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Droga é legal, o homem que não é.

4 jul

Por Byra Dornelles

 

Domingo passado estava conversando com um amigo meu que é musico e constatei algo que penso há anos: droga é legal! Pense em toda a obra dos Stones, Brown Sugar na década de 70 e dos Doors, se não houvesse drogas. Sem apologia , eu só uso drogas ilegais duas vezes ao ano, no meu aniversario e no reveillon, mas fico pensando…Cabeça de Dinossauro dos Titãs, sem o Arnaldo Antunes drogado, seria possível? Sgt. Peppers, dos Beatles sem ácido lisérgico?

Rimbaud…?
Uivo do Allen Ginsberg?
As portas de Percepção de Aldous Huxley sem drogas?
Flashbacks, de Timothy Leary?

O A E O Z, dos Mutantes?

Meu amigo dizia: “sou um homem! Como é que é!?
Alguém ou o sistema vai me dizer o que eu devo comer ou beber? A maconha é meu samba!”

A proibição provém justamente do medo que ‘eles’ têm da máquina parar de funcionar e de que todos acabem com sua rotina febril e estagnante, de que nasça uma nova ordem em que os princípios cristãos caóticos e caducos venham ser questionados.

A partir do momento que a sociedade rotula a pessoa de ‘viciado’ ele é excluído de uma possível participação e é discriminado.

 

Byra tirinha

 

Ralph Emerson, que nasceu em 1803, usava haxixe e ópio e defendia um sistema de idéias basicamente fundamentado na individualidade, crescimento interior, autoconfiança e rejeição à autoridade, instigando assim, as pessoas a procurar um Deus interior e abandonar o cristianismo.

Qual a importancia das drogas? Elas são usadas desde que o mundo é mundo! Qual o medo que elas despertam? Na Hollanda e alguns bairros de Londres tem espaços liberados pra seu uso com controle da sociedade e não tem casos de violência ou quaisquer distúrbios.

Nesses casos acima em que cito alguns artistas que usaram e fizeram obras maravilhosas, alguém pode argumentar referindo-se às mortes de overdose e tal… . É por isso que digo que a droga é legal e como o homem é que não sabe manipular e perde o controle, se Freud conseguisse conter sua fome de cocaína talvez chegasse a resultados enormes. Se Hendrix não se chapasse daquela maneira não teria morrido de sufocamento pelo vômito… Janis Joplin estava acostumada com uma dose de heroína sarapa e naquele dia fatal veio uma carga muito pura e… Elis Regina me parece que foi a mesma coisa.

Em 2003 houve um congresso aqui no Brasil, chamado Narco News, no qual um professor norte-americano, Robert Stephens, tentando espalhar o medo, como fizeram em 1937 quando foi proibida a maconha nos EUA, querendo apertar o cerco aos usuários e tambem visando aqui, a implantação de clínicas de ‘tratamento’, (esse terrorismo chamado de justiça terapêutica ), fez varias falsas afirmações sobre a droga:

1 – causa insônia
2 – náusea
3 – nervosismo
4 – ansiedade e perda de apetite(!!!)

É claro que foi desmascarado lá mesmo na terra dele, imagine aqui, dizer que maconha provoca insônia e perda de apetite! No mínimo ele nunca experimentou!

Alguns nomes históricos que usaram/pesquisaram drogas:

Carlos Castaneda, Aleister Crowley, William Burroughs, James Joyce, Ken Kesey, Torquato Neto, Alan Watts, Lennon, Paolo Mantegazza, Sergio Sampaio, Miles Davis, Jim Morrison, Keith Richards, Raul Seixas, Mick Jagger, Tim Maia, Jerry Rubin, Eduardo Bueno, Abbie Hoffman, Kurt Cobain, Arnaldo Baptista, Albert Hoffman, Allen Ginberg, Timothy Leary, Arnaldo Antunes;

Concluindo, vamos usar todas as drogas, plantas, com responsabilidade e moderação pois seu uso pode causar dependência, pensando que é fundamental:

1- Construir seu próprio e desfrutável universo,

2 – Pense por si mesmo e questione a autoridade, como disse Burroughs: “ Na verdade, tudo é permitido”.

3 – “ O fato de todo homem e toda mulher ser uma estrela”.

Eu não posso causar Mal nenhum a não ser a mim mesmo… (Lobão e Cazuza)

 

byra rg
*Byra Dorneles (Auto-didata, ex-calafate e estuda sobre drogas desde os 13 anos)
Base do texto:

www.narconews.com 
“Flashbacks” de Timothy Leary.

