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Série Ficcional H. Miller XXIX: A cama divã

26 jan

por Lia Mirror, Laila Lizmann, Lara Kleine Augen & Gisèle Miranda

 

 

(…) As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
(Álvaro de Campos pseudônimo de Fernando Pessoa)

 

 

 

Após a morte de nosso amigo ancião Blake, os livros foram dispersos, as histórias perderam os fios de Ariadne e os monstros que roíam as entranhas dos que LIAM, deixaram de existir.

O salto para o abismo se deu entre a realidade e a ficção; passou por Foucault* e se deleitou no escarnio de Henry Miller. Assim sucedeu a árdua tarefa.

– Ele pegou a caneta, os olhos, o papel, o corpo dela e riu. Riu e os colocou no tempo perdido, díspares. O bicho raivoso da vaidade predatória, desumanizou e fez das suas noites, outras bocas, outros corpos na cama dela.

 

Louise Bourgeois (1911–2010) Sete na cama, 2001.

Louise Bourgeois (NY, EUA,1911– Paris, França, 2010) Sete na cama, 2001.

 

Todos riram! A nobreza plebeia construída nas solitárias leituras rasgou uma carta. Uma, das tantas cartas de amor, porque só os ridículos escrevem cartas de amor. **

Ela rasgou o tempo, cortou as letras, os segredos, as palavras, as mãos, a grafia, o cheiro, a tinta, o gosto e as fotos. Não bastasse, ela devorou o próprio coração, assim como Rimbaud, lentamente.

A memória será esquecida. O olhar não enxergará. O gosto não provará. O toque será um iceberg. Reconstruirá um Frankenstein, só amado por seu criador; ou, uma Alma Mahler inflável e amada por Kokoschka?

Alma Mahler de Oscar Kokoschka, s/d.


A febre foi testemunha, enquanto ela confeccionava seus monstros, ardia e jorrava larvas. No delírio ela foi em busca de um livro, o que desencadeou um pesadelo Shakespeariano. Aos prantos, ela gritou por Shakespeare diversas vezes.

Amanhã será outra dor. Enquanto as pessoas rirem, nós protegeremos a ingenuidade, o sorriso do olhar menina que percorreu os mesmos rios dos algozes e enfrentou a fadada miséria, violência, pedras, precipícios, afogamentos, curras, enforcamentos e surras.

Da pedra bruta brotou uma flor rara. Da brutal fragilidade nasceu um vento forte para as ondas de um mar tempestuoso. Náufraga, salva pelo olhar atento do lobo do mar.

Louise Bourgeois (1911–2010) Cama azul,  1998 gravura 49,5 x 67,3 cm

Em terra firme ela foi jogada no picadeiro com nariz de palhaço. De lá viu o lixo abundante, nada reciclável. Viu a crosta numa casca podre que escorria água suja.


Ah, esse monstro que nos rói as entranhas tem nome, tem história, tem o valioso conteúdo dos livros, dos saberes e até do rejuvenescimento, segundo Thomas Mann. Ah, Henry Miller, Rimbaud, Dostoiévski e tantos outros que venham eternizar nossos sentimentos, nossas falas, nossos sexos, nossas dores, nossas palavras.

“Agora

não navega

nem tampouco vive

erra

se

escrito” (Vogt, Marinheiro Pessoa***)

 

Nota:

(*) Foucault: “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” (Foucault, 1990)

(**) Álvaro de Campos, in “Poemas” Heterônimo de Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 1888- Idem, 1935): “Todas as cartas de amor são ridículas” Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 84. 1ª publ. in Acção, nº41. Lisboa: 6-3-1937.

 (***) Carlos Vogt. O Itinerário do Carteiro Cartógrafo – Cantografia. São Paulo: Massao Ohno, 1982.

(1) MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963.

 

 

Série Ficcional H. Miller XXVIII: Coração

12 jun

por Lia Mirror

“… o espírito é como um rio que procura o mar. ” (Henry Miller)

“- Pode entrar, Dr. Fausto lhe aguarda. ”

Apreensiva adentrei novamente o consultório. De imediato avistei Dr. Fausto e o elogiei pela bela aparência ´jovem´; a minha corria o tempo dos mortais.  E mesmo com a alma comprometida (1) fui agraciada pelas belas palavras do doutor ao referir a mim, como uma ´jovem liberta´ devido a constância nos estudos. Disse enfaticamente: “estudar nos torna jovens! (2) Mas, o que a trouxe dessa vez? Ainda há um coração? Ou devoraste o teu como Rimbaud? “

Coração coeur-de-louise bourgeois, 2004
Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), HEART, 2004.

