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Monteiro Lobato no Supremo Tribunal Federal: sobre censura e paranoia do “perigo vermelho”.

25 jun

por Jozely T. Lima

Na pauta atual do plenário virtual do STF um julgamento que trata da questão racial no livro Caçadas de Pedrinho, do escritor Monteiro Lobato (Taubaté, SP, 1882-SP, SP, 1948) me chamou atenção. Trata-se de um mandado de segurança impetrado pelo IARA – Instituto de Advocacia Racial e Ambiental, que aponta conteúdos racistas no clássico da literatura brasileira, adotado por escolas públicas por meio do Programa Nacional Biblioteca na Escola. O caso chegou ao Supremo em 2011 e os autores disseram que “não há como se alegar liberdade de expressão em relação ao tema diante das referências ao ‘negro’ com estereótipos fortemente carregados de elementos racistas” (1)


Não é a primeira vez que Monteiro Lobato é chamado a dar explicações sobre suas obras. De tempos em tempos o nobre defunto é cutucado, não deixam que descanse em paz. Em vida também não teve sossego diante do controle da cultura pelo Estado, governos, igreja, DEOPS, DOPS*, perseguições e censuras de variadas matizes políticas. Nos anos 1940 foi a antiga paranoia do “perigo vermelho” que o alcançou. O livro Peter Pan: a história do menino que não queria crescer, contado por dona Benta, edição de 1938 foi considerado um veículo de divulgação de “ideias perigosas” e a turma do sítio do pica-pau amarelo estaria a ensinar comunismo para a infância. O que a camarada Emília andou falando por lá não caiu bem. Não sei se o tio Barnabé partilhava das mesmas convicções. (2)

Antonio PETICOV (Assis, 1946-) Meu cavalinho, 2009. Acrílica sobre tela, 110 x 130 cm.


Morto ou vivo, Monteiro Lobato estaria ferrado se caísse no alvo das hostes bolsonaristas e outras criaturas do mesmo campo político. Se Dona Benta e Tia Anastácia cairem nas redes sociais “bolsolavistas” serão acusadas de “pregação esquerdista”. Nos tempos esquisitos em que vivemos não é de se espantar se chegar ao judiciário alguma petição que pretenda varrer Monteiro Lobato das bibliotecas públicas, sob a alegação de que é comunista e ensina comunismo às criancinhas, desde sempre. Isso ainda não aconteceu porque não sabem que na atmosfera estado-novista, Peter Pan: a história do menino que não queria crescer, contado por dona Benta, edição de 1938, foi alvo de busca e apreensão no estado de São Paulo e outros os estados por ordem do Tribunal de Segurança Nacional. Na ocasião até o livro Tarzan, o invencível entrou no rol.

Antonio PETICOV (Assis, 1946-) O futuro, 1996. Desenho, 200 X 140 cm.


Lembremos da tentativa de censura pela Secretaria de Estado de Educação de Roraima que emitiu um memorando com 42 títulos, considerados inadequados às crianças e os adolescentes. (3) Na ocasião o presidente do Supremo Tribunal Federal, Antônio Dias Toffoli, classificou a iniciativa de “inacreditável”. Tantas outras autoridades e entidades se manifestaram pelas notas de repúdio. Aliás, as notas de repúdio são uma das melhores fontes para se produzir conhecimento histórico sobre os absurdos do bolsonarismo e seus congêneres, ambos não cessam de aparecer. Voltando aos livros, inacreditável também, é a avaliação do Presidente Jair Bolsonaro sobre os livros didáticos: “é um amontoado, muita coisa escrita”. Pelo visto Monteiro Lobato ainda vai ocupar a extensa pauta do judiciário. Oremos para que ele descanse em paz!

Notas:

(1) https://www.migalhas.com.br/quentes/326485/questao-racial-em-obra-de-monteiro-lobato-volta-a-ser-discutida-pelo

(2) Carneiro, M. L. T. Livros proibidos, ideias malditas: o DEOPS e as minorias silenciadas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002, p. 151.

(3) https://brasil.elpais.com/brasil/2020-02-08/censura-de-livros-expoe-laboratorio-do-conservadorismo-em-rondonia.html

(*) DEOPS: Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo DOPS: Departamento de Ordem Política e Social (Federal)

Sugestões:

LAJOLO, M. & Schwarcz, L. Reinações de Monteiro Lobato – Uma Biografia. Companhia das Letrinhas, 2019.

AZEVEDO, C. L.; CAMARGOS, M. SACCHETTA, V. Monteiro Lobato: Furacão da Botocúndia. São Paulo: SENAC São Paulo, 1992.

“A Estranha Derrota” (*)

Série MANTOS II: Cultura Artística & Histórica – Cinema.

13 maio

por Gisèle Miranda

É importante dizer que não é a quantidade de bilhetes que sustenta esse texto. Mas como a memória exercita seu papel diante da vida. Fiz a costura do Manto II com alguns tantos filmes (bilhetes) guardados, que por sua vez, instigaram outros tantos na memória. Poucos não lembrei de imediato.

Os vinte e um anos costurados pelo conteúdo, línguas, temporalidades, religiosidades, crenças, dores, políticas, vestimentas, odores, guerras, cores, sabores, amores, valores…, assistidos em salas de cinemas, revividos em locais que hoje não existem mais, tal como o Cine Clube Bixiga – que foi o meu refúgio nos fins de semana, durante meus estudos em História e o trabalho com os movimentos sociais da cidade de São Paulo.  No cineclube nasceu minha paixão por Truffaut (Paris, França, 1932- idem, 1984) ou por todos da Nouvelle Vague. Lá também vi Betty Blue 37º 2, de Jean-Jacques Beineix (paris, França, 1946-) com a bela e intempestiva Béatrice Dalle (Brest, França, 1964-), inúmeras vezes.

Todo mês de Outubro esperava pela Mostra Internacional de Cinema. Por isso, dedico o Manto II, a Leon Cakoff (Alepo, Síria, 1948 – São Paulo, SP, 2011) e à Renata de Almeida (São Paulo, SP, 1965-). Nem sempre pude estar nas Mostras, efetivamente por falta de recursos financeiros, mas sempre me esforçava para ir, adquirir os catálogos, ler as sinopses, as críticas e saber dos esforços de Cakoff e Renata, para manter as Mostras, trazer diretores, atores, atrizes para debates, enfim, um grande evento anual imprescindível à nossa cultura e com à nossa participação no juri popular.

Manto II - Cinema, maio 2020.  tecido 2, 5 m x 50 cm. Linha, agulha e bilhetes de cinemas.

Manto II – Cinema, maio 2020. tecido 2, 6 m x 54 cm. Linha, agulha e bilhetes de cinemas.

O sorriso da memória aparece na voz, na presença de Samira Makhmalbaf (Teerão, Irã, 1980-), após assistir A Maçã, no inexistente Cinearte do Conjunto Nacional. De ter votado em Trem da Vida, de Radu Mihăileanu (Bucareste, Romênia, 1958-), filme que venceu o Prêmio do Juri Popular daquele ano. De conhecer a obra do cineasta Amos Gitai (Haifa, Israel, 1950-), de conhecer Kusturica (Saravejo, Bósnia, 1954-) como diretor e ator e, de tantos outros artistas. Também, participar de palestras sobre filmes japoneses com a professora Lúcia Nagib (1956-); curso de cinema com o jornalista e crítico Inácio Araújo (1948-) e, participação especial do inesquecível do cineasta Carlos Reichenbach (1945-2012).

Há uma infinidade de descobertas, de alimentos à alma, da necessidade do existir da Cultura, porque cultura é mais do que as belas artes. É memória, é política, é história, é técnica, é cozinha, é vestuário, é religião etc… Onde é dado o sentido do tempo, do visível, do invisível, do sagrado, do profano, do prazer, do desejo, da beleza e da feiura, da bondade e da maldade, da justiça e da injustiça. (Fenelon, D. (1933-2008). In: O Direito à Memória, 1992, 31)*

Antes da pandemia Covid-19, ir ao cinema só na Cinemateca, gratuitamente, ou, no Cine Lasar Segall, onde o valor é mais acessível. Ou ainda, convidada pela amiga Jozy Lima, como nos dois últimos filmes que vi, Parasita, de Bong Joon-Ho (Daegu, Coreia do Sul, 1969-) e As Invisíveis, de Louis-Julien Petit (Salisburia, Reino Unido, 1986-).

Em Parasita diria que “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” (Foucault, 1990). Em As Invisíveis, com o indicativo de comédia francesa – chorei no cinema, e por muitos dias, porque me vi como parte do filme, um limite tênue entre o básico e o nada; entre a luta e o abandono; entre o desemprego e o desespero, ou, a estranha derrota.

Talvez, mais um motivo para costurar o MANTO, bordar, furar, sangrar, lembrar, criticar e me colocar como Michel Aubry (Saint-Hilaire-du-Harcouet, França, 1959 -) quando costurou “mobílias, instrumentos, tecidos…”  como Mantos históricos e com seus “sintomas políticos e sociais.” **

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Filmes listados:

  1. A Vida é Bela. Grupo Severiano Ribeiro, 22 fevereiro 1999, às 16:20 hs.
  2. Wilde. 25 fevereiro 1999. Alvorada Cinemat. – Sala Cândido Portinari, às 21:45 hs.
  3. Barroco Balcânico. Mostra Internacional de Cinema – sala Auditório, 16 outubro 1999, às 12:15 hs.
  4. Garotas do futuro. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc 17 outubro 1999, às 13:15 hs.
  5. A Humanidade. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 17 outubro 1999, às 15:00 hs.
  6. Simon Magnus. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 17 outubro 1999, às 17:45 hs.
  7. Mero Acaso. Mostra Internacional de Cinema – Cine Arte 1, outubro 1999, às … hs.
  8. Agarrando Sonhos. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 23 outubro 1999, às 12:00 hs.
  9. Um só pecado. Sala…, 5 março 2000, às 21:30 hs.
  10. Uma boa dona de casa. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 17 outubro 1999, às 17:45 hs.
  11. E aí meu irmão cadê você. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 20 outubro 2000, às 16:10 hs.
  12. Cerca de la frontera. Mostra Internacional de Cinema, Cine Unibanco 1, 20 outubro 2000, às 20:25 hs.
  13. Minha vida em suas mãos. Mostra Internacional de Cinema – Unibanco 1, 20 outubro 2000, às 22:15 hs.
  14. Leste-Oeste o amor no ex…. Mostra Internacional de Cinema, Sala vitrine, 21 outubro 2000, às 14:00 hs.
  15. Canções do segundo amor. Mostra Internacional de Cinema, Cine Unibanco 1, 21 outubro 2000, às 16:30 hs.
  16. A deusa de 1967. Mostra Internacional de Cinema – MASP, 21 outubro 2000, às 20:40 hs.
  17. A lenda de Rita. Mostra Internacional de Cinema, Unibanco 1, 22 outubro 2000, às 14:00 hs.
  18. O recrutador. Mostra Internacional de Cinema, Unibanco 1, 22 outubro 2000, às 16:10 hs.
  19. Butterfly. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 22 outubro 2000, às 18:35 hs.
  20. Cabecita rubia. Mostra Internacional de Cinema, MASP, 22 outubro 2000, às 20:50 hs.
  21. Bastardos no paraíso. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 22 outubro 2000, às 22:30 hs.
  22. Porno film. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte, 23 outubro, às 15:50 hs.
  23. Pele de homem, coração de besta. Mostra Internacional de Cinema, Cine Vitrine, 23 outubro 2000, 17: 25 hs.
  24. A origem do homem. Mostra Internacional de Cinema – Cine Arte, 23 outubro 2000, às 21:40 hs.
  25. Antes do anoitecer. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte 1, 23 outubro 2000, às 23:40 hs.
  26. Tesoro mio. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 24 outubro 2000, às 14:00 hs.
  27. Anjos do Universo. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 24 outubro 2000, às 15:35 hs.
  28. Quem tem medo de…. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 24 outubro 2000, às 17:45 hs.
  29. O jogo de Mao. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 24 outubro 2000, às 19:30 hs.
  30. Sem descanso. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 25 outubro 2000, às 14:00 hs.
  31. Uma relação pornográfica. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 25 outubro 2000, às 16:10 hs.
  32. 101 reykjavk. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 25 outubro 2000, às 19:20 hs.
  33. Segunda Piel. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte, 25 outubro 2000, às 21:10 hs.
  34. Luna papa. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 26 outubro 2000, às 15:35 hs.
  35. O quarto das meninas. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 26 outubro 2000, às 17:55 hs.
  36. Virilidade e outros dilemas modernos. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 26 outubro 2000, às 21:40 hs.
  37. Thomas Pinchon – uma jornada. Cinearte, 27 outubro 2001, às 16:10 hs.
  38. Ano novo com neve. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte, 27 outubro 2000, às 17:20 hs.
  39. O rei está vivo. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 27 outubro 2000, às 19:35 hs.
  40. Baise Moi. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 27 outubro 2000, às …. hs.
  41. You really got me. Cine Unibanco, 27 outubro 2001, às 00:00.
  42. O dia em que me tornei mulher. Mostra Internacional de Cinema, Unibanco, 28 outubro 2000, às 17:425 hs.
  43. Fama para todos. Mostra Internacional de Cinema,Cine Arte, 28 outubro 2000, às 19:40 hs.
  44. Signos e desejos. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 28 outubro 2000, às 21:35 hs.
  45. Sábado. Cinearte, 28 outubro 2001, às 00:15 hs.
  46. Vidas. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte, 29 outubro 2000, às 14:00 hs.
  47. Faz de conta que não estou aqui. Mostra Internacional de Cinema, Vitrine, 29 outubro 2000, às 17:55 hs.
  48. Vatel. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 29 outubro 2000, às 21:35 hs.
  49. Wojaczek. Mostra Internacional de Cinema, Cine Sesc, 29 outubro 2000, às 23:55 hs.
  50. Gotas de água em pedras escaldantes. Mostra Internacional de Cinema, MASP, 30 outubro 2000, às 20:30 hs.
  51. Como Samira fez o quadro negro. Mostra Internacional de Cinema, Sala UOL, 30 outubro 2000, às 15:20 hs.
  52. Alameda do Sol. Mostra Internacional de Cinema, Cine Arte 1, 30 outubro 2000, às 23:05 hs.
  53. L´Histoire de Adele H. Top Cine, 29 novembro 2000, às 22:00 hs.
  54. Waking life. Sala UOL, 30 outubro 2001, às 14:00.
  55. Moulin Rouge. Cinearte, 29 agosto 2001, às 21:30 hs.
  56. A professora de piano. Cinearte, 25 janeiro 2002, às 14:10 hs.
  57. Samsara. Cine Unibanco, 19 fevereiro 2003, às 21:00 hs.
  58. Frida. Cine Unibanco, 13 abril 2003, às 14:30 hs.
  59. Kamchatka. Cinearte, 02 maio 2003, às 22:00 hs.
  60. Aos olhos de uma mulher. UCL, 19 julho 2003, às 00:30hs.
  61. Festival Anima Mundi. Auditório da Vila Mariana, 23 julho 2003, às 00:30.
  62. A mulher gato. Mostra Internacional infantil… s/d.
  63. SUR – Fernando Solanas. Mostra SESC de Artes Latinidades -ciclo de cinema no Cinesesc, 22 agosto 2003, às 15:00 hs.
  64. Ainda pego essa al….Cine Santa Cruz, 20 setembro 2003, às 14:30 hs.
  65. Balzac e a …. Cine Unibanco, 14 agosto 2004, às 22:00 hs.
  66. Homem Pelicano. Cine Santa Cruz — II Mostra de Cinema Infantil, 28 setembro de 2005, às 19:10 hs.
  67. Noitão (3 filmes) no Bellas Artes, sala Cândido Portinari, 12 agosto 2005, às 23:52 hs.
  68. Crime delicado. Cine Unibanco, 28 janeiro 2006, às 22:00hs.
  69. Melissa P. – 100 escovadas antes de dormir. Mostra Internacional de Cinema – Cinemark santa Cruz 9, 20 outubro 2006, às 21:30 hs.
  70. O Caminho para Guantanamo. Mostra Internacional de Cinema – Cinemark Santa Cruz 9, 21 outubro 2006, às 21:30 hs.
  71. Sonhos com Shanghai. Mostra Internacional de Cinema – Cine Sesc, 22 outubro 2006, às 13:30 hs.
  72. Voltando ao passado. Mostra Internacional de Cinema – Cine Bombril, 23 outubro 2006, às 18:30 hs.
  73. Dias de Glória. Mostra Internacional de Cinema – Reserva Cultural 2, 24 outubro 2006, às 19:30 hs.
  74. Nue Propriete. Mostra Internacional de Cinema – Reserva Cultural 2, 24 outubro 2006, às 21:30 hs.
  75. A Soap. Mostra Internacional de Cinema – Cinemark Santa Cruz 9, 25 outubro 2006, às 21:30 hs.
  76. Arame farpado. Reserva Cultural 2, 26 outubro 2006, às 13:00 hs.
  77. Amu. Reserva Cultural 2, 26 outubro 2006, às 15:20 hs.
  78. Como festejei o fim do mundo. Cinemark Santa Cruz 9, 26 outubro 2006, às 19:00 hs.
  79. Uma verdade inconveniente. Cinemark Santa Cruz 9, 26 outubro 2006, às 21:30 hs.
  80. Oscar Niemeyer – a vida é um sopro. Cine Bombril, 18 maio 2007, às 16:00 hs.
  81. Goyas Ghost. Cine Leblon 1(RJ/RJ), maio 2007, às 16:30 hs.
  82. A Massai branca. Rio Design 3 (RJ/RJ), 22 setembro 2007, às 19:00 hs.
  83. Bem-Vindo São Paulo. Rio Design 3 (RJ/RJ), 22 setembro 2007, às 22:00 hs.
  84. Caos Calmo. Sala 4 (cortesia), outubro 2008, às ..:15 hs.
  85. Baby love. Cine Reserva Cultural, 16 outubro 2008, às 13:10 hs.
  86. Como Albert viu as montanhas se moverem. Mostra Internacional de Cinema – Espaço Unibanco 5, 20 outubro 2008, às 16:00 hs.
  87. Fim da noite. Cine Unibanco, 03 novembro 2011, às 22:00 hs.
  88. Fim de semana em casa. Espaço Itaú de Cinema, 19 outubro 2012, às 16:00 hs.
  89. Elefante Branco. Espaço Itaú, 15 novembro 2012, às 16:00 hs.
  90. O Homem da máfia. Espaço Itaú, 01 dezembro 2012, às 11:00 hs.
  91. Na terra de amor e ódio. Espaço Itaú, 15 dezembro 2012, às 11:00 hs.
  92. A filha do pai. Espaço Itaú, 03 janeiro 2013, às 19:40 hs.
  93. Ha Ha Ha. Cine Sesc, 05 janeiro 2013, às 14:30 hs.
  94. As quatro voltas. Espaço Itaú, 20 janeiro 2013, às 20:00 hs.
  95. Segredos de sangue. Espaço Itaú, 15 junho 2013, às 14:00 hs.
  96. Augustine. Sala 2, 13 julho 2013, às 21:30 hs.
  97. A bela que dorme. Espaço Itaú, 1 julho 2013, às 16:30 hs.
  98. Camille Claudel, 1915. Cine L. Cultura, 14 agosto 2013, às 18:00 hs.
  99. Ferrugem e osso. Sala 1, 16 agosto 2013, às 19:00 hs.
  100. Flores Raras. Cine L. Cultura, 17 agosto 2013, às 17:00 hs.
  101. O verão do Skylab. Cine L. Cultura, 05 setembro 2013, às 14:00 hs.
  102. A Religiosa. Sala 2, 14 setembro 2013, às 19:20 hs.
  103. Uma primavera com a minha mãe. Sala 4, 03 outubro 2013, 15:20 hs.
  104. Os belos dias. Sala 1, 16 outubro 2013, às 15:30
  105. Mar silencioso. Reserva Cultural 1, 18 outubro 2013, às 18:00 hs.
  106. Amar. Reserva Cultural, 18 outubro 2013, às 15:50 hs.
  107. Trem noturno para Lisboa. Cine L. Cultura, 29 novembro 2013, às 19:50 hs.
  108. Pais e filhos. Sala 1, 30 dezembro 2013, às … .
  109. Ninfomaníaca. Espaço Itaú, 08 fevereiro 2014, às 17:00 hs.
  110. O grande hotel Budapeste. Espaço Itaú, 16 agosto 2014, às 16:00 hs.
  111. Amantes eternos. Caixa Belas Artes, 17 agosto 2014, às 14:00 hs.
  112. Viollette. Reserva Cultural, 30 agosto 2014, às 18:40 hs.
  113. Magia ao luar. Espaço Itaú, 31 agosto 2014, às 18:00 hs.
  114. Mommy. Sala 4, 25 dezembro 2014, às 21:25 hs.
  115. Relatos Selvagens. 03 janeiro 2015, às 17:00 hs.
  116. A família Bellier.  janeiro 2015, às … hs.
  117. As Invisíveis. Cine Sala, 24 fevereiro 2020, às 14:30 hs.
  118. Parasita. Cine Santa Cruz 07, 22 fevereiro 2020, às 15:40 hs.

(*) CUNHA, Maria Clementina Pereira (Org.) O Direito à Memória: patrimônio histórico e cidadania/DPH. São Paulo: DPH, 1992.

(**) Catálogo da 30ª Bienal de São Paulo, 2012, p. 228-229.

FOUCAULT, Michel. O pensamento do exterior. Trad. Nurimar Falci. São Paulo: Princípio, 1990.

Ps. Com o tempo farei a inserção dos diretores dos filmes e complementação de dados incompletos.

Série Ficcional H. Miller XXIX: A cama divã

26 jan

por Lia Mirror, Laila Lizmann, Lara Kleine Augen & Gisèle Miranda

 

 

(…) As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
(Álvaro de Campos pseudônimo de Fernando Pessoa)

 

 

 

Após a morte de nosso amigo ancião Blake, os livros foram dispersos, as histórias perderam os fios de Ariadne e os monstros que roíam as entranhas dos que LIAM, deixaram de existir.

O salto para o abismo se deu entre a realidade e a ficção; passou por Foucault* e se deleitou no escarnio de Henry Miller. Assim sucedeu a árdua tarefa.

– Ele pegou a caneta, os olhos, o papel, o corpo dela e riu. Riu e os colocou no tempo perdido, díspares. O bicho raivoso da vaidade predatória, desumanizou e fez das suas noites, outras bocas, outros corpos na cama dela.

 

Louise Bourgeois (1911–2010) Sete na cama, 2001.

Louise Bourgeois (NY, EUA,1911– Paris, França, 2010) Sete na cama, 2001.

 

Todos riram! A nobreza plebeia construída nas solitárias leituras rasgou uma carta. Uma, das tantas cartas de amor, porque só os ridículos escrevem cartas de amor. **

Ela rasgou o tempo, cortou as letras, os segredos, as palavras, as mãos, a grafia, o cheiro, a tinta, o gosto e as fotos. Não bastasse, ela devorou o próprio coração, assim como Rimbaud, lentamente.

A memória será esquecida. O olhar não enxergará. O gosto não provará. O toque será um iceberg. Reconstruirá um Frankenstein, só amado por seu criador; ou, uma Alma Mahler inflável e amada por Kokoschka?

Alma Mahler de Oscar Kokoschka, s/d.


A febre foi testemunha, enquanto ela confeccionava seus monstros, ardia e jorrava larvas. No delírio ela foi em busca de um livro, o que desencadeou um pesadelo Shakespeariano. Aos prantos, ela gritou por Shakespeare diversas vezes.

Amanhã será outra dor. Enquanto as pessoas rirem, nós protegeremos a ingenuidade, o sorriso do olhar menina que percorreu os mesmos rios dos algozes e enfrentou a fadada miséria, violência, pedras, precipícios, afogamentos, curras, enforcamentos e surras.

Da pedra bruta brotou uma flor rara. Da brutal fragilidade nasceu um vento forte para as ondas de um mar tempestuoso. Náufraga, salva pelo olhar atento do lobo do mar.

Louise Bourgeois (1911–2010) Cama azul,  1998 gravura 49,5 x 67,3 cm

Em terra firme ela foi jogada no picadeiro com nariz de palhaço. De lá viu o lixo abundante, nada reciclável. Viu a crosta numa casca podre que escorria água suja.


Ah, esse monstro que nos rói as entranhas tem nome, tem história, tem o valioso conteúdo dos livros, dos saberes e até do rejuvenescimento, segundo Thomas Mann. Ah, Henry Miller, Rimbaud, Dostoiévski e tantos outros que venham eternizar nossos sentimentos, nossas falas, nossos sexos, nossas dores, nossas palavras.

“Agora

não navega

nem tampouco vive

erra

se

escrito” (Vogt, Marinheiro Pessoa***)

 

Nota:

(*) Foucault: “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.” (Foucault, 1990)

(**) Álvaro de Campos, in “Poemas” Heterônimo de Fernando Pessoa (Lisboa, Portugal, 1888- Idem, 1935): “Todas as cartas de amor são ridículas” Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). – 84. 1ª publ. in Acção, nº41. Lisboa: 6-3-1937.

 (***) Carlos Vogt. O Itinerário do Carteiro Cartógrafo – Cantografia. São Paulo: Massao Ohno, 1982.

(1) MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963.

 

 

Série Releituras Visuais e Breves Comentários IV: VELÁZQUEZ (1599 – 1660) e a Releitura de Antonio Peticov (1946-)

2 maio

por Gisèle Miranda

 

Diego Rodríguez de Silva VELÁZQUEZ (Sevilha, Espanha, 1599 – Madrid, Espanha, 1660), neto de portugueses, pelo lado paterno; casou com Juana, a filha de seu professor de teoria da arte, Francisco Pacheco.

Velázquez, pintor de câmara do reinado de Felipe IV, e de convívio diário com o principal pintor da corte espanhola, Peter Paul Rubens (1577-1640), considerado o maior pintor da época e um proeminente diplomata, pois como alemão de família Calvinista tornou-se importante na Corte Espanhola Católica. Contraditório aos olhos daquela época, mas compreensivo pelas histórias fascinantes de Rubens e Velázquez.

Velázquez alçou séculos com o seu lado humano e social na pintura, além da pomposidade dos retratos da corte em função de seu cargo. Ele tornou-se ídolo para os Impressionistas – ´le peintre des peintres´ para Manet. (In: Argan, 2004; p. 116)

Há inúmeras releituras acadêmicas sobre essa obra, incluso um ensaio de Michel Foucault (1926-1984) sobre a representação e a perspectiva do espectador em, As Meninas de Velázquez.

As Meninas ou a Família de Felipe IV, de Diego Velázquez (1656) é um raro autorretrato; poucas vezes se retratou, em geral utilizando recursos de espelhos ou por estar de costas. Rembrandt (1606-1669) tem um histórico de autorretratos. Mas Velázquez, não!

Diego Rodríguez de Silva VELÁZQUEZ (Sevilha, Espanha, 1599 - Madrid, Espanha, 1660) As Meninas ou a Corte de Felipe IV, 1656. Óleo sobre tela, 320,5 x 281,5 cm. Museu do Prado, Madri, Espanha.

Diego Rodríguez de Silva VELÁZQUEZ (Sevilha, Espanha, 1599 – Madrid, Espanha, 1660) As Meninas ou a Família de Felipe IV, 1656. Óleo sobre tela, 320,5 x 281,5 cm. Museu do Prado, Madri, Espanha.

Na Releitura, Antonio Peticov preferiu a metáfora que usou com Rembrandt (as cores) e, muita brincadeira na distribuição das personagens. Em As meninas de Antonio, de Peticov, o jogo cênico do pião tanto pode ser o artista ou  a infanta Margarida, que não se conteve e abriu um sorriso do Grafismo.

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Antonio Peticov (Assis, SP, Brasil, 1946-)As Meninas do Antonio, 2017. Acrílica sobre tela  150 x 200 cm. Série Releituras.

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Droga é legal, o homem que não é.

4 jul

Por Byra Dornelles

 

Domingo passado estava conversando com um amigo meu que é musico e constatei algo que penso há anos: droga é legal! Pense em toda a obra dos Stones, Brown Sugar na década de 70 e dos Doors, se não houvesse drogas. Sem apologia , eu só uso drogas ilegais duas vezes ao ano, no meu aniversario e no reveillon, mas fico pensando…Cabeça de Dinossauro dos Titãs, sem o Arnaldo Antunes drogado, seria possível? Sgt. Peppers, dos Beatles sem ácido lisérgico?

Rimbaud…?
Uivo do Allen Ginsberg?
As portas de Percepção de Aldous Huxley sem drogas?
Flashbacks, de Timothy Leary?

O A E O Z, dos Mutantes?

Meu amigo dizia: “sou um homem! Como é que é!?
Alguém ou o sistema vai me dizer o que eu devo comer ou beber? A maconha é meu samba!”

A proibição provém justamente do medo que ‘eles’ têm da máquina parar de funcionar e de que todos acabem com sua rotina febril e estagnante, de que nasça uma nova ordem em que os princípios cristãos caóticos e caducos venham ser questionados.

A partir do momento que a sociedade rotula a pessoa de ‘viciado’ ele é excluído de uma possível participação e é discriminado.

 

Byra tirinha

 

Ralph Emerson, que nasceu em 1803, usava haxixe e ópio e defendia um sistema de idéias basicamente fundamentado na individualidade, crescimento interior, autoconfiança e rejeição à autoridade, instigando assim, as pessoas a procurar um Deus interior e abandonar o cristianismo.

Qual a importancia das drogas? Elas são usadas desde que o mundo é mundo! Qual o medo que elas despertam? Na Hollanda e alguns bairros de Londres tem espaços liberados pra seu uso com controle da sociedade e não tem casos de violência ou quaisquer distúrbios.

Nesses casos acima em que cito alguns artistas que usaram e fizeram obras maravilhosas, alguém pode argumentar referindo-se às mortes de overdose e tal… . É por isso que digo que a droga é legal e como o homem é que não sabe manipular e perde o controle, se Freud conseguisse conter sua fome de cocaína talvez chegasse a resultados enormes. Se Hendrix não se chapasse daquela maneira não teria morrido de sufocamento pelo vômito… Janis Joplin estava acostumada com uma dose de heroína sarapa e naquele dia fatal veio uma carga muito pura e… Elis Regina me parece que foi a mesma coisa.

Em 2003 houve um congresso aqui no Brasil, chamado Narco News, no qual um professor norte-americano, Robert Stephens, tentando espalhar o medo, como fizeram em 1937 quando foi proibida a maconha nos EUA, querendo apertar o cerco aos usuários e tambem visando aqui, a implantação de clínicas de ‘tratamento’, (esse terrorismo chamado de justiça terapêutica ), fez varias falsas afirmações sobre a droga:

1 – causa insônia
2 – náusea
3 – nervosismo
4 – ansiedade e perda de apetite(!!!)

É claro que foi desmascarado lá mesmo na terra dele, imagine aqui, dizer que maconha provoca insônia e perda de apetite! No mínimo ele nunca experimentou!