 

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Série Ficcional H. Miller XXVIII: Coração

12 jun

por Lia Mirror

 

“… o espírito é como um rio que procura o mar. ” (Henry Miller)

 

“- Pode entrar, Dr. Fausto lhe aguarda. ”

Apreensiva adentrei novamente o consultório. De imediato avistei Dr. Fausto e o elogiei pela bela aparência ´jovem´; a minha corria o tempo dos mortais.  E mesmo sem alma (1) fui agraciada pelas belas palavras do doutor ao referir a mim, como uma ´jovem liberta´ devido a constância nos estudos. Disse-me enfaticamente: “estudar nos torna jovens! (2) Mas, o que a trouxe dessa vez? Ainda há um coração? Ou devoraste o teu como Rimbaud? ”

Coração coeur-de-louise bourgeois, 2004

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), HEART, 2004.

Meu coração pesa mais do que eu; é como o coração de um beija flor, tem 80 batimentos por segundo quando sofro. Pode chegar a 90 batimentos quando sinto ciúmes. Diminui para 50 quando vislumbro um escape. Mas no escape são todos urubus disfarçados de cordeiros. Entre o assado e a carniça há um coração e um Dürer.

– “Desculpe doutor, o sr. Thomas Mann pede urgência! ”

– “Fausto, meu caro.  Venho interceder por esse coração… se a alma não foi vendida pela juventude, o coração não deve ser leiloado.  Uma alma pelo Dürer foi a abdicação do ego e do valor ao outro. Dürer será preservado. O coração de um beija flor também merece ser inscrito nessa história, aquém da juventude e da riqueza. Deixe-a ir. Interfiro nessa escrita por conhecer o que sustenta esse Ser. “

corações louise 2006

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010), Untitled (Hearts), 2006.

Mais uma vez, Dr. Fausto riu como Mr. Ryde, mas logo respondeu como Dr. Jakyll e por conseguinte como H. Miller.

Robert Louis Stevenson invadiu o consultório. Mann e Stevenson chegaram a esboçar o confronto, mas gritei a efusão literária até falhar a voz. O coração era meu, a dor era minha. Peguei minha bolsa e saí sem olhar para trás, sussurrando as seguintes palavras: “Diga que eu só vou voltar depois que eu me encontrar. ” (3)

A transformação foi imediata: “pele por escamas, pernas por cauda, guelras e música” (4)… ao MAR.  ‎

 

 

Referências:

(1) Minha Alma Imortal

(2) MANN, Thomas. Doutor Fausto. Tradução Herbert Caro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1952. Volume II, p. 417.

(3) Preciso me encontrar

(4) A(…)MAR ou “vivendo com saudades”

A(…)MAR ou “vivendo com saudades”

13 abr

Por Caio Madeira

 

Ela vivia num tempo diferente do meu. A vida dela passava com mais rapidez, e meus pensamentos sobre ela eram como ela se comportava, e como ela agia, e como ela rompia os relacionamentos dela com tamanha facilidade.

Ela é uma mulher que entregou seu corpo ao mar sem medo da solidão do oceano, e que, em retorno, recebeu a dádiva de ser parte das águas. Pele por escamas, pernas por cauda, guelras e música. Uma mulher que tinha sua beleza refletida sobre as águas cristalinas, com o cabelo salgado e o corpo nu molhado, sem o medo narcisista de se matar ao entregar-se ao próprio reflexo na água. Ela nadava com todos os peixes, em conversas intimas com as criaturas sob a maré calma, e quando sentia que sua humanidade à chamava, respirava o oxigênio com orgulho de ser a mulher que era.

Acima da água, ela alegrava-se pensando no que lhe trazia alegria e sentia saudades do que lhe trazia lembranças. E no meio de sua vida tão completa, marinheiros apareciam aqui e ali, seduzidos pela sua beleza. Eles saudavam-na, desejavam-na, atiçavam-na e queriam a bela sereia de qualquer jeito, e, ela ali no seu mar apenas olhava eles se fazerem de bobos.

Seu canto deixavam os idiotas em seus barcos gritando qualquer poesia barata, elogiando e se decompondo nas ideias que eles nem entendiam só pela esperança de conquista-la. E a sereia, tão bondosa, aceitava os desesperos dos homens que achavam que o mar era um trilho para seu automóvel, tão egoisticamente.

