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Copa 2018: Um Brasil Real

6 jul

por Gisèle Miranda e Lia Mirror

 

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão… .  (Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014.)

 

Sim, espera-se tudo porque somos desiguais. Em tudo! Também o país da corrupção, mundialmente conhecido. A miséria de um pais tão próspero.

Os 7 x 1 da última Copa, as prisões, o Rio de Janeiro falido sendo uma das maravilhas do mundo. Da Copa aos Jogos Olímpicos…. talentos?  Só a sobrevivência. Como não pensar sobre isso? Quantos talentos perdidos… quantas famílias nas ruas?! Estamos em 2018!

Não é o jogador mais caro do mundo que vai mudar o Brasil. Também não devemos crucificar Jesus. Afinal ele não é o nosso Cristo Redentor.

A Copa está para Cristiano Ronaldo.  Ele bateu uma falta linda e também perdeu um pênalti! Perdeu a Copa? Que gesto lindo com Cavani (ou com Mujica)!!! Você ganhou a Copa. Como faltam gestos!

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Foto divulgação/ 2018

 

Venceu a diversidade, a força e a garra dos refugiados da histórica República Francesa e uma bela discussão sobre o tema que assola o mundo. Precisamos de mais Liberdade, Igualdade e Fraternidade!

“O meu país é a terra” em um mundo tão carente de tudo e tão desigual! Mas “o pulso ainda pulsa… estupidez… hipocrisia… ( e até) Sarampo. O corpo ainda é pouco” (*)

S´Alah!

 

Neno Ramos, sem palavras, 2018

Neno Ramos, Sem Palvras, 2018.

 

 

(*) O Pulso de Marcelo Fromer / Tony Bellotto / Arnaldo Antunes, 1989.

Futebol arte e alienação: ginga ou assepsia?

 

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A amizade e a cumplicidade artística e política de Gontran Guanaes Netto e Júlio Le Parc: Luto e Luta.

18 jun

 por Gisèle Miranda

 

Quando o ser humano vem a ser cores, quando a cor vem a ser forma humana, quando o ser humano este ligado à terra… Quando estes frutos são usurpados, quando esta usurpação gera a miséria, quando esta miséria gera revolta… quando suas cores são aquelas da dignidade, quando suas cores são aquelas da luta, quando suas cores são aquelas da esperança. (Gontran Guanaes Netto & Julio Le Parc. Cores da Esperança, s/d)

 

Contextos políticos estão indissociáveis das biografias dos artistas Gontran Guanaes Netto (Vera Cruz, SP, Brasil, 1933- Paris, França, 2017) e Júlio Le Parc (Mendoza, Argentina, 1928-). Conheceram-se em Paris como refugiados políticos vindos de prisões e torturas por lutarem pela Democracia em seus países.

Gontran e Le Parc combateram as ditaduras militares na América Latina, guerras, guerrilhas, conflitos de diversas naturezas e em vários lugares do mundo, alicerçados pela arte. Vivenciaram as mutações das sociedades e se colocam como sujeitos políticos potencializando os discursos sobre arte e, consequentemente, na produção artística como luta e luto; consciência e resistência; memória e história.

Eles amealharam recursos para criações de Museus, através de doações de seus trabalhos, assim como recursos financeiros através da venda de suas obras para resgatar pessoas em risco, seja em luta pela democracia, contra a exploração, violência, miséria.

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Eles são testemunhos viscerais de quase um século de produção artística e política, além de uma nova ética como resultante dos traumas próprios e dos outros numa constante aliança solidária (Seligmann-Silva, 2018).

Gontran Guanaes Netto deixou-nos as cores de sua esperança e a força de sua luta: “antigo combatente, jamais!”

Júlio Le Parc continua a LUTA!

 

 

 

Referências:

SELIGMANN-SILVA, Márcio. Café Filosófico, TV Cultura, 2018. O testemunho como chave ética 

Textos do Blog Tecituras :

Julio LE PARC por Gontran Guanaes Netto

O encontro nas cores/luz: Gontran Guanaes Netto e Julio Le Parc por Gisèle Miranda

Grito do silêncio por Gontran Guanaes Netto

Série Cartas (ensaios) de leitores I: Gontran Netto, o Diógenes da pintura brasileira. por Maria Aparecida Correa Paty

Reminiscências e reflexões por Gontran Guanaes Netto, parte I e II

Série Retecituras V: Gontran Guanaes Netto e seu manifesto pelo Chile por Gisèle Miranda e Gontran Guanaes Netto.

Dados biográficos de Gontran Guanaes Netto por Gisèle Miranda

Provocativas por Gisèle Miranda

Autobiografia de um artista bem-sucedido por Gontran Guanaes Netto

História e Memória sob tortura por Gisèle Miranda e Jozy Lima.

Brava Luta por Gisèle Miranda

As “experiências” de Julio Le Parc por Gisèle Miranda

Refugiados e xenofobia: por que precisamos ser lembrados de nossa diversidade cultural?

18 out

Por Jozy Lima

 

 

Quem acessar o site do Ministério da Justiça encontrará uma notícia, publicada em 9 de outubro de 2015, sobre a liberação de R$ 15 milhões de crédito extraordinário, por meio de Medida Provisória, destinados à política de assistência a refugiados e imigrantes.

O Ministério da Justiça, órgão da administração federal direta, tem sob sua esfera de competência a nacionalidade, imigração e estrangeiros. A legislação que regula a condição de refugiado é recente, é de 1997.  Mas, a origem remonta aos tempos do pós guerra, uma vez que os preceitos da lei deverão ser interpretados em harmonia com a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, com a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951, com o Protocolo sobre o Estatuto dos Refugiados de 1967 e com todo dispositivo pertinente de instrumento internacional de proteção de direitos humanos com o qual o Governo brasileiro estiver comprometido.

A  Lei nº 9.474, de 22 de julho de 1997, que criou o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), estabelece no art. 1º que será reconhecido como refugiado todo indivíduo que:

I – devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país;

II – não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias descritas no inciso anterior;

III – devido à grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país.

