sempre pude estar nas Mostras, efetivamente por falta de recursos financeiros, mas sempre me esforçava para ir, adquirir os catálogos, ler as sinopses, as críticas e saber dos esforços de Cakoff e Renata, para manter as Mostras, trazer diretores, atores, atrizes para debates, enfim, um grande evento anual imprescindível à nossa cultura e com à nossa participação no juri popular.

Manto II - Cinema, maio 2020.  tecido 2, 5 m x 50 cm. Linha, agulha e bilhetes de cinemas.

Manto II – Cinema, maio 2020. tecido 2, 6 m x 54 cm. Linha, agulha e bilhetes de cinemas.

O sorriso da memória aparece na voz, na presença de Samira Makhmalbaf (Teerão, Irã, 1980-), após assistir A Maçã, no inexistente Cinearte do Conjunto Nacional. De ter votado em Trem da Vida, de Radu Mihăileanu (Bucareste, Romênia, 1958-), filme que venceu o Prêmio do Juri Popular daquele ano. De conhecer a obra do cineasta Amos Gitai (Haifa, Israel, 1950-), de conhecer Kusturica (Saravejo, Bósnia, 1954-) como diretor e ator e, de tantos outros artistas. Também, participar de palestras sobre filmes japoneses com a professora Lúcia Nagib (1956-); curso de cinema com o jornalista e crítico Inácio Araújo (1948-) e, participação especial do inesquecível do cineasta Carlos Reichenbach (1945-2012).

Há uma infinidade de descobertas, de alimentos à alma, da necessidade do existir da Cultura, porque cultura é mais do que as belas artes. É memória, é política, é história, é técnica, é cozinha, é vestuário, é religião etc… Onde é dado o sentido do tempo, do visível, do invisível, do sagrado, do profano, do prazer, do desejo, da beleza e da feiura, da bondade e da maldade, da justiça e da injustiça. (Fenelon, D. (1933-2008). In: O Direito à Memória, 1992, 31)*

Antes da pandemia Covid-19, ir ao cinema só na Cinemateca, gratuitamente, ou, no Cine Lasar Segall, onde o valor é mais acessível. Ou ainda, convidada pela amiga Jozy Lima, como nos dois últimos filmes que vi, Parasita, de Bong Joon-Ho (Daegu, Coreia do Sul, 1969-) e As Invisíveis, de Louis-Julien Petit (Salisburia, Reino Unido, 1986-).

Em Parasita diria que “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” (Foucault, 1990). Em As Invisíveis, com o indicativo de comédia francesa – chorei no cinema, e por muitos dias, porque me vi como parte do filme, um limite tênue entre o básico e o nada; entre a luta e o abandono; entre o desemprego e o desespero, ou, a estranha derrota.

Talvez, mais um motivo para costurar o MANTO, bordar, furar, sangrar, lembrar, criticar e me colocar como Michel Aubry (Saint-Hilaire-du-Harcouet, França, 1959 -) quando costurou “mobílias, instrumentos, tecidos…”  como Mantos históricos e com seus “sintomas políticos e sociais.” **

Este slideshow necessita de JavaScript.

Filmes listados:

  1. A Vida é Bela. Grupo Severiano Ribeiro, 22 fevereiro 1999, às 16:20 hs.
  2. Wilde. 25 fevereiro 1999. Alvorada Cinemat. – Sala Cândido Portinari, às 21:45 hs.
  3. Barroco Balcânico. Mostra Internacional de Cinema – sala Auditório, 16 outubro 1999, às 12:15 hs.
  4. Garotas do futuro. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc 17 outubro 1999, às 13:15 hs.
  5. A Humanidade. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 17 outubro 1999, às 15:00 hs.
  6. Simon Magnus. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 17 outubro 1999, às 17:45 hs.
  7. Mero Acaso. Mostra Internacional de Cinema – Cine Arte 1, outubro 1999, às … hs.
  8. Agarrando Sonhos. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 23 outubro 1999, às 12:00 hs.
  9. Um só pecado. Sala…, 5 março 2000, às 21:30 hs.
  10. Uma boa dona de casa. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 17 outubro 1999, às 17:45 hs.
  11. E aí meu irmão cadê você. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 20 outubro 2000, às 16:10 hs.
  12. Cerca de la frontera. Mostra Internacional de Cinema, Cine Unibanco 1, 20 outubro 2000, às 20:25 hs.
  13. Minha vida em suas mãos. Mostra Internacional de Cinema – Unibanco 1, 20 outubro 2000, às 22:15 hs.
  14. Leste-Oeste o amor no ex…. Mostra Internacional de Cinema, Sala vitrine, 21 outubro 2000, às 14:00 hs.
  15. Canções do segundo amor. Mostra Internacional de Cinema, Cine Unibanco 1, 21 outubro 2000, às 16:30 hs.
  16. A deusa de 1967. Mostra Internacional de Cinema – MASP, 21 outubro 2000, às 20:40 hs.
  17. A lenda de Rita. Mostra Internacional de Cinema, Unibanco 1, 22 outubro 2000, às 14:00 hs.
  18. O recrutador. Mostra Internacional de Cinema, Unibanco 1, 22 outubro 2000, às 16:10 hs.
  19. Butterfly. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 22 outubro 2000, às 18:35 hs.
  20. Cabecita rubia. Mostra Internacional de Cinema, MASP, 22 outubro 2000, às 20:50 hs.
  21. Bastardos no paraíso. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 22 outubro 2000, às 22:30 hs.
  22. Porno film. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte, 23 outubro, às 15:50 hs.
  23. Pele de homem, coração de besta. Mostra Internacional de Cinema, Cine Vitrine, 23 outubro 2000, 17: 25 hs.
  24. A origem do homem. Mostra Internacional de Cinema – Cine Arte, 23 outubro 2000, às 21:40 hs.
  25. Antes do anoitecer. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte 1, 23 outubro 2000, às 23:40 hs.
  26. Tesoro mio. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 24 outubro 2000, às 14:00 hs.
  27. Anjos do Universo. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 24 outubro 2000, às 15:35 hs.
  28. Quem tem medo de…. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 24 outubro 2000, às 17:45 hs.
  29. O jogo de Mao. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 24 outubro 2000, às 19:30 hs.
  30. Sem descanso. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 25 outubro 2000, às 14:00 hs.
  31. Uma relação pornográfica. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 25 outubro 2000, às 16:10 hs.
  32. 101 reykjavk. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 25 outubro 2000, às 19:20 hs.
  33. Segunda Piel. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte, 25 outubro 2000, às 21:10 hs.
