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Série Ficcional H. Miller XXV: a imensidão do mar tem a cor dos seus pequenos olhos castanhos

30 dez

por Lia Mirror & Laila Lizmann

Um dia meus pequenos olhos castanhos foram vistos azuis como o mar. O mar que não existia entre nós fez-se como reflexo dos seus olhos. Era uma bela tarde vazia; apenas um eco de azul profundo e reafirmação de uma beleza oca e que poderia retardar se comparável a juventude perecível.

Sempre questionei o incômodo do vazio, então corri atrás do seu olhar e percebi que sempre me espreitava; olhos que viam meu corpo sob a água abundante. Seu olhar entrementes sempre em disfarce como se algo fosse acontecer.

Escapei do incômodo e fui cercada pelo seu esteio. Enquanto movia meu corpo que driblava-te, e na evidência do isolamento veio a mim o douto do qual desviei enquanto pude. Mas a caçada foi incisivamente cirúrgica. Então, erguei-me a vê-los comparsas – cúmplices de seus desejos.

Fui emboscada; a presa, a carne. Saciado o bicho jogou-me. Nesse momento vi que também eram azuis os olhos de quem me jogou, mas pequenos como os meus. Alquebrada que estava, ainda vi o jogo intermitente. O acordo era o pérfido olhar que ambos tinham em comum.

H. Miller subitamente apareceu no momento da degola. Ergueu-se diante de todos como gigante; fui resgatada e acordada com seus beijos. Disse que meus pequenos olhos castanhos tinham a cor da imensidão do mar. E continuou:

dali

Salvador DALI por Philippe Halsman, 1954.

O verdadeiro mar tem o seu cheiro, a profundidade e as tormentas das ondas, a sonoridade irresistível do canto das sereias; a imensidão do mar está em seus pequenos olhos castanhos, por isso… “eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro… um mundo inexplorado.” (1)

 

Nota:

MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963 a, p. 177.

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Conto: O Sub-Término do Consciente (Parte I)

29 nov

por Caio Madeira

 

O sub-término do consciente ocorreu durante um jantar à luz de velas com comida congelada servida a dois, preparada às pressas pelo namorado. O apartamento, no 8º andar, era pouco mobiliado e a mesa balançava com o sobrepeso da comida em um dos lados. A música que impulsionava o clima era o incessante andar do cachorro hiperativo do vizinho de cima. A namorada sentada no canto da mesa pensava estar em mais um encontro com seu namorado, enquanto o namorado no outro canto chamou-a aquela noite para terminar o namoro.  

A história a seguir se passa no fundo da mente do namorado durante o término – mais precisamente na ponte que liga o consciente e o subconsciente, narrado por um pensamento que leva a outro, que vem de outro, que lembra outro, mistura-se a outro e forma outro, podendo deformar outro ou a si próprio antes (ou depois) de se apresentar ao consciente. E a consciência não é necessária no fundo da mente de quem se deixa levar, conscientemente, pela inconsciência. Por este motivo, não confie em tudo que lê como sendo tudo que ouve ou tudo que falam. Mas desconfiar de tudo seria um erro ainda maior. 

A história a seguir começa exatamente um segundo antes do término, atinge seu clímax no ápice do sub-término da consciência e termina além da vida que é narrada, e nada além disso.

 

ismael-nery-agonia-1931

Ismael Nery (1900-1934) Visão interna – Agonia, 1931. Óleo sobre tela.

…desfaça seu olhar ou vou ter que me exaltar.

Essa expressão em teu rosto, tão leve e bela, amargura o meu. Sei que teu amor ainda vive, mas o meu já pereceu. Esse teu olhar apaixonado faz meu corpo tremer e meu pulso fechar, enchendo-me com uma vontade pulsante de te estrangular. Como pode manter a beleza em seu rosto a me ver sobrecarregar? Comparo-me a um leão mirando ao longe uma jugular, com motivação instintiva incendiando o olhar. Fiz-te um jantar, que sem tua presença estaria congelado, intragável, assim como seu amado namorado que lhe dirige palavras em meio de um pestanejar não tão bem pensado, usurpado de forma e com emoção instável,

eu me sinto incontrolável,

…deslocando meus pensamentos para um assunto que não havia sido nem ao menos comentado durante a mesa, levando-me a agonizar com diálogos isentos de qualquer valor à sanidade que por tanto tempo me fora proporcionada – porém não tão bem calculada – e que, com o tempo, achou um atalho depositado em latas, copos e principalmente taças. Taça igual a esta que seguro na mão, descontroladamente pingando gotas no chão, provavelmente devido ao tremor causado pela forte emoção de estar aqui contigo nesta noite, com pensamentos e ideias em perigosa comunhão.

E não!, não fale nada, pois sei bem como você despreza esse meu eu tão alterado, embriaga-… extasiado. Como detesta ver teu amor defronte a ti internamente violentado por um líquido que não mata a sede em uma garrafa apenas. E você pode ter certeza que essa insanidade misturada na bebida já respingou insensatez em alguns momentos de fraqueza em outras ocasiões, mas que poucos – muito poucos – perceberam que havia algo errado. Foram sempre alguns poucos respingos em ocasiões que pediam trajes secos ao invés de ligeiramente molhados, mas que todos culparam o manchado traje a um descuido com o copo que me fora dado, e que provavelmente deve ter molhado também os pobres desavisados que estavam ao meu lado, que riram de um embaraço ou coisa qualquer que possa ter causado o descuido por minha parte. Pequenos momentos são fortes como qualquer grande momento quando são repetidos em quantidade e honesto intento. Aumentam também em intensidade quando são alimentados pelo tempo que passa. Mas eu divago à sua companhia.

Esta noite, última noite, é nossa! E olha pra você…

Mesmo depois de eu esquentar o jantar e acender estas velas sob a transcendente luz do luar, você me trata como se estivesse desesperada, como se estivesse acabando todo seu ar. Então lhe pergunto: estou eu respirando todo seu ar? Não consegue tomar fôlego com minha mente a reclamar? Estou aqui a terminar!, a revogar teu acesso ao meu afeto. Estou a ausentar teu julgamento de certo e errado, pois estou cansado de vaguear contigo por anos e anos a fio, sentindo que estou me despedindo de meus próprios aniversários no caminho.: estou sentindo o tempo deformar!, captando o instante com um relógio quebrado que não sei consertar – e que muito menos posso pagar por um conserto, pois vivo num rotineiro anti-deleito em nossos encontros que me toma a vida inteira, fabricando calendários anuais diariamente, cada um com um ano diferente e com os feriados ausentes para descansar;

Ou até pior: Todo minuto que passo contigo é dois de janeiro do ano seguinte, onde volto de carro num engarrafamento na estrada, relembrando à força de todos os compromissos que havia pendurado no varal do esquecimento antes de ir celebrar um novo ano na praia, otimista no réveillon. Dois de janeiro, onde passo por acidentes rodoviários e tenho meus devaneios imaginários cortados por buzinas de caminhão, enquanto tento – mesmo que por um momento – sentir mais uma vez meus dedos do pé carinhosamente enterrados na areia e ter meu mundo focado apenas nos desenhos barulhentos que fizeram os fogos de artificio na noite anterior. Mas, assim como nosso amor, é apenas possível lembrar o que passou e impossível sentir de novo – pois você me prende num presente amargo filtrado por pensamentos de um passado nostálgico. O tempo contigo vai longe e me envelhece, e você esquece que eu como comida congelada todo dia e vou morrer cedo

…e não é sua vez de falar!

Não há diálogo neste monólogo a dois. O que tenho a dizer não foi construído esta noite, sabe? Meu delírio foi arquitetado nas madrugadas em que a insônia deixava minhas pálpebras acorrentadas à inercia de um quarto escuro, conduzindo meu pensamento inquieto e intrigado pelo meio como o amor preenche o vazio que, agora, se alimenta do meu ânimo; e que não parece dar-se nunca como satisfeito. Está noite é apenas a culminante explosão de algo que se amontoou em meu peito e, dito e feito, aqui estou. Minha cabeça sobrecarrega afoita sobre meu fino e exageradamente comprido pescoço toda a originalidade do nosso amor, que por um tempo até nos serviu de um apertado cobertor neste intranquilo mundo frio; mas que agora não parece ser nada mais do que um esboço de um projeto recíproco e indolor, fadado a se contentar com a bruta realidade de se encontrar num dolorido passado sem cor.

Mas ainda assim, para mim, este término é o mérito de uma busca pela harmonia de dois corpos que servem como depósitos de emoções, e que buscam um traço recíproco de passados sinuosos e presentes afagáveis – em busca de um futuro perfeito. De duas mentes que não mentem, ou pelo menos não mentem tão bem quanto suas bocas parecem deixar aparente ao beijarem-se de maneira fosca, de modo que possam suprimir o difícil comprometimento das palavras que devaneiam em pensamento ciumento e duvidoso ao longe, mas que é frenético e animalesco de perto – e apenas de perto. Fervoroso a ti, ruidoso a mim, e vice-versa, num ciclo que segue tanto rumo quanto o alheio entendimento da vida após a morte por pessoas ainda vivas, no qual ainda me falha o entendimento. Se não há como descrever a vida de modo fiel, como crer nos detalhes que entendemos da morte? Parece inacreditável para mim, inaceitável até, mas não parou você de tentar me fazer entender o que há após o fim, e ainda logo no começo do relacionamento!

E eu, que fingi aceitamento aos seus entendimentos; o que isso diz de mim? E é por isso que não te culpo ao se surpreender com este término, pois sempre diante do divino, acaba esquecendo-se da realidade. Passa a vida em constante preocupação com o que há depois da fatalidade, com toda essa religiosidade sufocando tua jovialidade, que até se esquece de se preocupar com a infinidade de momentos que lhe escapam a sua frente, que se perdem com o lento reinvento de um momento mais interessante vindo da minha parte, quase sempre. Entende o mérito que vejo no término? Jogamos-nos intérritos a uma incerteza e nos julgamos certos por todo o tempo, isentos de preconceitos, buscando um entendimento maior do que “o que pode estar observando o olhar que estamos observando olhar a nós”, e chegamos a isso: um vestígio de um amor que pareceu propicio a todo o momento e que, neste momento, estou botando um ponto final.

Não sou bom moço, tuas lagrimas molham apenas teu rosto. Aliás, mentira. Elas salgam também a comida e brindam com o desgosto, que me faz perceber que o gosto do álcool é como poesia, como maresia: É como se a plenitude do Amor descansasse à margem da praia, com cada grão de areia representando um Amor entre duas pessoas em qualquer parte do mundo. E nosso Amor tão profundo, grão de areia único, vivendo junto a outros grãos por tanto tempo seco, afogou-se ao ser levado pela correnteza forte, levando nosso Amor e outros grãos de areia a um outro lugar, desacatando-os bem no meio de uma vida pacata de observar vôlei de praia e crianças e castelos e mulheres lindas com biquínis pequenos, além das diárias de um cinema belo em uma tela ao horizonte que tem sessões às seis da manhã e da tarde… e levando-os a uma viagem forçada a um mundo mergulhado em hostilidade, submetendo os grãos submersos a uma visão desprivilegiada da que tinham anteriormente, vendo agora apenas uma imensidão azul onde o sol mente sua beleza com uma distorcida iluminação difícil de encantar ao ser vista do fundo do mar. Porque você insiste em brincar de mar é o motivo pelo qual eu não consigo mais te amar.

Não consigo erguer a cabeça para respirar, só consigo perder a cabeça ao sentir você me afundar. Não consigo ter certeza do chão que piso, e sinto isso já faz meses. Não consigo nem mais olhar você como olhava antes, com críticas observações peneiradas em sorrisos enamorados e confiança e encanto, fotografada em casamentos da realidade com a minha imaginação. Já se foi o tempo que a via como rotineira ambição, e meus olhos agora buscam de sua imagem uma sofrida emancipação. Vejo-me como veria um documentarista amador que percorre os fatos que alimentaram nosso falso amor até ter uma indigestão, vomitando tudo pra fora e morrer por inanição. Agora é a hora de se desfazer; de fazer desaparecer uma angústia que botou uma máscara antiga, que tão precocemente chamamos de amor; e será que devo parar de falar? Será que deixei meu ponto claro? Nem falei sobre querer minha liberdade. Ela está abrindo a boca, ela vai tentar rebater, vai falar de mim, o que vai ser? Vai me quebrar, vai me contradizer, vai querer partir pra cima e me bater, jogar pratos, vai.

Ela se levantou e começou a falar.

Série Ficcional H. Miller XXIV: ´minha alma imortal´

2 ago

por Lia Mirror, Gisèle Miranda e Laila Lizmann

 “… Minha alma imortal… que venha a manhã com brasas de satã…”

Arthur Rimbaud (Charleville-Mézères, 1854- Marselha, 1891)

Decidi colocar minha alma à venda. Corri para conversar com Thomas Mann que de imediato indicou-me o dr. Fausto. Antes de assumir sua dialética visão de liberdade que lhe valeu a alma, gritei:  – minha alma imortal está à venda!!!

Exclui a carne tal como ele (s). Quanto vale minha alma? Um Dürer? Afinal, todos os planetas convergem para o signo de Escorpião bem como mestre Dürer os desenhou sabiamente no folheto medical. [1]

Minucioso Dürer! Os bons sentidos te louvam por suas gravuras; só o olhar próximo pode dimensionar o tamanho do que você fez… faz. Percorro cada centímetro dos seus sentidos. Ah, essas Luzes do Norte!

Dürer  o cavaleiro e o demônio

Dürer (Nuremberg, 1471 – Nuremberg, 1528), O Cavaleiro, a Morte e o Demônio, 1513. Gravura sobre metal 25,19 cm.

Inclino-me a comparar sua solidão com um abismo, no qual se aprofundavam, sem ruído nem rastro, os sentimentos…, disse-me dr. Fausto em consulta.[2] Interrompi sua fala para dizer-lhe que segundo meu amigo ancião: – a solidão é um porvir para poucos! Complementei cantarolando o fundo musical: …vou botar minha alma à venda… nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça… [3]

Dr. Fausto riu como Miller. Meus olhos foram atravessados a nado. Nesse percurso vi e ouvi trechos do escárnio da vida. Alguns vinham de Henry Miller, outros de Thomas Mann até chegar Robert Louis Stevenson.

Ao ampliar meu olhar naquele mar de palavras, vi o retrato de Dorian Gray. Pedi a dr. Fausto que parasse com aquela miscelânea e que fôssemos direto ao ponto, ou seja, a venda de minha alma.

Dr. Fausto riu como Mr. Ryde. Vi uma figura que “assemelhava-se a uma gravura de Albrech Dürer – uma mistura de todos os demônios sombrios, irascíveis, taciturnos…”[4].

Quando dei por mim, ouvi em sussurros…sua alma merece um Dürer, disse Miller. (em minha boca e com o ardor literário)

dürer detalhe o cavaleiro... 1513

Dürer (Nuremberg, 1471 – Nuremberg, 1528), Detalhe da assinatura de Albrecht Dürer em O Cavaleiro, a Morte e o Demônio, 1513.

Notas:

[1] Mann, 1947: 313

[2] Mann, 1947: 11

[3] Zeca Baleiro, Babylon, 2000.

[4] Henry Miller, Trópico de câncer 

Referências:

MANN, T. Doutor Fausto (I). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1947.

MILLER, H. Trópico de Câncer. Trad. Aydano Arruda. Rio de Janeiro: O Globo: São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.

RENASCIMENTO Alemão: gravura da coleção Rothschild colletion. Texto Teixeira Coelho, Pascal Torres. São Paulo: Comunique Editorial, 2012.

STEVENSON, R. O estranho caso de Dr. Jakyll e Mr. Ryde. Rio de Janeiro: Clássicos Econômicos Newton, 1996.

Série Ficcional H. Miller, XXII, parte II – Tudo ou nada (mediado)

4 mar

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

Diz o ditado: Os loucos chegam correndo onde os anjos temem pisar (Miller, Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch, 2006, p. 159)

 

A mediação é um antídoto ao vazio do pensamento. Ela tem que ser ampla para alcançar as partículas que anseiam pela banalidade.  Miller insistiu no diálogo com Arendt e Chauí. Mas vociferou como Bóreas, um dos filhos do senhor dos ventos: –  pense…. Vá antes que eu lhe mate!  (Miller repetiu a frase de seu Nexus como um épico tempestuoso).

Enquanto expandia meu pensamento numa sala de espera do hospital fui chamada pelo médico. Voltei a sentir as pontadas em meu peito. Desta vez me contorci, apertei os olhos e gemi o som da dor.

Ao abrir os olhos vi e senti suas mãos percorrerem os campos minados do meu peito e logo semearam os girassóis de Van Gogh. Recitei em silêncio o Nexus: – “Você me dá coragem. Mesmo quando não diz nada. Tenho que tirar êsse pêso do peito.” (Miller, 1968, 393)

Logo, a respiração assumiu uma cadência pausada, apesar da dor que insistia. Tomei a coragem que me ofertou e caminhei pelos becos sombrios até o ponto da bifurcação. Caminhei sem temer a falésia e gritei aos quatro ventos.

Emmanuel Nery, Sucessor, 1988. Acrílico sobre tela 55 X 46 cm. Coleção Moacyr dos Reis Abreu, RJ

Emmanuel Nery, Sucessor, 1988. Acrílico sobre tela    55 X 46 cm. Coleção Moacyr dos Reis Abreu, RJ

–  Pronto! (disse o doutor) A dor e as misturas de colorações do roxo ao amarelo serão graduais.