Os homens iam e vinham, se jogando no mar e nadando sem futuro para matar a fome dos peixes; as sereias alimentavam o mar antigamente, sabia? Pelo mar todo boiavam e afundavam corpos de homens estúpidos, que alimentavam os peixes enquanto caiam e caiam até o fundo do oceano, não sobrando nada na escuridão mais funda…

E. Nery, A mulher dos quadros do museu, 1988.

Emmanuel Nery (Rio de Janeiro, RJ, 1931- Rio de Janeiro, RJ, 2003) A mulher dos quadros do museu, 1988.

 

 

– E como eu nasci então?

– Você nasceu das linhas de um poema de amor – dela com o mar.

Série Ficcional H. Miller XXVII: O corpo por um fio

13 abr

por Lia Mirror

 

Se você não conseguir fazer com que as palavras trepem, não as masturbe.

(Henry Miller)

 

Em um daqueles dias torrencialmente chuvosos corri pelas ruas como um dia de sol. O sol era interno no manicômio do meu copo. Despi as vestimentas morais e ri dos insanos olhares. Molhada também de prazer, torci o peso do encharque e continuei bendizendo meu desejo.  Blasfemei os tropeços e me joguei como um tênis sobre um fio de alta tensão.

 

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010)  Arch of hysteria, 1993.

Louise Bourgeois (Paris, França, 1911- Manhattan, NY, EUA, 2010) Arch of hysteria, 1993.

 

Por alguns segundos oscilei como um pêndulo; mas logo caí. A queda foi amortecida pelo divã abandonado. As mãos me protegeram do embate corporal; mas as linhas foram alteradas, foram reescritas. Levantei e caminhei contra o tempo. Confrontei e abri frestas subterrâneas. Nadei rios de correntezas e subi o morro para avistar o mar. Era o meu morro do nascimento. Meu Morro, Morro de saudades. Meu desejo, Morro de desejos.

Ao poetizar o Morro dei conta de que nosso encontro não estava previsto. Insurgimos e esculpimos nosso próprio tempo. Nossa mistura de segredos e diferenças. O gosto do gozo. O prazer da ficção.

 

Série Ficcional H. Miller XXVI: Do Pacífico ao Atlântico

26 jan

por Lia Mirror

 

 (…) Toda a vida marítima! tudo na vida marítima!
Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina…
Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte!
Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas!
As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico… E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós!
A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico!

Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Ode Marítima, 1890.

 

 

Enquanto içava as velas no Atlântico lembrei dos 23 tripulantes resgatados de um naufrágio; um não sobreviveu a sua própria tormenta. Antes mesmo de chegarmos em terra firme, o lobo do mar jogou-se no Pacífico como isca para tubarões, amarrado à proa numa enorme corda. O nó que o galego marinheiro fez tem nome: chama-se Bispo do Rosário, em homenagem a outro marinheiro.

Logo, contando comigo retornamos aos 23. Somados 2+3 resultou no número de tripulantes dessa nova empreitada pelo Atlântico.

 

O propósito dessa viagem é resgatar Bas Jan Ader, ou, quiçá oferecer-lhe minha escuta ou o desejo de percorrer limites e sentir do ardor a dor. Ser ridícula como no poema de Álvaro de Campos: só para ridículos como nós. Debater a queda; cair da bicicleta, cair do telhado, cair da árvore, cair no rio que leva o corpo, que afoga por instantes e que salva por um ‘triz’. Adentrar as profundezas do mar. E de tanto borbulhar o mar, tropeçar e dizer amar.

 

 

Não! Bas Jan Ader não foi salvo. Ele foi libertado. Cansou do riso fácil, enquanto a olhos nus relampejavam seus estudos sobre a queda e o limítrofe de vida e morte. Tênue fio da navalha. “Ele partiu e nunca mais voltou…”.

Quando dei por mim, estávamos nós cinco: Bas Jan Ader, seu Alberto, meu amigo ancião Blake, Miller e eu.

O medo da solitária viagem pelo Atlântico dissipou-se. Abrimos nossos braços às tempestades, gritamos aos deuses impropérios, embriagamo-nos de nossas falas ao falo. Trituramos nossa própria carne, cuspimos trovoadas e retornamos ao desejo. Do desejo ao gozo como em um álbum além  mar… mar… mar… a… mar!

 

Série Ficcional H. Miller XXV: a imensidão do mar tem a cor dos seus pequenos olhos castanhos

30 dez

por Lia Mirror & Laila Lizmann

Um dia meus pequenos olhos castanhos foram vistos azuis como o mar. O mar que não existia entre nós fez-se como reflexo dos seus olhos. Era uma bela tarde vazia; apenas um eco do azul profundo e reafirmação de uma beleza oca comparável a juventude perecível.