  34. Luna papa. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 26 outubro 2000, às 15:35 hs.
  35. O quarto das meninas. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 26 outubro 2000, às 17:55 hs.
  36. Virilidade e outros dilemas modernos. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 26 outubro 2000, às 21:40 hs.
  37. Thomas Pinchon – uma jornada. Cinearte, 27 outubro 2001, às 16:10 hs.
  38. Ano novo com neve. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte, 27 outubro 2000, às 17:20 hs.
  39. O rei está vivo. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 27 outubro 2000, às 19:35 hs.
  40. Baise Moi. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 27 outubro 2000, às …. hs.
  41. You really got me. Cine Unibanco, 27 outubro 2001, às 00:00.
  42. O dia em que me tornei mulher. Mostra Internacional de Cinema, Unibanco, 28 outubro 2000, às 17:425 hs.
  43. Fama para todos. Mostra Internacional de Cinema,Cine Arte, 28 outubro 2000, às 19:40 hs.
  44. Signos e desejos. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 28 outubro 2000, às 21:35 hs.
  45. Sábado. Cinearte, 28 outubro 2001, às 00:15 hs.
  46. Vidas. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte, 29 outubro 2000, às 14:00 hs.
  47. Faz de conta que não estou aqui. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 29 outubro 2000, às 17:55 hs.
  48. Vatel. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 29 outubro 2000, às 21:35 hs.
  49. Wojaczek. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 29 outubro 2000, às 23:55 hs.
  50. Gotas de água em pedras escaldantes. Mostra Internacional de Cinema, MASP, 30 outubro 2000, às 20:30 hs.
  51. Como Samira fez o quadro negro. Mostra Internacional de Cinema, Sala UOL, 30 outubro 2000, às 15:20 hs.
  52. Alameda do Sol. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte 1, 30 outubro 2000, às 23:05 hs.
  53. L´Histoire de Adele H. Top Cine, 29 novembro 2000, às 22:00 hs.
  54. Waking life. Sala UOL, 30 outubro 2001, às 14:00.
  55. Moulin Rouge. Cinearte, 29 agosto 2001, às 21:30 hs.
  56. A professora de piano. Cinearte, 25 janeiro 2002, às 14:10 hs.
  57. Samsara. Cine Unibanco, 19 fevereiro 2003, às 21:00 hs.
  58. Frida. Cine Unibanco, 13 abril 2003, às 14:30 hs.
  59. Kamchatka. Cinearte, 02 maio 2003, às 22:00 hs.
  60. Aos olhos de uma mulher. UCL, 19 julho 2003, às 00:30hs.
  61. Festival Anima Mundi. Auditório da Vila Mariana, 23 julho 2003, às 00:30.
  62. A mulher gato. Mostra Internacional infantil… s/d.
  63. SUR – Fernando Solanas. Mostra SESC de Artes Latinidades -ciclo de cinema no Cinesesc, 22 agosto 2003, às 15:00 hs.
  64. Ainda pego essa al….Cine Santa Cruz, 20 setembro 2003, às 14:30 hs.
  65. Balzac e a …. Cine Unibanco, 14 agosto 2004, às 22:00 hs.
  66. Homem Pelicano. Cine Santa Cruz — II Mostra de Cinema Infantil, 28 setembro de 2005, às 19:10 hs.
  67. Noitão (3 filmes) no Bellas Artes, sala Cândido Portinari, 12 agosto 2005, às 23:52 hs.
  68. Crime delicado. Cine Unibanco, 28 janeiro 2006, às 22:00hs.
  69. Melissa P. – 100 escovadas antes de dormir. Mostra Internacional de Cinema – Cinemark santa Cruz 9, 20 outubro 2006, às 21:30 hs.
  70. O Caminho para Guantanamo. Mostra Internacional de Cinema – Cinemark Santa Cruz 9, 21 outubro 2006, às 21:30 hs.
  71. Sonhos com Shanghai. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 22 outubro 2006, às 13:30 hs.