Sorri a frieza de suas palavras enquanto lembrava do reencontro com Miller. Vasculhei os seus punhos à procura das iniciais HM, mas nada encontrei.

– Vamos aguardá-la na semana que vem. (foram as últimas e enxutas palavras do doutor)

– “Vamos?” (retruquei) Quem me aguardará além do senhor?

O médico hesitou sua gélida saída por alguns segundos, virou o rosto e sorriu o largo sorriso de H. Miller.

 

Referências:

MILLER, Henry. Nexus. Rio de Janeiro: Record, 1968. 

MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006

Sobre o artista Emmanuel Nery.

Série Ficcional H. Miller XXI, parte I: “Digo que foram as aquarelas de Turner que me fizeram tudo isso começar.” (*)

27 jan

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

Ninguém nasce artista. Escolhe-se isso! E, quando se escolhe ser o primeiro e o último entre os homens, não se acha nada estranho dormir com um jumento, colocar suas patas num balde de lixo ou engolir repreensões e insultos de todos os que estão próximos e dos entes queridos que encaram seu estilo de vida como um grave erro.

De vez em quando eu me revolto, mesmo contra aquilo que acredito de todo coração. Tenho de atacar tudo, inclusive a mim mesmo.

(MILLER, Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch, 2006, pp. 219; 355)

Disse em silêncio a seu Alberto: No meio do caos a formação das pessoas parece mais eficaz; e a escrita das diversas escritas, subliminares, imanentes, refúgio necessário entre um sujeito múltiplo e as máximas em devires alicerçado a um estado artístico que é cria indomável, reverbera, grita, esbofeteia, interfere, questiona, enfrenta, supera e alcança o ápice da falésia – também para morrer.

Esse encontro é invisível aos outros. Foi o que pensei durante o almoço com o seu Alberto. E sua resposta foi aquele olhar que tudo ouve. Continuei. Sorri a lembrança do curioso encontro com H. Miller quando tomou para si o ofício de livreiro.

Estava à procura de H. Miller mas não o encontrei nas prateleiras, nem nos amontoados no chão. Então resolvi pensar em alguns trechos e as palavras vieram como água do mar atravessando os rochedos da memória, perfurando com o tempo outrora espaços intransponíveis.

Foi quando ouvi pela primeira vez aquela voz que interceptou o silêncio ambiente e as tantas vozes ocultas que declamavam H. Miller.

– “Quem você está procurando?”

Agarrei nas rochas para não morrer afogada. Aquela voz me desconcertou. Fiquei engasgada por tanta água a minha volta e com tamanha força que prensava nas pedras e me cortava nos movimentos. Esqueci quem procurava, mas as frases vieram em momentos de respiração. Dizia trechos e me afogava.

TURNER, J.M.W. (1775-1851), Bell Rock Lighthouse, 1819

TURNER, J.M.W. (Londres, Reino Unido, 1775- Londres, reino Unido, 1851), Bell Rock Lighthouse, 1819. Aquarela e guache sobre papel, 30,60 x 45,50 cm. Galeria Nacional da Escócia.

Ele tudo viu e disse: – “Sei que a água é tranquilizante para os loucos, assim como a música.”[1] Quem sugeriu a leitura?

– Um amigo ancião, assim como Blake. Espere! Conheço essa frase. Algo sobre o New Orleans? (pensei: “seus olhos desenvolvem línguas, lábios, orelhas, espalham cada pensamento, cada impulso”) [2] Por que? Você é escritor? O livreiro fez sinal que sim; então eu disse: “soube que era escritor na hora em que te vi” [3] Mas o que estamos fazendo? Não sou Bud Clausen para te dizer isso! E no entanto, as palavras assumiram na minha boca.

Olhei para seu o Alberto e “meus olhos se encheram de lágrimas. O passado estava vivo outra vez; vivia em cada fachada, cada portal, cada cornija, nas próprias pedras sob nossos pés.” [4}

 

Notas:

(*) MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p. 107.


[1] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 115.

[2] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 98.

[3] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 93

[4] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 83

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006.

