Gerações

24 ago

por Gisèle Miranda

 

Dentre as leituras em periódicos encontrei uma pérola temática: “a Geração Perdida” no espaço do leitor. (‘Somos a geração perdida’, avalia aluno da UnB )

A bem capturada ideia à marca da geração remeteu a Hobsbawm, em sua escrita e na licença necessária do historiador de experienciar o presente, a partir de sua trajetória intelectual. De sua geração, a maioria se foi. Mas as gerações posteriores estão aí como partes (geracionais) do “breve século 20” – desde seu fluxo tardio às questões atuais do século 21.

Há todo um contexto histórico nas minúcias geracionais. Para uns, a liberdade, para outros, a existência, a democracia e etc. Mas há marcas desses contextos históricos que nos fazem elos geracionais. O lixo abunda, e a valorização dos canais com o mundo raramente alimentam o olhar sobre o outro em solidariedade, mas ego-massageia a alienação. Para quê o outro?

O que se detecta criticamente é que o outro não tem importância, não tem história, não tem memória, e que na intensidade de alcançar o futuro, esquece-se das diferenças. Há a socialização cultural ou comosocialização política, isto é, os meios pelos quais o conhecimento, as idéias e os sentimentos são transmitidos de uma geração para outra. (BURKE, 2002: 111).  Essa transmissão tem tomado a forma alienante e cogita ser apolítico – como se pudesse!

E um dos pontos que precisa ser reconhecido em função desse desmembramento é que, quem nega a diferença entre esquerda e direita está procriando um núcleo de direita, segundo Hobsbawm.

Os dois historiadores citados conheceram o Brasil, não como turistas, mas como pensadores e amigos de causas que lhes dizem respeito. E a historiadora que vos escreve é uma brasileira; e sou de um tempo – de uma geração – que provém do existir como exercício memorial; pelas condições de inexistencialidade; geração da ditadura militar, do silêncio, da abertura democrática, da AIDS, da diversidade das drogas, de um alto índice de suicídios, da presença na ausência, da globalização. (Lia MIRROR)

Sou de um povo e de uma geração de cidadania ainda em construção pela herança cultural, que sobrevive sob vários aspectos e preponderantemente na violência. Historicamente temos marcas não sanadas no genocídio indígena, na escravidão de negros africanos, dos quais somos descendentes em mistura aos colonizadores.

Algo tem que ser reinterpretado e passado a limpo, pois ainda temos como memória imediata, um Estado que legitimou a tortura e o silêncio. Os frutos estão como bem relatado pelo aluno da UNB, na “impregnação de preconceitos” e de retrocesso dessa geração – geração desdobramento da minha, e por conseguinte, desdobramento da geração que lutou por um Estado democrático – e que convivem.

Sala Escura da Tortura, trabalho coletivo: Gontran Guanaes Netto, Julio Le Parc, Alejandro Marco, Jose Gamarra, 1973

O estudante universitário da UnB tem motivos de sobra para expor sua geração, afinal, as questões colocadas nos remetem a atos como a queima de índios e mendigos, agressões as mulheres, aos nordestinos, ao crescimento de neonazistas, homofobia, bullying, entre outros.

Paralelos a isso temos manifestações temáticas como: feminismo, drogas, sexualidade, entre outras. Em princípio encabeçadas por grupos sérios, mas que têm tido adeptos temáticos sem aprofundamento das questões – “a geração perdida”. Por isso, é mais comum do que se possa imaginar, encontrar feminista com tatuagem da suástica, homossexual com preconceito a nordestinos…, “jovens universitários defenderem que é a mulher quem precisa cuidar dos filhos, enquanto o homem provê o sustento da casa. Ouço também que os direitos das minorias não podem prevalecer caso “incomodem” à maioria.” (relato do jovem da UnB).

Que geração é essa?!

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Uma resposta to “Gerações”

  1. Fabio Perez 26 de agosto de 2012 às 19:01 #

    Ótimo texto. Acredito que estamos deixando os principios e os conceitos das coisas de lado e agindo como “programados” (A crise do Design do Argan), desmerecendo o que nos foi dado pela democracia, conquistada com sacrifício pelos heróis anonimos dos anos da ditadura. Mas ainda vivemos uma ditadura, porém invisível, que se esconde nas mensagens subliminares dos programas de TV, das músicas das rádios, nas primeiras páginas dos grandes jornais do país e das revistas de opinião. Existe um paradigma imposto pela atualidade que nos faz andar cheios de pressa e nos desvia a atenção tirando-nos o interesse de parar para ler o que realmente estão querendo dizer. E existem muitas coisas a se dizer, que ainda não pode ser dita. Talvez me chamem de palhaço ou bobo por sair na rua com um cartaz com palavras de ordem, mas quando dizem “beba Coca-cola”, todos bebem sem se questionar se o que estão bebendo mata a sede ou seda a capacidade de serem livres (vide “A “rebeldia” do Charlie Brown Jr. engarrafada pela Coca-Cola” – http://www1.folha.uol.com.br/fsp/folhatee/fm2710200313.htm). Posso ser um esquerdista com simples atitudes, como a de comprar, no caso de um refrigerante, um que seja produzido na minha cidade, que gera empregos aqui na minha cidade. Mesmo que não concorde com as armadilhas do capitalismo, este pequeno ato, acredito, já é um grande passo para o consumo consciente. É anti-imperialista sem precisar ir à ruas, passar despercebido por quem tem pressa. Pelo que parece estamos cegos a cada dia mais e mais. Imagine o Niemeyer sem o seu pensamento político se seria o que é! Veja o interesse dos teus alunos de Design na leitura dos textos das aulas. Com certeza são fatores agravantes à crise do Design. Somos ou não somos o futuro da nação? Perguntas como esta só geram sorrisinhos em quem, sem esperanças em si mesmo, ainda assim acredita que o Cristo vai descer do topo do Morro do Corcovado e salvar toda a humanidade do buraco em que se enfiou, e todos serão felizes para sempre. Abraços!

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