  72. Voltando ao passado. Mostra Internacional de Cinema – Cine Bombril, 23 outubro 2006, às 18:30 hs.
  73. Dias de Glória. Mostra Internacional de Cinema – Reserva Cultural 2, 24 outubro 2006, às 19:30 hs.
  74. Nue Propriete. Mostra Internacional de Cinema – Reserva Cultural 2, 24 outubro 2006, às 21:30 hs.
  75. A Soap. Mostra Internacional de Cinema – Cinemark Santa Cruz 9, 25 outubro 2006, às 21:30 hs.
  76. Arame farpado. Reserva Cultural 2, 26 outubro 2006, às 13:00 hs.
  77. Amu. Reserva Cultural 2, 26 outubro 2006, às 15:20 hs.
  78. Como festejei o fim do mundo. Cinemark Santa Cruz 9, 26 outubro 2006, às 19:00 hs.
  79. Uma verdade inconveniente. Cinemark Santa Cruz 9, 26 outubro 2006, às 21:30 hs.
  80. Oscar Niemeyer – a vida é um sopro. Cine Bombril, 18 maio 2007, às 16:00 hs.
  81. Goyas Ghost. Cine Leblon 1(RJ/RJ), maio 2007, às 16:30 hs.
  82. A Massai branca. Rio Design 3 (RJ/RJ), 22 setembro 2007, às 19:00 hs.
  83. Bem-Vindo São Paulo. Rio Design 3 (RJ/RJ), 22 setembro 2007, às 22:00 hs.
  84. Caos Calmo. Sala 4 (cortesia), outubro 2008, às ..:15 hs.
  85. Baby love. Cine Reserva Cultural, 16 outubro 2008, às 13:10 hs.
  86. Como Albert viu as montanhas se moverem. Mostra Internacional de Cinema – Espaço Unibanco 5, 20 outubro 2008, às 16:00 hs.
  87. Fim da noite. Cine Unibanco, 03 novembro 2011, às 22:00 hs.
  88. Fim de semana em casa. Espaço Itaú de Cinema, 19 outubro 2012, às 16:00 hs.
  89. Elefante Branco. Espaço Itaú, 15 novembro 2012, às 16:00 hs.
  90. O Homem da máfia. Espaço Itaú, 01 dezembro 2012, às 11:00 hs.
  91. Na terra de amor e ódio. Espaço Itaú, 15 dezembro 2012, às 11:00 hs.
  92. A filha do pai. Espaço Itaú, 03 janeiro 2013, às 19:40 hs.
  93. Ha Ha Ha. Cine Sesc, 05 janeiro 2013, às 14:30 hs.
  94. As quatro voltas. Espaço Itaú, 20 janeiro 2013, às 20:00 hs.
  95. Segredos de sangue. Espaço Itaú, 15 junho 2013, às 14:00 hs.
  96. Augustine. Sala 2, 13 julho 2013, às 21:30 hs.
  97. A bela que dorme. Espaço Itaú, 1 julho 2013, às 16:30 hs.
  98. Camille Claudel, 1915. Cine L. Cultura, 14 agosto 2013, às 18:00 hs.
  99. Ferrugem e osso. Sala 1, 16 agosto 2013, às 19:00 hs.
  100. Flores Raras. Cine L. Cultura, 17 agosto 2013, às 17:00 hs.
  101. O verão do Skylab. Cine L. Cultura, 05 setembro 2013, às 14:00 hs.
  102. A Religiosa. Sala 2, 14 setembro 2013, às 19:20 hs.
  103. Uma primavera com a minha mãe. Sala 4, 03 outubro 2013, 15:20 hs.
  104. Os belos dias. Sala 1, 16 outubro 2013, às 15:30
  105. Mar silencioso. Reserva Cultural 1, 18 outubro 2013, às 18:00 hs.
  106. Amar. Reserva Cultural, 18 outubro 2013, às 15:50 hs.
  107. Trem noturno para Lisboa. Cine L. Cultura, 29 novembro 2013, às 19:50 hs.
  108. Pais e filhos. Sala 1, 30 dezembro 2013, às … .
  109. Ninfomaníaca. Espaço Itaú, 08 fevereiro 2014, às 17:00 hs.
  110. O grande hotel Budapeste. Espaço Itaú, 16 agosto 2014, às 16:00 hs.
  111. Amantes eternos. Caixa Belas Artes, 17 agosto 2014, às 14:00 hs.
  112. Viollette. Reserva Cultural, 30 agosto 2014, às 18:40 hs.
  113. Magia ao luar. Espaço Itaú, 31 agosto 2014, às 18:00 hs.
  114. Mommy. Sala 4, 25 dezembro 2014, às 21:25 hs.
  115. Relatos Selvagens. 03 janeiro 2015, às 17:00 hs.
  116. A família Bellier.  janeiro 2015, às … hs.
  117. As Invisíveis. Cine Sala, 24 fevereiro 2020, às 14:30 hs.
  118. Parasita. Cine Santa Cruz 07, 22 fevereiro 2020, às 15:40 hs.