Meu coração pesa muito; é como o coração de um beija flor. Entre o assado e a carniça há um coração e um Dürer.

– “Desculpe doutor, o sr. Thomas Mann pede urgência! ”

– “Fausto, meu caro.  Venho interceder por esse coração… se a alma não foi vendida pela juventude, o coração não deve ser leiloado.  Uma alma pelo Dürer foi a abdicação do ego, do valor ao outro. Dürer será preservado! O coração de um beija flor também merece ser inscrito nessa história, aquém da juventude e da riqueza. Deixe-a ir. Interfiro nessa escrita por conhecer o que sustenta esse Ser. “

corações louise 2006
Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), Untitled (Hearts), 2006.

Mais uma vez, Dr. Fausto riu como Mr. Ryde, mas logo respondeu como Dr. Jakyll e por conseguinte como H. Miller.

Robert Louis Stevenson invadiu o consultório. Mann e Stevenson chegaram a esboçar um confronto, mas gritei a efusão literária até falhar a voz. O coração era meu, a dor era minha. Peguei minha bolsa e saí sem olhar para trás.

A transformação foi imediata: “pele por escamas, pernas por cauda, guelras e música” (3)… ao MAR.  ‎

Referências:

(1) Minha Alma Imortal

(2) MANN, Thomas. Doutor Fausto. Tradução Herbert Caro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1952. Volume II, p. 417.

(3) A(…)MAR ou “vivendo com saudades”

Série Ficcional H. Miller XXVII: O corpo por um fio

13 abr

por Lia Mirror

Se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe.

(Henry Miller)

Em um daqueles dias torrencialmente chuvosos, corri pelas ruas como um dia de sol. O sol era interno no manicômio do meu corpo. Despi as vestimentas morais e ri dos insanos olhares. Molhada também de prazer, torci o peso do encharque e continuei bendizendo o desejo. Blasfemei os tropeços e me joguei como um tênis sobre um fio de alta tensão.

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010)  Arch of hysteria, 1993.

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010) Arch of hysteria, 1993.

Por alguns segundos oscilei como um pêndulo; mas logo caí. A queda foi amortecida pelo divã abandonado; as mãos protegeram-me do embate corporal, mas as linhas  foram alteradas, foram reescritas. Levantei e caminhei contra o tempo. Confrontei e abri frestas subterrâneas. Nadei rios de correntezas e subi o morro para avistar o mar. Era o meu morro do nascimento. Meu Morro, Morro de saudades. Meu desejo, Morro de desejos.

Ao poetizar o Morro dei conta de que nosso encontro não estava previsto. Insurgimos e esculpimos nosso próprio tempo. Nossa mistura de segredos e diferenças. O gosto do gozo. O prazer da ficção.

Série Ficcional H. Miller XXVI: Do Pacífico ao Atlântico

26 jan

por Lia Mirror

 (…) Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina…
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico… E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Ode Marítima, 1890.

Enquanto içava as velas no Atlântico lembrei dos 23 tripulantes resgatados de um naufrágio; um, não sobreviveu a sua própria tormenta. Antes mesmo de chegarmos em terra firme, o lobo do mar se jogou no Pacífico como isca para tubarões amarrado à proa numa enorme corda. O nó que o galego marinheiro fez tem nome: chama-se Bispo do Rosário, em homenagem a outro marinheiro.

Logo, contando comigo retornamos aos 23. Somados 2+3 resultou no número de tripulantes dessa nova empreitada pelo Atlântico.

O propósito dessa viagem é resgatar Bas Jan Ader (*), ou, quiçá oferecer-lhe minha escuta ou o desejo de percorrer limites e sentir do ardor a dor. Debater a queda; cair da bicicleta, cair do telhado, cair da árvore, cair no rio que leva o corpo, que afoga por instantes e que salva por um ‘triz’. Adentrar as profundezas do mar. E de tanto borbulhar no mar, tropeçar e dizer amar.

Não! Bas Jan Ader não foi salvo. Ele foi libertado. Cansou do riso fácil, enquanto estudava sobre a queda e o limítrofe de vida e morte. Tênue fio da navalha. “Ele partiu e nunca mais voltou…”.