Sempre questionei o vazio e ao mesmo tempo percebi que me espreitava; olhos que viam meu corpo sob a água abundante. Seu olhar entrementes sempre em disfarce como se algo fosse acontecer.

Escapei do incômodo e fui cercada pelo seu esteio. Enquanto movia meu corpo que driblava-te, e na evidência do isolamento veio a mim o douto do qual desviei enquanto pude. Mas a caçada foi incisivamente cirúrgica. Então, erguei-me a vê-los comparsas – cúmplices de seus desejos.

Fui emboscada – a presa, a carne. Saciado o bicho jogou-me. Nesse momento vi que também eram azuis os olhos do algoz, mas pequenos como os meus. Alquebrada que estava, ainda vi o jogo intermitente. O acordo era o pérfido olhar que ambos tinham em comum.

H. Miller subitamente apareceu no momento da degola. Ergueu-se diante de todos como gigante; fui resgatada e acordada com seus beijos. Disse que meus pequenos olhos castanhos tinham a cor da imensidão do mar. E continuou:

dali

Salvador DALI por Philippe Halsman, 1954.

O verdadeiro mar tem o seu cheiro, a profundidade e as tormentas das ondas, a sonoridade irresistível do canto das sereias; a imensidão do mar está em seus pequenos olhos castanhos, por isso… “eu não olho mais nos olhos da mulher que tenho em meus braços, mas os atravesso nadando, cabeça, braços e pernas por inteiro… um mundo inexplorado.” (1)

 

Nota:

MILLER, Henry. Trópico de Capricórnio. Tradução de Aydano Arruda. São Paulo: IBRASA, 1963 a, p. 177.

Conto: O Sub-Término do Consciente (Parte I)

29 nov

por Caio Madeira

 

O sub-término do consciente ocorreu durante um jantar à luz de velas com comida congelada servida a dois, preparada às pressas pelo namorado. O apartamento, no 8º andar, era pouco mobiliado e a mesa balançava com o sobrepeso da comida em um dos lados. A música que impulsionava o clima era o incessante andar do cachorro hiperativo do vizinho de cima. A namorada sentada no canto da mesa pensava estar em mais um encontro com seu namorado, enquanto o namorado no outro canto chamou-a aquela noite para terminar o namoro.  

A história a seguir se passa no fundo da mente do namorado durante o término – mais precisamente na ponte que liga o consciente e o subconsciente, narrado por um pensamento que leva a outro, que vem de outro, que lembra outro, mistura-se a outro e forma outro, podendo deformar outro ou a si próprio antes (ou depois) de se apresentar ao consciente. E a consciência não é necessária no fundo da mente de quem se deixa levar, conscientemente, pela inconsciência. Por este motivo, não confie em tudo que lê como sendo tudo que ouve ou tudo que falam. Mas desconfiar de tudo seria um erro ainda maior. 

A história a seguir começa exatamente um segundo antes do término, atinge seu clímax no ápice do sub-término da consciência e termina além da vida que é narrada, e nada além disso.

 

ismael-nery-agonia-1931

Ismael Nery (1900-1934) Visão interna – Agonia, 1931. Óleo sobre tela.

…desfaça seu olhar ou vou ter que me exaltar.

Essa expressão em teu rosto, tão leve e bela, amargura o meu. Sei que teu amor ainda vive, mas o meu já pereceu. Esse teu olhar apaixonado faz meu corpo tremer e meu pulso fechar, enchendo-me com uma vontade pulsante de te estrangular. Como pode manter a beleza em seu rosto a me ver sobrecarregar? Comparo-me a um leão mirando ao longe uma jugular, com motivação instintiva incendiando o olhar. Fiz-te um jantar, que sem tua presença estaria congelado, intragável, assim como seu amado namorado que lhe dirige palavras em meio de um pestanejar não tão bem pensado, usurpado de forma e com emoção instável,

eu me sinto incontrolável,

…deslocando meus pensamentos para um assunto que não havia sido nem ao menos comentado durante a mesa, levando-me a agonizar com diálogos isentos de qualquer valor à sanidade que por tanto tempo me fora proporcionada – porém não tão bem calculada – e que, com o tempo, achou um atalho depositado em latas, copos e principalmente taças. Taça igual a esta que seguro na mão, descontroladamente pingando gotas no chão, provavelmente devido ao tremor causado pela forte emoção de estar aqui contigo nesta noite, com pensamentos e ideias em perigosa comunhão.