(*) CUNHA, Maria Clementina Pereira (Org.) O Direito à Memória: patrimônio histórico e cidadania/DPH. São Paulo: DPH, 1992.

(**) Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo, 2012, p. 228-229.

FOUCAULT, Michel. O pensamento do exterior. Trad. Nurimar Falci. São Paulo: Princípio, 1990.

Ps. Com o tempo farei a inserção dos diretores dos filmes e complementação de dados incompletos.

Série Ficcional H. Miller XXI, parte II: “a traição das imagens”

7 abr

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

 Às vezes acho que nasci com fome. E essa fome está associada a caminhadas, à vagabundagem, à procura, ao incessante e febril perambular de um lado a outro.

(MILLER, 2003, p. 27)

 

Antes de Turner, Miller dissertou sobre Bosch: – As laranjas da época de ouro de Bosch restabelecem a alma: a atmosfera onde ele as suspendeu é eterna, é a do espírito tornado real (Miller, Big Sur: 43). Objetou por alguns segundos, e tão logo referendou: o desejo de liberdade é um desejo de um condenado! (Miller, 2003, 114)

Joguei a toalha, mas ele a interceptou no ar e continuou: – as laranjas de Bosch ou as de Van Eyke, as maçãs ou os cachimbos de Magritte? Nada acontece pelo conforto, mas pelo boicote a estabilidade que aprisiona o pensamento. O que a trouxe aqui? Falar das frutas ou do fálico cachimbo? A liberdade, a dor, as cicatrizes? Ou a solidão de Goya em sua série Gigantes, Colossos? Seu assombro por minhas palavras permeia os incorrigíveis deleites do Romantismo de Madame Bovary, Anna Karenina e Adèle Hugo.  Recordo a bela Fanny Ardant ao falar de A mulher do Lado: – “Eu me lembro que Truffaut dizia que essa era uma história atual… pode-se morrer de amor mesmo hoje em dia”.

René MAGRITTE (1898-1967), A traição das imagens (Isto não é um Cachimbo), 1929. (a primeira versão é de 1926)

 

 

– Pretensioso Milller! Não falei de Tolstoi, Flaubert, Magritte, Bosch, Rimbaud, Goya, Truffaut ou Foucault. São todas elucubrações suas! Tu desejas que todos esses pensamentos estejam em mim. Morrerei de amor em seus braços deleitando-me em gozo. Gozo por todos os olhares que não quis olhar, por todas as bocas e sexos que não desejei pela ausência de afinidades eletivas do bendito Goethe.
– Minha doce Lia: “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” (Foucault, 1990)

 

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

FRANCO JR. COCANHA – a história de um país imaginário. Prefácio Jacques Le Goff. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

FOUCAULT, Michel. O pensamento do exterior. Trad. Nurimar Falci. São Paulo: Princípio, 1990.

FOUCAULT, M. Isto não é um cachimbo. Tradução Jorge Coli. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 2ª Edição. (Neste livro Foucault trabalhou com a primeira versão de 1926)

MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006

MILLER, Henry. A hora dos assassinos. São Paulo: Francis, 2003.

ARDANT sobre TRUFFAUT:  Fanny Ardant. (atriz foi casada com o François Truffaut)

Série Falésias IV: A alegria sem a fala – ou os desaparecidos e re-aparecidos da escrita

16 mar

Por Lia Mirror & Gisèle Miranda


A Alegria de Emma[1] – uma personagem fictícia – tem um intrínseco elo com o Futuro (que) dura muito tempo de  Louis Althusser. Ele, personagem construído de um memorial, dia a dia até morrer em 1990; deixou registrado que suas alucinações foram fatos do futuro longo demais. Não há sonoridade de dor, seja no ato vívido de Althusser ou na ficcionalidade de Emma.