Alguns nomes históricos que usaram/pesquisaram drogas:

Carlos Castaneda, Aleister Crowley, William Burroughs, James Joyce, Ken Kesey, Torquato Neto, Alan Watts, Lennon, Paolo Mantegazza, Sergio Sampaio, Miles Davis, Jim Morrison, Keith Richards, Raul Seixas, Mick Jagger, Tim Maia, Jerry Rubin, Eduardo Bueno, Abbie Hoffman, Kurt Cobain, Arnaldo Baptista, Albert Hoffman, Allen Ginberg, Timothy Leary, Arnaldo Antunes;

Concluindo, vamos usar todas as drogas, plantas, com responsabilidade e moderação pois seu uso pode causar dependência, pensando que é fundamental:

1- Construir seu próprio e desfrutável universo,

2 – Pense por si mesmo e questione a autoridade, como disse Burroughs: “ Na verdade, tudo é permitido”.

3 – “ O fato de todo homem e toda mulher ser uma estrela”.

Eu não posso causar Mal nenhum a não ser a mim mesmo… (Lobão e Cazuza)

 

byra rg
*Byra Dorneles (Auto-didata, ex-calafate e estuda sobre drogas desde os 13 anos)
Base do texto:

www.narconews.com 
“Flashbacks” de Timothy Leary.

 

Série Ficcional H. Miller XXVIII: Coração

12 jun

por Lia Mirror

“… o espírito é como um rio que procura o mar. ” (Henry Miller)

“- Pode entrar, Dr. Fausto lhe aguarda. ”

Apreensiva adentrei novamente o consultório. De imediato avistei Dr. Fausto e o elogiei pela bela aparência ´jovem´; a minha corria o tempo dos mortais.  E mesmo com a alma comprometida (1) fui agraciada pelas belas palavras do doutor ao referir a mim, como uma ´jovem liberta´ devido a constância nos estudos. Disse enfaticamente: “estudar nos torna jovens! (2) Mas, o que a trouxe dessa vez? Ainda há um coração? Ou devoraste o teu como Rimbaud? “

Coração coeur-de-louise bourgeois, 2004
Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), HEART, 2004.

Meu coração pesa muito; é como o coração de um beija flor. Entre o assado e a carniça há um coração e um Dürer.

– “Desculpe doutor, o sr. Thomas Mann pede urgência! ”

– “Fausto, meu caro.  Venho interceder por esse coração… se a alma não foi vendida pela juventude, o coração não deve ser leiloado.  Uma alma pelo Dürer foi a abdicação do ego, do valor ao outro. Dürer será preservado! O coração de um beija flor também merece ser inscrito nessa história, aquém da juventude e da riqueza. Deixe-a ir. Interfiro nessa escrita por conhecer o que sustenta esse Ser. “

corações louise 2006
Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), Untitled (Hearts), 2006.

Mais uma vez, Dr. Fausto riu como Mr. Ryde, mas logo respondeu como Dr. Jakyll e por conseguinte como H. Miller.

Robert Louis Stevenson invadiu o consultório. Mann e Stevenson chegaram a esboçar um confronto, mas gritei a efusão literária até falhar a voz. O coração era meu, a dor era minha. Peguei minha bolsa e saí sem olhar para trás.

A transformação foi imediata: “pele por escamas, pernas por cauda, guelras e música” (3)… ao MAR.  ‎

Referências:

(1) Minha Alma Imortal

(2) MANN, Thomas. Doutor Fausto. Tradução Herbert Caro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1952. Volume II, p. 417.

(3) A(…)MAR ou “vivendo com saudades”

A (…)MAR ou “vivendo com saudades”

13 abr

Por Caio Madeira

 

Ela vivia num tempo diferente do meu. A vida dela passava com mais rapidez, e meus pensamentos sobre ela eram como ela se comportava, e como ela agia, e como ela rompia os relacionamentos dela com tamanha facilidade.

Ela é uma mulher que entregou seu corpo ao mar sem medo da solidão do oceano, e que, em retorno, recebeu a dádiva de ser parte das águas. Pele por escamas, pernas por cauda, guelras e música. Uma mulher que tinha sua beleza refletida sobre as águas cristalinas, com o cabelo salgado e o corpo nu molhado, sem o medo narcisista de se matar ao entregar-se ao próprio reflexo na água. Ela nadava com todos os peixes, em conversas intimas com as criaturas sob a maré calma, e quando sentia que sua humanidade à chamava, respirava o oxigênio com orgulho de ser a mulher que era.

Acima da água, ela alegrava-se pensando no que lhe trazia alegria e sentia saudades do que lhe trazia lembranças. E no meio de sua vida tão completa, marinheiros apareciam aqui e ali, seduzidos pela sua beleza. Eles saudavam-na, desejavam-na, atiçavam-na e queriam a bela sereia de qualquer jeito, e, ela ali no seu mar apenas olhava eles se fazerem de bobos.

Seu canto deixavam os idiotas em seus barcos gritando qualquer poesia barata, elogiando e se decompondo nas ideias que eles nem entendiam só pela esperança de conquista-la. E a sereia, tão bondosa, aceitava os desesperos dos homens que achavam que o mar era um trilho para seu automóvel, tão egoisticamente.

Os homens iam e vinham, se jogando no mar e nadando sem futuro para matar a fome dos peixes; as sereias alimentavam o mar antigamente, sabia? Pelo mar todo boiavam e afundavam corpos de homens estúpidos, que alimentavam os peixes enquanto caiam e caiam até o fundo do oceano, não sobrando nada na escuridão mais funda…

E. Nery, A mulher dos quadros do museu, 1988.

Emmanuel Nery (Rio de Janeiro, RJ, 1931- Rio de Janeiro, RJ, 2003) A mulher dos quadros do museu, 1988.