E não!, não fale nada, pois sei bem como você despreza esse meu eu tão alterado, embriaga-… extasiado. Como detesta ver teu amor defronte a ti internamente violentado por um líquido que não mata a sede em uma garrafa apenas. E você pode ter certeza que essa insanidade misturada na bebida já respingou insensatez em alguns momentos de fraqueza em outras ocasiões, mas que poucos – muito poucos – perceberam que havia algo errado. Foram sempre alguns poucos respingos em ocasiões que pediam trajes secos ao invés de ligeiramente molhados, mas que todos culparam o manchado traje a um descuido com o copo que me fora dado, e que provavelmente deve ter molhado também os pobres desavisados que estavam ao meu lado, que riram de um embaraço ou coisa qualquer que possa ter causado o descuido por minha parte. Pequenos momentos são fortes como qualquer grande momento quando são repetidos em quantidade e honesto intento. Aumentam também em intensidade quando são alimentados pelo tempo que passa. Mas eu divago à sua companhia.

Esta noite, última noite, é nossa! E olha pra você…

Mesmo depois de eu esquentar o jantar e acender estas velas sob a transcendente luz do luar, você me trata como se estivesse desesperada, como se estivesse acabando todo seu ar. Então lhe pergunto: estou eu respirando todo seu ar? Não consegue tomar fôlego com minha mente a reclamar? Estou aqui a terminar!, a revogar teu acesso ao meu afeto. Estou a ausentar teu julgamento de certo e errado, pois estou cansado de vaguear contigo por anos e anos a fio, sentindo que estou me despedindo de meus próprios aniversários no caminho.: estou sentindo o tempo deformar!, captando o instante com um relógio quebrado que não sei consertar – e que muito menos posso pagar por um conserto, pois vivo num rotineiro anti-deleito em nossos encontros que me toma a vida inteira, fabricando calendários anuais diariamente, cada um com um ano diferente e com os feriados ausentes para descansar;

Ou até pior: Todo minuto que passo contigo é dois de janeiro do ano seguinte, onde volto de carro num engarrafamento na estrada, relembrando à força de todos os compromissos que havia pendurado no varal do esquecimento antes de ir celebrar um novo ano na praia, otimista no réveillon. Dois de janeiro, onde passo por acidentes rodoviários e tenho meus devaneios imaginários cortados por buzinas de caminhão, enquanto tento – mesmo que por um momento – sentir mais uma vez meus dedos do pé carinhosamente enterrados na areia e ter meu mundo focado apenas nos desenhos barulhentos que fizeram os fogos de artificio na noite anterior. Mas, assim como nosso amor, é apenas possível lembrar o que passou e impossível sentir de novo – pois você me prende num presente amargo filtrado por pensamentos de um passado nostálgico. O tempo contigo vai longe e me envelhece, e você esquece que eu como comida congelada todo dia e vou morrer cedo

…e não é sua vez de falar!

Não há diálogo neste monólogo a dois. O que tenho a dizer não foi construído esta noite, sabe? Meu delírio foi arquitetado nas madrugadas em que a insônia deixava minhas pálpebras acorrentadas à inercia de um quarto escuro, conduzindo meu pensamento inquieto e intrigado pelo meio como o amor preenche o vazio que, agora, se alimenta do meu ânimo; e que não parece dar-se nunca como satisfeito. Está noite é apenas a culminante explosão de algo que se amontoou em meu peito e, dito e feito, aqui estou. Minha cabeça sobrecarrega afoita sobre meu fino e exageradamente comprido pescoço toda a originalidade do nosso amor, que por um tempo até nos serviu de um apertado cobertor neste intranquilo mundo frio; mas que agora não parece ser nada mais do que um esboço de um projeto recíproco e indolor, fadado a se contentar com a bruta realidade de se encontrar num dolorido passado sem cor.

Mas ainda assim, para mim, este término é o mérito de uma busca pela harmonia de dois corpos que servem como depósitos de emoções, e que buscam um traço recíproco de passados sinuosos e presentes afagáveis – em busca de um futuro perfeito. De duas mentes que não mentem, ou pelo menos não mentem tão bem quanto suas bocas parecem deixar aparente ao beijarem-se de maneira fosca, de modo que possam suprimir o difícil comprometimento das palavras que devaneiam em pensamento ciumento e duvidoso ao longe, mas que é frenético e animalesco de perto – e apenas de perto. Fervoroso a ti, ruidoso a mim, e vice-versa, num ciclo que segue tanto rumo quanto o alheio entendimento da vida após a morte por pessoas ainda vivas, no qual ainda me falha o entendimento. Se não há como descrever a vida de modo fiel, como crer nos detalhes que entendemos da morte? Parece inacreditável para mim, inaceitável até, mas não parou você de tentar me fazer entender o que há após o fim, e ainda logo no começo do relacionamento!

E eu, que fingi aceitamento aos seus entendimentos; o que isso diz de mim? E é por isso que não te culpo ao se surpreender com este término, pois sempre diante do divino, acaba esquecendo-se da realidade. Passa a vida em constante preocupação com o que há depois da fatalidade, com toda essa religiosidade sufocando tua jovialidade, que até se esquece de se preocupar com a infinidade de momentos que lhe escapam a sua frente, que se perdem com o lento reinvento de um momento mais interessante vindo da minha parte, quase sempre. Entende o mérito que vejo no término? Jogamos-nos intérritos a uma incerteza e nos julgamos certos por todo o tempo, isentos de preconceitos, buscando um entendimento maior do que “o que pode estar observando o olhar que estamos observando olhar a nós”, e chegamos a isso: um vestígio de um amor que pareceu propicio a todo o momento e que, neste momento, estou botando um ponto final.

Não sou bom moço, tuas lagrimas molham apenas teu rosto. Aliás, mentira. Elas salgam também a comida e brindam com o desgosto, que me faz perceber que o gosto do álcool é como poesia, como maresia: É como se a plenitude do Amor descansasse à margem da praia, com cada grão de areia representando um Amor entre duas pessoas em qualquer parte do mundo. E nosso Amor tão profundo, grão de areia único, vivendo junto a outros grãos por tanto tempo seco, afogou-se ao ser levado pela correnteza forte, levando nosso Amor e outros grãos de areia a um outro lugar, desacatando-os bem no meio de uma vida pacata de observar vôlei de praia e crianças e castelos e mulheres lindas com biquínis pequenos, além das diárias de um cinema belo em uma tela ao horizonte que tem sessões às seis da manhã e da tarde… e levando-os a uma viagem forçada a um mundo mergulhado em hostilidade, submetendo os grãos submersos a uma visão desprivilegiada da que tinham anteriormente, vendo agora apenas uma imensidão azul onde o sol mente sua beleza com uma distorcida iluminação difícil de encantar ao ser vista do fundo do mar. Porque você insiste em brincar de mar é o motivo pelo qual eu não consigo mais te amar.

Não consigo erguer a cabeça para respirar, só consigo perder a cabeça ao sentir você me afundar. Não consigo ter certeza do chão que piso, e sinto isso já faz meses. Não consigo nem mais olhar você como olhava antes, com críticas observações peneiradas em sorrisos enamorados e confiança e encanto, fotografada em casamentos da realidade com a minha imaginação. Já se foi o tempo que a via como rotineira ambição, e meus olhos agora buscam de sua imagem uma sofrida emancipação. Vejo-me como veria um documentarista amador que percorre os fatos que alimentaram nosso falso amor até ter uma indigestão, vomitando tudo pra fora e morrer por inanição. Agora é a hora de se desfazer; de fazer desaparecer uma angústia que botou uma máscara antiga, que tão precocemente chamamos de amor; e será que devo parar de falar? Será que deixei meu ponto claro? Nem falei sobre querer minha liberdade. Ela está abrindo a boca, ela vai tentar rebater, vai falar de mim, o que vai ser? Vai me quebrar, vai me contradizer, vai querer partir pra cima e me bater, jogar pratos, vai.

Ela se levantou e começou a falar.

Série Ficcional H. Miller XXIV: ´minha alma imortal´

2 ago

por Lia Mirror, Gisèle Miranda e Laila Lizmann

 “… Minha alma imortal… que venha a manhã com brasas de satã…”

Arthur Rimbaud (Charleville-Mézères, 1854- Marselha, 1891)

Decidi colocar minha alma à venda. Corri para conversar com Thomas Mann que de imediato indicou-me o dr. Fausto. Antes de assumir sua dialética visão de liberdade que lhe valeu a alma, gritei:  – minha alma imortal está à venda!!!

Exclui a carne tal como ele (s). Quanto vale minha alma? Um Dürer? Afinal, todos os planetas convergem para o signo de Escorpião bem como mestre Dürer os desenhou sabiamente no folheto medical. [1]

Minucioso Dürer! Os bons sentidos te louvam por suas gravuras; só o olhar próximo pode dimensionar o tamanho do que você fez… faz. Percorro cada centímetro dos seus sentidos. Ah, essas Luzes do Norte!