Os porcos degolados por Emma foram cuidados, amados até os oito segundos à morte. Da mesma forma, ela fez com o seu amado, um doente terminal em suas delongas – a degola, para que não sofresse mais; apenas oito segundos. Nenhum som; nenhuma fala. Emma e Althusser agiram com as mãos, da faca à caneta; do silencio à escrita ou a morte.

Será que o desaparecido de Foucault reapareceu na escrita necessária de Althusser e de alguma maneira impronunciado?


Gontran Guanaes Netto (1933-2017), escrita/desenho s/ papel: “Para Gisele neste inicio de trabalho”, dez. 2002.

Há um condenado ao desaparecimento; da pena à ficcionalidade dos tropeços da memória. Impronunciável? Então, a escrita.  Dos relatos aos lapsos do escritor Lima Barreto em seu Diário do hospício e o cemitério dos vivos; o enredo de um tempo que também parece durar muito, precisamente porque fora imposto por uma limpeza social (policial e higienizadora) marcadamente pelas primeiras décadas do século 20 no Brasil. Lima Barreto não matou; mas viveu personagens em meio aos desaparecidos por assassinatos, esquizofrenia, alcoolismo, vadiagem, entre outros. Sua escuta era intensa; sua escrita verteu-se ao ensejo do necessário.

Althusser era um filósofo marxista de carreira universitária. Emma era uma versão feminina e alemã de “O garoto selvagem” de Truffaut com condimentos do dinamarquês Lars Von Trier em os “Idiotas“. E, para compor essa escrita, Foucault com seu parricida (degolador): Pierre Rivière.

Os papéis foram sendo esculpidos, as imagens sobrepostas ou simples palavras. Althusser clamou a solidão de seu isolamento teórico e o risco solitário diante do mundo, além de percorrer de Rousseau a Derrida – a intervir como filósofo na política e, como político na filosofia. O futuro dura muito tempo foi escrito alguns anos depois do estrangulamento de Helène,  em 1980 e, publicado em 1992.

Para compor o cenário Pierre Rivière reapareceu vindo das primeiras três décadas do século 19, marcadamente por Foucault, abrindo discussões à medicina psiquiátrica e os conceitos da justiça em perspectivas políticas de meados do século 20.

Rivière degolou ou amputou a fala da mãe e dos irmãos? E sem a sua própria fala, construiu um memorial justaposto à escrita, por uma memória também minuciosa, dadas às diferenças da época e de aleitamento intelectual.

Rachel Korman, big pig, 2008, digital photograph 50 x 70 cm.

Não me assustavam os criminosos; escreveu Lima Barreto, mas a candura, a inocência e a naturalidade; a punho e em pedaços de papéis registrou seu cemitério dos vivos ou sua analítica versão de as Recordações da casa dos mortos de Dostoiévski. E foi assim, em tal estado de espírito, penetrado de um profundo niilismo intelectual. (p. 186-189)

Em silêncio, Lima Barreto saltou de sua ficcionalidade (prefaciado por Alfredo Bosi) e sentou-se a mesa do seu Alberto[2]; logo, chegaram Henry Miller, Pierre Rivière, Louis Althusser e Michel Foucault com seus escritos.


[1] O Filme Emmas Glück (A alegria de Emma) de 2006 http://www.tvcultura.com.br/mostrainternacional/blog/33772 do diretor alemão Sven Taddicken baseado no romance de Claudia Schreiber.

Referências:

ALTHUSSER, Louis (1918-1990) O futuro dura muito tempo; seguido de Os fatos. Org. e Apres. Olivier Copet, Yann Moulier Butang; Trad. Rosa Freire d´aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BARRETO, Lima (1881-1922). Diário do hospício e o Cemitério dos vivos. Prefácio Alfredo Bosi. Org. e Notas Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

FOUCAULT, Michel (Coord.) Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão. Trad. Denise Lezan de Almeida. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1977.

%d blogueiros gostam disto: