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Movimento Realista, parte I

10 jan

 por Gisèle Miranda

O Movimento Realista na França tem seu enfoque histórico na primeira metade do século 19, movido pelas grandes revoluções do século 18, valorizado em parte pelo Romantismo Histórico (*) que floresceu pela literatura, música, pintura e no teatro. Também foi fruto da crise do Neoclassicismo nas primeiras décadas do século 19 e findou com as perdas do movimento operário à entrada dos movimentos de vanguarda.

O século 19 foi Positivista nos territórios de controle jurídico e médico, mas inseriu o Romantismo Histórico de Victor Hugo (1802-1885), Dostoiévski (1821-1881), entre outros, e interferiu no Realismo de Delacroix (1798-1863) e Courbet (1819-1877) ao resgatarem os populares e as presenças de mulheres nos processos de lutas e transformações. Vide a famosa Marianne na obra de Delacroix, A Liberdade guiando o povo, de 1830, reinventada no Realismo Político do pintor brasileiro Gontran Guanaes Netto em 1989, nos 200 anos da Revolução Francesa.

Delacroix, a liberdade guiando o povo, 1830

Eugène Delacroix (Saint-Maurice, 1798- Paris, 1863), A Liberdade Guiando o Povo, 1830. Óleo sobre tela, 2,6 x 3,25. Museu do Louvre.

A mulher partícipe dos Direitos Humanos a partir de 1789 vem das ruas, do povo, do público e não dos retratos de nobres, rainhas. Mesmo não sendo obras pintadas por mulheres houve destaque de suas participações.

Gontran-Guanaes-Netto, 1989 A liberdade guianando o povo, 1989.

Gontran Guanaes Netto (Vera Cruz, 1933- Paris, 2017), A liberdade Guiando o Povo, 1989. Óleo sobre madeira, 2,0 x 2,0. Estação do Metrô Marechal Deodoro/ SP.

No Brasil, o Romantismo foi disseminado em meados do século 19 na literatura e no teatro de renomados à uma clandestinidade própria de cultura popular. No âmbito do teatro, a mudança dos atores negros escravizados que se mascaravam de brancos, por ser um ofício pouco valorizado. Vieram companhias importantes como de Sarah Bernhardt (1844-1923) e Eleonora Duse (1858-1924) que se apresentaram em francês e Italiano nas altas rodas da Monarquia à República, ou seja apresentações quase particulares. E quando aberto ao grande público:

Um grande teatro… murmúrios ininterruptos na platéia e nos camarotes, do princípio ao fim da peça… sem falar nas dificuldades da lingua italiana, ao lado dêsse português tão rude, e do brasileiro ainda pior… (Eleonora Duse. IN:Abreu, 1958, 14)

De meados do século 19, às duas primeiras décadas do século 20, houve a transformação de alunos Neoclassicistas e do Academicismo Histórico, para os caipiras, os violeiros e os picadores de fumo; seguido por uma virada vanguardista conhecida como a Semana de Arte de 1922, em que o Movimento Modernista assumiu elementos dos movimentos de vanguarda e agregou aos valores culturais brasileiros, u

o nacional (antropofágico) e o internacional vanguardista.

O Realismo ligado ao movimento operário no Brasil ecoou na década de 1930, a especificidade do nome Di Cavalcanti (1933), embora o nome de Lívio Abramo, anteceda com suas gravuras de militância e preocupação social:

É ele o primeiro artista, ao que se saiba, a transpor para xilo o tema da luta de classe: o operário na fábrica, o operário coletivamente em protesto, a velha fábrica de tecidos com o seu perfil recortado, grades e chaminés erectas como uma infantaria em face do inimigo e em volta… o casario operário, em grupos…como troços emboscados de assaltantes (guerrilheiros)… (In: Amaral, 2003, 33; 38)** 

Logo, Portinari despontou em meio aos operários, camponeses e anti fascistas aglutinados à Aliança Libertadora Nacional de 1935, tornando-se o pintor histórico do Brasil do século 20 (Amaral, 2003, 60). A psiquiatra Nise da Silveira (correspondente de Carl Yung) em seu trabalho: a filosofia e realidade social adentrou o experiementalismo junto a pacientes psiquiátricos com interferências importantes nas artes visuais. No México o Muralismo de Rivera, Orozco e Siqueiros.

(*)Final do século 18 e início do século 19, o Romantismo histórico aconteceu na pintura e na ressurreição Gótica ou Neo Gótico (verticalização das igrejas; a primeira fase Gótica se deu entre os séculos 13 e 15). O Romantismo deu sinais de seus esgotamento em meados do século 19.

Romantismo tem uma face demasiadamente histórico-filosófico via tese de doutorado de Walter Benjamin (1917-1919) – a partir dos pensadores Novalis e os irmãos Schelegel-  ascendeu a discussão sobre ´cartografia dos conceitos´, através do Romantismo Alemão – tais como: ´aura´, ´modernidade´, ´reminiscência,, ´reflexão´ (via conexão e não continuidade) entre outros. A primeira fase desse Romantismo: entre ´a religião e a revolução´, ´crítica e crítico´, ´idéia e ideal´, ´prosa e poesia´. Tb. – ´obra inacabada´-, ou seja, ´ o devir´; conceito conduzido com traquejo neste século pelos filósofos Deleuze & Guattari.

Na perspectiva histórica do Romantismo encontram-se também: autonomia das nações; povos com suas realidades geográficas, históricas, religiosas e lingüísticas; experiência vivida e à genialidade artística. No Brasil dos 1800, há forte influência dos trabalhos de Goya, Delacroix, Turner, Rodin sobre a arte de Araújo Porto Alegre, Rugendas e August Miller.

Cabe a sugestão fílmica: François Truffaut –´A história de Adèle H´ (1975), sobre a vida e a morte – o amor que vagueia na insanidade. Adèle era a filha mais nova de literato Romântico Victor Hugo. Truffaut, brilhantemente roteirizou em parceria (a partir do diário de Adèle) e, dirigiu essa película, desde a sua concepção artística literária a composição cenográfica da época (1863). Adèle Hugo é vivida pela  (sempre) bela atriz francesa Isabelle Adjani.

V. também: NAPOLEÃO (filme/ IV partes/ produção HBO), sob direção de Yves Simoneau. França, 2002, 369 min. Atores de primeira linha: Christian Clavier, notável Napoleão, a sempre bela Isabella Rossellini como Josephinnne, além dos grandes Gerard DepardieuJohn Malkovich, entre outros.

Dos séculos antecedentes ao Romantismo Histórico, ou seja, 17 e 18. Ver ARGAN 1992: as divisões dos conceitos Clássico X Romântico. Incluso Romântico no Medievo, do Românico ao Gótico e no Barroco-  em oposição ao Clássico e Neoclássico.

(**) Sugestão da Exposição: Livio Abramo, Insurgência e Lirismo na Biblioteca Mário de Andrade/SP de 7 dezembro 2016 à 12 março 2017. Curadoria e Pequeno Guia de Leitura por Paulo Herkenhoff (Org.) e Leno Veras.

Referências:

AMARAL, Aracy. Arte para que? São Paulo: Nobel/ Itaú Cultural, 2003

ABREU, B. Eleonora Duse no Rio de Janeiro (1885-1907) Rio de Janeiro: MEC, SNT, 1958.

BURKE, Peter. (Org.) A Escrita da história: novas perspectivas. Tradução Magda Lopes. São Paulo: Editora da Universidade Paulista, 1992.

GONTRAN Guanaes Netto (entrevistas-vídeo a Gisele Miranda): 04, 11 e 18/12/2002; 12/02/2003; 15/01/2003; 15/03/2003; 07/01/2005; 24/04/2005; 08/06/2006.

HOBSBAWM, Eric J. (1917-) Sobre história. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

´O Gigante´ de GOYA

2 jan

Por Gisèle Miranda

 

Ao

Amor

e à

Guerra

 

Francisco GOYA (Fuendetodos, Espanha, 1746 – Bordéus, França, 1828)  O Gigante, c. 1818. Água forte e buril, 28,5 x 21 cm. Museum of Modern Art, New York.

 

Designado: ´O Gigante´! Ninguém conhecia sua estatura ou peso. Ele foi muitas vezes representado no imaginário popular como Napoleão Bonaparte. Não pela França, pois Goya fez ´O Colosso´ para a Espanha. Mas ninguém representava tão bem a figura desse Gigante como aquele homem que surgiu entre a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Errou ao sagrar-se imperador?

– Aquele homem? Era um comum! Lutou e conquistou. Perdeu e morreu.

Goya fez um mortal que se tornou imortal nas proporções de sua potência. Na poesia de sua arte retratou-o ardorosamente amado. Amado gigante-mente. Amado para ser na sua eternidade, uma imagem indestrutível.

– Por quantas guerras mais? Qual guerra?

O pintor da corte do Neoclássico Espanhol foi a forte expressão do Romantismo. O Séc. 19 deve muito a Goya, que na aparente estabilidade profissional empunhou seu Realismo Social e Político sobre o amor e a guerra; dor como parte intrínseca. Naquele momento seu tempo expirava. Rasgou o Barroco e os olhos cegos de sua aristocracia.

Goya cavou o Romantismo e cruzou mares e movimentos em um historicismo confortável ladeado pela Modernidade.

Sólidas estruturas para o tão só e desnudo Gigante de Goya! Que frágil e duro corpo coloca-se à nossa frente?! Era o desterro:

– Em Santa Helena? Sem o gozo do perto: solitário!

Lá está o Gigante na forma disforme da opulência de seu corpo ou da imaginação de seu povo?  Como pode estar tão solitário com toda a devoção à sua grandeza?

O tato e o afeto não se aproximavam. Havia reverência e distanciamento. Muitos gritaram seu nome em coro, uníssono. Goya já estava surdo!

Muitos choraram por temerem perdê-lo e, por fim, a derrocada. Mas Goya não permitiu que a fúria do tempo ousasse esquecê-lo.

O que diz esse olhar querendo ser olhado? O corpo almejando ser tocado? Essa boca como a de um mortal desejando ser beijada. Despudorado esse sexo comum ser amado!

–         É divino ou poesia?

–         É medo ou poesia?

–         É dor ou poesia?

Do alto o mar à vista.  A lua é um quarto crescente. A sensação é de vazio, enquanto estava a seus pés a fêmea cidade! Por ela, ´O Gigante´ lutou até cair nos braços da morte.

Se encarada a versão mitológica, ´o gigante´ é o monstro, é o cruel; ciclope, minotauro, monstros submarinos shakespereanos. Meio homem, meio animal.  Mortal e imortal. De Goya, a imagem de Saturno devorando sua própria cria.

 

Goya (Fuendetodos, Espanha, 1746- Bordéus, França, 1828), Saturno devorando seu filho, 1815. 146 x 83 cm. Museu do Prado (Madri/ ESpanha)

 

Não por acaso que é unanimidade entre os críticos e biógrafos de Goya confessar a dor como base para ousar escrever sobre este artista e sua arte. Confessarei apenas que:

´Eu vi´, ´O Gigante´ de Goya! Tal qual o próprio Goya respondia ao ser indagado sobre o que pensava ao criar.

 

Referências:

V. Tb. versão “Saturno” por Peter Paul Rubens (1577-1640)

Francisco GOYA, nasceu em Fuendetodos (Saragoça – Espanha), em março de 1746, e faleceu em Bordéus (França), em abril de 1828.

Final do século 18 e, início do século 19, o Romantismo aconteceu na pintura histórica e na ressurreição Gótica ou Neo Gótico (verticalização das igrejas; a primeira fase Gótica se deu entre os séculos 13 e 15. O Romantismo deu sinais de seu esgotamento em meados do século 19.

O Romantismo tem uma face demasiadamente histórico-filosófico via tese de doutorado de Walter Benjamim (1917-1919) – a partir dos pensadores Novalis e os irmãos Schelegel-  ascendeu a discussão sobre ´cartografia dos conceitos´, através do Romantismo Alemão – tais como: ´aura´, ´modernidade´, ´reminiscência,, ´reflexão´ (via conexão e não continuidade) entre outros. A primeira fase desse Romantismo: entre ´a religião e a revolução´, ´crítica e crítico´, ´ideia e ideal´, ´prosa e poesia´. Tb. – ´obra inacabada´-, ou seja, ´ o devir´; conceito conduzido com traquejo neste século pelos filósofos Deleuze & Guattari.

Na perspectiva histórica do Romantismo encontram-se também: autonomia das nações; povos com suas realidades geográficas, históricas, religiosas e lingüísticas; experiência vivida e à genialidade artística. No Brasil dos 1800, há forte influência dos trabalhos de Goya, Delacroix, Turner, Rodin sobre a arte de Araújo Porto Alegre, Rugendas e August Miller.

Cabe a sugestão fílmica: François Truffaut –´A história de Adèle H´ (1975), sobre a vida e a morte – o amor que vagueia na insanidade. Adèle era a filha mais nova de literato Romântico Victor Hugo. Truffaut, brilhantemente roterizou em parceria (a partir do diário de Adèle) e, dirigiu essa película, desde a sua concepção artística literária a composição cenográfica da época (1863). Adèle Hugo é vivida pela bela atriz francesa Isabelle Adjani.

V. também: NAPOLEÃO (filme/ IV partes/ produção HBO), sob direção de Yves Simoneau. França, 2002, 369 min. Atores de primeira linha: Christian Clavier, notável Napoleão, a sempre bela Isabella Rossellini como Josephinne, além de Gerard Depardieu, John Malkovich, entre outros.

Outra sugestão fílmica, (apresentação no Festival do Rio 2007/ Mostra Internacional de Cinema SP 2007 – set. e out. 2007): Sombras de Goya, 2006, dirigido por Milos Forman e roteiro de Jean-Claude Carrière,  com atuações de Javier BardemNatalie Portman.

Também cabe lembrar a exposição GOYA: as séries completas das gravuras (coleção Caixanova), que ocorreu em abril/maio de 2007, no MASP, sob a curadoria de Teixeira Coelho.

Dos séculos antecedentes ao Romantismo Histórico, ou seja, 17 e 18. Ver ARGAN 1992: as divisões dos conceitos Clássico X Romântico. (incluso Romântico do Medievo, do Românico ao Gótico e Barroco em oposição ao Clássico e Neoclássico.

ARGAN, G. C. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

COLI, J. O sonho da razão produz monstros. In: A crise da razão. São Paulo, Companhia das Letras, 1999. p. 301-312.

BENJAMIN, Walter. O conceito de crítica de arte no Romantismo alemão. São Paulo: Iluminuras, 1999. 2ª ed. Tradução, prefácio e notas: Marcio Seligmann-Silva.

CARRIÈRE, J.C. & FORMAN, M. Os Fantasmas de Goya. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

GOMBRICH, E. H. História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

GUINSBURG, J. (Org.) O Romantismo. São Paulo: Perspectiva, 2005.

HUGHES, Robert. Goya. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

LÖWY, Michel. Romantismo e messianismo: ensaio sobre Lukács e Walter Benjamim. São Paulo: Perspectiva, 1990. Tradução: Myrian Veras Baptista e Magdalena Pizante Baptista.

LÖWY, Michel. Messianismo e revolução. In: A crise da razão. São Paulo, Companhia das Letras, 1999. p. 395-408.

Revista BRAVO! GOYA. São Paulo: Editora Abril, 2007. Ano 10, n. 116, p. 26-37 (abril).

TOMLINSON, Janis. Francisco Goya y Lucientes (1746-1828). New York: Phaidon Press Limited, 2006.

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