Dürer  o cavaleiro e o demônio

Dürer (Nuremberg, 1471 – Nuremberg, 1528), O Cavaleiro, a Morte e o Demônio, 1513. Gravura sobre metal 25,19 cm.

Inclino-me a comparar sua solidão com um abismo, no qual se aprofundavam, sem ruído nem rastro, os sentimentos…, disse-me dr. Fausto em consulta.[2] Interrompi sua fala para dizer-lhe que segundo meu amigo ancião: – a solidão é um porvir para poucos! Complementei cantarolando o fundo musical: …vou botar minha alma à venda… nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça… [3]

Dr. Fausto riu como Miller. Meus olhos foram atravessados a nado. Nesse percurso vi e ouvi trechos do escárnio da vida. Alguns vinham de Henry Miller, outros de Thomas Mann até chegar Robert Louis Stevenson.

Ao ampliar meu olhar naquele mar de palavras, vi o retrato de Dorian Gray. Pedi a dr. Fausto que parasse com aquela miscelânea e que fôssemos direto ao ponto, ou seja, a venda de minha alma.

Dr. Fausto riu como Mr. Ryde. Vi uma figura que “assemelhava-se a uma gravura de Albrech Dürer – uma mistura de todos os demônios sombrios, irascíveis, taciturnos…”[4].

Quando dei por mim, ouvi em sussurros…sua alma merece um Dürer, disse Miller. (em minha boca e com o ardor literário)

dürer detalhe o cavaleiro... 1513

Dürer (Nuremberg, 1471 – Nuremberg, 1528), Detalhe da assinatura de Albrecht Dürer em O Cavaleiro, a Morte e o Demônio, 1513.

Notas:

[1] Mann, 1947: 313

[2] Mann, 1947: 11

[3] Zeca Baleiro, Babylon, 2000.

[4] Henry Miller, Trópico de câncer 

Referências:

MANN, T. Doutor Fausto (I). Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1947.

MILLER, H. Trópico de Câncer. Trad. Aydano Arruda. Rio de Janeiro: O Globo: São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003.

RENASCIMENTO Alemão: gravura da coleção Rothschild colletion. Texto Teixeira Coelho, Pascal Torres. São Paulo: Comunique Editorial, 2012.

STEVENSON, R. O estranho caso de Dr. Jakyll e Mr. Ryde. Rio de Janeiro: Clássicos Econômicos Newton, 1996.

Série Ficcional H. Miller, XXII, parte II – Tudo ou nada (mediado)

4 mar

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

Diz o ditado: Os loucos chegam correndo onde os anjos temem pisar (Miller, Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch, 2006, p. 159)

 

A mediação é um antídoto ao vazio do pensamento. Ela tem que ser ampla para alcançar as partículas que anseiam pela banalidade.  Miller insistiu no diálogo com Arendt e Chauí. Mas vociferou como Bóreas, um dos filhos do senhor dos ventos: –  pense…. Vá antes que eu lhe mate!  (Miller repetiu a frase de seu Nexus como um épico tempestuoso).

Enquanto expandia meu pensamento numa sala de espera do hospital fui chamada pelo médico. Voltei a sentir as pontadas em meu peito. Desta vez me contorci, apertei os olhos e gemi o som da dor.

Ao abrir os olhos vi e senti suas mãos percorrerem os campos minados do meu peito e logo semearam os girassóis de Van Gogh. Recitei em silêncio o Nexus: – “Você me dá coragem. Mesmo quando não diz nada. Tenho que tirar êsse pêso do peito.” (Miller, 1968, 393)

Logo, a respiração assumiu uma cadência pausada, apesar da dor que insistia. Tomei a coragem que me ofertou e caminhei pelos becos sombrios até o ponto da bifurcação. Caminhei sem temer a falésia e gritei aos quatro ventos.

Emmanuel Nery, Sucessor, 1988. Acrílico sobre tela 55 X 46 cm. Coleção Moacyr dos Reis Abreu, RJ

Emmanuel Nery, Sucessor, 1988. Acrílico sobre tela    55 X 46 cm. Coleção Moacyr dos Reis Abreu, RJ

–  Pronto! (disse o doutor) A dor e as misturas de colorações do roxo ao amarelo serão graduais.