Quando dei por mim, estávamos nós cinco: Bas Jan Ader, seu Alberto, meu amigo ancião Blake, Miller e eu. O medo da solitária viagem pelo Atlântico dissipou. Abrimos nossos braços às tempestades, gritamos aos deuses impropérios, ficamos embriagados de nossas falas ao falo. Trituramos nossa própria carne, cuspimos trovoadas e retornamos ao desejo. Do desejo ao gozo como em um álbum além  mar… mar… mar… a… mar!

(*) Bas Jan Ader (Winschoten, 1942- Atlântico, 1975) desapareceu “no oceano Atlântico ao tentar atravessá-lo com minúsculo veleiro enquanto realizava a segunda parte de um tríptico chamado In Search of the Miraculous”. In: Catálogo da 30ª Bienal, 2012, p. 110-111. Documentário de Rene Daalder, O desaparecimento de Bas Jan Ader, 1975

Série Ficcional H. Miller XXV: a imensidão do mar tem a cor dos seus pequenos olhos castanhos

30 dez

por Lia Mirror & Laila Lizmann

Um dia meus pequenos olhos castanhos foram vistos azuis como o mar. O mar que não existia entre nós fez-se como reflexo dos seus olhos. Era uma bela tarde vazia; apenas um eco do azul profundo e reafirmação de uma beleza oca comparável a juventude perecível.

Sempre questionei o vazio e ao mesmo tempo percebi que me espreitava; olhos que viam meu corpo sob a água abundante. Seu olhar entrementes sempre em disfarce como se algo fosse acontecer.

Escapei do incômodo e fui cercada pelo seu esteio;desviei o que pude, mas, a caçada foi incisivamente cirúrgica. Então, erguei-me a vê-los comparsas – cúmplices de seus desejos.

Fui emboscada – a presa, a carne. Nesse momento vi que também eram azuis os olhos do algoz, mas pequenos como os meus. Alquebrada que estava, ainda vi o jogo intermitente. O acordo era o pérfido olhar que ambos tinham em comum.

H. Miller apareceu subitamente no momento da degola; ergueu-se diante de todos como gigante; fui resgatada e acordada com seus beijos. Disse que meus pequenos olhos castanhos tinham a cor da imensidão do mar. E continuou:

dali
Salvador DALI por Philippe Halsman, 1954.

O verdadeiro mar tem o seu cheiro, a profundidade e as tormentas das ondas, a sonoridade irresistível do canto das sereias; a imensidão do mar está em seus pequenos olhos castanhos, por isso… “eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro… um mundo inexplorado.” (1)

Nota:

MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963 a, p. 177.

Série Ficcional H. Miller XXIV: ´minha alma imortal´

2 ago

por Lia Mirror, Gisèle Miranda e Laila Lizmann

 

“… Minha alma imortal… que venha a manhã com brasas de satã…”

Arthur Rimbaud (Charleville-Mézères, 1854- Marselha, 1891)

 

Decidi colocar minha alma à venda. Corri para conversar com Thomas Mann que de imediato indicou-me o dr. Fausto. Antes de assumir sua dialética visão de liberdade que lhe valeu a alma, gritei:  – minha alma imortal está à venda!!!

Exclui a carne tal como ele (s). Quanto vale minha alma? Um Dürer? Afinal, todos os planetas convergem para o signo de Escorpião bem como mestre Dürer os desenhou sabiamente no folheto medical. [1]

Minucioso Dürer! Os bons sentidos te louvam por suas gravuras; só o olhar próximo pode dimensionar o tamanho do que você fez… faz. Percorro cada centímetro dos seus sentidos. Ah, essas Luzes do Norte!

Dürer  o cavaleiro e o demônio

Dürer (Nuremberg, 1471 – Nuremberg, 1528), O Cavaleiro, a Morte e o Demônio, 1513. Gravura sobre metal 25,19 cm.

Inclino-me a comparar sua solidão com um abismo, no qual se aprofundam, sem ruído nem rastro, os sentimentos…, disse-me dr. Fausto em consulta.[2] Interrompi sua fala para dizer-lhe que segundo meu amigo ancião: – a solidão é um porvir para poucos! Complementei cantarolando o fundo musical: …vou botar minha alma à venda… nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça… [3]

Dr. Fausto riu como Miller. Meus olhos foram atravessados a nado. Nesse percurso vi e ouvi trechos do escárnio da vida. Alguns vinham de Henry Miller, outros de Thomas Mann até chegar Robert Louis Stevenson.

Ao ampliar meu olhar naquele mar de palavras, vi o retrato de Dorian Gray. Pedi a dr. Fausto que parasse com aquela miscelânea e que fôssemos direto ao ponto, ou seja, a venda de minha alma.

Dr. Fausto riu como Mr. Ryde. Vi uma figura que “assemelhava-se a uma gravura de Albrech Dürer – uma mistura de todos os demônios sombrios, irascíveis, taciturnos…”[4].

Quando dei por mim, ouvi em sussurros…sua alma merece um Dürer, disse Miller. (em minha boca e com o ardor literário)

dürer detalhe o cavaleiro... 1513

Dürer (Nuremberg, 1471 – Nuremberg, 1528), Detalhe da assinatura de Albrecht Dürer em O Cavaleiro, a Morte e o Demônio, 1513.

Notas:

[1] Mann, 1947: 313

[2] Mann, 1947: 11

[3] Zeca Baleiro, Babylon, 2000.

[4] Henry Miller, Trópico de câncer 

Referências:

MANN, T. Doutor Fausto (I). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1947.

MILLER, H. Trópico de Câncer. Trad. Aydano Arruda. Rio de Janeiro: O Globo: São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.

RENASCIMENTO Alemão: gravura da coleção Rothschild colletion. Texto Teixeira Coelho, Pascal Torres. São Paulo: Comunique Editorial, 2012.

STEVENSON, R. O estranho caso de Dr. Jakyll e Mr. Ryde. Rio de Janeiro: Clássicos Econômicos Newton, 1996.

Série Ficcional H. Miller XXIII: “Sei que a água é tranquilizante para os loucos, assim como a música” (1)

9 abr

por Lia Mirror, Gisèle Miranda & Laila Lizmann

Depois de ser esbofeteada por argumentações lascivas à liberdade tive que me afogar. Não esbocei nenhum nado, nenhum movimento de sobrevivência. Quis sentir a tranquilidade dos loucos enquanto ouvia o som daquele mar escuro e das borbulhas do pensamento.

Não esperava nada (r), assim fui deliciosamente tragada pela queda em câmera lenta. Ao abrir os olhos, deparei-me com Robert Redford aos 77 anos, sem dublê, em seu retorno à “origem” através do personagem solitário de um barco naufragado. (2)

No fundo do mar e com os braços abertos eu estava exatamente como ele. Íamos nos olhando como um espelho até que nossos pensamentos foram perdendo a razão e, consequentemente, passamos a nos ver como alucinação. Mas como nos víamos naquela escuridão?

No instante em que percebemos a luz em nossos corpos à deriva movimentamos nossos braços como nadadeiras e desesperadamente subimos à superfície. Fomos resgatados por um barco com 23 tripulantes. Foi uma noite conturbada.

Enquanto contava para seu Alberto sobre a noite passada, em um almoço, ele tossiu como um pedido para falar. Interrompi meu naufrágio e ele perguntou: – você não viu o Bas Jan Ader? (3)

bas-jan-ader-historiador

Bas Jan Ader (1942-1975), “Historiador”. 30ª Bienal de São Paulo, 2012 (foto G.M)

Lamentei não ter visto o Bas Jan Ader. E disse a seu Alberto: – prometo procurá-lo quando estiver no Atlântico, pois estive no Pacífico.

Ele levantou as sobrancelhas e pediu-me com um gesto que continuasse a minha desventura. As vezes preciso decifrar o seu Alberto em código visual, pouco sonoro. Logo fomos interrompidos por aquela voz conhecida.

– Com licença, o que temos hoje além de Robert Redford?

– Maldito H. Miller! (falei)

– Que prazer, H. Miller ! (falou o seu Alberto)

Miller sentou-se conosco e olhou-me como há muito tempo. Seu Alberto apenas sorria. Então eu disse: – Quis me revoltar contra tudo e contra todos: – “inclusive contra a mim mesmo (a)”, dissemos Miller e eu (concomitantemente) esse finalzinho de frase; e ele continuou: – O desejo de liberdade é um desejo de um condenado! (4)

– Liberdade como fim da dominação! Sem a condenação do “Outro” imposto pelo sexismo e tantas outras ervas daninhas. (disse, exasperadamente)

– Vamos continuar nossa conversa no balanço do barco. Convido a todos para um passeio pelo Atlântico, o que acham? Vamos mergulhar com Bas Jan Ader.

Referências/notas:

(1) Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, p. 115.