SHAFFER, A. Os grandes filósofos que fracassaram no amor.São Paulo: Ley, 2012

Série Ficcional H. Miller XX (final I): “o segredo dos seus olhos” (*)

4 nov

por Lia Mirror, Gisèle Miranda & Laila Lizmann

 

E para o rebelde, mais que para todos os homens, é necessário conhecer o amor e dá-lo ainda mais que recebê-lo, e ainda mais que dar, ser o amor.  (Henry Miller, A hora dos assassinos, 2003)

 

Os braços erguidos e a contagem dos segundos. Pergunto-me se terei asas, nadadeiras…: “Dois, um…”. Prendi a respiração e fechei os olhos para pular.  Contei novamente os segundos e perdi a conta por não querer saber do tempo. Nem mesmo a memória interferiu; vivi a experiência sem a ingerência dos enquadramentos.

Experienciei as vanguardas e subverti as regras num bom salto em alto mar. E nesse exato instante, Miller envolveu-me com a permissão de Iemanjá. Flores foram surgindo em meio aos pentes, grampos, fitas, batons. Eram bocas que diziam palavras inscritas em borbulhas.

Nelson Leirner, instalação “Caminho de Santos”, 2008

E apesar de tanta beleza, logo fiquei surda. Uma euforia do agouro se personificou no Deus da Carnificina, mas o medo não emergiu.  Cheguei a ver o sangue, as vísceras e os rompantes. Pensei imediatamente em Miller. Mas não entendi a máscara da aproximação. Uma promiscuidade em disfarce de liberdade que provém da masculinidade de séculos de dominação. Encarei essa disfarçada figura e ela se foi com medo de mim. Então, não era H. Miller!

Em passos largos caminhei até o restaurante, pois era hora de sentar-me a mesa com seu Alberto. Todos os dias no almoço juntos em nosso silêncio que perdura com o adentro de sua invisibilidade que resgatei através de Hades. 

Senti que o seu Alberto estava eufórico no silêncio. Não era uma habitualidade, mas ignorei como um cotidiano almoço; até que ele me disse: – “você é…”. Disse-me tantas coisas que poderia transcrever páginas e páginas. Ouvi e quando procurei os seus olhos não consegui enxergar.

Ninguém enxerga os intensos gestos do seu Alberto.  Ele é tão complacente que chego a envergonhar-me diante dele. E sei, que é nesse momento que eu não o enxergo. Nem mesmo escuto os insurgentes a mesa. No instante que pensei isso, ouvi:

Lia eu a lerei por todos os momentos que me subornei; lerei como sempre desejei e nunca fiz.

Não ergui os olhos, nem mesmo dei importância à fala adjacente, embora tivesse reconhecido o som de sua voz. Encarei como uma voz do além, uma alucinação por ter escapado com vida do Deus da Carnificina.  Dei por mim ter ouvido uma fala inexistente, então prendi novamente a respiração; durante esse processo passei a ouvir inúmeras vezes o seu Alberto dizer: É um prazer Henry Miller… É um prazer Henry Miller… É um prazer Henry Miller… Como um disco arranhado.  

Voltei a respirar! E ouvi pela última vez: “- é um prazer Henry Miller!”  Nesse instante vi os olhos do seu Alberto e vi “o segredo dos seus olhos”, H. Miller!

 

 

Referências:

(*) O Segredo dos Seus olhos. Direção Juan José Campanella. Espanha/Argentina, 2009, 127 min.

Sobre o artista Nelson Leirner http://www.nelsonleirner.com.br/

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

MILLER, Henry. A hora dos assassinos (um estudo sobre Rimbaud). Trad. Nilton Persson. Porto Alegre: L & M, 2003.

Deus da Carnificina. Direção Roman Polanski.  Carnage, Polônia/Alemanha/França/Espanha, 2011, 80 min.

Série ficcional H. Miller – V: Batucada, Miller e a mesa do seu Alberto

Série ficcional H. Miller XIX: o desvio na história

15 maio

Por Lia Mirror, Laila Lizmann e Gisèle Miranda

 

“Baudelaire simplesmente desnudou o coração; Rimbaud arranca o seu e o devora lentamente…” (Miller, 2003, p. 121)

Estava ilhada sob uma chuva torrencial. O vento uivava. Abracei a parede daquele abrigo em pé sobre o banco. Chorei e maldisse Henry Miller pelo silêncio secular, nem mesmo as poucas palavras inscritas.

A tempestade ou o intempestivo? Prendi a respiração e desejei morrer pelo impulso de salvação da liberdade. Não devo ter ficado muito tempo sem respirar, mas quando voltei, a chuva havia parado. Respirei como um orgasmo abraçando a parede que me consolou.

– Moça! Aqui passa o ônibus 455?