Sob o aspecto jurídico os critérios para o reconhecimento do refugiado estão estabelecidos. Contudo, para além da letra fria da lei cabe perguntar: quem é o refugiado para o brasileiro? E quem é o brasileiro para o refugiado? As possíveis respostas devem reconhecer, de antemão, que são pessoas de carne e osso, fugindo de situações adversas como guerras, catástrofes ambientais, perseguições políticas, entre outras. Por isso vivenciam uma condição dramática:

“um indivíduo que migra entrará em contato com uma nova cultura e precisa abrir mão de tudo que lhe é conhecido e mergulhar em um mundo que requer novas representações e novos significados. Isso significa vivenciar uma experiência de desamparo na qual a não compreensão cultural afeta o bem estar psicológico e dificulta a sua adaptação. Um migrante em estado de privação, com a perda prolongada de referenciais próprios, sofre e vivencia uma crise. Toda crise implica em ruptura ou separação, mesmo que apenas como realidade psíquica. São períodos de transição que representam para o indivíduo tanto uma oportunidade de crescimento como um perigo de aumento da vulnerabilidade e enfermidades psíquicas.” www.dedihc.pr.gov/arquivos

SEGALL, Lasar. Navio de emigrantes, 1939/41 óleo com areia sobre tela 230 x 275 cm

Lasar SEGALL  (Vilnius, Lituânia, 1881- São Paulo, SP, Brasil, 1957), Navio de emigrantes (parte), 1939/41 óleo com areia sobre tela, 230 x 275 cm (Museu Lasar Segall)

 Se, por uma lado, o Ministério da Justiça destina verbas à política de assistência humanitária aos refugiados, por outro, temos registros de xenofobia. O fato é que três organizações da sociedade civil promoveram ato pelos refugiados e contra a xenofobia, dia 15 de setembro, em São Paulo. Mas, historicamente, somos considerados uma sociedade de formação plural que acolheu diferentes culturas? Sim.

Enquanto escrevia este artigo retornei ao site do Ministério da Justiça e fui surpreendida com a publicação de uma campanha para nos lembrar exatamente isso. O objetivo da campanha é “informar e conscientizar” sobre nossa diversidade e combater a intolerância e a xenofobia. Então é mais do que tempo de darmos um basta no pseudo discurso da democracia racial e da convivência pacífica entre os diferentes povos que aqui habitam e encararmos a realidade nua e crua de que vivemos num país conservador, retrógrado, racista, preconceituoso e xenófobo que exclui as minorias sociais, mantendo-as alijadas das oportunidades que o estado de bem estar social deveria garantir a todas as pessoas, independentemente de cor, sexo, etnia, religião, classe social e nacionalidade.

Provocativas e “Quem tem medo de Simone de Beauvoir?”

6 out

Provocativas 

 

por Gisèle Miranda

O texto Quem tem medo de Simone de Beauvoir?fez-se – em meio a provocativas; proposta de parceria do Tecituras que varia conforme a necessidade, ou seja,  questões do pensamento vertendo à escrita numa plasticidade gestada (na fabricação do próprio mel – palavras, signos, paisagens… com as folhas do campo e das ervas daninhas, reverbrando Le Goff). No exercício diário do experienciar, de encontro aos muros, de verter obras e pensamentos a uma própria e necessária escrita. Não numa linguagem verborrágica, maledicente, sob uma privilegiada, rara, (e cara) educação, que faz da escrita um discurso fatalista do incorreto/correto, a pouca valorização do pensamento. Afinal, mais do que desigualdades, a educação convulsiona no esfarelado do patrimônio a comercialização.

O verborrágico sem a temporalidade necessária incorre nas muitas impossibilidades merecedoras de criações e, no entanto, desviam no conglomerado de citações rumo ao vazio, o que não deixa de ser um caminho, por pior que seja. Ora contemporâneos e de difícil compreensão pela falta de distanciamento, ora pelo pegajoso da facilidade; ora ou outra, o personagem asséptico ecoando uma ordenada leitura num silêncio impermeável ao diálogo, logo, no conforto e na assepsia.

Talvez, a simplicidade das palavras esteja em falta, assim como o trabalho do pensamento – lento, que desvenda e desaponta, desestabiliza porque há uma consciência encarnada num corpo humano (Merleau-Ponty), mesmo hoje, em meio à desmaterialização do espaço (por Pierre Levy), ou que o sujeito neurótico seja substituído pela falta de identidade (o esquizo de Deleuze).

Afinal que tempo ou pensamente é esse? Tempo em que Sartre em sua irreversível velhice dizia que jamais se sentiu velho. Ele morreu em 1980, aos 74 anos assumindo posições e reiterando que o silêncio é reacionário.

Sartre criticou o comunismo assassino de Stalin, por um Humanismo que o vitimou em estado de utopia. Em tempo de domínio marxista propôs a anarquia dos jovens ao conceito. Pela utopia criticou com veemência o papel do intelectual clássico (e asséptico), que tem seus encantos na boa escrita; mas para criticar precisou dos longos e pacientes 16 anos para o ina(cabado) L´idiot de la famille, sobre o intelectual Flaubert pela dificuldade de falar de Bovary, pois tinha a seu lado, em carne e osso – Simone de Beauvoir.

Ao longo das vidas de Sartre e Beauvoir muitos nomes circularam, sob críticas, embates de egos aos infortúnios; e viver numa guerra é sem dúvida aterrorizador. Há os que não resistiram as guerras, como Marc Bloch, mas sua escrita subterrânea sobreviveu; assim como há os que escaparam, dificilmente sem danos por força das circunstâncias como Sartre; em função da trincheira ou do campo de concentração, não há como pensar menos ou mais sofrimento neste momento.

E se Sartre parecia mais sensível e popularizado – o que certamente seus críticos mais ferrenhos adoram diagnosticar como melindre burguês e populista – talvez devêssemos nos deter “a sensibilidade e a inteligência (que) não estão separadas… sensibilidade produz inteligência”. (Sartre, In: Beauvoir, 1981, p. 411)

Inteligência para discutir, atritar, conviver, enfim, trabalhar o pensamento em seus vários momentos, mas percebê-los necessários e maturados, assim com a vida de seus contemporâneos, Merleau-Ponty, Camus, Foucault, Althusser, Deleuze, entre tantos; e sensibilidade de partilhar seus dividendos para suprir necessidades de amigos, conhecidos, grupos e propostas utópicas.

Quando Sartre e Beauvoir estiveram no Brasil, em Araraquara,1960, houve uma conhecida foto da platéia: Ruth Cardoso, Bento Prado Jr. e Fernando Henrique Cardoso.