(2) Filme: ATÉ O FIM (All is lost) Direção C. Chandon. EUA, 2013, 106 min., color., son., leg. Português. O Único personagem do filme é interpretado por Robert Redford. A palavra “origem” entre aspas deve-se ao comentário de Redford por seu retorno a seu ofício de ator, já que esteve afastado um bom tempo em função da co-criação e militância do Festival de Sundence e em seu outro ofício como diretor de filmes.

(3) Bas Jan Ader (Winschoten, 1942- Atlântico, 1975) desapareceu “no oceano Atlântico ao tentar atravessá-lo com minúsculo veleiro enquanto realizava a segunda parte de um tríptico chamado In Search of the Miraculous”. In: Catálogo da 30ª Bienal, 2012, p. 110-111. Documentário de Rene Daalder, O desaparecimento de Bas Jan Ader, 1975

(4) MILLER, Henry. A hora dos assassinos. São Paulo: Francis, 2003, p. 114.

Série Ficcional H. Miller, XXII, parte II – Tudo ou nada (mediado)

4 mar

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

Diz o ditado: Os loucos chegam correndo onde os anjos temem pisar (Miller, Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch, 2006, p. 159)

 

A mediação é um antídoto ao vazio do pensamento. Ela tem que ser ampla para alcançar as partículas que anseiam pela banalidade.  Miller insistiu no diálogo com Arendt e Chauí. Mas vociferou como Bóreas, um dos filhos do senhor dos ventos: –  pense…. Vá antes que eu lhe mate!  (Miller repetiu a frase de seu Nexus como um épico tempestuoso).

Enquanto expandia meu pensamento em uma sala de espera de hospital, fui chamada pelo médico. Voltei a sentir as pontadas em meu peito. Desta vez, me contorci, apertei os olhos e gemi o som da dor.

Ao abrir os olhos vi e senti suas mãos percorrerem os campos minados do meu peito e, logo semearam os girassóis de Van Gogh. Recitei em silêncio o Nexus: – “Você me dá coragem. Mesmo quando não diz nada. Tenho que tirar êsse pêso do peito.” (Miller, 1968, 393)

Logo, a respiração assumiu uma cadência pausada, apesar da dor que insistia. Tomei a coragem que você me ofertou e caminhei pelos becos sombrios até o ponto da bifurcação. Caminhei sem temer a falésia e gritei aos quatro ventos.

Emmanuel Nery, Sucessor, 1988. Acrílico sobre tela 55 X 46 cm. Coleção Moacyr dos Reis Abreu, RJ

Emmanuel Nery (Rio de Janeiro, RJ, 1931 – idem, 2003) Sucessor, 1988. Acrílico sobre tela    55 X 46 cm. Coleção Moacyr dos Reis Abreu, RJ

–  Pronto! (disse o doutor) A dor e as misturas de colorações do roxo ao amarelo serão graduais.

Sorri a frieza de suas palavras, enquanto lembrava do reencontro com Miller. Vasculhei os seus punhos à procura das iniciais HM, mas nada encontrei.

– Vamos aguardá-la na semana que vem. (foram as últimas e enxutas palavras do doutor)

– “Vamos?” (retruquei) Quem me aguardará, além do senhor?

O médico hesitou sua gélida saída, por alguns segundos, virou o rosto e sorriu o largo sorriso de H. Miller!

 

Referências:

MILLER, Henry. Nexus. Rio de Janeiro: Record, 1968. 

MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006

Sobre o artista Emmanuel Nery.

Série Ficcional H. Miller, XXII, parte I: tudo ou nada

3 mar

por Lia Mirror & Laila Lizmann 

 

 

…volte para casa e pense…. Vá antes que eu lhe mate!

Voltei-me imediatamente e parti rumo à porta. Necessitei de tôda a coragem para não romper em uma corrida. (H. MILLER, Nexus, 1968, p. 170)

Véspera de tempo outonal em pleno verão. As mãos ficaram trêmulas. Tremi depois de observar o entorno: todos estavam acolhidos com seus pares e  suas crianças correndo lá e cá, mas, ninguém estava sozinho.

Quando ouvi meu nome levantei da cadeira como se tivesse sido empurrada. Caíram os exames que estavam amparados pelas minhas pernas e larguei o copo d`água que segurava. Me senti descoberta quando a água esparramou pelo chão como uma explosão estelar de braços, pernas, muitos peitos e um cachimbo no canto esquerdo – que não é um cachimbo – diriam, Magritte e Foucault.

Emmanuel Nery, Fêmea completa, 1988,  acrílico sobre tela (55 x 46 cm) Coleção P. M. Bardi, SP.