 

 

– E como eu nasci então?

– Você nasceu das linhas de um poema de amor – dela com o mar.

Série Ficcional H. Miller XXVII: O corpo por um fio

13 abr

por Lia Mirror

Se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe.

(Henry Miller)

Em um daqueles dias torrencialmente chuvosos, corri pelas ruas como um dia de sol. O sol era interno no manicômio do meu corpo. Despi as vestimentas morais e ri dos insanos olhares. Molhada também de prazer, torci o peso do encharque e continuei bendizendo o desejo. Blasfemei os tropeços e me joguei como um tênis sobre um fio de alta tensão.

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010)  Arch of hysteria, 1993.

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010) Arch of hysteria, 1993.

Por alguns segundos oscilei como um pêndulo; mas logo caí. A queda foi amortecida pelo divã abandonado; as mãos protegeram-me do embate corporal, mas as linhas  foram alteradas, foram reescritas. Levantei e caminhei contra o tempo. Confrontei e abri frestas subterrâneas. Nadei rios de correntezas e subi o morro para avistar o mar. Era o meu morro do nascimento. Meu Morro, Morro de saudades. Meu desejo, Morro de desejos.

Ao poetizar o Morro dei conta de que nosso encontro não estava previsto. Insurgimos e esculpimos nosso próprio tempo. Nossa mistura de segredos e diferenças. O gosto do gozo. O prazer da ficção.

Série Ficcional H. Miller XXVI: Do Pacífico ao Atlântico

26 jan

por Lia Mirror

 (…) Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina…
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico… E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Ode Marítima, 1890.

Enquanto içava as velas no Atlântico lembrei dos 23 tripulantes resgatados de um naufrágio; um, não sobreviveu a sua própria tormenta. Antes mesmo de chegarmos em terra firme, o lobo do mar se jogou no Pacífico como isca para tubarões amarrado à proa numa enorme corda. O nó que o galego marinheiro fez tem nome: chama-se Bispo do Rosário, em homenagem a outro marinheiro.

Logo, contando comigo retornamos aos 23. Somados 2+3 resultou no número de tripulantes dessa nova empreitada pelo Atlântico.

O propósito dessa viagem é resgatar Bas Jan Ader (*), ou, quiçá oferecer-lhe minha escuta ou o desejo de percorrer limites e sentir do ardor a dor. Debater a queda; cair da bicicleta, cair do telhado, cair da árvore, cair no rio que leva o corpo, que afoga por instantes e que salva por um ‘triz’. Adentrar as profundezas do mar. E de tanto borbulhar no mar, tropeçar e dizer amar.

Não! Bas Jan Ader não foi salvo. Ele foi libertado. Cansou do riso fácil, enquanto estudava sobre a queda e o limítrofe de vida e morte. Tênue fio da navalha. “Ele partiu e nunca mais voltou…”.

Quando dei por mim, estávamos nós cinco: Bas Jan Ader, seu Alberto, meu amigo ancião Blake, Miller e eu. O medo da solitária viagem pelo Atlântico dissipou. Abrimos nossos braços às tempestades, gritamos aos deuses impropérios, ficamos embriagados de nossas falas ao falo. Trituramos nossa própria carne, cuspimos trovoadas e retornamos ao desejo. Do desejo ao gozo como em um álbum além  mar… mar… mar… a… mar!

(*) Bas Jan Ader (Winschoten, 1942- Atlântico, 1975) desapareceu “no oceano Atlântico ao tentar atravessá-lo com minúsculo veleiro enquanto realizava a segunda parte de um tríptico chamado In Search of the Miraculous”. In: Catálogo da 30ª Bienal, 2012, p. 110-111. Documentário de Rene Daalder, O desaparecimento de Bas Jan Ader, 1975

Série Ficcional H. Miller XXV: a imensidão do mar tem a cor dos seus pequenos olhos castanhos

30 dez

por Lia Mirror & Laila Lizmann

Um dia meus pequenos olhos castanhos foram vistos azuis como o mar. O mar que não existia entre nós fez-se como reflexo dos seus olhos. Era uma bela tarde vazia; apenas um eco do azul profundo e reafirmação de uma beleza oca comparável a juventude perecível.

Sempre questionei o vazio e ao mesmo tempo percebi que me espreitava; olhos que viam meu corpo sob a água abundante. Seu olhar entrementes sempre em disfarce como se algo fosse acontecer.

Escapei do incômodo e fui cercada pelo seu esteio;desviei o que pude, mas, a caçada foi incisivamente cirúrgica. Então, erguei-me a vê-los comparsas – cúmplices de seus desejos.

Fui emboscada – a presa, a carne. Nesse momento vi que também eram azuis os olhos do algoz, mas pequenos como os meus. Alquebrada que estava, ainda vi o jogo intermitente. O acordo era o pérfido olhar que ambos tinham em comum.

H. Miller apareceu subitamente no momento da degola; ergueu-se diante de todos como gigante; fui resgatada e acordada com seus beijos. Disse que meus pequenos olhos castanhos tinham a cor da imensidão do mar. E continuou:

dali
Salvador DALI por Philippe Halsman, 1954.

O verdadeiro mar tem o seu cheiro, a profundidade e as tormentas das ondas, a sonoridade irresistível do canto das sereias; a imensidão do mar está em seus pequenos olhos castanhos, por isso… “eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro… um mundo inexplorado.” (1)

Nota:

MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963 a, p. 177.

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