Prato cheio para o olhar conservador (de hoje) falar do lado burguês de Sartre, o que ressoaria uma posição centro-esquerda a centro. Afinal, qual era o público de Sartre e Beauvoir? Como se não estivéssemos à beira de uma ditadura militar por longos vinte anos! Nessa mesma platéia estava também o jovem pintor autodidata Gontran Guanaes Netto, filho de um bóia-fria, que logo se tornaria um militante de pseudônimo André, exilado político na França, humanista e colaborador do Tecituras.

 

Platéia da conferência de Jean-Paul Sartre, 1960, Araraquara/SP: Gontran Guanaes Netto é o terceiro na segunda fila; primeira fila Ruth, FHC, Bento Prado Jr.

 

“Uns gatos mijaram em mim”, relato de Simone de Beauvoir do humano Sartre sobre sua incontinência urinária. Simone vocifera na escrita: “É terrível assistir à agonia de uma esperança”. E para fechar essa parceria Sartre e Beauvoir – atual, e por que não dizer humana e utópica, cabe o destaque a pergunta de Beauvoir a Sartre: “Quando perdeu essa ideia estúpida de que moças que se deitam livremente são mais ou menos putas?” Sartre respondeu que aos dezoito anos caiu em si. (Beauvoir, 1981, p. 93; 406)

No mais, deixo aos leitores o exercício do pensamento de Beauvoiriana, com a licença de relembrar o seu I am not a woman writer “… sou uma pessoa que ocupa na sociedade uma posição qualquer, independente de meu gênero.”

 

Quem tem medo de Simone de Beauvoir? (*)    por Beauvoiriana

Recentemente, tenho lido e ouvido muitos julgamentos, de teor e tom questionáveis, a Simone de Beauvoir que suscitam uma pergunta: por que sua figura e seu pensamento incomodam tanto? Sua bissexualidade, amantes, a recusa do casamento e da maternidade, a liberdade e independência em um mundo cada vez mais conservador.

Simone de Beauvoir nasceu há 113 anos. Suas obras mais influentes foram escritas entre os anos 1940 e meados dos anos 1970. O Segundo Sexo, seu livro mais importante, foi publicado em 1949. Lá se vão mais de 60 anos. Ainda hoje, muitas pessoas se recusam a ler Simone de Beauvoir porque ela era “uma libertina”. E repetem-se afirmações forjadas para atribuir a ela tudo aquilo contra o que ela lutou no plano das ideias e no plano da ação. Acusam-na de submissão, de dependência, de pregar o feminismo para as outras mulheres e não praticá-lo.

Essa resistência a Simone de Beauvoir esbarra em questões mais profundas sobre nossa sociedade: a condição da mulher, especificamente a mulher intelectual; a relação entre a experiência vivida e a escrita da memória com a subjetividade; as expectativas que recaem sobre os intelectuais. Tentarei abordar brevemente, e de forma não sistemática, alguns desses temas tendo como referência a figura de Simone de Beauvoir.

 

Simone de Beauvoir em seu quarto no Hotel Louisiane, Paris, 1946. Foto: Fonds Photographique Denise Bellon.

 

Os intelectuais vivem, obviamente transformando-se. É pouco racional ignorar que esse trabalho exige esforço.

Há quem queira invalidar o pensamento libertário e antissexista de Simone de Beauvoir baseado em sua relação com Sartre.

Simone de Beauvoir e Sartre tinham 20 e poucos anos quando firmaram um pacto que previa  um relacionamento aberto. Quem propôs este pacto foi Sartre. E Simone de Beauvoir o aceitou. Logo depois, eles foram nomeados para lecionar em cidades diferentes da França. O que unia a ambos: o relacionamento sexual, amoroso, e uma afinidade intelectual que provavelmente nenhum de seus críticos ou seguidores jamais experimentou. Sartre propôs casamento a Simone. Ela recusou.

O amor necessário entre ambos sempre superou os amores contingentes. Com o escritor Nelson Algren, envolveu-se no amor romantizado e “tradicional” para sua época. Ele a pediu em casamento. Ela recusou.

Simone de Beauvoir escreveu milhares de páginas em romances, ensaios, memórias abordando esses e outros fatos. Considerada uma das maiores memorialistas do século 20.

Em cada página das memórias, a honestidade de Simone é invejável. Ela reconhece, por exemplo, as críticas mal-informadas que ela e Sartre fizeram a Freud, os enganos que cometeram em algumas avaliações a respeito de personagens e colegas durante a guerra, o fato de que, durante muito tempo, ela e Sartre, embora lutando contra os ideais burgueses, se submeteram totalmente e sem sequer perceber ao estilo de vida que abominavam.

Simone de Beauvoir acreditava que a matéria-prima do intelectual, além da capacidade de compreender e criticar as teorias – é a própria experiência. A partir daí, pensava construir nossa relação com o mundo, talhar subjetividades e, assim, produzir uma obra intelectual, nos anos 1930, época que, uma mulher desacompanhada nem sempre era aceita em um café; ela optava por estar só. A solidão era a chave de sua abertura para o mundo.

Outra crítica comum a Simone de Beauvoir é de que ela era feminista em seus livros, mas não era feminista em seu relacionamento com Sartre. Dizem que ela pregava o feminismo para outras mulheres e não o praticava.

Em suas memórias, Simone de Beauvoir afirma que jamais foi feminista e que O Segundo Sexo, publicado em 1949, nunca foi concebido como um livro feminista. Por isso, quem cobra dela uma postura feminista em todos os episódios de sua vida age de má-fé. Simone de Beauvoir só se alinha ao feminismo nos anos 1970.

Eles não podiam viver a juventude de acordo com algo que ela só reconheceu e valorizou na velhice. Sim, os intelectuais mudam e se transformam ao longo do tempo, e isso não invalida seu pensamento.

O julgamento que ataca Simone de Beauvoir não é apenas aquele forjado no sexismo. Há um outro substrato nas acusações levianas que enumerei aqui e em outras que não há espaço para detalhar. Esse substrato é a necessidade de fazer de intelectuais verdadeiros deuses, modelos de comportamento, pessoas infalíveis que têm soluções infalíveis e que não podem ser questionadas.

Simone e Sartre construíram um sistema de pensamento que enfatiza: todos somos livres e a liberdade nos confronta a cada segundo com a angústia de fazer escolhas e com o sofrimento de nos responsabilizarmos por elas. Viver na insegurança, na incerteza e em constante contato com sua própria falibilidade e a ambiguidade.

Há quem Busque desqualificar o pensamento libertário, radical, transformador que, por definição, se constrói com base na exploração de visões de mundo, atitudes e comportamentos fora dos padrões e na diversidade de ideias e de ação. Nesse sentido, criticar Simone de Beauvoir (e Sartre) é muito mais construir empecilhos para que os intelectuais de hoje se inspirem ou busquem referências em suas ideias e possam pensar algo novo e tão transformador como eles pensaram em suas épocas.

Quem resiste a pensadores como Simone de Beauvoir e Sartre teme que alguém possa continuar a trilhar os caminhos que eles abriram. Teme palavras como liberdade, ambiguidade, imperfeição, descoberta, independência e, principalmente, responsabilidade e consciência. Talvez possam encontrar algo assim em alguma religião. Jamais encontrarão isso em pensadores livres e, felizmente, imperfeitos.

 

Sartre e Beauvoir. Foto: Antanas Sutkus, 1965

 

 

Apontamentos e sugestões:

(*)  Quem tem medo de Simone de Beauvoir? publicado na íntegra no portal O Pensador Selvagem.

(**) Sobre Gontran Guanaes Netto . Dados biográficos de Gontran Guanaes Netto por Gisèle Miranda  https://tecituras.wordpress.com/2010/01/11/brava-luta/ Cabe destacar que Gontran Netto não aceitou a indenização concedida por Fernando Henrique Cardoso a presos políticos)

https://tecituras.wordpress.com/2010/10/25/a-atualidade-de-simone-de-beauvoir/

https://tecituras.wordpress.com/2010/10/18/i-am-not-a-woman-writer/

BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambigüidade. Rio de janeiro, Nova Fronteira, 2005.

BEAUVOIR, Simone de. A cerimônia do adeus. Seguido de entrevistas com Jean-Paul Sartre (ago/set 1974). Tradução de Rita Braga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução Bernardo Leitão; Irene Ferreira & Suzana Ferreira Borges. 2 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1992. (coleção Repertórios)

SARTRE, Jean-Paul. Sartre no Brasil: a conferencia de Araraquara. Filosofia marxista e ideologia existencialista. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

SARTRE, Jean-Paul. O ser e o nada: ensaio de ontologia fenomenologia. 3. ed. Petropolis: Vozes, 1997.

Gestação violência (por gerações)

30 ago

Por Gisèle Miranda

 

Ao acompanhar a prisão de Goran Hadizic (em 2011), um dos líderes da limpeza étnica da Bósnia e considerado o ultimo assassino em massa do conflito da Península Balcânica – penso que – pela geração de jovens filhos de estupros, estamos longe de ter o último assassino em massa.

As prisões de Ratko Mladic e Goran Hadizic, (em maio e julho de 2011), assim como de Slobodan Milosevic (em 2000) foram conquistas do Tribunal Internacional da ONU. Estima-se que 50 mil mulheres foram estupradas sob incentivo desses líderes.

A dura temática é recorrente neste blog, donde se coloca a mulher como – arma de guerra –, historicamente uma das mais antigas violências em vigor, independente dos avanços contabilizados pelas mulheres em diversos espaços. Já que, além das guerras de outrora aos conflitos do século 21, os filhos de estupros continuam a agregar números altíssimos.

No Congo os registros contabilizam 200 mil estupros; cálculo efetuado a partir da criação de um hospital específico para casos de estupros seguidos de mutilações, desde 1999.

No Brasil, o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP (2012) vem discutindo sobre os estupros seguidos de morte durante a Segunda Guerra Mundial – “no sofrimento das mulheres durante o Holocausto” (cerca de dois milhões), até então tema ocultado no genocídio de judeus.

Longe de guerrilhas e depois da mudança do Código Penal de 2009, o estupro no Brasil deixou de ser ‘atentado violento ao pudor’ sendo punido com maior rigor, mas nem por isso extinguiu. Mesmo sabendo que o silêncio das vítimas predomina e não contabiliza. É fato que o estupro desumaniza e o covarde ato é danoso há longo prazo.

Avenida Atílio Martini, Campinas/ SP, julho de 2011 (Foto: Reprodução/ EPTV)

Em 2014,a luta do médico congolês Denis Mukwege foi reconhecida, em paralelo, a luta por driblar os atentados sofridos em decorrência do ofício de salvar e dignificar vidas.

 

Sugestões e referências:

Sobre o médico congolês Denis Mukwege:  http://cndhc.org/index.php/noticias-4/88-premio-sakharov-2014-medico-congoles-denis-mukwege-premiado-pelo-tratamento-de-vitimas-de-violacao

Sobre Louise Bourgeois: http://www.elidatessler.com/textos_pdf/textos_artista_1/Da%20casca%20de%20laranja%20ao%20casaco%20do%20pai%20LOUISE%20BOURGEOIS.pdf

HEHGEPETH, Sonja M. & SAIDEL, Rochelle G. Sexual Violence against Jewish Women during the Holocaust, HBI Series on Jewish Women Brandeis University Press, 2010.

SORG, Letícia. A mais covarde das armas de guerra. In: Revista Época, 18 de julho de 2011, p. 104-106.

“A Estranha Derrota” (*)

19 jun

por Gisèle Miranda

  

“Leo não consegue mudar o mundo. O nome do artista ausente pulsa vida na memória como um legado. Que memória é essa? Que geração é essa?

Como pensar uma exposição de Leonilson sem o sarcasmo ou a subjetividade de falar politicamente?

 

Leonilson (1957-1993), Leo Não Consegue Mudar o Mundo, 1989

Sim, politicamente sobre: “Leo (que) não consegue (iu) mudar o mundo”, sobre a AIDS, avassaladora nas décadas de 1980-90[1]. Um corpo marcado pela homofobia e pelos danosos anos de ditadura militar no Brasil. Um politicamente incorreto[2] sobre o poder macho, sobre a violência e o silêncio do Estado

Há um Leonilson associado ao inconsciente linguístico. Palavras exacerbadas, tecidas, bordadas, escritas: Mentiroso, Ninguém, Vazio, o espelho, o tombo, a bibliotecaJosé  (Leonilson Bezerra Dias ).  Um interno de um Estado como outrora foi Arthur Bispo do Rosário.

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Como já dito há os que se fortalecem diante da falta de memória; o que nos faz um povo de cidadania ainda em construção pela herança cultural, que sobrevive sob vários aspectos, e preponderantemente na violência.[3]

O legado de Leonilson nos aponta isso. E o que foi delegado à família, aos amigos está na culturalidade brasileira, que nos remete a um povo de encontros históricos, miscigenado, sofrido e carente. Isso reflete diretamente na educação que  como governar e analisar estão no rol das impossibilidades. Ou, seriam: nos possíveis a partir das impossibilidades?

Penso que o momento da educação brasileira é de INFELICIDADE, de VAZIO e de patrulhamento que fortalece um paradoxo de ervas daninhas, para acobertar sua falência múltipla de órgãos. Do berço à cafetinagem das ditas empresas educacionais de ensino superior.

Que fique claro que – de Leonilson, Bispo do Rosário, a Nuno Ramos; de Cartola, Adoniran Barbosa a Sabotagem; Mario Quintana, Leminski, a Cora Coralina; e por aí vai. Não ignoro as diferentes linguas de nossa lingua; é irrefutável! Anterior as minúcias da oralidade resgatada na década de 1950.[4] As manifestações do inconsciente linguístico estão por aí! Não compartilho a discriminação dicotômica do popular/erudito, pois se cria um modo infeliz para falar do povo.

Tampouco visto a carapuça de ´xerife da língua´ – um espelho refletido de patrulhamento ideológico utilizando noções históricas, e paradoxos do poder,  fazendo-se de politicamente incorreto, num momento INFELIZ, num poder sem precedentes da comunicação, que passa agora claramente por um renascimento da barbárie, como bem lembrado por Edward Said sobre as perspectivas do historiador Eric Hobsbawm. [5]

Será que terei a liberdade de falar sobre esse assunto sem que eu seja a força da Ordem em seu espelho? Ordem pela desordem.

Não compactuei com o MEC – seja na tentativa de abolir Monteiro Lobato à retirada do Kit anti-homofobia[6]. Acho uma INFELICIDADE.

Um VAZIO, que peço emprestado a LEONILSON, em seu sarcasmo divino, a partir de uma belíssima curadoria – Sob o peso dos meus amores.[7] Nesse modo subjetivo e não dicotômico de falar de política.

Leonilson (1957-1993), Sob o Peso dos Meus Amores, 1990.

Notas:

(*) Reverberando BLOCH, Marc. A Estranha Derrota. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

[1] 1º de Dezembro: Dia Mundial de Combate à AIDS e sua História

[2] O politicamente incorreto com o seguinte parâmetro: de Leonilson a Nuno Ramos – com sua obra Bandeira Branca, desfeita na 29ª Bienal de Arte de São Paulo sob o artífice do correto. (Cura-dores: “arte para quê?”/

No entanto, para exemplificar uma mascarada vestidura perigosa e criminosa, do politicamente incorreto, a recente fala do aclamado diretor dinamarquês Lars Von Trier, quando em uma entrevista coletiva em Cannes falou sobre o nazista. Interessante perceber que alguns de seus fãs incorreram  pelo mesmo caminho ao defenderem Lars Von Trier nesse momento, como politicamente incorreto.  Já me identifiquei como ‘leitora’ dos filmes de Lars neste blog, mas deixo claro que Lars e fãs foram partícipes de uma história de horror. “Vale à pena ler o filósofo Islavoj Zizek, em entrevista a Revista Época, em 30 mai. 2011:No caso de Lars tem outra questão: o artista deve ser julgado pelo que ele faz. O que eles sabem está no que eles produzem. Muitos deles são idiotas.” (…).

[4] ZUMTHOR, Paul. A letra e a voz: a literatura medieval. Trad. Amálio Pinheiro e Jerusa Pires Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.ZUMTHOR, P. Tradição e esquecimento. Trad. Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich São Paulo: Hucitec, 1997.

[5] SAID, Edward. Reflexões sobre o Exílio e outros enssaios. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 234.

[6] Vazios que refletem bullying, neonazistas, homofóbicos, queima de índios, agressões a nordestinos, e patrocínios de diversas guerras que superam os números de mortos das duas últimas guerras mundiais.  V. Tb. STF nega pedido para suspender livro de Monteiro Lobato em escolas públicas

[7] Sob o Peso dos Meus Amores, 2011: elogios à curadoria de Bitu Cassundé e Ricardo Resende, assim como as participações no seminário de: Ana Lenice Dias, Lisette Lagnado, Paulo Herkenhoff, Ricardo Resende, Maria Esther Maciel e Carlos Eduardo Riccioppo.

 

(**) Sugestão:

MESQUITA, Ivo. Leonilson: Use, é lindo, eu garanto. São Paulo: Projeto Leonilson/ Cosac & Naify, 1997.

 

Série Retecituras V: Gontran Guanaes Netto e o seu manifesto pelo Chile

17 ago

Por Gisèle Miranda & Gontran Guanaes Netto


A Série Retecituras nasceu pelo revigoramento da escrita, em seu devir inacabado, também rememorado e retecido. Uma aula de história, arte e política.

O tema desse devir maturado é o Museu de Solidariedade Salvador Allende – que  nascido político teve fases significativas de suas obras.

Antes do golpe militar no Chile, o Museu foi pensado entre 1971-72, por Salvador Allende e contou com participação, entre outros, do crítico de arte brasileiro Mario Pedrosa.

Durante a ditadura militar do Chile, iniciada em 11 de setembro de 1973, as obras doadas tinham o intuito de reafirmamento/reconhecimento da luta externa contra Augusto Pinochet e por solidariedade ao Chile livre. Mesmo sob repressão, o Museu Salvador Allende resistiu.

Quando o Chile resgatou a sua democracia o Museu foi revitalizado por intermédio da Fundação Salvador Allende e com a participação do artista e curador brasileiro Emanoel Araújo.

Para selar a parceria Chile-Brasil, reconhecida desde o início do projeto do Museu, além de Mario PedrosaEmanoel Araújo, também estiveram presentes Gontran Guanaes Netto, Antonio Henrique Amaral, Lygia Clak e inúmeros artistas de outras nacionalidades.

Emanoel Araújo assinou a mostra itinerante de cento e trinta obras selecionadas das duas mil obras do Museu Salvador Allende, denominada: Estéticas, sonhos e Utopias dos Artistas do Mundo pela Liberdade que ocorreu na Galeria de Arte do SESI de São Paulo de março a junho de 2007.

Um ano antes da exposição recebi um e-mail para avaliação da obra doada por Gontran Guanaes Netto, de 1973[1]. Contudo, o mais importante a saber sobre a obra – depois de ter conversado com o artista Gontran Netto foi que a obra designada no e-mail estava `sem título´. E que a obra chama-se La Prière (A Oração)

Gontran Guanaes Netto, La Prière, 1973, acrilico s/ tela 97 x 130 cm.

Gontran Guanaes Netto (1933-2017), La Prière, 1973, acrilico s/ tela 97 x 130 cm.

Dado o nome à obra comparecemos Gontran Netto e eu à abertura da exposição: Estéticas, sonhos e Utopias dos Artistas do Mundo pela Liberdade.

No mais, deixo o manifesto de Gontran Guanaes Netto e as considerações finais:

“Foi com surpresa que recebi o convite para a inauguração do Museu Solidariedade Salvador Allende. Julguei como certo que minha obra não estaria inclusa neste Novo Museu. A surpresa maior foi ver o meu quadro com a designação “obra sem título” – o que tirou o significado irônico da obra: Nixon (Estados Unidos) e Pompidou (França), presidentes de duas potências durante a guerra na República do Vietnã (1959-1975, Vietnã X EUA)

A obra chama-se La Prière (A Oração). Tema escolhido para ironizar a atitude de ambos diante da história; ambos implicados na guerra do Vietnã. Preocupado revirei papéis antigos e a dar voltas com à minha consciência.

Seria válido estar presente em uma exposição no coração do sistema e movido ao preço de um equívoco histórico, e sendo eu testemunha – vivido com ardor e entusiasmo – participando e assinando documentos que contrariam a atual apresentação do Museu?

O golpe do Chile consternou a Europa e, especialmente, a França que naquela época se preocupava com as perspectivas democráticas via eleições. As tendências de denúncia e resistência eram intensas.

Participei da exposição Viva Chile, na galeria Dragão, em Paris; com a venda dos quadros doados angariou-se fundos para retirar pessoas em situação de risco do Chile. Nós, os responsáveis pela iniciativa: Julio Cortázar, Le Parc, Cecília Ayala e eu, além da colaboração de Roberto Matta. No momento do golpe estávamos em Havana e assinamos o Manifesto Setembro 73, contra o golpe de Augusto Pinochet.

E fundamos a Brigada Internacional de Pintores Antifascistas quando recebemos o convite da Bienal de Veneza e apoiamos a greve de doqueiros venezianos que recusaram-se a carregar armamentos para o Chile de Pinochet. 

A Brigada era composta por quinze artistas de diversos países. Além de considerar-me partícipe com outros artistas da criação do Museu contra Apartheid, Museu da Palestina e Museu da Nicarágua. Isso não foi ou é utopia. Agora é história e memória.

Parte da obra coletiva do Grupo Denúncia: Gontran Guanaes Netto, Jose Gamarra, Julio Le Parc e Alejandro Marco a partir de relatos de Frei Tito Alencar, 2m x 2m, óleo s/ tela, início dos anos de 1970/ Exposição Sala Escura da Tortura

Só me resta dizer:

Arafat não pertencia a sua família, senão ao povo palestino.

Salvador Allende pertence ao seu povo e sua morte representou um inequívoco ato de Resistência.

Eu vejo os Museus atuais desodorizados, esterilizados e protegidos de manifestações.

Meu único patrimônio ainda é a minha consciência: Ancien combatant, jamais.”

Referências:

GUANAES NETTO, Gontran. Manifesto. Manuscrito,  Itapecerica da Serra, outubro de 2007.

MOLINA, Camila. Preciosidades que chegam do Chile: Mostra reúne parte do Museu Salvador Allende, formado por doações de artistas do mundo todo. Jornal O Estado de S. Paulo, 19 de março de 2007, Caderno 2, D-3

Filme: 11 de Setembro (11’09”01), 2002 (França). Direção: Youssef Chahine (segmento Egito) , Amos Gitai (segmento Israel) , Alejandro González-Iñárritu (segmento México) , Shohei Imamura (segmento Japão) , Claude Lelouch (segmento França) , Ken Loach (segmento Reino Unido) , Samira Makhmalbaf (segmento Irã) , Mira Nair (segmento Índia), Idrissa Ouedraogo (segmento Burkina-Faso) , Sean Penn (segmento Estados Unidos) , Danis Tanovic (segmento Bósnia-Herzegovina). Onze diretores e onze curtas sobre 11 de Setembro; o inglês Ken Loach assinou o curta sobre o 11 de setembro de 1973 do Chile.

Exposição: “Sala Escura da Tortura”. Coletivo sobre as torturas na América Latina. Museu do Ceará, Fortaleza, 2005. Curadoria Edna Prometheu. Exposta a primeira vez no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1973, seguindo para exposições na Itália, Suíça, Alemanha e Brasil.

Sobre Gontran Guanaes Netto, e imagens avulsas em outros textos do blog Tecituras.

Sobre obras brasileiras do Museu de Solidariedade Salvador Allende: Imprensa Oficial publica livro com obras brasileiras doadas para o Museu da Solidariedade Salvador Allende


[1] Paula Maturana, Coordinadora MSA – Museo de La Solidariedad Salvador Allende, em 26 de abril de 2006  – “Avaluo obra de Gontran Netto perteneciente al Museo de la Solidariedad Salvador Allende”

Série Paschoal Carlos Magno II: “Sol sôbre as palmeiras”

12 jul

Por Gisèle Miranda

 

Vou Paschoalando pelas ruas… Dom Quixote aparece sem auréolas, simplesmente como um ser humano, cuja justificação – é preciso dar-lhe alguma? – é de não ser unilateral, mas de alma que se renova com a fôrça universal de cada sonho. (MAGNO, P. C., 1969)

Paschoal ou Lúcio?

“Sol sôbre as palmeiras”(1962) foi o segundo livro de Paschoal Carlos Magno; é um romance histórico e autobiográfico com espacialidade delineada pelo morro de Santa Teresa ou morro Paula Matos, na época, bairro de ostracismo da cidade do Rio de Janeiro.

Lúcio – personagem central. Seu Chico, o pai, autodidata e criador do teatro da família Carlos Magno. Ele lia para os filhos e descrevia o que imaginava ter visto. Quando titubeava, no dia seguinte retornava ao assunto após pesquisas.

Dona Josefa, a mãe fervorosa em sua religiosidade que explicitava nos cômodos da casa imagens de santos católicos. No dia a dia, a compra fiado do pão, inadimplência dos alugueres, mas a cumplicidade junto ao marido à compra de muitos livros e, até: de Madona à Duse – sementes do Teatro Duse:

Seu pai é doido… substituir a Madona por um retrato de atriz… – Não o leve, mamãe… Veja: (Lúcio apontava à Duse) – tem um ar de Madona. E nessa noite Lúcio não se espantou de encontrar acesa a lamparina junto do retrato de Eleonora Duse-Checchi (1858-1924). Nessa noite e daí por diante. (MAGNO, 1922, p. 20-21)

Elenora Duse-Checchi, s/d

Em 1947, a atriz Henriette Morineau durante a famosa Concentração do Teatro do Estudante, sequenciou a crença do Teatro do Estudante celebrando e glorificando a madona Eleonora Duse: …com os olhos enevoados… abriu a bolsa e tirou uma nota que depositou no chão de veludo escuro do altar. (Jornal Correio da Manhã, 31 jul., 1947.)

Elenora Duse-Checchi, 1922

A atriz Eleonora Duse esteve no Brasil em 1885. A cidade do Rio de Janeiro foi a primeira de sua carreira internacional.  Mas o grande público da “prim´attrice assoluta” ainda não existia nos trópicos. Ressentida com poucas palmas, cadeiras vazias e, apesar das notas de jornais de alguns admiradores, deixou registrado:

um grande, grande teatro… murmúrios ininterruptos na platéia e nos camarotes, do princípio ao fim da peça… eles não conhecem de minha voz senão uma parte infinita e miserável, sem falar das dificuldades da língua (minha doce língua italiana, ao lado dêsse português tão rude, e do brasileiro ainda pior… (trecho da carta enviada por Duse à Mathilde Serao; carta publicada em A vida de Eleonora Duse, de Max Reinhardt)

Duse retornou ao Brasil em 1907. Desta vez, ovacionada pelo público, porém mais amargurada do que nunca. Sequer concedeu entrevistas, isolando-se até dos amigos, atitude que encolerizou Arthur de Azevedo:

Duse, a inacessível Duse, que fugindo a reportagem e aos Kodaks, torna-se quase um mito… neurastenia? aborrecimento?… vaidade? orgulho? ou desprêso de Deusa para com os míseros mortais?  (ABREU, 1958, p. 15)

Quem foi Eleonora Duse para Paschoal Carlos Magno? Não apenas a capacidade imensurável às interpretações, mas a figura imponente de mulher, sua trajetória de vida determinada pelo mambembe – em qualquer lugar e em qualquer hora. Princípio este que articulou as bases do Teatro do Estudante do Brasil, as Caravanas e Barcas da Cultura, Teatro Duse e Aldeia de Arcozelo.

Para Paschoal, as reações adversas de Duse no Brasil deveu-se a pressão de um momento pessoal desesperador – do falecimento do ator de sua companhia (e também seu amante esporádico) Arturo Giotte, acometido de febre amarela pouco depois de desembarcar no Brasil em sua primeira tournée. Além, é claro, da pouca receptividade do público brasileiro.

 

 

Referências

ABREU, Brício. Eleonora Duse no Rio de Janeiro (1885-1907). Rio de Janeiro: MEC, SNT, 1958.

MIRANDA (ou MADEIRA), G. Paschoal Carlos Magno (1906-1980): mosaico de um culturalista. São Paulo: 2000. Tese (doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP.

MAGNO, Orlanda Carlos. Pequena história do Teatro Duse. Rio de Janeiro: SNT, 1973.

MAGNO, Paschoal Carlos. Tempo que passa. Rio de Janeiro: s/ed., 1922.

_____________________. Sol sôbre as palmeiras. Rio de Janeiro Letras e Artes, 1962.

_____________________. Não acuso nem me perdôo: diário de Atenas. Rio de Janeiro: Record, 1969.

_____________________. Poemas do irremediável. Rio de Janeiro: Cátedra, 1972.

_____________________. Tudo valeu a pena. m.s, s.d.

REINHARDT, Max. A vida de Eleonora Duse. Rio de Janeiro Livraria José Olympio Editôra 1940.

Futebol arte e alienação: ginga ou assepsia?

22 jun

Por Lia Mirror,  Laila Lizmann & Gisèle Miranda

 

Um país tão permeado por desigualdades como o Brasil produziu um sem-número de artistas e atletas – acho interessante aproximá-los de origem pobre que encontram um modo de superar as adversidades sociais por meio e maneiras muito diferentes de expressão. Se a injustiça social não encontrou entre nós – ao menos até os anos 80 – uma resposta política efetiva, parece fora de questão que artisticamente nosso meio cultural seria muito menos rico sem a contribuição daqueles que teriam tudo para permanecer silenciosamente à margem.  (Rodrigo Naves. Na criação de Arthur Bispo do Rosário a palavra adquire novas realidades. In O Estado de S. Paulo. 2014)

 

Reminiscências da Copa de 2010

Por mais asséptico que o treinador tenha sido, a ginga de misturas mirabolantes fez do futebol do Brasil ser aquém! Ser arte! Arre, pedaladas de Robinho! Até Kaká, o bom moço religioso foi expulso em prol da guerrilha da Costa do Marfim. Os caras bateram no desespero. Mas não merece ser dito: – “Tá vendo, quem manda torcer pelos Africanos!”

Nelson Mandela, 2010

Nelson Mandela (Mvezo, África do Sul, 1918 – Joanesburgo, África do Sul, 2013) Foto divulgação, 2010.

Quem falou isso? Um infeliz. Prefiro milhões de vezes a porrada da Costa do Marfim que Materazzi implicando com Zinedine Zidane por questões étnicas na Copa de 2006. Daria mil cabeçadas nesse boçal Materazzi . A cabeçada de Zidane foi a cabeçada de milhões.