Emmanuel Nery (Rio de Janeiro, RJ, 1931 – idem, 2003), Fêmea completa, 1988, acrílico sobre tela (55 x 46 cm) Coleção P. M. Bardi, SP.

E ainda pensei: e se, H. Miller for o doutor ? Mas, não era.  No taciturno doutor, a dessemelhança da foto do filho, sorridente, entre os outros filhos.

Vi um servo do oficio, enquanto atendia as ligações; quando a secretária entrou repentinamente, avistei as iniciais no punho esquerdo do doutor: HM. Do punho dele saltaram duas exasperantes dores em meu peito. Bravamente, não deixei transparecer.

Entre as interferências externas, ele fez perguntas rápidas e formais ao pronto encaminhamento e disse: “- Pode ser tudo ou nada. Eu prefiro assim, porque existe a dúvida. “

Sempre vi na dúvida uma posição a ser tomada. Como a direita e a esquerda. Pensei: onde há raízes da violência, não há ética. Onde há abominação política projeta-se o fascismo. (CHAUÍ, M. In: CULT, 2014, 42-52)

Então, respirei a dúvida e a converti em uma tomada de posição cognitiva que se opôs ao vazio do pensamento, independente do lado. (Harendt, 1999).

 

 

Referências:

ARENDT, H. Eichmman em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

CHAUÍ, M. In: Revista CULT, Edição Especial Grandes Entrevistas, n. 1, ano 17, 2014, pg. 42-52

MILLER, Henry. Nexus. Rio de Janeiro: Record, 1968. 

Sobre o artista Emmanuel Nery (E. NERY): V. neste blog a Série Emmanuel Nery

Série Ficcional H. Miller XXI, parte II: “a traição das imagens”

7 abr

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

 Às vezes acho que nasci com fome. E essa fome está associada a caminhadas, à vagabundagem, à procura, ao incessante e febril perambular de um lado a outro.

(MILLER, 2003, p. 27)

 

Antes de Turner, Miller dissertou sobre Bosch: – As laranjas da época de ouro de Bosch restabelecem a alma: a atmosfera onde ele as suspendeu é eterna, é a do espírito tornado real (Miller, Big Sur: 43). Objetou por alguns segundos, e tão logo referendou: o desejo de liberdade é um desejo de um condenado! (Miller, 2003, 114)

Joguei a toalha, mas ele a interceptou no ar e continuou: – as laranjas de Bosch ou as de Van Eyke, as maçãs ou os cachimbos de Magritte? Nada acontece pelo conforto, mas pelo boicote a estabilidade que aprisiona o pensamento. O que a trouxe aqui? Falar das frutas ou do fálico cachimbo? A liberdade, a dor, as cicatrizes? Ou a solidão de Goya em sua série Gigantes, Colossos? Seu assombro por minhas palavras permeia os incorrigíveis deleites do Romantismo de Madame Bovary, Anna Karenina e Adèle Hugo.  Recordo a bela Fanny Ardant ao falar de A mulher do Lado: – “Eu me lembro que Truffaut dizia que essa era uma história atual… pode-se morrer de amor mesmo hoje em dia”.

René MAGRITTE (1898-1967), A traição das imagens (Isto não é um Cachimbo), 1929. (a primeira versão é de 1926)

 

 

– Pretensioso Milller! Não falei de Tolstoi, Flaubert, Magritte, Bosch, Rimbaud, Goya, Truffaut ou Foucault. São todas elucubrações suas! Tu desejas que todos esses pensamentos estejam em mim. Morrerei de amor em seus braços deleitando-me em gozo. Gozo por todos os olhares que não quis olhar, por todas as bocas e sexos que não desejei pela ausência de afinidades eletivas do bendito Goethe.
– Minha doce Lia: “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” (Foucault, 1990)

 

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

FRANCO JR. COCANHA – a história de um país imaginário. Prefácio Jacques Le Goff. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

FOUCAULT, Michel. O pensamento do exterior. Trad. Nurimar Falci. São Paulo: Princípio, 1990.

FOUCAULT, M. Isto não é um cachimbo. Tradução Jorge Coli. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. 2ª Edição. (Neste livro Foucault trabalhou com a primeira versão de 1926)

MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006

MILLER, Henry. A hora dos assassinos. São Paulo: Francis, 2003.

ARDANT sobre TRUFFAUT:  Fanny Ardant. (atriz foi casada com o François Truffaut)

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