Não quis acreditar que alguém estivesse falando comigo. De onde ele surgiu? Cadê a chuva? Ele fitou-me sem esboçar estranhamento do quase ato sexual com a parede. Tirou do bolso um papel dobrado e colocou sobre o banco próximo aos meus pés e se foi. Agachei e desdobrei aquele papel que dizia: “Estaremos na mesa do seu Alberto. E eu, doce Lia… à espreita. H. Miller”. (*)

– Maldito seja! Sempre à espreita da carne e do sangue! Você é bendito entre os libertos, ditos e malditos do escárnio.

Fui ao encontro deles no restaurante sem nome na José Livres, número 455. Estava ansiosa por tê-los novamente, nada me satisfaria tanto. Quando adentrei o recinto vi a mesa do seu Alberto vazia. Busquei-os e nada.

Sentei e logo chegou o Antonio que não era Conselheiro, nem casamenteiro; beijo-me a mão e perpetrou um olhar profundo. Nesse olhar eu vi Rubens, Goya e seus Saturnos. Vi Arthur Bispo do Rosário com seu estandarte vindo em minha direção com as seguintes palavras: O impossível só pode ser atingido por investidas e o nome para isso é loucura[1]; vi José Leonilson bordando sua bagagem de mão “O Mentiroso”; vi montanhas de livros abertos gritando palavras. Mas não vi o seu Alberto – foi o que pensei, antes de desfalecer nos braços de Antonio.

Quando acordei não era Antonio que me acolhia; estava nos braços de Henry Miller;  ele sussurrou fitando-me: Eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro… um mundo inexplorado.[2]

 

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

MILLER, Henry. A hora dos assassinos (um estudo sobre Rimbaud). Trad. Nilton Persson. Porto Alegre: L & M, 2003.

MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963.

Sobre José Leonilson

MESQUITA, Ivo. Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. São Paulo: Projeto Leonilson/ Cosac & Naify, 1997.

(*)  “a mesa do seu Alberto” Batucada, Miller e a mesa do seu Alberto


[1] Miller, 2003, p. 118.

[2] Miller, 1963 a, p. 177.

Série Falésias IV: A alegria sem a fala – ou os desaparecidos e re-aparecidos da escrita

16 mar

Por Lia Mirror & Gisèle Miranda


A Alegria de Emma[1] – uma personagem fictícia – tem um intrínseco elo com o Futuro (que) dura muito tempo de  Louis Althusser. Ele, personagem construído de um memorial, dia a dia até morrer em 1990; deixou registrado que suas alucinações foram fatos do futuro longo demais. Não há sonoridade de dor, seja no ato vívido de Althusser ou na ficcionalidade de Emma.

Os porcos degolados por Emma foram cuidados, amados até os oito segundos à morte. Da mesma forma, ela fez com o seu amado, um doente terminal em suas delongas – a degola, para que não sofresse mais; apenas oito segundos. Nenhum som; nenhuma fala. Emma e Althusser agiram com as mãos, da faca à caneta; do silencio à escrita ou a morte.

Será que o desaparecido de Foucault reapareceu na escrita necessária de Althusser e de alguma maneira impronunciado?


Gontran Guanaes Netto, escrita/desenho s/ papel: “neste inicio de trabalho”, dez. 2002.

Há um condenado ao desaparecimento; da pena à ficcionalidade dos tropeços da memória. Impronunciável? Então, a escrita.  Dos relatos aos lapsos do escritor Lima Barreto em seu Diário do hospício e o cemitério dos vivos; o enredo de um tempo que também parece durar muito, precisamente porque fora imposto por uma limpeza social (policial e higienizadora) marcadamente pelas primeiras décadas do século 20 no Brasil. Lima Barreto não matou; mas viveu personagens em meio aos desaparecidos por assassinatos, esquizofrenia, alcoolismo, vadiagem, entre outros. Sua escuta era intensa; sua escrita verteu-se ao ensejo do necessário.

Althusser era um filósofo marxista de carreira universitária. Emma era uma versão feminina e alemã de “O garoto selvagem” de Truffaut com condimentos do dinamarquês Lars Von Trier em os “Idiotas“. E, para compor essa escrita, Foucault com seu parricida (degolador): Pierre Rivière.

Os papéis foram sendo esculpidos, as imagens sobrepostas ou simples palavras. Althusser clamou a solidão de seu isolamento teórico e o risco solitário diante do mundo, além de percorrer de Rousseau a Derrida – a intervir como filósofo na política e, como político na filosofia. O futuro dura muito tempo foi escrito alguns anos depois do estrangulamento de Helène,  em 1980 e, publicado em 1992.