Mas, o infeliz continuou: “- você não entende nada de futebol.” Aquilo ficou engasgado. Apartheid de gênero?  Sei que me dói matar no peito como Luiz Fabiano fez, além do gol contra com a Costa do Marfim.

Esqueço que a invenção vem dos ingleses e vislumbro uma raiz que resplandece da fome, da mestiçagem, dos negros do Apartheid, do escravismo do último país a abolir a escravidão: o Brasil! 

Isso lembra a busca incessante do bode expiatório do Flamengo. Ou será o próprio Flamengo comandado por uma mulher? Se fez tem que pagar! Vagner Love saiu praticamente ileso e com elegância do complô/mídia. Acusado de ser negro (?), de ter saído de uma favela (?) e de ter reminiscências/essência do homem que é – do submundo. Padrinho de 500 crianças do morro (a força de expressão por ser maior)  e alvo de idolatria até “dos bandidos.”

Opa, mas favela só tem negros, pobres, drogas e armas!? Também trabalhadores, benfeitores que não esqueceram suas infâncias. Vagner Love e Adriano, por exemplo! Love saiu ileso pela boa oratória, mas o Imperador…  hum..  chutou o pau da barraca. O Imperador foi preterido pela assepsia da seleção, mas não pelo discernimento do bom brasileiro que sabe das misturas de nossa gente.

Mas querem saber o que mais chamou atenção até esse momento da Copa de 2010, apesar dos bons lances e da hipocrisia? A vocalista do “The Black Eyed Peas” (que fez a abertura da Copa) que em entrevista falou do seu maior desejo: conhecer o Brasil e ir a uma festa na favela. A jornalista fez aquela cara de… Ponto turístico? Será que a jornalista lembrou do Adriano ou do Vagner Love? Ou ainda, será que a entrevistada não teve tempo de perceber que estava no continente da maior favela do mundo? Maior número de fome, AIDS, pobreza, guerrilhas, violências…?

Meu ídolo no futebol arte ainda é Mané Garrincha que tinha as pernas tortas e vida tortuosa. E mais, pela parceria de arte e amor com Elza Soares, “a mulher do fim do mundo” que descia o seu morro com “a lata d´água na cabeça” ensaiando para nos dizer que “Deus é Mulher”.

Nos Direitos Humanos meu ídolo é Nelson Mandela que nunca abandonou os princípios básicos de humanidade apesar de toda a violência sofrida e longe de ser sanada.

Série Retecituras IV: Guerras (Parte II)

18 mar

Por Gisèle Miranda

Há pouco o indestrutível sionismo dos EUA admitiu, através de Hillary Clinton, que a culpa ocidental pelo antissemitismo esteja cegando o discernimento no conflito entre israelenses e palestinos. Que outrora as vítimas tornaram-se algozes, ou seja, os palestinos são, como dizia o intelectual Edward Said  “vítimas das vítimas”.

Pena que o palestino Edward Said (falecido em 2003 aos 67 anos) defensor do papel público do intelectual  não tenha ouvido que as “gerações de americanos cresceram pela propaganda de que os árabes são terroristas”,  e ponto!

Portanto, a ‘segregação’ de expropriados palestinos em 1948 (aproximadamente 750 mil), em 1967  transformou-se de fato, em apartheid, e que vigora aos olhos do mundo em 2017.

Marina Abramovic, Balkan Baroque, 1997

O cineasta israelense Amos Gitaï em seus esforços vem se opondo a omissão. Com Kedma, Amos Gitai venceu o prêmio da crítica na 26ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2002. Kedma é o nome do cargueiro que transportou, em 1948, os sobreviventes do Holocausto até a Palestina (alguns dias antes da criação do Estado de Israel).

Cabe destaque do personagem sobrevivente judeu, professor de história que quando pensou ter chegado à terra prometida, se viu cercado por soldados ingleses; ele fugiu em grupo e encontrou outros pequenos grupos e se viu novamente lutando para sobreviver, desta vez contra os ciganos e depois de árabes.

Na estrada de terra sobreviventes cruzam com sobreviventes inimigos e fogem uns dos outros, não mais com a força bruta, mas com a força da palavra. É a trégua obrigatória. Trégua também quando um velho Palestino ‘escreve’ pela palavra gritada e levanta o seu cajado pelo futuro de seus descendentes: a certeza de que seus filhos, seus netos, seus bisnetos jamais deixariam aquela terra que lhes pertence.

Volta a cena o professor de história. Ele está na sujeira, no vazio da fome, fugido dos nazistas alemães, dos ingleses, dos árabes, e na incerteza, ele grita, espuma a baba dos insanos, de quem já não entende nada. Ou seja, Gitaï em ´seu ato de coragem´ e na ´voz dissonante contra o consenso da guerra´.[2]

De lá para cá, Israel tornou-se uma potência nuclear e os palestinos com pedras e cajados, com bombas caseiras acopladas em seus próprios corpos: homens, mulheres, adolescentes, crianças continuam lutando por sua identidade – seu Estado de Direito.

São gerações que compartilhamos hoje, em frequências virtuais. Gerações de famílias, lastros territoriais, culturais; um vínculo globalizado que não pode ser ignorado.

São gerações que rebelam às nossas gerações e que vigoram no exercício do presente e recorrem, rememoram, reescrevem.

Marina Abramovic – Self portrait with skeleton, 2003


[1] Por Leon Cakoff, Jornal da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo/SP, 17/05/2002, n° 93.

(*) Referências complementares (Sobre a bibliografia dessa Série, V. parte I) :

SAID, Edward W. Cultura e política. Tradução Luiz Bernardo Pericás. São Paulo: Boitempo, 2003.

V. Tb. http://ning.it/9J4dqJ, por Luiz Felipe Alencastro.

Filmografia:

BALKAN Baroque (filme/ performance de Marina Abravovic). Direção Pierre Coulibeuf. França/Holanda: Regards Production, 1998. 61 min., color., son., leg. Português. DVD.

DIA DO PERDÃO, O (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2001, min., color., son., leg. português, VHS.

KEDMA (filme). Direção Amos Gitaï. Israel/França, 2002, 94 min., color., son., leg. português, VHS.

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