Sorri a frieza de suas palavras enquanto lembrava do reencontro com Miller. Vasculhei os seus punhos à procura das iniciais HM, mas nada encontrei.

– Vamos aguardá-la na semana que vem. (foram as últimas e enxutas palavras do doutor)

– “Vamos?” (retruquei) Quem me aguardará além do senhor?

O médico hesitou sua gélida saída por alguns segundos, virou o rosto e sorriu o largo sorriso de H. Miller.

 

Referências:

MILLER, Henry. Nexus. Rio de Janeiro: Record, 1968. 

MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006

Sobre o artista Emmanuel Nery.

Série Ficcional H. Miller XXI, parte I: “Digo que foram as aquarelas de Turner que me fizeram tudo isso começar.” (*)

27 jan

por Lia Mirror & Laila Lizmann

 

Ninguém nasce artista. Escolhe-se isso! E, quando se escolhe ser o primeiro e o último entre os homens, não se acha nada estranho dormir com um jumento, colocar suas patas num balde de lixo ou engolir repreensões e insultos de todos os que estão próximos e dos entes queridos que encaram seu estilo de vida como um grave erro.

De vez em quando eu me revolto, mesmo contra aquilo que acredito de todo coração. Tenho de atacar tudo, inclusive a mim mesmo.

(MILLER, Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch, 2006, pp. 219; 355)

Disse em silêncio a seu Alberto: No meio do caos a formação das pessoas parece mais eficaz; e a escrita das diversas escritas, subliminares, imanentes, refúgio necessário entre um sujeito múltiplo e as máximas em devires alicerçado a um estado artístico que é cria indomável, reverbera, grita, esbofeteia, interfere, questiona, enfrenta, supera e alcança o ápice da falésia – também para morrer.

Esse encontro é invisível aos outros. Foi o que pensei durante o almoço com o seu Alberto. E sua resposta foi aquele olhar que tudo ouve. Continuei. Sorri a lembrança do curioso encontro com H. Miller quando tomou para si o ofício de livreiro.

H. Miller não o estava nas prateleiras, nem nos amontoados do chão. Então resolvi pensar em alguns trechos e as palavras vieram como água do mar atravessando os rochedos da memória, perfurando com o tempo outrora espaços intransponíveis.

Foi quando ouvi pela primeira vez aquela voz que interceptou o silêncio ambiente e as tantas vozes ocultas que declamavam H. Miller.

– “Quem você está procurando?”

Agarrei nas rochas para não morrer afogada. Aquela voz me desconcertou. Fiquei engasgada por tanta água a minha volta e com tamanha força que prensava nas pedras e me cortava nos movimentos. Esqueci quem procurava, mas as frases vieram em momentos de respiração. Dizia trechos e me afogava.

TURNER, J.M.W. (1775-1851), Bell Rock Lighthouse, 1819

TURNER, J.M.W. (Londres, Reino Unido, 1775- Londres, reino Unido, 1851), Bell Rock Lighthouse, 1819. Aquarela e guache sobre papel, 30,60 x 45,50 cm. Galeria Nacional da Escócia.

Ele tudo viu e disse: – “Sei que a água é tranquilizante para os loucos, assim como a música.”[1] Quem sugeriu a leitura?

– Um amigo ancião, assim como Blake. Espere! Conheço essa frase. Algo sobre o New Orleans? (pensei: “seus olhos desenvolvem línguas, lábios, orelhas, espalham cada pensamento, cada impulso”) [2] Por que? Você é escritor? O livreiro fez sinal que sim; então eu disse: “soube que era escritor na hora em que te vi” [3] Mas o que estamos fazendo? Não sou Bud Clausen para te dizer isso! E no entanto, as palavras assumiram na minha boca.

Olhei para seu o Alberto e “meus olhos se encheram de lágrimas. O passado estava vivo outra vez; vivia em cada fachada, cada portal, cada cornija, nas próprias pedras sob nossos pés.” [4}

 

Notas:

(*) MILLER, Henry. Big Sur e as laranjas de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006, p. 107.


[1] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 115.

[2] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 98.

[3] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 93

[4] Miller, Pesadelo refrigerado, 2006, 83

Referências:

CARDOSO JR., Hélio Rebello (Org.) Inconsciente Multiplicidade: conceito, problemas e práticas segundo Deleuze e Guattari. São Paulo: Editora UNESP, 2007.

MILLER, Henry. Pesadelo Refrigerado. São Paulo: Francis, 2006.

SHAFFER, A. Os grandes filósofos que fracassaram no amor.São Paulo: Ley, 2012

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