Para compor o cenário Pierre Rivière reapareceu vindo das primeiras três décadas do século 19, marcadamente por Foucault, abrindo discussões à medicina psiquiátrica e os conceitos da justiça em perspectivas políticas de meados do século 20.

Rivière degolou ou amputou a fala da mãe e dos irmãos? E sem a sua própria fala, construiu um memorial justaposto à escrita, por uma memória também minuciosa, dadas às diferenças da época e de aleitamento intelectual.

Rachel Korman, big pig, 2008, digital photograph 50 x 70 cm.

Não me assustavam os criminosos; escreveu Lima Barreto, mas a candura, a inocência e a naturalidade; a punho e em pedaços de papéis registrou seu cemitério dos vivos ou sua analítica versão de as Recordações da casa dos mortos de Dostoiévski. E foi assim, em tal estado de espírito, penetrado de um profundo niilismo intelectual. (p. 186-189)

Em silêncio, Lima Barreto saltou de sua ficcionalidade (prefaciado por Alfredo Bosi) e sentou-se a mesa do seu Alberto[2]; logo, chegaram Henry Miller, Pierre Rivière, Louis Althusser e Michel Foucault com seus escritos.


[1] O Filme Emmas Glück (A alegria de Emma) de 2006 http://www.tvcultura.com.br/mostrainternacional/blog/33772 do diretor alemão Sven Taddicken baseado no romance de Claudia Schreiber.

Referências:

ALTHUSSER, Louis (1918-1990) O futuro dura muito tempo; seguido de Os fatos. Org. e Apres. Olivier Copet, Yann Moulier Butang; Trad. Rosa Freire d´aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

BARRETO, Lima (1881-1922). Diário do hospício e o Cemitério dos vivos. Prefácio Alfredo Bosi. Org. e Notas Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

FOUCAULT, Michel (Coord.) Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão. Trad. Denise Lezan de Almeida. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1977.

Série ficcional H. Miller VII: No ‘repique’… e Miller!

8 mar

por Lia Mirror

 

Estava preocupada e com medo que minha vontade de estar com Miller pudesse desaparecer.  Mas em meio a isto surgiu uma frase de um fake. Esse instante cortado e colado:

– “Vem no tambor da academia! Que a furiosa bateria vai te arrepiar! Repique, tamborim, surdo, caixa e pandeiro… Salve os mestres!”

Como conheço isso! Ouço e remexo os pés quase como um ato de andar. Eles se movimentam em sinal e respeito aos mestres! Reverência. Depois, um gingar natural do morro ou da vida que se arrepia e ensandece numa natureza inegável!

Negra-branca que não se enquadra na quadra. Cinturinha e bunda; pernas grossas e peitinhos. Sou do morro! Subo e desço com descontração. Desço e subo como se fosse a última vez.

Mas quem vem sorrindo morro abaixo? – Miller! Como se fosse dali! Como se fosse Zé, mano, cara, irmão, brother, mané, qual é?

Deu-me a mão; beijou-me e levou-me para a roda. Era roda de samba e não de Hardcore; e no som da bateria, repique, tamborim, surdo, caixa e pandeiro – arrepiei!

Em silencio, Miller soltou-me a mão no meio da boca de todo o batuque! Entrei e sambei, o samba de raiz, de carioca do morro, do asfalto, do ar e do mar. A paulistana que se fez nos repiques do Bexiga, passista do tradicional bloco dos esfarrapados, das largas noites de silêncio e de muitos livros.

L. Martins, Copacabana, s/d

Completamente molhada de suor saí da roda a procura de Miller. Ele já não estava. Nada disse e desapareceu. Veio como mestre de cerimônia e como malandro que é! Jogou-me na roda e deve ter visto a passista em pleno repique.

Dei mais uma olhada, e nada. Fui descendo o morro… cantando:

– “E se você me vir vagando sem razão, não vai pensar que o desengano mora no meu coração, há muito tempo já se foi e a estação que vem depois… descortina todo o esplendor… sou como uma folha de outono que sem dono navegando chega aqui, para lhe dizer que o abandono foi chegando ao fim, e eu?…caía uma chuva fina, em forma de confissão…” (*)

(*) Esplendor (Refreshed). letra de Ari Moraes & Morais Moreira In: Cibellle, the shire of dried Electric… CD. 2007.

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